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Vida e Morte do Bandeirante

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Vida e Morte do Bandeirante

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Autor: Alcântara Machado

Editora: Nova Aguilar

Assunto: História

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 1368

Ano de edição: 2000

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Ótimo
Marcio Mafra
12/07/2005 às 14:44
Brasília - DF

Vida e Morte do Bandeirante, livro de 180 páginas, contidas no volume 1,da coleção Intérpretes do Brasil.


Da 1.177 até 1.359


Alcântara Machado é autor da expressão "paulista quatrocentão" utilizada até os dias atuais para definir as famílias pertencentes à elite - econômica e social - de São Paulo, em contraposição ao "novo rico" ou "rico emergente". Ao término de seu discurso de posse, na Academia Brasileira de Letras, onde ingressara em 1931 Alcântara Machado a fez a afirmação: "Paulista sou, há quatrocentos anos...". A povoação no sul do Brasil iniciou-se pela capitania de São Vicente. Mas os seus habitantes logo constataram que as condições agrícolas do litoral não favoreceriam à colonização. Plantaram cana-de-açúcar mas perceberam que seus engenhos não competiam com os do nordeste. Diferentemente do litoral, as terras do interior, favoreciam a expansão agrícola, tanto pelo clima, como pela vegetação, e pelas muitas aldeias indígenas existentes na região. Neste ponto surge a real história da elite agrária de S.Paulo, que explorou e escravizou os índios, através dos bandeirantes, que eram homens rudes, sem nenhuma nobreza de gestos, educação ou origem familiar. "Vida e morte do Bandeirante" narra a vida dos bandeirantes pobres e rudes, que se dedicavam à agricultura de subsistência e à captura de índios pelo interior lista as razões que os levaram à caça dos indígenas. Este é um livro que todo paulista, mineiro e goiano precisam ler.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Utilizando-se de inventários e testamentos, Alcântara Machado constata que os bandeirantes não eram nobres nem ricos comerciantes, senão modestos lavradores, pequenos mercadores e aventureiros rústicos. "Vida e morte do Bandeirante" narra a vida deles, que se dedicavam à agricultura de subsistência e à captura de índios pelo interior e tenta esclarecer os motivos que os levaram à caça dos indígenas.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Não existe hoje em dia quem leve a tais extremos a ousadia... Mas, na época dos inventários em estudo, é grande a carestia de noivas aceitáveis. Está na memória de todos aquela famosa passagem da carta de Manuel da Nóbrega ao padre mestre Simão: "Parece-me coisa mui conveniente mandar Sua Alteza algumas mulheres que lá têm pouco remédio de casamento a estas. partes, ainda que fossem erradas, pois casarão todas mui bem..." Se, erradas, encontram quem as despose, imagine-se a cotação das intemeratas e bem dotadas. O dote ou casamento, como lhe chamam também os documentos do tempo, é obrigação a que não se furtam os pais da nubente. O casamenteiro, ou marido, recebe geralmente peças da Guiné ou do gentio do Brasil, instrumentos de lavoura e cabeças de gado; e ainda o enxoval da noiva, em que figuram quase sempre o anel e as arrecadas de ouro, as botinas e chapins de Valença, o vestido nupcial para ir à porta da igreja, o vestido de gala, vasquinha, gibão e seu manto para as festas da vila; e mais o mobiliário e a limpeza da casa, que vem a ser cama e mais roupa. Na limpeza, a par da mesa de engonços, do estanho e da cama preparada, lá aparece de vez em quando um prosaico espeto de seis palmos. A tudo isso acrescentam os abastados uma casa em S. Paulo, ou um pedaço de chão para que possa fazer casas para viver na vila; outros, um sítio na roça ou o adjutório para fabricar sítio e casa para si, e Manuel João Branco a metade de uma nau. O dote mais importante que registram os inventários é o da mulher do capitão Antônio do Canto: além de quarenta e quatro almas de gentio, 718$000 em bens móveis, semoventes e de raiz. Mas, de todos esses róis de casamento, o mais curioso é sem dúvida o redigido por Garcia Rodrigues Velho, em que nomeia entre os bens que pode dar à filha casadoura, "primeiramente ela, dois vestidos de seda, um de veludo, outro de chamalote" . Cede à falta de mulheres brancas a prevenção reinante contra as segundas núpcias. Embora o novo casamento importe na perda do direito à terça, deixada pelo defunto coma condição si in viduitate permanserit, e acarrete por lei a privação da posse e administração dos filhos do primeiro leito, a viúva se deixa vencer facilmente pela tentação: casa-se logo com segundo marido, que passa a chamar-se, na linguagem do foro, sucessor do defunto. Da desconfiança que inspiram padrastos e madrastas (madrasta, nem de pasta), sobejam testemunhos indiretos. Aqui é alguém que declara ter ensinado o órfão como filho, e não como enteado; ali, o testador que pede ao filho não se aparte da madrasta, nem a trate mal e, antes, como homem de bem, a ajude a sustentar seus irmãos. O juiz está sempre de sobreaviso: quando lhe consta que a mãe e padrasto tratam a órfã como não devem, pondo-a em contingência de fazer algum desaforo, mandam entregá-la peremptoriamente, sem delonga, a outra pessoa da família. As famílias da aristocracia colonial são muito orgulhosas da limpeza do sangue que lhes corre nas veias. Dizendo-se doutrinados e ensinados em todos os bons costumes e foro de nobreza, promovem, os de maior prosápia, justificações de nobilitate probanda, bem características do espírito do tempo. Na do padre João Leite da Silva (1681), por exemplo, declaram as testemunhas que os antepassados do suplicante, pessoas nobres e fidalgas, como tais viveram sempre à lei da nobreza, sendo MS principais da terra e governo dela, limpos de geração, sem nunca nela se achar raça de mouro ou judeu ou outra má casta ou seita ou outra infestação, tidos e havidos e conhecidos por cristãos velhos, sem jaça nem mácula nenhuma. Só mais tarde, como se vê da justificação requerida em 1741 pelo Dr. Pedro Dias Pais Leme, passa o mulato a figurar entre a gente de infecta nação, a par do mouro, do judeu e do cristão novo. Por isso mesmo e porque são poucas as pessoas dessa limpeza e qualidade, os casamentos se fazem num círculo muito limitado, e as famílias andam em S. Paulo tão travadas umas com as outras que abundam as uniões consangüíneas. Para obterem dispensa, os oradores recorrem à autoridade eclesiástica; e, esta, atendendo à eleição que a oradora faz da pessoa do orador para seu amparo e aumento da casa rica, que é a sua, concede a dispensa (como no caso de José de Morais e Ana Ribeiro de Almeida), contanto que os nubentes jejuem durante três dias a pão e água, rezem dez rosários pelas almas do fogo do purgatório, façam dizer por elas quarenta missas e dêem duzentos e quarenta mil réis de esmola para um ornamento da Matriz da vara de São Paulo, destinado à festa principal do mesmo santo. Aquele jejum a pão e água há de parecer muito duro aos primos da atualidade... Pensarão eles com certeza que só um grande amor seria capaz de levar a tamanho sacrifício os dois prometidos. A verdade, porém, é que os dois noivos em questão nunca se tinham visto, por razão da distância dos lugares em que viviam... Essa, a família legítima. Outra existe, quase sempre, a seu lado, contaminando-a. Repetem-se aqui, há trezentos anos, as práticas brutais dos guerreiros de Homero e de Moisés. Ceada em combate entre os despojos dos vencidos, a índia passa por direito de conquista a concubina do vencedor. Em sua origem, o concubinato doméstico é então, como sempre e em toda a parte, a apropriação conjugal das prisioneiras de guerra. Ao contrário do que seria de supor, são excepcionais os casamentos entre brancos e negras da terra. Dentre os inventariados só um existe casado com índia forra. Mas esse é evidentemente um mameluco: chama -se Francisco Ramalho Tamarutaca e vive na aldeia de Guanga. Ao lado da esposa que recebeu à porta da igreja, ou a olhos e à face da Santa Madre Igreja, na forma do Santo Condlio Tridentino e com quem faz vida marital de portas a dentro, como Deus manda, são poucos os que não têm no rebanho humilde das escravas algumas cunhãs para desafogo de seus instintos poligâmicos. Aliviado de escrúpulos e preconceitos que deixou na pátria distante, como bagagem incômoda, à hora da partida, com a sensualidade fustigada pelas solicitações da natureza tropical, pisando a terra da colônia como terra conquistada e consciente da sua superioridade sobre o íncola e o africano, o branco não encontra embaraços à atração que o impele para a índia robusta e faceira e para a negra impudente. Nem a ação da lei, num meio desgovernado em que a justiça é ilusória; nem o freio da opinião, num ambiente em que todos são culpados da mesma fraqueza; nem sequer o temor de Deus... Bem expressivas são as cartas dos jesuítas, impressionados com a soltura dos costumes eclesiásticos. Amancebados com as cativas melhores e de mais preço que acham, com achaque de terem quem os sirva, os clérigos e mais dignidades procuram escusar a abominação em que vivem, dizendo publicamente aos homens que lhes é lícito estar em pecado com suas negras, pois que são suas escravas. Fortes de exemplos e conselhos tais, os senhores conservam, não só uma concubina, mas muitas em casa, fazendo batizar muitas escravas sob pretexto de bom zelo e para se amancebarem com elas. Barruso (ou Barroso, mais provavelmente), morador em Bertioga, tem um verdadeiro serralho; e dentre as escravas seleciona as de maior formosura, para que o sirvam à mesa, inteiramente nuas. A dissolução dos costumes pela escravidão se faz sentir assim na colônia como na metrópole. Em toda a Espanha, para onde afluem manadas de africanos, a corrupção triunfa. Aqui a incontinência tem a força irresistível de uma necessidade histórica. Sem ela, a fusão das raças não seria possível ou se retardaria indefinidamente. É ela que precipita e enobrece a mestiçagem, fazendo prevalecer nos cruzamentos o sangue europeu. Os inventários da época ilustram de sobejo aquela página mordente, em que um escritor contemporâneo situa no latifúndio vicentista o campo de padreação humana da colônia, o laboratório incansável do mestiço. Os senhores, a parentela dos senhores, os agregados da família fazendeira são os reprodutores de escol, os padreadores ardentes da índia, os garanhões fogosos da negralhada. Este deixa seis filhos naturais. Aquele deixa treze, por não ser casado nunca. Antônio Pedroso de Barros parece ter perdido a conta dos que houve: ficam alguns bastardos, que não sei a verdade de quantos são meus. Certas ligações se travam e destravam ao impulso de um capricho passageiro. Outras, consolidadas pelo hábito, vêm de longe, nascidas no decurso daquelas expedições intermináveis que, durante anos e anos, apartam do lar doméstico o sertanista. Assim, ao lado e à sombra da família legítima, cresce a legião imensa dos bastardos. Poucos os inventários em que não aparecem. Porque (é preciso dizê-la, em abono dos homens de outrora): os pais se não esquecem dos filhos do pecado. A confissão é feita quase sempre com todas as minúcias, especificando os adulterinos e os naturais e nomeando a mãe da criatura. Tenho um filho adulterino feito em uma negra nova tabajara, diz Henrique Lobo. Houve uma filha, sendo casado, de uma índia (...) e, sendo solteiro, um filho natural, declara Manuel Sardinha. Antes de casado com sua primeira mulher, houvera uma filha de uma índia da casa de seu pai, e, sendo viúvo, uma filha de uma negra de seu filho, confessa Matias de Oliveira. Tenho duas filhas bastardas e um filho havido de negra, sendo eu já casado, escreve Matias Lopes. Alguns se mostram seguros da paternidade: declaro que é meu filho e por talo tenho (...) tenho por meus filhos (...) declaro que é meu filho (...) acho em minha consciência ser meu filho. Muitos se refugiam na opinião pública: uma criança que dizem ser filho dele testador (...) que dizem ser seu filho (...) que dizem ser meus. Pascoal Monteiro leva o escrúpulo a este ponto: libertei um moço da casa de Domingos Dias pelo amor de Deus, só por me dizer o dito Domingos que era meu filho e ter ele essa presunção. Outros manifestam francamente a incerteza em que vacilam: em minha casa está uma bastarda, que a deram por minha filha, e eu não sei se é (...') uma moça a qual é filha de branco e ma davam por minha, em caso que o fora, não é minha herdeira por ser adulterina. Bem pitoresca é a maneira por que João da Costa, o velho, exprime as dúvidas que lhe assaltam o espírito: "F. diz que é meu filho; tudo pode ser; e seo for, ele dará mostras de si; sendo que seja meu, que já digo eu (...) incerto, mas pode ser, meus filhos o tratem como seu irmão e lhe dêem de vestir. " Mostram-se às vezes tão duvidosos, que, no fim do testamento, retratam a confissão lançada no começo. Assim, depois de ter declarado livres e forros dois meninos havidos de uma escrava, Brás Gonçalves reflete melhor, e diz em Deus e em sua consciência, que não é pai de um dos rapazes nomeados e o deixa por cativo. Em contraste com esses testadores vacilantes ou suspicazes, Antônio Pedroso de Barros patenteia a mais absoluta confiança nas índias de sua casa: ficam alguns bastardos (...) não sei a verdade de quantos são meus (...) será conforme as mães disserem. Tudo isso depõe em favor daquelas almas tão simples e direitas. Ainda quando contestam a paternidade, fazem-no de modo que os nobilita. À minha vinda, escreve um bandeirante em seu testamento do sertão, ficava uma negra de João Preto parida de uma menina e a mãe dizia ser minha e eu não a tenho por isso. Pois bem: malgrado essa convicção e por um escrúpulo demonstrativo de grande nobreza moral, deixa o remanescente da terça à rapariga que dizem ser sua filha, repetindo mais de uma vez que põe em dúvida o fato. Ao iniciar-se na vila o inventário, um interessado declara que a legatária é filha de negro, e pede que o juiz mande chamar a mãe da menor e faça com ela diligência. Interrogada, por intermédio do língua Antônio Pedroso de Alvarenga, a índia responde que a legatária não é filha de João Preto, nem de nenhum branco, e sim de um negro chamado Paulo. Não se contenta a justiça com a confissão materna. Três homens são juramentados, para que declarem em suas consciências se a mesma que presente está parece ser filha de branco ou negro. Os peritos respondem que a julgam filha de negro e não de branco. Só então o juiz se dá por convencido. Outra diligência da mesma natureza se realiza no inventário de Joana de Castilho. Deferido o juramento a Francisco Rodrigues Velho, para que ele fizesse prática e perguntas à mãe da criança, o intérprete certificou ter a negra declarado ser sua filha do dito Jorge Rodrigues, porque nela o fez e que nisso não havia dúvida. Então, como ainda hoje, só podia ser reconhecido e equiparado aos legítimos para o efeito da sucessão o filho simplesmente natural, soluto ex-soluta. Vários testadores demonstram saber que os adulterinos não podem nem devem herdar. Deixam-lhes pelo amor de Deus um pouco de dinheiro, uma dúzia de vacas, um vestido usado, ou, ainda, o que parecer melhor à viúva e lho merecer o bastardo. Outros se mostram incertos neste particular. Dizem, como Henrique da Cunha, com referência a um filho havido em solteiro: peço às justiças de Sua Majestade haver por bem tudo aquilo que elas ordenam, e com isto descarrego minha consciência o ser herdeiro na minha fazenda ou não. Ou, como Messias Rodrigues, quanto aos netos naturais: sendo de direito que herdem, herdarão a parte. Mais de um, revelando ignorar o que dispõe a lei, institui seu herdeiro o filho de cuja existência se acusa. Entre eles Garcia Velho. Nem sempre prevalece e o desejo do pai se realiza. O instituído é excluído por adulterino; ou, como nos inventários de Matias de Oliveira e Francisco de Proença, a exclusão se verifica, sem remédio de direito, porque a mãe é negra e o pai homem nobre e fidalgo, muito nobre pelo regimento desta vila, figurando entre os cidadãos e republicanos da governança do Senado da Câmara. Mas, em regra, o que o testador tem em mira é pôr o filho em sua liberdade, como forro, livre e isento que é, sem obrigação nenhuma a ninguém. Alguns não olvidam a cúmplice do pecado: deixo a dita negra forra e livre, bem como o meu filho. Um deles determina que a negra sirva e esteja em poder de seu filho, se nisso consentir a esposa. Brás Gonçalves estende a liberdade ao marido da concubina: mando que se não venda o marido da negra de que houve os dois filhos, nem sua mulher, porquanto, havendo terça, eu os forro. Assinale-se a cooperação constante da mulher legítima nesse e em outros casos semelhantes. Henrique da Cunha denuncia haver resgatado com dinheiro da mulher um filho havido em solteiro, filho que a dita mulher deixou forro à sua parte. João Leite alforria uma bastarda com o consentimento da mulher, a qual se assina nesta cédula de testamento como consente nisto. Martim Rodrigues acentua haver forrado de comunidade com a mulher dois bastardos que teve no sertão. Antônio Rodrigues comprou um filho, sendo criança, e tomando parecer com a mulher concedeu ficar ele forro, sem obrigação a ninguém. Domingos Barbosa pede à consorte que forre e ponha em sua liberdade um rapaz da casa de Clemente Álvares, cuja paternidade lhe atribuem. O testador chega ao extremo de solicitar da esposa um sacrifício que há de parecer às mulheres de hoje superior às forças humanas. Veja-se esta verba do testamento de Pascoal Neto: está em casa de Ascenso de Quadros uma índia pejada (...) nascendo a criança (...) peço à minha mulher a crie pelo amor de Deus. Diz por seu turno Manuel Sardinha: houve uma filha, sendo casado, de uma índia (...) a qual peço à minha mulher recolha em casa e trate como minha filha. Francisco Velho roga também à companheira que olhe por uma bastarda enquanto puder, fazendo ofício de mãe. Tanta é a grandeza de alma dessas matronas que, em mais de um caso, são elas que tomam espontaneamente a iniciativa de zelar pelos bastardos. Assim, Maria Pais: "e por se dizer a dita menina ser filha de seu primeiro marido João do Prado a deixava forra e liberta". E Maria Pompeu: "deixo à (...) filha bastarda de meu marido que em casa achei um vestido de tafetá, umas cabaças de ouro, uns ramais de corais". E Ana de Morais: "deixa mais a uma menina (...) filha bastarda de Francisco Velho (marido da testadora) uma saia nova (...) e um calçado (..) e um saio e duas vacas". E Isabel Fernandes: "um filho de meu marido (..) deixo a minha metade forra, e assim também na minha terça deixo a mãe dele a metade forra, com condição não saia da casa de meu marido". Embora com alguma desconfiança, o juiz entrega a curadoria do bastardo à viúva de Paulo de Torres: "debaixo da mesma curadoria fica o dito bastardo de seu marido, enquanto usar bem com ele como irmão de seus filhos, e, quando não use bem com ele, fica encarregado Pascoal Delgado para que lho tire". No inventário de Henrique Machado a menor é confiada a uma cunhada, para que a trate como filha do defunto, evitando-lhe alguns descaminhos, e lhe procure alguma pessoa livre que case com ela, e que não ande em trajes de negra. Um neto de Afonso Sardinha pede ao avô que "não permita que seu bisneto fique cativo". No silêncio do pai ou do cônjuge sobrevivente, são, de fato, os avós ou tios paternos que denunciam o parentesco, vindicam para o ilegítimo o estado de liberdade e lhe amparam o futuro; e não é em vão que os testadores apelam para os outros Filhos, pedindo que doutrinem os irmãos naturais e os ensinem aos bons costumes, fazendo-os rezar. Isento e livre, o mestiço não se desata do núcleo social em que nasceu, do clã fazendeiro. Continua a receber o ensino necessário, assistindo em casa como familiar, na expressão de Filipe de Campos e Antônio Castanho da Silva. Avoluma a classe dos agregados, que constituem o séqüito do grande senhor territorial. É o mameluco. É o companheiro das jornadas sertanejas. É o capanga destemido, sempre disposto a dar a própria vida ou a tirar a alheia, a mando do potentado em arcos a que está ligado pela gratidão, pelo interesse e também, amiúde, pelo sangue. Não o renegam os outros membros da família. Aceitam-no, porque têm a consciência mais ou menos clara de que se trata de um elemento inferior, mas necessário, do organismo de que fazem parte.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Judith e Marco Aurélio Cerqueira, me presentearam no aniversário de 2004, com a coleção de história, Intérpretes do Brasil, em três bem nutridos volumes.


 

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