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Jogo Perigoso

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Jogo Perigoso

Livro Bom - 2 comentários

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Autor: Stephen King

Editora: Objetiva

Assunto: Suspense

Traduzido por: Lia Wyler

Páginas: 320

Ano de edição:

Peso: 395 g

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Excelente
DIOGO F ROCHA
26/03/2016 às 17:30
Rio de Janeiro - RJ
Um excelente thriller psicológico como só King sabe fazer. O livro faz par com Eclipse Total, ambos exploram os efeitos devastadores de eventos violentos que aconteceram durante um eclipse. Não seguem a linha tradicional das histórias de terror e suspense do autor, mas valem muito a pena serem lidos. Recomendados para fãs ou novos leitores.

Ruim
Marcio Mafra
04/09/2005 às 10:52
Brasília - DF

Stephen King é um conhecidíssimo autor de histórias de horror r terror. Os autores desse tipo de história - indissoluvelmente ligado ao do suspense - fazem muito sucesso porque os temas de seus livros são transformados em filmes. Depois que viram filmes o sucesso se amplia e repercute em virtude de sua enorme divulgação. O mestre dos mestres neste gênero foi o inglês Alfred Hitchcock . Ele nasceu em 1899 e morreu em 1980. Portanto, ainda alcançou o tempo do cinema mudo, onde fez grande sucesso, assim como o fez, muito mais marcadamente, com o advento do cinema sonoro. Hitchcock fez escola. Está aí o Stephen King para confirmar. Jogo Perigoso é uma história tola e pobre de Jessie, que se deixa algemar à cabeceira da cama para fazer sexo com seu marido Gerald, num jogo de sodomasoquismo, Gerald era um completo idiota, que escorrega ou vira uma cambalhota, cai da cama e morre. Daí, entra no quarto um cachorro faminto e começa a comer pedaços do idiota-marido-defunto. Não há dúvida que Stephen King seguiu os passos do Hitchcock e se transformou num autor esperto e rico, mas Jogo Perigoso é uma bela porcaria.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Um jogo de sexo é o inicio de uma noite de horror de Jessie, que é algemada à cama por Gerald, no que hoje é denominado sodomasoquismo.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Cuidadosamente ela repôs o copo na prateleira, cuidando para não deixá-lo em balanço fora da borda. Tinha agora a sensação de que sua língua se transformara numa lixa nº. 5 e a garganta chegava a parecer infeccionada de tanta sede. Lembrou-lhe o que sentira no outono em que completara dez anos, quando uma combinação de gripe e bronquite a impedira de freqüentar a escola um mês e meio. Tinha havido longas noites durante aquele cerco em que despertava de pesadelos confusos e destemperados de que não recordava muito bem (recorda, sim, Jessie, você sonhava com aquele vidro esfumaçado; você sonhava com o sol desaparecendo; você sonhava com o cheiro choco e acre de minerais em água de poço; você sonhava com as mãos dele) empapada de suor, mas demasiado fraca para esticar o braço e apanhar a jarra d'água na mesa - de cabeceira. Lembrava de ficar deitada ali, molhada, pegajosa, recendendo à febre por fora, ressequida e assombrada de fantasmas por dentro; deitada ali, refletia que sua verdadeira doença não era bronquite, mas sede. Agora, tantos anos depois, se sentia exatamente igual. Sua mente continuava a querer voltar ao momento terrível em que percebeu que seria incapaz de vencer os últimos centimetrinhos entre o copo e a boca. Continuava a ver as bolhinhas de ar no gelo que se derretia, continuava a sentir o leve aroma de minerais depositados no lençol de água muito abaixo do lago. Essas imagens a atormentavam como uma coceira inatingível entre as omoplatas. Ainda assim, forçou-se a esperar. Sua parte Esposinha Perfeita disse que ela precisava dar um tempo, apesar das imagens de tormento e do latejo da garganta. Precisava esperar o coração desacelerar, os músculos pararem de tremer, as emoções se amainarem. Lá fora, a última réstia de cor desapareceu do ar; o mundo adquiriu um tom cinzento solene e melancólico. No lago, o mergulhão lançou seu grito estridente no crepúsculo noturno. - Feche essa matraca, Sr. Mergulhão - disse Jessie e riu. A risadinha tinha o som de uma dobradiça enferrujada. Muito bem, querida, disse a Esposa Perfeita. Acho que está na hora. Antes que escureça. Mas primeiro é bom secar as mãos novamente. Ela fechou as mãos em torno dos pilares da cama, desta vez esfregou-as para baixo e para cima até rangerem. Ergueu a mão direita e sacudiu-a diante dos olhos. Eles riam quando eu me sentava ao piano, pensou. Então, com muito cuidado, esticou a mão um pouco além do ponto em que se encontrava o copo na beirada da prateleira. Recomeçou a apalpar a madeira com os dedos. A algema retiniu contra o copo e ela gelou, esperando que ele virasse. Como isso não aconteceu, retomou a cautelosa exploração. Quase concluíra que o objeto que procurava escorregara pela prateleira - ou para fora dela - quando finalmente tocou na aresta do cartão-resposta. Pinçou-o com o indicador e o dedo médio da mão direita e, cuidadosamente, ergueu e puxou o cartão para afastá-lo da prateleira e do copo. Jessie usou o polegar para firmar o cartão na mão e examinou-o com curiosidade. Era roxo vivo, com cornetas e apitos enviesados na borda superior como se dançassem. Confetes e serpentinas desciam pelos dizeres. A News Week estava comemorando descontos muito especiais, anunciava o cartão, e convidava-o a participar da festa. Os redatores da News Week manteriam a leitora em dia com os acontecimentos mundiais, mostrariam os bastidores das lideranças mundiais e ofereceriam uma ampla cobertura dos esportes, artes e política. Embora o cartão não dissesse isso abertamente, insinuava que a Newsweek ajudaria Jessie a entender todo o universo. E o melhor era que aqueles simpáticos malucos do departamento de assinaturas da Newsweek ofereciam um negócio tão espantoso que era capaz de fazer sua urina fumegar e a cabeça explodir: se ela usasse aquele cartão para fazer uma assinatura por três anos da revista, receberia o exemplar por por menos da metade do preço das bancas! Problemas com o pagamento? Decididamente não! Pagaria depois. Quem sabe eles também têm um Serviço de Quarto Direto para senhoras algemadas, pensou Jessie. Talvez venha com um comentarista conservador ou outro merdinha pomposo qualquer para virar as páginas da revista para nós - sabe, as algemas atrapalham demais. Contudo, sob o sarcasmo, sentia uma espécie de singular assombro nervoso e, aparentemente, não conseguia parar de estudar o cartão roxo gênero vamos-dar-uma-festa, os espaços em branco para preencher com nome e endereço, e os quadradinhos com as siglas dos cartões de crédito. Passei a vida toda xingando esses cartões - particularmente quando preciso me abaixar para apanhar uma dessas porcarias ou me transformar em mais uma sujismunda - sem jamais desconfiar que a minha sanidade, e talvez até a minha vida, pudessem algum dia depender de um cartão desses. Sua vida? Será que isto era mesmo possível? Será que precisava realmente admitir uma idéia tão radical em seus cálculos? Com relutância, Jessie começava a acreditar que sim. Provavelmente ficaria ali por muito tempo até que alguém a encontrasse, e claro, era bem possível que a diferença entre a vida e a morte viesse a se resumir num único gole d'água. A idéia era surreal mas já não parecia obviamente ridícula. O mesmo que antes, querida - devagar se vai ao longe. Sei... mas quem teria acreditado que iam estabelecer a linha de chegada nesse fim de mundo? Movimentou-se devagar e com atenção, porém, e sentiu alívio em descobrir que manusear o cartão-resposta com uma mão não era tão difícil quanto receara. O que se devia, na realidade, às dimensões do cartão, 15 cm x 10 cm - quase o tamanho de duas cartas de baralho lado a lado - mas, principalmente, a não estar tentando fazer nada complicado com o cartão. Segurou o cartão no sentido do comprimento entre o indicador e o médio, depois usou o polegar para dobrar para baixo um centímetro e meio da borda. A dobra não ficou uniforme, mas ela achava que serviria, além do mais, não ia aparecer ninguém para avaliar o seu trabalho; a Hora de Trabalhos Manuais das Bandeirantes, nas noites de quinta-feira, na Primeira Igreja Metodista de Falmouth, era coisa do passado. Novamente pinçou com firmeza o cartão roxo entre os dedos e dobrou mais outro centímetro e meio. Gastou quase três minutos e sete dobras para chegar ao fim do cartão. Quando finalmente terminou, tinha na mão uma coisa que lembrava um baseado gigante toscamente enrolado em vistoso papel roxo. Ou se forçarmos um pouquinho a imaginação, um canudinho Jessie meteu-o na boca, tentando manter unidas com os dentes as dobras tortas. Quando conseguiu firmar o canudo o melhor que pôde, começou a apalpar de novo à procura do copo. Continue a ser cautelosa, Jessie. Não estrague tudo por impaciência! Obrigada pelo aviso. E também pela idéia. Foi maravilhosa falo com sinceridade. Mas, agora, gostaria ficasse calada um tempinho para eu tentar a sorte. Está bem? Quando as pontas de seus dedos tocaram a superfície lisa do copo, ela o envolveu com a delicadeza e a cautela de uma jovem amante escorregando a mão pela braguilha do namorado pela primeira vez. Agarrar o copo na nova posição foi uma questão relativamente simples. Girou o copo e ergueu-o o máximo que a corrente permitiu. As últimas lasquinhas de gelo tinham se derretido, observou; o tempus andara fugindo alegremente apesar da impressão de que estacara na altura em que o cachorro apareceu em sua vida. Mas não ia pensar no cachorro. Na verdade, ia fazer força para acreditar que nenhum cachorro estivera ali. Você é boa em fazer desacontecer as coisas, não é, bonequinha? Eh, Ruth - estou tentando me controlar e ao mesmo tempo controlar este maldito copo, caso não tenha reparado. Se uns joguinhos mentais me ajudam, não vejo qual é o problema. Cala a boca por um tempo, está bem? Dá um descanso à língua e me deixa cuidar da vida. Aparentemente, porém, Ruth não tinha a menor intenção de dar descanso à língua. Cala a boca! admirou-se. Puxa, como isso traz o passado de volta - é mais eficaz que um sucesso antigo dos Beach Boys tocando no rádio. Você sempre foi boa em mandar calar a boca, Jessie -lembra daquela noite no alojamento quando voltamos da sua primeira e última sessão de conscientização em Neuworth? Não quero me lembrar, Ruth. Tenho certeza de que não quer, porisso vou lembrar por nós duas, que tal? Você não parava de repetir que a moça com cicatrizes no seios tinha lhe perturbado, só ela e nada mais, e quando tentei lhe recordar o que me contara na cozinha - que seu pai e você tinham ficado sozinhos na casa do lago Dark Score quando o sol desapareceu em 1963, e que ele fizera uma coisa a você - você me mandou calar a boca. Como não calei, você tentou me estapear. E como insisti, agarrou o casaco, saiu casa afora, e passou a noite em outro lugar - provavelmente na cabaninha pulguenta da Susie Timmel junto ao rio, aquela que costumávamos chamar de Susie's Lez Hotel. Até o fim da semana, você já encontrara umas garotas que alugavam um apartamento no centro da cidade e precisavam de mais uma companheira. Bum, num abrir e fechar de olhos... mas tenho que reconhecer que você sempre foi capaz de se mexer com rapidez quando se decide, ]Jess. E como disse, sempre foi boa em mandar calar a boca. Cal... Está vendo? Que foi que eu disse? Me deixe em paz! Também conheço essa muito bem. Sabe o que foi que mais me magoou, ]essie? Não foi o problema da confiança - eu sabia, mesmo à época, que não era nada pessoal, que você achava que não podia confiar a ninguém, nem mesmo a você, a história do que acontecera naquele dia. O que me magoou foi saber que chegara tão perto de desembuchar tudo, ali na cozinha da casa paroquial de Neuworth. Estávamos sentadas com as costas apoiadas na porta, abraçadas uma à outra e você começou a falar. Você disse: - Eu jamais poderia contar, aquilo teria matado minha mãe, e mesmo se não matasse, ela o teria largado e eu o amava. Nós todos o amávamos, todos precisávamos dele, teriam posto a culpa em mim, e ele de fato não tinha feito nada. Perguntei a você quem não tinha feito nada e você falou tão depressa que parecia que passara os últimos nove anos esperando que alguém lhe fizesse essa pergunta. - Meu pai - você falou. Estávamos no lago Dark Score no dia em que o sol desapareceu. Você teria me contado o resto - sei que teria - mas aquela vaca burra entrou e perguntou "Ela está bem?" Como se aquilo fosse cara de quem está bem, entende o que quero dizer? Nossa, às vezes não consigo acreditar na vastidão da burrice das pessoas. Devia haver uma lei obrigando as pessoas a tirarem uma carteira, ou pelo menos uma licença de aprendizagem, antes de poderem falar. Até passarem no Teste de Conversa, teriam que ficar mudas. Isto resolveria um bocado de problemas. Mas as coisas não são bem assim e tão logo o computador falante respondeu à Irmã Paula, você se fechou como uma ostra. Não houve maneira de fazer você se abrir outra vez, embora Deus seja testemunha do quanto eu tentei. Você devia ter me deixado em paz! Jessie respondeu. O copo d'água estava começando a sacudir em sua mão, e o arremedo de canudinho tremia entre os lábios. Você devia ter parado de bisbilhotar! Não era da sua conta! Às vezes os amigos não podem evitar se preocupar, Jessie, disse a voz interior, e expressava tanta bondade que Jessie não teve resposta. Pesquisei, sabe. Deduzi ao que deveria estar se referindo e pesquisei. Não me lembrava de um eclipse no início dos anos sessenta, mas naturalmente morava na Flórida na ocasião, e andava muito mais interessada em pesca submarina e no guarda-vidas Delray - tinha uma paixonite incrível por ele - do que por fenômenos astronômicos. Acho que quis me certificar de que a coisa toda não era uma fantasia maluca - talvez desencadeada pela moça com as horríveis queimaduras nos seios. Não era fantasia. Tinha havido um eclipse total do sol no estado de Maine, e sua casa de veraneio no lago Dark Score estaria situada bem na faixa de sombra. Julho de 1963. Só a menina e o papai, observando o eclipse. Você não me contou o que seu paizinho lhe fez, mas eu sabia duas coisas, Jessie: que ele era seu pai, o que era mau, e que você ia fazer onze anos, o limite entre a infância e a puberdade... e isso era ainda pior. Ruth, por favor pare. Você não poderia ter escolhido um momento pior para começar a escarafunchar toda essa velha... Mas Ruth não queria calar. A Ruth companheira de quarto de Jessie sempre estivera disposta a dizer o que pensava - até a última palavra - e a Ruth que agora era companheira de cabeça de Jessie aparentemente não mudara nada. Quando me dei conta, você estava morando fora do campus universitário com três Sorority Susies - princesas dos suéteres e blusas colantes, cada qual dona de uma coleção daquelas calcinhas bordadas com os dias da semana. Acho que por aquela época você tomou a decisão consciente de treinar para a equipe de Espanadoras e Enceradeiras Olímpicas. Você desaconteceu aquela noite na casa paroquial de NeuWorth, você desaconteceu as lágrimas, a mágoa e a raiva, você me desaconteceu. Ah, ainda nos víamos de vez em quando - dividíamos uma pizza ocasional e uma jarra de vinho em uma cantina - mas a nossa amizade realmente terminou, não foi? Quando chegou a hora de escolher entre mim e o que lhe aconteceu em julho de 1963, você escolheu o eclipse. O copo d' água tremia com mais força. - Por que agora, Ruth? - perguntou, inconsciente de que estava enunciando claramente aquelas palavras no quarto que escurecia. Por que agora, é o que eu gostaria de saber - uma vez que nesta encarnação você é realmente parte de mim, por que agora? Por que no momento exato em que menos posso me dar o luxo de me perturbar ou me distrair? A resposta mais óbvia a essa pergunta era também a menos convidativa: porque havia em seu íntimo uma inimiga, uma vaca triste e má que gostava que ela fosse daquele jeito algemada, dolorida, sedenta, apavorada e infeliz - perfeito. Que não queria ver o menor alívio nessa situação. Que se rebaixaria a qualquer coisa para garantir que nada mudasse. O eclipse total do sol durou pouco mais de um minuto naquele dia, Jessie... exceto em sua mente. Ali, o eclipse ainda não acabou, não é mesmo? Jessie fechou os olhos e concentrou todo o pensamento e a vontade em firmar o copo na mão. Agora falou mentalmente à voz de Ruth sem a menor inibição, como se de fato estivesse falando com outra pessoa e, não com uma parte de seu cérebro que inesperadamente decidira que aquela era a melhor hora para fazer um trabalhinho de conscientização, como diria Nora Callighan. Me deixe em paz, Ruth. Se ainda quiser discutir esse assunto, depois de eu tentar arranjar um gole d'água, tudo bem. Mas por ora, por favor, quer... - Calar essa matraca - terminou num murmúrio baixinho. - Está bem, Ruth respondeu imediatamente. Sei que há alguma coisa, ou alguém dentro de você, que tenta jogar terra nas engrenagens, e sei que às vezes usa a minha voz - é uma grande ventn1oqua, não há dúvida nenhuma - mas não sou eu. Amei você no passado e a amo agora. Por isso é que tentei prolongara nosso contato por tanto tempo...porque amava você. E, suponho, porque nós mulheres metidas a sebo temos que nos unir. Jessie com o arremedo de canudo na boca deu um sorrisinho, ou pelo menos tentou. Agora manda ver, Jessie, e sem vacilo. Jessie esperou um tempinho, mas nada mais aconteceu. Ruth se fora, pelo menos por ora. Reabriu os olhos, e, então, lentamente curvou a cabeça para a frente, o cilindro de cartão espetado na boca como a piteira do presidente Franklin Roosevelt. Por favor, meu Deus, estou te suplicando... faça isto dar certo. Seu arremedo de canudo mergulhou na água. Jessie fechou os olhos e chupou. Por um instante nada aconteceu, puro desespero invadiu sua mente. Então a água chegou à boca,fresca, doce e concreta, provocando nela um surpreendente êxtase. Teria soluçado de gratidão se a boca não estivesse tão contraída apertando a ponta do cartão de assinatura enrolado; nas circunstâncias, só conseguiu produzir um apito pelo nariz. Engoliu a água, sentindo-a molhar sua garganta como cetim líquido, e em seguida recomeçou a chupar. Chupou ardente e irrefletidamente como uma bezerra faminta mamando na teta da mãe. O canudinho estava muito longe da perfeição, canalizava apenas pequenos sorvos e filetes, ao invés de um fluxo contínuo, e a maior parte do que aspirava pelo canudo vazava, devido à vedação imperfeita e às dobras tortas. Em algum nível da consciência ela sabia disso, ouvia a água pingando na colcha como gotas de chuva, mas sua mente agradecida continuava a acreditar piamente que aquele canudo era uma das maiores invenções já idealizadas pela inteligência de uma mulher e que, neste momento, beber a água do copo do finado marido, era o apogeu de sua vida. Não beba tudo, Jess - guarde um pouco para depois. Ela não soube dizer qual das fantasmas falara desta vez, e não importava. Era um ótimo conselho, mas era o mesmo que dizer a um menino de dezoito anos, quase ensandecido ao fim de seis meses de altas bolinações, que o que importava não era se a garota finalmente cedera; se não tivesse camisinha, não devia transar. Estava descobrindo que, às vezes, era impossível seguir o conselho da mente, por melhor que fosse. As vezes o corpo simplesmente se rebelava e engavetava todos os bons conselhos. Estava descobrindo outra coisa - que se render às simples necessidades físicas podia trazer um inexprimível alívio. Jessie continuou a chupar o cartão enrolado, inclinando o copo para manter o nível da água acima da ponta do cartão roxo empapado e deformado, consciente, bem no fundinho da cabeça, que o cartão vazava mais que nunca e que era loucura não parar e esperar que secasse, mas continuava a chupar assim mesmo. O que finalmente a fez parar foi a percepção de que estava chupando apenas ar, e já há alguns segundos. Ainda havia água no copo de Gerald, mas a ponta do arremedo de canudo não chegava lá. A colcha sob o canudo de cartão escurecera de tanta umidade. Mas eu poderia beber o restinho. Poderia. Se conseguisse virar a mão um pouco mais, forçando-a para trás, como na hora em que precisei apanhar essa droga de copo, acho que posso esticar o pescoço um pouco mais para a frente e beber os últimos golinhos de água. Acho que posso? Sei que posso. Sabia realmente e mais tarde poderia testar a idéia, mas, por ora, os caras de colarinho branco no último andar - aqueles que ficam com todas as vistas panorâmicas - tinham retomado o controle dos operários diaristas e especializados que tocavam o maquinário; o motim terminara. Faltava muito para saciar inteiramente sua sede, mas a garganta parara de latejar e já se sentia bem melhor... mental e fisicamente. Tinha os pensamentos mais aguçados e a sua visão do mundo marginalmente mais clara. Descobriu que ficara satisfeita de ter deixado aquele restinho no copo. Dois pequenos goles de água tomados com um canudo roto provavelmente não fariam diferença entre permanecer algemada à cama e descobrir sozinha uma maneira de se livrar dessa complicação - muito menos entre viver e morrer - mas resgatar aqueles dois golinhos poderia ocupar sua mente quando, e se, tentasse reverter aos seus artifícios mórbidos. Afinal, a noite se aproximava, o marido jazia morto ali perto, e pelo jeito, ela ia acampar. O quadro não era animador, principalmente quando se acrescentava o vira-lata faminto que estava acampando com ela, mas Jessie descobriu que, ainda assim, começava a sentir sono outra vez. Procurou pensar em razões para combater a crescente sonolência e não conseguiu encontrar nenhuma que a convencesse. Mesmo o pensamento de acordar com os braços dormentes até os cotovelos não lhe pareceu um problema particularmente grande. Bastaria movimentá-los até que o sangue recomeçasse a fluir na velocidade normal. Não seria agradável, mas não duvidava de sua capacidade para tanto.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

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