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O Meio-Irmão

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O Meio-Irmão

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Autor: Lars Saabye Christensen

Editora: Objetiva

Assunto: Romance

Traduzido por: Halvbroren

Páginas: 579

Ano de edição: 2005

Peso: 995 g

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Bom
Marcio Mafra
15/11/2005 às 22:04
Brasília - DF

A saga dos Nilsen é ambiciosa e envolvente. O Lars Christensen elaborou a história que tem uma cadência boa de ser lida, embora - por vezes - fique meio arrastada. O Barnum, apegadíssimo ao seu meio-irmão Fred, vai contando as suas aventuras, maldades, criancices, angústias, dúvidas e certezas que permeiam as excentricidades de sua família, focada em três mulheres notáveis, que inspiram seus roteiros para o cinema. Não é uma sensação literária, mas é um bom livro.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história de Barnum e Fred, meio-irmãos, muito unidos e criados por três mulheres: Vera, a mãe, Boletta a avó e Velha a bisavó. Uma saga que se passa em Oslo, capital da Noruega, na década de 60.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Tomei banho até acabar toda a água quente, deixei a calcinha no armário, esfreguei desodorante por metade do corpo e quando me postei diante do espelho na entrada, nas calças velhas do Fred, blazer e os sapatos de Oscar Mathisen, e era estranho que um campeão mundial de patinação no gelo usasse sapatos tão pequenos, a mamãe veio e colocou-se atrás de mim e começou a pentear o meu cabelo com passadas lentas, quase preguiçosas. Fitamo-nos pelo espelho. Ouvi papai dormindo no sofá da sala de jantar, roncando feito uma roda. Boletta já havia saído para ir ao Pólo Norte, onde brindaria a mim com cerveja escura, e Fred estava vagueando entre os postes de luz. Mamãe sorriu com seu jeito ansioso. "Você está lindo, Barnum?" "Estou?" "Tão lindo quanto possível." "Sim, tão lindo quanto possível", repeti, e ocorreu-me que essa era uma frase solitária, tão lindo quanto possível melhor não poderia ficar, tinha atingido o meu ápice, que ficava abaixo do da maioria. Mamãe enfiou o pente no meu bolso e aproximouse do meu ouvido. "O que você falou sobre o Fred na loja do Plesner, Barnum?" "Nada." "Falou sim. Ela perguntou como seu irmão estava." Refleti. Lembrei-me das instruções de Fred, que eu era invertido, que eu tinha que ser uma pessoa contrária. Eu menti, mas poderia ter sido verdade. "Eu só disse que ele nasceu numa droga de um táxi. Mas que não é para ter pena dele." Mamãe me soltou. O Fred teria gostado disso. Eu logo estaria em forma de novo. "O que é que você está dizendo?", sussurrou mamãe. "Que ele foi batizado por um droga de um motorista de táxi. Acha que eu não sei? Que é por isso que ele é doido do jeito que é!" Mamãe me deu um tapa, com a mão espalmada, no rosto e imediatamente passou os dedos com cuidado pelo colarinho, como se os dois movimentos fossem o mesmo, o tapa e o carinho, o carinho como um prolongamento do tapa, e vi que o relógio atrás dela havia parado, porque fazia tempo que ninguém punha dinheiro na gaveta, e os ponteiros pendiam para as cinco e meia como duas asas finas, mortas. Papai se levantou lentamente do sofá da sala de jantar, a gordura saltava por entre os botões da camisa, e ele mal conseguia se sentar, a barriga atrapalhava sempre, qualquer que fosse a sua posição. Ele ergueu o braço e acenou, como se eu fosse embarcar no Bergensfjord e descascar batatas enquanto navegava até a América e sumisse por lá de vez. Se ainda fosse assim! "Boa sorte, Barnum", disse o papai. "E dê minhas lembranças às meninas!" Nem sonhar, porra, seu gordo besta, gritei, sem emitir um som. Então mamãe beijou a bochecha em que ela acabara de bater, e me mandou para fora. E, enquanto descia a Kirkeveien, fiquei pensando o quanto é possível andar lentamente antes de parar por completo. Considerando que a luz das estrelas que se apagaram havia cerca de oito milhões de anos ainda não tinha chegado até nós, devia ser possível levar algumas semanas até chegar à escola de dança. Pensei entrever o Fred sentado à sombra da escadaria da igreja, com uma brasa entre os lábios e a escuridão reluzente nos olhos. Parei e ergui a mão, não sei se ele podia me ver, mas talvez estivesse lá sorrindo, porque não é impossível que ele já tivesse ouvido os boatos sobre todas as coisas ao contrário que eu havia feito ao longo deste dia. Até Deus eu havia irritado. Fiquei tão animado com esses pensamentos que acabei correndo adiante, para não chegar tarde demais para ser expulso da escola de dança, mas, quando fui atravessar a praça Riddevold, fui agarrado pelas calças logo atrás da estátua de Welhaven, jogado em cima da folhagem, e lá estavam Preben, Aslak e Hamster, me cercando. "Só vamos ver o que você tem debaixo das calças, seu toco!" Esmurrei, mas atingi apenas o vazio do ar. Riram ainda mais. "Que pena que seu irmão não está aqui agora, não é mesmo?" "Não vai gritar e chamar seu irmão, hein? Ou ele já foi preso?" Arrancaram as calças de Fred. Ficaram desapontados. Não acharam uma calcinha com rendas nas bordas, apenas uma sunga branca, com uma abertura para a pica e tudo o mais. "Passou em casa e trocou a calcinha de pum?", perguntou Hamster. "Não sei do que vocês estão falando", disse. Começaram a me chutar, de leve, mas sem muita animação, se contentaram com algumas pontadas na barriga, e foi o melhor que poderia ter acontecido. Agora dava para dizer que todos que acreditavam que eu andava de calcinha tinham tido uma ilusão de ótica, hipnotizados pela substituta Piolho. Quem sabe me bateriam tanto que eu teria de ir até o pronto-socorro, sem condições de dançar no futuro previsível. "Obrigado, seus bostas", disse eu, e vesti a calça. Preben, Aslak e Hamster se entreolharam, balançaram a cabeça, enterraram-me dentro da folhagem e desapareceram na direção do parque Urra. Fiquei um tempinho deitado, pensando. O mundo era um lugar estranho. Uma coisa sempre leva à outra, mas nada se liga com nada. Explique a diferença entre um músculo voluntário e um músculo involuntário. Músculos voluntários: os que estão presos ao esqueleto. Músculos involuntários: trabalham independentemente de nossa vontade. Então o coração deve ser um músculo involuntário, enquanto as mãos e os pés são voluntários, embora façam coisas que não tinham sido planejadas. Levantei-me de minha tumba molhada, esvaziei os bolsos das folhas e das minhocas, e segui pelo caminho até a escola de dança de Svae. O ar do elevador estava tão carregado de perfume e creme de cabelo que mal conseguia passar de um andar para outro. Fiquei de costas para o espelho e prendi a respiração. No vestiário, os sobretudos e as jaquetas estavam pendurados enfileirados. Alguns tinham vindo de galochas. Ouvi uma voz seca vindo de outro ambiente, mas não consegui pegar as palavras. Troquei-me e entrei de fininho. Mas ninguém entra despercebido na sala da primeira noite do curso de dança. Svae estava junto de uma mesa com uma vitrola e interrompeu sua fala assim que me viu, o que foi de imediato. Ela não parecia um violino, se assemelhava mais a um mastro embrulhado em um lençol preto. Os meninos estavam sentados em cadeiras duras dispostas ao longo de uma das paredes, como prisioneiros condenados à morte, e as meninas estavam sentadas ao longo da parede oposta, rostos solitários e maquiados, como retratos a óleo no espelho atrás delas, e ninguém se entreolhava, porque todos olhavam na minha direção. "Muito bem", disse Svae, em voz alta. "Eis aqui o último. E como você se chama?" Não havia um único rosto conhecido. Cumprimentei. "Nilsen", disse eu. E passou uma onda de riso de cadeira em cadeira, que cessou bruscamente quando Svae ergueu o braço. "Sente-se", disse ela. "E que seja essa a última vez que você chega atrasado, Nilsen." Já estava quase gostando dela. Ela não perguntou por meu prenome. Ela me chamava de Nilsen. "Tudo bem, Svae", disse eu, e sentei-me na cadeira vazia, junto da saída. Svae inspirou fundo e postou-se no meio do assoalho, entre nós. Era evidente que ela sabia fazer discurso, e que era capaz de falar por quanto tempo quisesse. "Na sociedade refinada", disse ela, "a dança é a expressão de um estado de espírito festivo, alegre, uma forma de socialização, na qual principalmente a juventude se encontra. A dança anima a alma, fortalece o corpo e confere ao dançarino um bom equilíbrio, um belo porte e um excelente domínio sobre os membros." Svae passou lentamente pelas meninas, enquanto os meninos permaneciam sentados com a cabeça baixa, e ninguém tinha coragem de erguer os olhos, pois quem começasse a rir agora estaria acabado na escola de dança de Svae, isso era certo. Fiquei pensando se deveria rir alto e acabar logo com tudo, de uma vez, mas antes de chegar a me decidir, Svae virouse bruscamente na nossa direção, com o indicador em riste como um gancho torto em que poderia pendurar as nossas carcaças, como se já tivesse ouvido o riso antes que saísse pela boca. Ela falava muito alto. "Mas na natureza atraente da dança residem também os perigos da dança! E penso aqui no exagero! Por isso, lembrem-se do seguinte: um baile deve começar e terminar com danças suaves. Devem sempre esperar uma hora depois de comerem antes de começar a dançar. Depois de uma dança mais forte, deve-se andar um pouco até o coração voltar a bater normalmente e a atividade epidérmica cessar. E, se você ficou com o corpo quente da dança, não fique junto a uma janela nem se exponha a uma corrente de ar; coloque um agasalho leve sobre os ombros, especialmente se a roupa for decotada." Nesse instante, ela voltou a dirigir o olhar para as meninas e inspecionou os vestidos. Algumas tentaram esconder os ombros desnudos, que de repente ficaram magros e transparentes, como asinhas pontiagudas. Nunca havia imaginado que dançar pudesse ser tão perigoso. Bolena nunca havia dito nada disso. Mas Svae não parou por aí. "É melhor usar vestidos de tecido leve que não apertem muito em volta do pescoço, mas não é isento de riscos, repito, não é isento de riscos usar vestidos com decotes tão grandes quanto infelizmente tornou-se comum usar hoje em dia." Svae fez alguns segundos de silêncio, deixando as palavras penetrarem. Penetraram, as meninas tremeram, e Svae postou-se no meio da sala. "Deixem-me dizer logo, com toda a ênfase possível, que quanto mais se dança noite adentro, mais se reduzem os ganhos, e chega-se a um limite, um limite fatídico, em que a dança se torna seu contrário e passa a ser danosa." A maioria dos alunos estava à beira de um ataque de nervos. Svae bateu as mãos. Parecia com duas lajes de pedra sendo fechadas. "Mas tudo isso vocês já sabem! E agora os meninos devem se levantar e, com calma e dignidade, encontrar uma parceira. A seguir, vamos começar com as posições mais simples. Por favor!" Era agora que ia ter início a batalha. Essa era a hora da verdade, e, nesse momento tenebroso fez-se um profundo silêncio, as meninas fitando o assoalho, os meninos em posição de disparada, congelados em ansiedade e suor, e o frio súbito do sonho. O mundo fez-se esperar. Juntei todos os meus pensamentos, todas as minhas forças, para o gesto contrário final e decisivo. Então os meninos se levantaram e saíram em disparada. Alguns haviam se fixado na mesma menina, e essas meninas, as mais bonitas, as mais elegantes, aproveitaram cada segundo da luta, sorriam quando havia ameaça de empurrões diante de suas cadeiras, mas Svae interveio sem dó antes que descambasse. Logo a maioria havia encontrado seu parceiro. Havia mais meninas do que meninos, e as que ficaram sentadas, solitárias e abandonadas, as menos bonitas, as feias, as gordas e bobas, abaixaram ainda mais a cabeça, de vergonha e de desespero, e apertavam os vestidos rente ao corpo, como se isso pudesse ajudar, não, nada poderia ajudá-las agora, elas eram feridas abertas, elas eram enfeites de parede inanimados, as primeiras que tombaram na batalha sangrenta da escola de dança. E eu me reconheci na situação. Foi então que percebi um rapaz que se deslocava lentamente entre os casais, a caminho de uma das meninas que haviam sobrado. Ele parecia bastante decidido no andar, mas algo preguiçoso, talvez porque fosse gordo e meio que se arrastava pelo assoalho, sem se dar ao trabalho de erguer os pés. O blazer estava amarrotado e ele tinha o cabelo partido ao meio. E a menina para a qual se dirigia aprumou-se, e vi que ela era bonitinha, de uma beleza delicada, quase quebradiça, ou talvez seja assim que eu a vejo agora, com as lembranças já envelhecidas, o enfeite de parede incompreendido que ergue o olhar e nos vê a ambos, o menino parado diante dela e eu que me aproximo. Mas não era a ela que eu pretendia tirar. Em vez disso, tirei aquele que estava a ponto de cumprimentar a menina, e o rapaz lento e rechonchudo virou-se espantado para mim e cerrou o olhar. "O quê?", sussurrou. "Vamos dançar?", repeti, segurei-o pela cintura e conduzi-o para o meio do salão. "Me solte", gritou. Mas eu não o soltei. Segurei firme e dei alguns passos. "Me solte, seu anão asqueroso!" Ele gritou. A menina junto da parede havia se levantado. E, de repente, fez-se novamente um silêncio completo, e todos olharam na nossa direção. Foi então que coroei minha obra invertida, minha obra-prima avessa. Levantei-me na ponta dos pés e beijei-o no rosto. Ele me socou o olho. E, no mesmo momento, senti o gancho de Svae na nuca e sua voz que era como um prego perfurando o ouvido. "Desapareça! Desapareça de meu salão de dança e nunca mais volte!" Foi assim que conheci Peder. Foi assim que conheci Vivian. Foi assim que nos conhecemos.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Minha mãe, Eli, me presenteou este livro, no dia de meu aniversário de 2005.


 

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