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Maldita Guerra

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Maldita Guerra

Livro Excelente - 1 comentário

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Autor: Francisco Doratioto

Editora: Companhia das Letras

Assunto: História

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 617

Ano de edição: 2003

Peso: 1.045 g

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Excelente
Marcio Mafra
27/11/2009 às 15:14
Brasília - DF


Marcio Mafra - Data: 27/11/2009 - Conceito : Excelente



Tem livro que é excelente desde a capa. Maldita Guerra é um deles. O autor, Doutor Doratioto fez pesquisas durante 15 anos em arquivos e bibliotecas do Rio da Prata e da Europa. Só no Paraguai ele residiu durante três anos, por conta da pesquisa. Ele refuta a tese, adotada pela maioria dos historiadores, de que o Império Inglês teria tantos interesses na guerra que a fez desencadear. Ao longo do livro faz relatos minuciosos da luta e das implicações políticas, econômicas e sociais tanto no Império do Brasil, como na Argentina e Uruguai. O autor atribui e procura demonstrar que toda a responsabilidade pelo início da guerra é do General Francisco Solano Lopez. Ele nega os interesses ingleses, quando examina provas de que foi o exército de Solano que invadiu o Brasil, em 28 de dezembro de 1864 quando tomou o Forte Coimbra, no Mato Grosso. Foi o tanto quanto bastou. Solano passa a ser considerado um irresponsável, sanguinário e despótico até o dia de sua morte. Raciocínio simplista, mas digno de ser lido e estudado. São muitos os detalhes, muitas as motivações além de se considerar que o Uruguai, liderado por Aguirre, estava quase esfacelado por lutas internas e tinha o Império do Brasil como inimigo. A Argentina, liderada por Bartolomé Mitre, também se digladiava internamente por interesses no Uruguai e no próprio Paraguai. O livro em si é muito detalhista, mas não segue uma cronologia capitular (os assuntos tornam e retornam em qualquer capítulo), dificultando, por vezes, a compreensão dos fatos. Para entender os fatos cronológicos é preciso recorrer ao índice, contido em 15 páginas, localizado no final do livro, antes das "fontes e bibliografia". Mesmo assim é uma obra excelente, tanto pelo texto inteligível, como pela abrangência da pesquisa, que proporciona alguns fatos inéditos e respectivas interpretações militares ou políticas, desconhecidas ou omitidas pela maioria dos historiadores. É um livro de respeito, que vale cada real pago. Deve ser lido e consultado por qualquer estudioso da história política, militar, econômica, racial e social, do Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. Ao final não se dissipa a sensação de que o Paraguai foi trucidado covardemente, embora não o afirmem as estatísticas, posto que - no início da guerra - o exército do Paraguai possuía 77 mil soldados e a tríplice aliança 17 mil. Resta a sensação de que Solano Lopez não foi o mocinho nem o bandido do filme. Com certeza, a insensatez dos governantes impôs às quatro nações inominável prejuízo, social, antropológico, político e econômico, com um elevadíssimo preço que foi resgatado com a vida de seus respectivos cidadãos. Da mesma forma, não se fica completamente convencido do não-interesse inglês, no desencadeamento da guerra, pois o Reino Unido era mega financiador de todos os governos e algumas empresas da região, como também era o grande e único fornecedor de armamentos, dos navios e embarcações de guerra utilizados tanto pelo Brasil como pelo Paraguai, Argentina e Uruguai, embora estes dois últimos possuíssem uma marinha inexpressiva. A enorme documentação que menciona faz de Maldita Guerra uma obra de referência. Se livro fosse um espetáculo, este seria aplaudido de pé.



Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história da funesta guerra, iniciada em dezembro de 1864 quando os paraguaios invadiram o território do Império do Brasil. Em resposta uniram-se as Republicas da Argentina, Uruguai e o Reino do Brasil que formaram a tríplice aliança e lutaram contra as forças do Paraguai até março de 1870, quando o povo a marinha e o exército paraguaio e seus soldados foram completamente dizimados.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Os chefes navais brasileiros resistiram a executar o plano de Mitre de cercar Humaitá por terra e isola-la totalmente. Pelo plano, a esquadra devia forçar a ultrapassagem da fortaleza, sob inevitável duelo de artilharia, até encontrar-se com as tropas aliadas rio acima. Tamandaré e, em seguida, Inhaúma suspeitavam de que Mitre buscava causar a destruição da esquadra pelos canhões de Humaitá e assim enfraquecer a Marinha imperial, instrumento de poder do Império no Prata, de modo a deixar a Argentina em posição militar vantajosa no pós-guerra. Alem dessa desconfiança, também contribuía para não se utilizar todo o potencial da esquadra o fato de seu comando superior ser composto de oficiais veteranos, leais ao Estado monárquico, mas acomodados a tarefas burocráticas, inadaptados a nova tecnologia naval e as condições da guerra contra o Paraguai. Eram incompetentes para chefiar os modernos navios, que haviam incorporado os últimos avanços tecnológicos da época, e para aplicar novas táticas, visando a ação coordenada com o Exercito aliado. Na análise das decisões dos chefes militares, aliados e paraguaios, na guerra é conveniente repetir a seguinte observação de Dionísio Cerqueira: A crítica, porém, aos grandes mestres é sempre fácil. A arte da guerra e aquela em que mais erros se comete. Os maiores capitães cochilaram, como o divino Homero. A guerra, na frase de um ilustre oficial francês, e uma série de erros e vence o que menos erra. O lado aliado errou menos, embora tenha errado muito. Terminada a guerra, a política do governo imperial, sob o controle do Partido Conservador, foi a de reafirmar a existência do Paraguai como Estado independente e, ao mesmo tempo, evitar que a Argentina se apossasse de todo o Chaco, como lhe fora facultado pelo Tratado da Tríplice A1iança. O presidente Sarmiento, por sua vez, desconfiando de intenções expansionistas por parte do Império sobre o Paraguai, não defendeu que os limites deste com seu país e com o Brasil fossem resultado da aplicação pura e simples dos termos desse Tratado. Ao contrário, o governo argentino surgiu com a política de que a vitória militar não concedia aos vencedores direitos sobre o vencido quanto a definição de fronteiras. A diplomacia imperial fez uso desse argumento e aproveitou-se da ocupação militar brasileira do país vencido para tutelar seus governantes, de modo a impedir que todo o Chaco se tornasse argentino. Ao mesmo tempo, o Império assinou, em 1872, tratado de paz separadamente com o Paraguai, pelo qual definia a fronteira comum, que alcançava o rio Apa, como o Brasil pleiteava antes da guerra. Esse tratado ia contra 0 Tratado da Tríplice Aliança, que proibia a qualquer aliado assinar isoladamente a paz com o país guarani. Assistia-se a um vencedor, o Brasil, aliar-se com o vencido para impedir a concessão do Chaco a outro aliado, a Argentina. Esta, porem, estava em posição desfavorável no plano militar e no político para reagir e lhe restava o uso da diplomacia para tentar obter, do Brasil, o reconhecimento de continuar a vigorar o Tratado da Tríplice Aliança, que ratificasse as demandas territoriais argentinas em relação ao Paraguai. Esse foi o sentido da missão de Bartolomé Mitre, representando o governo Sarmiento, a capital brasileira, em 1872, mas que se revelou infrutífera, pois quando ele se dirigiu a Assunção, no ano seguinte, não recebeu o apoio do negociador imperial, barão de Araguaia. A diplomacia argentina buscou, então, obter um acordo de paz e limites com o Paraguai a revelia do Império, e, em 1875, foi assinado o Tratado Sosa-Tejedor, que, devido a pressão brasileira, não foi ratificado pelo governo paraguaio. Apenas em 1876 as duas Republicas assinaram aqueles acordos, quando a hegemonia do Brasil no Prata estava enfraquecida, e impedia, como ocorrera anteriormente, uma influência brasileira decisiva sobre as negocia~6es. Mesmo assim, 0 resultado do Tratado argentino-paraguaio satisfez ao Rio de Janeiro, pois foi ratificada a independência paraguaia e a Argentina não se apossou de todo o Chaco. A definição da fronteira entre os dois países nesse territ6rio ficou na dependência de laudo arbitral do presidente norte-americano, o qual, em 1878, decidiu favoravelmente ao Paraguai. Tal qual a diplomacia imperial desejava, o rio Pilcomayo tornou-se o limite fronteiriço entre a Argentina e o Paraguai. Entre 1869 e 1876, o governo imperial, sob o controle dos conservadores, foi bem-sucedido no desafio que estes lançaram, por meio do Conselho de Estado, em 1865, quando se discutiu o Tratado da Tríplice Aliança, já assinado e ratificado. Apontaram eles, então, que a concessão, a Buenos Aires, do Chaco, ate a Bahia Negra, colocava em risco a continuidade do Paraguai como Estado independente e, ainda, ampliava a fronteira entre o Império e seu inimigo em potencial, a Argentina. Apesar da destruição causada pela guerra, da falta de recursos na construção da nova estrutura governamental, moldada nos padrões do liberalismo, e da ascendência econômica argentina, o Paraguai manteve sua existência própria, satisfazendo ao objetivo maior da diplomacia imperial em relação a esse país. O Rio de Janeiro viu, ainda, suas demandas territoriais serem satisfeitas por Assunção, enquanto frustrou as da Argentina, a qual teve que se contentar com o Chaco Central, como indicara o referido Conselho de Estado uma década antes. Para o Paraguai, a guerra contra a Tríplice Aliança levou a destruição do Estado existente e a perda de territórios disputados com seus vizinhos. A derrota teve o significado de causar "a ruptura definitiva de um modelo de crescimento econômico que significava, a época, as bases para uma formidável expansão capitalista em todo o sistema [produtivo] nacional. A reorganização do país levaria décadas e, em termos comparativos com os Estados vizinhos, o Paraguai não conseguiu alcançar o mesmo nível de desenvolvimento econômico de antes da guerra. A destruição da economia paraguaia foi de tal monta que o país recebeu apenas de forma mediatizada o impacto que teve, na consolidação das economias agro exportadoras da Argentina e do Uruguai, a introdução de fatores produtivos, como a imigração européia e os capitais estrangeiros. As estatísticas sobre as perdas paraguaias na guerra variam entre 8,7% e 69% da população. Também são divergentes os cálculos sobre o número de habitantes do Paraguai no pré-guerra, que, segundo estudos recentes, variaria entre 285.715 e 450 mil pessoas. Portanto, seria entre 28.286, no mínimo, e 278.649, no máximo, a redução da população paraguaia durante os cinco anos de guerra. Não há dúvidas, porem, de que a maior parte dos mortos não o foi em combate, mas, sim, devido a doenças, fome e exaustão física. Em contrapartida, uma parcela desses desaparecidos era composta de paraguaios que viviam em territórios que foram reconhecidos como soberania da Argentina e do Brasil ou, ainda, que emigraram para esses dois países no pós-guerra para fugir da situação de miséria em que o Paraguai se encontrava. O Brasil enviou para a guerra cerca de 139 mil homens, dos quais uns 50 mil morreram. Destes, a maior parte não pereceu em combate, mas, sim, devido a doenças e aos rigores do clima. Entre os aliados, o Uruguai enviou por volta de 5.500 soldados, dos quais, no final da guerra, restavam uns quinhentos; os demais morreram em combate, de doenças, ou desertaram. As tropas argentinas sofreram perdas em torno de 18 mil homens, entre mortos e feridos, dos pouco menos de 30 mil soldados que a Argentina enviou ao Paraguai. Para o Império do Brasil, a Guerra do Paraguai expos sua fragilidade militar em grande parte estrutural, devido ao regime escravocrata. O Império foi capaz, porem, de superar essa fragilidade, de mobilizar todos os seus recursos e de atingir o apogeu de seu poder no Prata. Saiu vitorioso militarmente e fortaleceu, nessa região, sua hegemonia, que se iniciou na década de 1850 e se prolongou até 1875. No plano interno, o conflito foi o ponto de inflexão que deu início a marcha descendente da monarquia brasileira. Os gastos com cinco anos de guerra exauriram o Tesouro brasileiro e o equilíbrio orçamentário do Império não foi recuperado. O Exército, por sua vez, saiu do conflito com um sentimento de identidade desconhecido anteriormente, forjado com sangue nos campos de batalha. Após o final da guerra, foi crescente a dissociação entre o Exército e a monarquia a ponto de, em 1889, ele ser o instrumento dos republicanos para dar o golpe de Estado que depôs Pedro II e criou a Republica brasileira. Para o Uruguai, as repercussões da guerra foram menores, apesar de a situação nesse país ter sido o elemento catalisador das contradições que levaram ao conflito. Na Argentina, o descontentamento do interior com a guerra e a aliança com o Império contribuíram para diferentes rebeliões federalistas contra o governo nacional, que conseguiu reprimi-las, fortalecendo-se e legitimando-se. No plano econômico, os criadores de gado, os que cultivavam cereais e os comerciantes de Buenos Aires se beneficiaram com as compras do Império, para abastecer suas tropas no Paraguai. O Estado argentino endividou-se com a guerra, mas as economias das provinciais próximas do teatro de operações foram beneficiadas, ao contrário do Brasil, onde o governo ficou endividado sem que o conflito tivesse estimulado a atividade econômica do setor privado. A guerra contribuiu para a consolidação do Estado nacional centralizado na Argentina e para a dinamização de sua economia, enquanto, em relação ao Brasil, serviu para acelerar as contradições internas do Estado monárquico e constituiu-se em obstáculo para o crescimento econômico. No plano regional, o conflito significou a possibilidade de alterar o quadro das relações platinas. Os liberais argentinos e brasileiros, no poder em seus respectivos países entre 1862 e 1868, não viam, por ocasião do início da luta, o Tratado da Tríplice Aliança esgotar-se em si mesmo com a vitória sobre o Paraguai. Principalmente os liberais ligados a Mitre pensavam em redirecionar as re1ações argentino-brasileiras, substituindo a disputa, que trazia atritos e instabilidade no Prata, pe1a cooperação, instrumento gerador da estabilidade e garantidor da paz na região. Tratava-se de projeto de uma verdadeira aliança estratégica argentino-brasileira, de uma aliança perpetua nas palavras do ministro das Re1ações Exteriores da Argentina, Rufino de Elizalde, que baseada na justiça e na razão [ ... ] será abençoada por nossos filhos. Tanto na Argentina quanto no Brasil, essa aliança estratégica foi encampada por setores políticos minoritários, mas se desgastou aceleradamente a partir do desaparecimento de Solano Lopez, inimigo comum. Desde 1868, os críticos dessa aliança ascenderam ao poder, tanto em Buenos Aires como no Rio de Janeiro, e projetaram no outro aliado objetivos contrários a soberania do Paraguai: para a Argentina, o Império queria ter o pais guarani como protetorado; para o Brasil, o governo Sarmiento planejava promover a incorporação do Paraguai. Essa projeção de intenções resultava, em parte, do peso das desconfianças históricas entre as duas partes, que tinham suas raízes no período colonial. Reforçadas no início da vida independente de ambos os países, as desconfianças persistiram devido as divergências entre chefes militares argentinos e brasileiros durante a Guerra do Paraguai. A política externa argentina e a brasileira, em uma dinâmica realimentadora entre a imagem que projetavam sobre as intenções da outra, e a realidade, em boa parte resultante dessa projeção, rivalizaram-se para impor sua influência na reconstrução institucional e na definição territorial do Paraguai no pós-guerra. Historicamente precoce, a cooperação estratégica planejada por Mitre constituiu-se, de todo modo, em um precedente, a esperar momento histórico mais favorável para sua realização.


  • As Veias Abertas da América Latina

    Autor: Eduardo Galeano - Jornalista e escritor uruguaio 1940/2015

    Veículo: Livro de Eduardo Galeano - Capitulo da Guerra contra o Paraguai

    Fonte: Livro As Veias Abertas da America Latina

    A GUERRA DA TRÍPLICE ALIANÇA CONTRA O PARAGUAI ANIQUILOU A ÚNICA EXPERIÊNCIA EXITOSA DE DESENVOLVIMENTO INDEPENDENTE O homem viajava ao meu lado, silencioso. Seu perfil, nariz afilado, altos pômulos, recortava-se contra a forte luz do meio-dia. Íamos para Assunção, partindo da fronteira sul, num ônibus para vinte pessoas que, não sei como, transportava 50. Depois de algumas horas, uma parada. Sentamo­nos num pátio aberto, à sombra de uma árvore de folhas camosas. Aos nossos olhos, abria-se o brilho ofuscante da vasta, despovoada, intacta terra vermelha: de horizonte a horizonte, nada perturba a transparência do ar do Paraguai. Fumamos. Meu companheiro, camponês de fala guarani, desabafou algumas palavras tristes em castelhano. "Os paraguaios somos pobres e poucos", disse-me. Explicou que havia descido até Encamación à procura de trabalho, mas nada encontrara. Tinha conseguido apenas juntar uns pesos para a passagem de volta. Muitos anos antes, quando moço, tinha tentado a sorte em Buenos Aires e no sul do Brasil. Agora vinha a colheita do algodão e muitos braceros paraguaios pegavam a estrada, como em todos os anos, rumo às terras argentinas. "Mas eu já tenho 63 anos, meu coração já não suporta essas andanças enroladas." Somam meio milhão os paraguaios que abandonaram definitivamente a pátria, nos últimos vinte anos. A miséria induz ao êxodo os habitantes do país que, até quase um século atrás, era o mais avançado da América do Sul. O Paraguai tem agora uma população que apenas duplica a que tinha então, e como a Bolívia, é um dos dois países sul-americanos mais pobres e atrasados. Os paraguaios padecem a herança de uma guerra de extermínio que se integrou à história da América Latina como o seu capítulo mais infame. Chamou­se Guerra da Tríplice Aliança. Brasil, Argentina e Uruguai encarregaram-se do genocídio. Não deixaram pedra sobre pedra e tampouco habitantes varões entre os escombros. Embora a Inglaterra não tenha participado diretamente na horrorosa façanha, foram seus mercadores, seus banqueiros e seus industriais que resultaram beneficiados com o crime do Paraguai. A invasão foi financiada, do princípio ao fim, pelo Banco de Londres, pela casa Baring Brothers e pela banca Rothschild, através de empréstimos a juros leoninos que hipotecaram o destino dos países vencedores. Até sua destruição, o Paraguaio se destacava como uma exceção na América Latina: a única nação que o capital estrangeiro não havia deformado. O longo governo de mão de ferro do ditador Gaspar Rodríguez de Francia (1814-1840) havia incubado, na matriz do isolamento, um desenvolvimento econômico autônomo e sustentado. O Estado onipotente, patemalista, ocupava o lugar de uma burguesia nacional que não existia, na tarefa de organizar a nação e orientar seus recursos e seu destino. Francia apoiara-se nas massas carnpesinas para esmagar a oligarquia paraguaia e conquistara a paz interior estendendo um estrito cordão sanitário nas fronteiras com os restantes países do vice-reinado do Rio da Prata. As expropriações, os desterros, as prisões, as perseguições e as multas não tinham servido de instrumentos para a consolidação do domínio interno dos latifundiários e comerciantes, mas, ao contrário, tinham sido usados para sua destruição. Não existiam, nem nasceriam mais tarde, as liberdades políticas e o direito de oposição, mas naquela etapa histórica só os saudosos dos privilégios perdidos estranhariam a falta de democracia. Não havia grandes fortunas privadas quando Francia morreu, e o Paraguai era o único país da América Latina que não tinha mendigos, famélicos ou ladrões"; os viajantes da época encontravam ali um oásis de tranquilidade em meio às demais comarcas convulsionadas por contínuas guerras. O agente norte-americano Hopkins informava em 1845 ao seu governo que no Paraguai "não há criança que não saiba ler e escrever". Era também o único país que não vivia com o olhar cravado no outro lado do mar. O comércio exterior não se constituía no eixo da vida nacional; a doutrina liberal, expressão ideológica da articulação mundial dos mercados, carecia de respostas para os desafios que o Paraguai, obrigado a crescer para dentro por causa de seu isolamento mediterrâneo, estava equacionando desde o princípio do século. O extermínio da oligarquia tomou possível a concentração das bases econômicas fundamentais nas mãos do Estado, para levar adiante esta política autárquica de desenvolvimento dentro das fronteiras. Os posteriores governos de Carlos Antonio López e seu filho Francisco Solano López continuaram e revigoraram a tarefa. A economia estava em pleno crescimento. Quando os invasores apareceram no horizonte, em 1865, o Paraguai contava com uma linha de telégrafos, uma ferrovia e uma boa quantidade de fábricas de materiais de construção, tecidos, lenços, ponchos, papel, tinta, louça e pólvora. Duzentos técnicos estrangeiros, muito bem pagos pelo Estado, colaboravam decisivamente. Desde 1850, a fundição de Ibycui fabricava canhões, morteiros e balas de todos os calibres; no arsenal de Assunção eram fabricados canhões de bronze, obuses e balas. A siderurgia nacional, como todas as demais atividades econômicas essenciais, estava nas mãos do Estado. O país dispunha de uma frota mercante nacional, e tinham sido construídos no estaleiro de Assunção muitos dos navios que ostentavam a bandeira paraguaia ao longo do rio Paraná ou cruzavam o Atlântico e o Mediterrâneo. O Estado virtualmente monopolizava o comércio exterior: a erva-mate e o tabaco abasteciam o consumo do sul do continente; as madeiras valiosas eram exportadas para a Europa. A balança comercial mostrava um expressivo superavit. O Paraguai tinha uma moeda forte e estável, e possuía suficiente riqueza para efetivar enormes investimentos públicos sem recorrer ao capital estrangeiro. O país não devia nem um centavo no exterior, e estava em condições de manter o melhor exército da América do Sul, contratar técnicos ingleses que se colocavam a serviço do país em vez de pôr o país a seu serviço, e enviar à Europa muitos jovens universitários paraguaios para que se aperfeiçoassem em seus estudos. O excedente econômico gerado pela produção agrícola não era esbanjado no luxo estéril de uma oligarquia inexistente, nem ia parar nos bolsos de atravessadores, nem nas mãos rapinantes dos usurários, nem na rubrica lucros que o Império britânico nutria com os serviços de fretes e seguros. A esponja imperialista não absorvia a riqueza que o país produzia. 98 por cento do território paraguaio era de propriedade pública: o Estado cedia aos camponeses a exploração das parcelas em troca da obrigação de povoá-Ias e cultivá-Ias de forma permanente e sem o direito de vendê-las. Além disso, havia 64 estancias de la patria, fazendas que o Estado administrava diretamente. As obras de irrigação, represas e canais, e as novas pontes e estradas contribuíam em importante grau para a elevação da produtividade agrícola. Foi resgatada a tradição indígena das colheitas anuais, que fora descartada pelos conquistadores. O alento vivo das tradições jesuítas sem dúvida facilitava todo esse processo criador. O Estado paraguaio praticava um zeloso protecionismo da indústria nacional e do mercado interno, especialmente reforçado em 1864; os rios interiores não estavam abertos aos navios britânicos que bombardeavam o resto da América Latina com manufaturas de Manchester e Liverpool. O comércio inglês não dissimulava sua inquietude, não só porque se lhe afigurava invulnerável aquele último foco de resistência nacional no coração do continente, mas também e sobretudo pela força do exemplo que a experiência paraguaia irradiava perigosamente para a vizinhança. O país mais progressista da América Latina construía seu futuro sem investimentos estrangeiros, sem empréstimos da banca inglesa e sem as bênçãos do livre-comércio. Mas à medida que o Paraguai ia avançando neste processo, tomava-se mais aguda sua necessidade de romper a reclusão. O desenvolvimento industrial requeria contatos mais intensos e diretos com o mercado internacional e as fontes da técnica avançada. O Paraguai estava objetivamente bloqueado entre a Argentina e o Brasil, e os dois países podiam negar o oxigênio aos seus pulmões fechando-lhe, como fizeram Rivadavia e Rosas, as bocas dos rios, ou fixando impostos arbitrários para o trânsito de suas mercadorias. De outra parte, para seus vizinhos era imprescindível, em nome da consolidação do estado oligárquico, acabar com o escândalo daquele país que se bastava a si mesmo e não queria ajoelhar-se diante dos mercadores britânicos. O ministro inglês em Buenos Aires, Edward Thomton, participou ativamente dos preparativos da guerra. Às vésperas da deflagração, estava presente, como assessor do governo, nas reuniões do gabinete argentino, sentando-se ao lado do presidente Bartolomeu Mitre. Diante de seu atento olhar foi maquinada a trama de provocações e de enganos que culminou com o acordo argentino-brasileiro e selou a sorte do paraguai. Venâncio Flores invadiu o Uruguai, na garupa da intervenção dos dois grandes vizinhos, e depois da matança de Paysandú estabeleceu em Montevidéu seu governo devotado ao Rio de Janeiro e a Buenos Aires. A Tríplice Aliança estava em funcionamento. O presidente paraguaio havia ameaçado com a guerra se o Uruguai fosse tomado de assalto: ele sabia que assim se fechava a tenaz de ferro na garganta de seu país encurralado pela geografia e pelos inimigos. O historiador liberal Efraim Cardozo, no entanto, não vê nenhum inconveniente em sustentar que López confrontou o Brasil simplesmente porque estava ofendido: o imperador lhe negara a mão de uma de suas filhas. A guerra nascia. Não era obra de Cupido, mas de Mercúrio. A imprensa de Buenos Aires chamava o presidente paraguaio López de "Átila da América". E clamavam os editoriais: "É preciso matá-lo como a um réptil". Em setembro de 1864, Thornton enviou a Londres um extenso informe confidencial, datado de Assunção. Descrevia o Paraguai como Dante o inferno, mas punha em evidência o que realmente interessava: "Os impostos de importação de quase todos os artigos são de vinte a 25 por cento advalorem; mas como este valor é calculado sobre o preço corrente dos artigos, o imposto que se paga chega frequentemente uma cifra entre 40 e 50 por cento do preço da fatura. Os impostos de exportação são de 10 a 20 por cento do valor ... " Em abril de 1965, o Standard, diário inglês de Buenos Aires, já celebrava a declaração de guerra da Argentina contra o Paraguai, cujo presidente "infringiu todos os usos das nações civilizadas", e anunciava que a espada do presidente argentino Mitre "levará em sua trajetória, além do peso das glórias passadas, o impulso irresistível da opinião pública por uma causa justa". O tratado com o Brasil e o Uruguai foi assinado em 10 de maio de 1865; Seus termos draconianos foram publicados um ano depois no diário britânico The Times, que o obteve dos banqueiros credores da Argentina e do Brasil: os futuros vencedores repartiam antecipadamente os despojos do vencido. A Argentina assegurava para si o território de Misiones e o imenso Chaco; o Brasil devorava uma imensa área a oeste de suas fronteiras. O Uruguai, governado por um títere das duas potências, não ficava com nada. Mitre anunciou que tomaria Assunção em três meses. A guerra, contudo, durou cinco anos. Foi uma carnificina, executada ao longo dos fortins que defendiam, de tanto em tanto, o rio Paraguai. O "oprobrioso tirano" Francisco Solano López encarnou heroicamente a vontade nacional de sobreviver; o povo paraguaio, que no último meio século não conhecera guerra alguma, imolou-se ao seu lado. Homens, mulheres, crianças e velhos: todos se bateram como leões. Os prisioneiros feridos arrancavam as ataduras para que não os obrigassem a lutar contra seus irmãos. Em 1870, López, à frente de um exército de espectros, velhos e meninos que punham barba postiça para impressionar de longe, internou-se na selva. Por traição real ou imaginária, fuzilou seu irmão e um bispo que com ele marchavam naquela caravana sem destino. Quando, finalmente, o presidente paraguaio foi assassinado à bala e lançado na densa mata do cerro Corá, ainda conseguiu dizer: "Morro com minha pátria", e era verdade. As tropas invasoras assaltaram os escombros de Assunção com a faca entre os dentes. Vinham para redimir o povo paraguaio, e o exterminaram. No começo da guerra, o Paraguai tinha uma população um pouco menor do que a da Argentina. Tão só 250 mil paraguaios, menos do que a sexta parte, sobreviviam em 1870. Era o triunfo da civilização. Os vencedores, arruinados pelo alto custo do crime, estavam nas mãos dos banqueiros ingleses que tinham financiado a aventura. O império escravista de Pedro II, cujas tropas se nutriam de escravos e de presos, ainda ganhou territórios, mais de 60 mil quilômetros quadrados, e mão de obra, pois muitos prisioneiros paraguaios foram levados para trabalhar nos cafezais paulistas com a marca de ferro da escravidão. A Argentina do presidente Mitre, que havia esmagado seus próprios caudilhos federais, ficou com 94 mil quilômetros quadrados de terra paraguaia e outros frutos do butim, segundo o próprio Mitre havia anunciado quando escreveu: "Os prisioneiros e demais artigos de guerra nós dividiremos na forma combinada". O Uruguai, onde os herdeiros de Artigas já estavam mortos ou derrotados, e a oligarquia mandava, participou da guerra como sócio minoritário e sem recompensas. Alguns dos soldados uruguaios enviados à campanha do Paraguai tinham embarcado nos navios com as mãos amarradas. Os três países experimentaram uma bancarrota financeira que agravou a dependência da Inglaterra. A matança do Paraguai os marcou para sempre." O Brasil havia cumprido a missão que o Império britânico lhe atribuíra desde os tempos em que os ingleses transladaram o trono português para o Rio de Janeiro. No princípio do século XIX, tinham sido claras as instruções de Canning ao embaixador, lorde Strangford: "Fazer do Brasil um empório para as manufaturas britânicas destinadas ao consumo de toda a América do Sul". Pouco antes do início da guerra, o presidente da Argentina inaugurara uma nova linha férrea britânica em seu país e pronunciara um inflamado discurso: "Qual a força que impele o progresso? Senhores, é o capital inglês!" Do Paraguai derrotado não desapareceu só a população: também as tarifas aduaneiras, os fornos de fundição, os rios fechados ao comércio, a independência econômica e vastas zonas de seu território. Dentro das fronteiras reduzidas pelo espólio, os vencedores implantaram o livre-câmbio e o latifúndio. Tudo foi saqueado e tudo foi vendido: as terras e os matos, as minas, os ervais, os prédios das escolas. Sucessivos governos títeres seriam instalados em Assunção pelas forças estrangeiras de ocupação. Tão logo terminou a guerra, sobre as ruínas ainda fumegantes do Paraguai caiu o primeiro empréstimo estrangeiro de sua história. Era britânico, claro. Seu valor nominal alcançava um milhão de libras esterlinas, mas ao Paraguai chegou menos da metade; nos anos seguintes, os refinanciamentos elevaram a dívida a mais de três milhões. A Guerra do Ópio havia terminado quando foi assinado em Nanking o tratado de livre-comércio que assegurou aos comerciantes britânicos o direito de introduzir livremente a droga no território chinês. Também a liberdade de comércio foi garantida pelo Paraguai depois da derrota. Foram abandonadas as plantações de algodão, e Manchester arruinou a produção têxtil; a indústria nacional não ressuscitou jamais. O Partido Colorado, que hoje (1970) governa o Paraguai, especula alegremente com a memória dos heróis, mas ostenta ao pé de sua ata de fundação a assinatura de 22 traidores do marechal Solano López, "legionários" a serviço das tropas brasileiras de ocupação. O ditador Alfredo Stroessner, que nos últimos quinze anos converteu o Paraguai num grande campo de concentração, fez sua especialização militar no Brasil, e os generais brasileiros o devolveram ao seu país com altas qualificações e ardentes elogios: "É digno de um grande futuro ... " Durante seu reinado, Stroessner descartou os interesses anglo-argentinos, dominantes no Paraguai nas últimas décadas, em benefício do Brasil e seus donos norte-americanos. Desde 1870, Brasil e Argentina, que libertaram o Paraguai para comê-lo com duas bocas, alternam-se no aproveitamento dos despojos do país derrotado, mas, por sua vez, padecem o imperialismo da grande potência do momento. O Paraguai padece duas vezes: o imperialismo e o subimperialismo. Antes o Império britânico era o elo maior da corrente de dependências sucessivas. Atualmente, os Estados Unidos, que não ignoram a importância geopolítica desse país encravado no centro da América do Sul, mantém em solo paraguaio um sem-número de assessores que treinam e orientam as forças armadas, cozinham os planos econômicos, reestruturam a universidade ao seu arbítrio, inventam um novo esquema político democrático para o país e retribuem com empréstimos onerosos os bons serviços do regime". Mas o Paraguai é também colônia de colônias. Usando a reforma agrária como pretexto, o governo de Stroessner, fazendo-se de distraído, derrogou a disposição legal que proibia a venda a estrangeiros de terras das zonas de fronteira seca, e hoje até os territórios fiscais caíram nas mãos de latifundiários brasileiros do café. A onda invasora atravessa o rio Paraná com a cumplicidade do presidente, associados a terras-tenentes que falam português. Cheguei à movediça fronteira do nordeste do Paraguai com cédulas que estampavam o rosto do vencido marechal Solano López, e ali pude descobrir que só têm valor aqueles que estampam a efígie do vitorioso imperador Pedro II. O resultado da Guerra da Tríplice Aliança, transcorrido um século, ganha ardente atualidade. Os guardas brasileiros exigem passaportes dos cidadãos paraguaios para que possam circular em seu próprio país; são brasileiras as bandeiras e as igrejas. A pirataria de terra abarca também os saltos do Guayrá, a maior fonte potencial de energia de toda a América Latina, que hoje se chamam, em português, Sete Quedas, e a zona de Itaipu, onde o Brasil vai construir a maior central hidrelétrica do mundo. O subimperialismo, ou imperialismo de segundo grau, expressa-se de mil maneiras. Quando o presidente Johnson, em 1965, decidiu submergir em sangue os dominicanos, Stroessner enviou soldados paraguaios a São Domingos para que colaborassem no serviço. O batalhão se chamou - uma piada sinistra - "Marechal Solano López". Os paraguaios atuavam sob as ordens de um general brasileiro, porque foi o Brasil que recebeu as honras da traição: o general Penasco Alvim comandou as tropas latino-americanas cúmplices da matança. Exemplos outros e semelhantes podem ser citados. O Paraguai outorgou ao Brasil uma concessão de petróleo em seu território, mas o negócio da distribuição de combustíveis e a petroquímica, no Brasil, pertencem aos norte-americanos. A Missão Cultural Brasileira é dona da Faculdade de Filosofia e Pedagogia da universidade paraguaia, mas os norte-americanos, em nossos dias, manejam as universidades do Brasil. O estado-maior do exército paraguaio recebe assessoramento não só de técnicos do Pentágono, mas também de generais brasileiros, que por sua vez respondem ao Pentágono como o eco responde à voz. Pela via aberta do contrabando, os produtos industriais do Brasil invadem o mercado paraguaio, mas muitas das respectivas fábricas em São Paulo são, desde a avalanche desnacionalizadora destes últimos anos, propriedade de corporações multinacionais. Stroessner se considera herdeiro dos López. Pode o Paraguai de um século atrás ser impunemente comparado com o Paraguai de agora, empório do contrabando na bacia do Prata e reino da corrupção institucionalizada? Num ato político em que o partido do governo, entre manifestações de júbilo e aplausos, identificava o Paraguai de outrora com o de hoje, um jovenzinho, com a bandeja apoiada no peito, vendia cigarros contrabandeados: a fervorosa assistência fumava nervosamente Kent, Marlboro, Camel e Benson & Hedges. Em Assunção, a escassa classe média bebe uísque Ballantine's em vez da aguardente paraguaia. Veem-se nas ruas os últimos modelos dos mais luxuosos automóveis fabricados nos Estados Unidos ou Europa, trazidos ao país de contrabando ou através do pagamento prévio de minguados impostos, ao mesmo tempo em que circulam carretas de bois carregando lentamente os frutos para o mercado: a terra é trabalhada com arados de madeira e os táxis são Impalas 1970. Stroessner diz que o contrabando é "o preço da paz": os generais enchem os bolsos e não conspiram. A indústria, no entanto, agoniza antes de crescer. O Estado sequer cumpre o decreto que manda preferir os produtos das fábricas nacionais nas aquisições públicas. Os únicos triunfos que, com orgulho, o Estado exibe nesta matéria, são as fábricas da Coca-cola, Crush e Pepsi-Cola, instaladas em fins de 1966 como contribuição norte-americana para o progresso do povo paraguaio. O Estado manifesta que só vai intervir diretamente na criação de empresas "quando o setor privado não demonstrar interesse?", e o Banco Central comunica ao Fundo Monetário Internacional que "decidiu implantar um regime de mercado livre de câmbios e abolir as restrições ao comércio e às transações em divisas"; um folheto editado pelo Ministério de Indústria e Comércio informa aos investidores que o país outorga "concessões especiais para o capital estrangeiro". Isentam-se as empresas estrangeiras do pagamento de impostos e de tarifas aduaneiras "para criar um clima propício aos investimentos". Um ano depois de instalar-se em Assunção, o National City Bank de Nova York recupera integralmente o capital investido. A banca estrangeira, dona da poupança interna, proporciona ao Paraguai créditos externos que acentuam sua deformação econômica e hipotecam ainda mais sua soberania. No campo, 1,5 por cento dos proprietários dispõe de 90 por cento das terras exploradas, e se cultiva uma área equivalente a menos de 2 por cento da superficie total do país. O plano oficial de colonização no triângulo de Caaguazú oferece aos camponeses famintos mais tumbas do que prosperidade." A Tríplice Aliança continua sendo um grande êxito. Os fomos da fundição de Ibycuí, onde foram forjados os canhões que defenderam a pátria invadida, estão num lugar que agora se chama "Mina-cué", que em guarani significa "Foi mina". Ali, entre pântanos e mosquitos, junto à caliça de um muro destruído, jaz ainda a base da chaminé que, há um século, os invasores explodiram com dinamite, e também os pedaços de ferro retorcido das instalações desfeitas. Vivem na zona uns poucos camponeses em farrapos, que nem sequer sabem qual foi a guerra que destruiu tudo aquilo. Contudo, dizem eles que em certas noites ali se escutam ruídos de máquinas e batidas de martelos, estampidos de canhões e alaridos de soldados.
Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Zapeando pela Fnac, achei Maldita Guerra. Comprei na mesma hora, sem pensar no preço, para não arrepender.


 

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