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O Albatroz Azul

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O Albatroz Azul

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Autor: João Ubaldo Ribeiro

Editora: Nova Fronteira

Assunto: Romance

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 236

Ano de edição: 2009

Peso: 260 g

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Ótimo
Marcio Mafra
27/11/2009 às 14:47
Brasília - DF

O Albatroz Azul é uma deliciosa história de Itaparica, onde o autor viveu a sua infância. Os personagens são simples, despidos de modismos, e passam o romance contando sua vida. Tertuliano, Jaburu e Cencinha são os principais. Eles travam diálogos muito divertidos, e inventam ditados populares, que só existem na maravilhosa cabeça de João Ubaldo, como: "de burra que faz him e mulher que sabe latim, livra-te tu e a mim" ou "Marido velho com mulher nova, corno ou cova". A simplicidade da narrativa cavouca fundo alguns costumes das pessoas de antanho, como a importância e a solenidade que elas dão ao nome da criança que vai nascer. Igual importância também se atribui ao padrinho, madrinha, santo protetor e a festa do batizado. Ao final o romance é o gosto pelas coisas silenciosas, simples e encantadas, como se passa na ilha de Itaparica. Durante todo o tempo Tertuliano sabe que sua morte está próxima. Ele não luta nem contra nem a favor dela. Leitura boa, fácil, leve, divertida e misteriosa.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história de Tertuliano, avô de Raymundo Penaforte que nasceu de cu prá lua. Tertuliano registrava tudo que lhe interessava em cadernos que ia guardando. Ele sabe que a morte está próxima e a encara com serenidade, como se fora um acontecimento banal e corriqueiro

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A conversa com Belinha e Saturnino foi bem menos comprida do que Tertuliano esperava e só se esticou mais um pouquinho porque Belinha já soubera que ele ultimamente vinha falando em sua morte. Parasse com essa bobagem, ainda estava longe de chegar a hora dele. Ninguém sabia da própria morte ou de morte nenhuma com aquela perfeição, ninguém sabia o dia em que ia morrer nem do jeito em que ia morrer, deixasse ele de chamar o mau agouro, com aquela conversa. Ele concordou e até acrescentou que não podia mais ter certeza de nada do que dissera antes e, portanto, satisfaria a vontade dela, não falaria mais. Independentemente disso, desejava apenas se assegurar de que a padrinhagem de Seu Zé Honório não passasse de certos limites. Não queria voltar a falar em morte, mas era necessário lembrá-la. Na sua idade, não era possível que ele vivesse ainda o suficiente para ver Raymundo Penaforte crescer. Mas tinha escolhido o nome de batismo dele dentro das mais rigorosas exigências, tinha encaminhado o nascimento com inteira correção e senso de oportunidade, tinha encampado a sugestão de chamar Seu Zé Honório para padrinho e mestre e precisava se certificar de que tudo tomaria o rumo mais benéfico para o menino. Falou de novo na comparação com um colégio interno, era bem aquilo que tinha em mente, nada mais que aquilo, pois se tratava de seu neto e do filho de Belinha e Saturnino, não neto nem filho de Seu Zé Honório. Ambos concordaram sem dificuldade e Belinha ainda lembrou que era o único filho homem e que nunca criara homem e agora não ia deixar de aproveitar para aprender e se capacitar para, quando já velha, dar bons conselhos as mais novas. Com os olhos secretamente marejados e o queixo tremido, Tertuliano olhou o neto adormecido e lhe alisou a penugem da cabeça.


  • A Outra Ilha de João Ubaldo

    Autor: Tom Cardoso

    Veículo: Caderno Eu & Fim de Semana, Valor Economico, 8, 9 e 10 de julho de 2010

    Fonte:

    Se pudesse, João Ubaldo Ribeiro não iria à 9ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), aberta na quarta-feira à noite, e a lugar nenhum. Berenice, sua mulher, conta que nos últimos anos o escritor tem desenvolvido fobia de sair de casa. Ele não nega: "O dia perfeito para mim é o dia em que eu não coloco o pé para fora do meu apartamento". Ubaldo podia, na última hora, se dizer indignado com a libertação de Cesare Battisti e dar um jeitinho de não sair da toca. Mas desta vez ele está em Paraty. Há sete anos, cancelou sua ida à festa literária por não aceitar ser tratado como mero coadjuvante pela organização do evento. "A divulgação não falava do meu nome. Era fulano, fulano, fulano e outros. Estava sempre nos outros", diz.

    Ubaldo relata que, em determinado momento, depois de passar semanas sem ler o seu nome na lista dos principais convidados, passou a achar que estava delirando, que não tinha convite nenhum para feira nenhuma. Chegou a ligar para a organização. "Até que me cansei de toda aquela história e decidi me desconvidar."

    Dessa vez, não houve mal-entendidos. Ubaldo é apresentado no site da Flip com a pompa que merece, como "um dos maiores romancistas contemporâneos do Brasil", o escritor que "reinventou o Brasil". Ele estará neste sábado, às 15 horas, na mesa 13, batizada de "Alegorias da Ilha Brasil", para falar de seus livros e de Oswald de Andrade, o homenageado da festa. Não há como imaginar um romance histórico como "Viva o Povo Brasileiro", até hoje a obra de maior repercussão de Ubaldo, livre da influência de Oswald. A ordem, porém, é deixar o escritor baiano solto para contar suas histórias. Ninguém melhor para falar sobre João Ubaldo do que o próprio João Ubaldo. Ele já tem uma história imperdível: de como a Flip atrapalhou seu novo romance e fez que ele cedesse aos caprichos de um de seus personagens, que na última hora conseguiu passar de coadjuvante a protagonista e ainda mudar de sexo.

    A culpa não foi da Flip e sim da falta de pulso de João Ubaldo. Até receber o convite da festa de Paraty, ele conseguira dar um bom ritmo ao novo romance, o primeiro depois da troca de editora, da Nova Fronteira para a Alfaguara. O escritor rompera a barreira das primeiras 50 páginas e tudo indicava que terminaria o livro em tempo recorde. Aí veio a história da Flip, pedidos de entrevistas, saídas inesperadas de casa. Quando teve um pouco de paz para reiniciar o livro, a rebelião já estava consumada. O protagonista havia perdido espaço para o coadjuvante, que, além de reivindicar mais espaço, trocou de sexo, passando de homem para mulher. Ubaldo tentou assumir o controle, mas era tarde demais. "Eu agora tenho três começos de livro, cada um com 50 páginas. Ainda não sei o que vou fazer", revela o escritor, que adiou a entrega do romance para o que vem, quando pretende levar sua fobia de sair de casa mais a sério. Quem sabe ter algumas aulas de antissociabilidade com o amigo Rubem Fonseca.

    Na Flip, Ubaldo aproveitará para relançar dois livros, ambos pelo selo Alfaguara, que pertence à Objetiva: "O Feitiço da Ilha do Pavão", publicado originalmente em 1997, e "Um Brasileiro em Berlim", lançado em 1995. Este último reúne crônicas publicadas no jornal "Frankfurter Rundschau", durante a passagem do escritor por Berlim em 1990. A Alemanha, aliás, é um dos poucos países que Ubaldo ainda se dispõe a visitar. Aos Estados Unidos não volta mais - cansou de ser revistado por cães farejadores. Em Portugal, onde também morou, o escritor diz ter muitos amigos, mas de lá também não guarda boas lembranças, sobretudo nos últimos anos. "De algumas décadas para cá, a relação entre brasileiros e portugueses, que era próxima do cordial, piorou muito", comenta. Ubaldo conta ter passado por algumas situações constrangedoras em Lisboa - chegou a ser expulso de dentro do carro por um taxista, após ser identificado como brasileiro.

    Mas nada magoou tanto Ubaldo quanto a censura imposta, por parte de uma rede varejista no país, a dois de seus livros em Portugal. "Viva o Povo Brasileiro" e "A Casa dos Budas Ditosos" foram classificados como "produtos de foro pornográfico". "Viva o Povo Brasileiro" ficou retido por alguns meses, mas acabou liberado. Já o segundo continua rendendo polêmica. "Nada mais hipócrita. Em Portugal eu vi anúncio de lubrificante em ônibus da prefeitura."

    "Um Brasileiro em Berlim" é também um divertido retrato de brasileiros que frequentavam os aeroportos no fim dos anos 1980, a elite que hoje tem de conviver nos terminais com passageiros das classes C e D, incorporados pelas políticas econômicas e pela queda nos preços das passagens. Ubaldo diz não ter a menor vontade de escrever sobre a nova classe média, muito menos de frequentar aeroportos. Vai de carro a Paraty. "Estou com 70 anos. Se não tinha disposição para sair de casa, imagine encarar a falta de infraestrutura dos aeroportos brasileiros", afirma.

    Crítico feroz do governo Lula, Ubaldo espera que Dilma Rousseff consiga se descolar de seu antecessor e impor, enfim, seu estilo, de pouca conversa e mais trabalho. "O Lula ainda não se acostumou ao banco de reservas, gosta de aparecer, sobretudo nos momentos difíceis do governo, quando Dilma mostra certa hesitação", observa Ubaldo. "De vez em quando acho que ela vai se descolar do padrinho, se deixar levar mais pelo temperamento dela. Mas ainda haverá progressos e retrocessos antes que isso aconteça", avalia.

    Assim que voltar da Flip, o escritor espera não mais sair do seu quartel-general, um pequeno apartamento no Leblon, onde já moraram o jornalista Tarso de Castro e o compositor Caetano Veloso. Seu escritório funciona como um bunker improvisado. Ao contrário do que parece, Ubaldo, criado entre pescadores de Itaparica, entende de computadores tanto quanto Bill Gates. Na sua busca pela solidão, ele promete até dispensar a ajuda da mulher. Ubaldo criou um dispositivo em seu computador em que uma voz feminina (a de Berenice) avisa, pontualmente, o remédio e a quantidade que ele precisa tomar. Rubem Fonseca adorou a ideia.

  • João Ubaldo Ribeiro Sela a Paz com a Flip.

    Autor: Miguel Conde e Michele Miranda -

    Veículo: Jornal O Globo

    Fonte:

    Miguel Conde e Michele Miranda - Enviados especiais
    O Globo - Domingo 10 julho 2011, caderno Rio - folha 23 - proeverso@globo.com.br

    Numa conversa com jeito de enlace amoroso, em que não faltaram gritos de entusiasmo (intelectuais também soltam "u-hu!"), a mesa "Alegorias da
    ilha Brasil", de João Ubaldo Ribeiro, selou ontem na Flip a reconciliação de um dos maiores escritores brasileiros com o principal festival literário do país. O autor, que em 2004 cancelou sua vinda a Paraty reclamando que seu nome era deixado em segundo plano, foi recebido calorosamente e aplaudido dê pé ao fim do encontro.
    O carinho foi correspondido com uma sucessão de histórias, anedotas e opiniões assumidamennte idiossincráticas que fizeram gargalhar o público presente à Tenda dos Autores.

    Autor dribla tentativas de esmiuçar sua obra
    Recebido com deferência pelo curador da Flip, Manuel da Costa Pinto, que se disse honrado por recebê-lo, Ubaldo percorreu durante uma hora e meia de conversa os principais pontos de a sua obra, conduzido pela moderação competente do escritor e editor Rodrigo Lacerda, seu amigo e estudioso de seus livros. Não que tenha sido uma caminhada disciplinada: quando Laacerda tentava esmiuçar temas ou a estrutura de seus textos, Ubaldo desconversava ("não sei" foi a uma expressão repetida por vezes), divagava e emendava histórias sobre seu pai, Itaparica ou um colega de bar. Informalidade que não o impediu de falar a sério sobre literatura, política e o destino (não muito promissor) da humanidade.
    Citando Picasso para definir a arte como "uma mentira por meio do qual se revela uma verdade", Ubaldo disse que suas esperanças como ficcionista se transformaram durante o quase meio século de carreira.
    - Quando escrevi meu primeiro livro eu não só estava convencido de que seria um grande autor, como que em três ou quatro anos mudaria o destino da humanidade, e no máximo em uma década receberia o Nobel
    - disse, acrescentando que para ser lido um escritor precisa não só de talento, mas de "sorte ou alguma coisa imponderável que não sei bem qual é".

    Ubaldo contesta comparação com Guimarães Rosa

    Por duas vezes Ubaldo contestou opiniões da crítica. Quando Lacerda comentou que muitos leitores relacionam a escrita oralizada de "Sargento Getúlio" à obra de Guimarães Rosa, Ubaldo respondeu que ao escrever seu romance nunca havia lido o autor mineiro.

    - Vou dizer algo que nunca disse tão abertamente: Guimarães Rosa não está entre os autores de minha predileção. Não que o ache desimportante, mas o santo não bate com o meu.

    O escritor baiano criticou a ideia de que seu livro mais conhecido, "Viva o Povo Brasileiro", seja uma tentativa de reescrever a história brasileira do ponto de vista dos oprimidos.

    - Não é nada disso. O que aconteceu é muito mais simples. Uma vez, um editor português me disse: "mas os autores o brasileiros só fazem livro fino, a desses de ler em ponte aérea", e eu pensei "Ah, é? Então espere". Até gostaria de ter uma história melhor mas a verdade é essa: o que eu queria fazer em "Viva o povo brasileiro" era um livro grosso. E bem escrito.

    Além de outras tiradas sobre sua relação com a escrita ("o cheque é uma ótima inspiração"), Ubaldo adotou um tom mais sombrio ao comentar, a partir de uma pergunta sobre seu livro "O sorriso do lagarto", as pesquisas genéticas atuais:

    - Tenho muito medo do ser humano como senhor do seu destino. Cada um de nós tem enormes contradições, mas no final a ruindade animal acaba prevalecendo. Acho que essas novas tecnologias vão ser usadas principalmente para destruir o próximo.

    À pergunta final, sobre a importância da literatura no cotidiano, Ubaldo foi coerente com o tom do encontro.

    - Rodrigo Lacerda, um longo laço afetivo nos une para que eu responda essa pergunta. Mas ... não sei.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

No caderno de cultura da Folha de São Paulo de 18 de outubro, só dava João Ubaldo com o Albatroz Azul. Como é livro de escritor grande, topei a recomendação.


 

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