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Caos Calmo

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Caos Calmo

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Autor: Sandro Veronesi

Editora: Rocco

Assunto: Romance

Traduzido por: Gabriel Bogossian

Páginas: 415

Ano de edição: 2007

Peso: 480 g

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Excelente
Marcio Mafra
16/01/2008 às 11:57
Brasília - DF


De vez em quando aparece um escritor italiano, como que para contrapor a literatura da moda. Assim, quando tem muito lançamento de americano,do tipo Dan Brown aparece um italiano, faz sucesso e vai embora. Daí começa uma era diferente. Foi assim quando apareceu Umberto Ecco com o seu O Nome da Rosa. Depois adveio a era dos portugueses, dos angolanos, dos afeganistanenses, e quando tudo vai ficando monótono aparece um Sandro Veronesi com seu Caos Calmo. “Se nom é vero é bem trovato”. Caos Calmo é excelente pela construção da história de Pietro Paladini, cuja mulher morre de repente. O acaso da tragédia ao personagem Pietro uma excêntrica reflexão sobre sua relação com as pessoas de seu relacionamento, com a filha Claudia, de dez anos, que o levam a inverter os seus antigos e tradicionais valores sociais, econômicos, sexuais e familiares. É excelente pela abordagem de temas modernos, todos extraídos do dia-a-dia das grandes cidades, tudo absolutamente em linha com o viver atual. Excelente porque não se deixou influenciar pela literatice. Excelente porque fala de sexo, dinheiro, drogas, família, sem cair no lugar comum do falso romantismo. Excelente em cada capítulo pelo ritmo e dinâmica adotados, quase como uma revista eletrônica de um bom programa de televisão. Excelente pelo tratamento dado ao romance no que se refere ao traço da personalidade de cada personagem. Excelente pelo tesão da história.



Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A historia de Pietro e Carlo, irmãos que salvam duas mulheres de um afogamento, numa praia. No mesmo instante em que Pietro salva uma desconhecida, a sua mulher morre, não muito distante do lugar onde ele salvara a banhista. Uma morte inesperada, por aneurisma. Pietro, muito chocado, resolve não mais se distanciar da filha de dez anos.Passado o funeral, ele leva a filha para a escola e acaba por ficar esperando-a até o término das aulas, ao invés de ir trabalhar em seu escritório....

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Só que eu disse "quadril" - porque se pode dizer assim também -, mas a verdade é que estamos numa posição um tanto obscena, e, na verdade, o seu quadril é o rabo, um grande rabo macio de abadessa, e o meu quadril não é outro senão o pau. Estou dando-lhe grandes golpes de pau no rabo, eis o que estou fazendo, com toda a minha força, tendo seus braços presos para trás, empurrando fortemente com as pernas, em uma posição de tal forma absurda, despudorada e selvagem que, de repente, ocorre uma coisa absurda e despudorada e selvagem: tenho uma ereção. Eu me dou conta disso enquanto ocorre, enquanto essa paroxística sensação de potência dá em nada (onde estava um segundo atrás?), para concentrar-se em um ponto só e dali tencionar os meus músculos, como se fosse possível encurva-los, e logo depois espargir de volta pelo corpo como uma onda de calor, enchendo-o de si, e, assim, em poucos instantes meu corpo inteiro está em ereção, como se nessa posição com essa mulher eu me encontrasse não mais no meio do mar agitado e arriscando nossas vidas, mas enrabando-a ´ selvagemente sobre uma grande cama desconhecida de um quarto de fábula árabe: me dou conta disso enquanto ocorre, e desanimo, mas todo o desânimo desse mundo não impede meu pau de continuar inchando e endurecendo como de costume, feito uma entidade autônoma, independente de mim, uma irredutível minoria hormonal que se recusa a aceitar a idéia da morte, ou, justamente por tê-la aceitado, lança no universo o seu último,ridículo grito de batalha. Pois esse sou eu. Eis-me aqui, em perigo, batendo meu pau duro na bunda dessa desconhecida louca de morte, dizendo-me que estou fazendo por ela, mas agora também por mim, por Lara, por Claudia, pelo meu irmão e por todos aqueles que em cinco minutos compreenderão a notícia de uma desconhecida afogada no mar sob os meus olhos, e sofreriam, chorariam, mas não saberiam de mais nada se junto dela, agora, aqui, eu me afogasse também. Estou fazendo isso, sim, para salvar, para salvar-me, mas essa incongruência agora me assusta mais que a morte......

Que figura de merda. Que colossal, incomensurável figura de merda. Que diabos terá me acontecido? O cheeseburger: cebola, pepino, maionese, ketchup, e depois as batatas fritas - tinha um bocado de tempo que eu não comia tão pesado, à noite. Deve ter sido o cheeseburger. Mas, mas, mas... mal não estou, vomitar não vomitei, aliás também não é que eu sinta o estômago pesado ou algo do gênero. A têmpora. A têmpora é que me incomoda não o estômago. E se não foi o cheeseburger, o que foi? Que figura de merda. Saí da minha bela casa na Via Durini, com o meu belo carrão preto, pilotado pelo navegador por satélite de 2.000 euros, para ir até Gorgonzola desmaiar - desmaiar - bem no meio do encontro onde um grupo de pessoas de bem esperava receber os conselhos certos sobre como enfrentar a morte com seus filhos. Interrompi aquele encontro, na verdade o mandei para o espaço "Bom, amigos, creio que é melhor encerrar por aqui." Não há salvação, para isso. Melhor esquecer tudo o mais rápido possível e seguir adiante como se nada tivesse acontecido. Afinal, ali ninguém me conhecia, e não voltarei nunca mais lá. Lista dos lugares onde não voltarei nunca mais: os salões do Genitor Insieme. Aliás, melhor ainda: eu nunca fui àquele lugar. Destruir a marteladas o disco rígido, delete alt. Amanhã direi a Barbara-ou-Beatrice que infelizmente não pude ir porque tive um pequeno incidente na cozinha - "bati a cabeça na porta da geladeira, aqui, olha"; e se depois ela participar de outro daqueles encontros, talvez exatamente aquele do próximo mês sobre avós, ela que ainda possui ambos os pais vivos, e também seu marido, eu acho, pela maneira como fala sempre os seus sogros, os meus sogros, casa os meus sogros, e, portanto, pode efetivamente estar tomada pela dúvida se os avós são ajuda ou problema, ainda que vá lá e ouça falar do imbecil que na vez anterior caiu no chão sem sentidos na metade da conferência e depois, uma vez restabelecido, fugiu, recusando grosseiramente qualquer proposta de ajuda, de tomar um café, chamar um médico ou, como insistia a sugerir aquela feiticeira com a lisca, mesmo uma ambulânschia, não pensará certamente em mim. Por que deveria? Nada me liga àquele indivíduo, visto que eu não estava lá. Não pensará em mim, não. As pessoas pensam em nós infinitamente menos do quanto acreditamos. Não se pensa quase nunca, essa é a verdade..... 

Todavia não posso não pensar que meu irmão é completamente maluco: ei-lo ali, a primeira vez na vida que passa uma noite com uma criança, esparramado sobre o sofá, fumando ópio em nome do seu infernal mito do... - Tranqüilo: está na cama - diz ele. Eu continuo a me controlar, mas estou furioso, e, sem dizer nada, me volto e vou em direção ao quarto de Claudia. A voz de Carlo me pega pelas costas. - Dorme como um passarinho... Com efeito, Claudia dorme profundamente. Sempre me perguntei como as crianças podem dormir tão bem enquanto nas suas casas os adultos fazem as coisas mais selvagens: os pais se separam, as babysitter transam com os namorados, os tios se drogam, e elas nada: dormem como agora dorme Claudia, suada e tranqüila. Estou contemplando-a com devoção, confiada ao brilho do alabastro dos dinossauros fluorescentes alinhados sobre sua escrivaninha; acaricio sua pele luminosa, e o gesto paterno que estou cumprindo me faz vir à mente meu pai, na histórica briga que decidiu a saída de Carlo da casa da Via Giotto. Nossos pais voltaram de surpresa no sábado à noite em que deveriam dormir na praia, e encontraram Carlo fumando maconha com um bongue, junto com os seus amigos. Nosso pai se enfureceu, fez um grande escândalo, expulsou da casa os amigos de Carlo, com a ira sanguinária e objetivamente assustadora que de vez em quando sabia explodir vinda da sua mítica existência, e Carlo, chapado como um gambá continuava a rir ferozmente da sua cara, repetindo: "Conversa fiada e distintivo, é só conversa fiada e distintivo." "Poderia ser uma briga como tantas (e eram tantas mesmo, naquele tempo, entre eles dois), e, ao contrário, foi definitiva, e não foi a maconha a fazê-la assim, mas a épica incapacidade do nosso pai de aceitar a realidade da maneira como era - e como, aquela noite, deve ter se apresentado precisamente em toda a sua inaceitabilidade: Carlo continuaria sempre a viver como lhe parecesse melhor; Carlo não levaria em conta as suas expectativas; Carlo não tinha a menor necessidade da sua ajuda; Carlo largaria até a universidade para transferir-se para Londres. E agora que também sou pai, não tenho dúvida de que papai se arrependeu de ter dado, naquela noite, frente ao bongue fumegante, liberdade a toda a sua raiva, impelindo o filho a fugir sempre para longe dele; Carlo tinha só vinte e dois anos, e, com toda a sua prepotência, era ainda tenro como um broto de bambu. Mas, sempre sendo agora pai, encontro aquela mesma raiva inteira, contra a mesma pessoa, e curiosamente diante do mesmo ultraje - droga na minha casa -, como se fosse um papel recebido por herança. E isso não está certo: é teatro, uma repetição do velho repertório de família - uma família, além de tudo, que não existe mais. Contudo, continuo a sentir-me furioso com Carlo, furioso e indignado, como papai. Por sorte, continuo a acariciar a fronte úmida de Claudia, e é como se a minha mão estivesse pousada sobre uma pedra curativa, porque sinto uma onda da sua tranqüilidade entrar em mim vinda dali, quente, lenitiva, darificadora; e, para começar, isso não é teatro, me digo, e meu irmão é aquele que é, e, sobretudo, não sou meu pai, e também fumei maconha na casa da Via Giotto, também com o bongue, também depois que ele foi embora, além disso, Carlo é um rico dependente químico, agora não o faz mais por pose, por provocação, por rebelião, o faz por necessidade, e uma vez que é um dependente químico precisa drogar-se absolutamente todos os dias, não pode pular nenhum, e uma vez que esta noite se encontra na minha casa precisa se drogar na minha casa, mas se meteu a fumar o seu ópio só depois que Claudia adormeceu antes se dedicou apenas a ela, levou-a para comer no restaurante japonês, trouxe-a para casa, jogou o Yahtzee, a pôs na cama e talvez tenha contado alguma história estapafúrdia enquanto ela adormecia, e Claudia o adora, literalmente, e o ponto é exatamente esse: Claudia o adora e não gostaria nunca que eu e ele brigássemos, por nenhuma razão no mundo, sem contar que um dia ou outro ela provavelmente fumará um baseado, talvez até mesmo nesta casa, e talvez eu me aperceba, e nesse dia não farei como o meu pai, preciso me controlar, entender, lembrar, preciso estar pronto para fazer a coisa certa, e então minha raiva de há pouco me parece completamente postiça, ridícula, não mais minha, e devo fazer cada vez menos esforço para dominá-la, sempre menos, sempre menos - até que, me dou conta, a raiva não existe mais... Quando tiro a mão do rosto de minha filha, e a escorrego velozmente pela porta para que a fumaça do ópio não entre, me sinto como alguém que acabou de evitar uma armadilha assassina. Tudo, agora, mas não brigar com meu irmão. - Quer? - me diz Carlo, à queima-roupa, assim que volto para a sala. Quer dizer o ópio se quero o ópio. Caralho, não o esperava. E agora? O que lhe digo, "não"? Existe uma expressão para dizer "não, obrigado" tão serena e normal como àquela com que ele me fez sua pergunta? E depois o que acontece? Eu vou deitar e ele continua aqui fumando sozinho? O ópio, então. Fumei tantos anos atrás, quando estava na universidade e estudava com certo Beppe Caramella, que não se sabia como tinha sempre ópio. Agradava-me: era literária, como droga, épica, gloriosa, dava uma sensação muito boa de distância e de frieza - a sensação de não pertencer mais, isso, àquilo que eu pertencia -, e não me fazia mal, depois. Ao menos é assim que o recordo. Desde então, nunca mais fumei. Carlo aspira outro longo pedaço de fumaça e me olha. Tá bom. Pro inferno. Um pouco de ópio não me fará mal, um pouco de ópio. - Dá aqui. - Senta - me diz meu esperto irmão. Eu me sento no sofá e ele me passa a folha de domopak. Mesmo que tenha desmaiado há pouco, não me fará mal. - Presta atenção - me diz. E me mostra como devo inclinar a folha de alumínio, ao centro da qual está uma bolinha marrom do tamanho de uma unha. - Eu sei, eu sei - digo, mesmo sem saber de fato. Com Beppe Caramella, fumávamos o ópio numa espécie de cachimbo, e ele fazia tudo, eu só precisava tragar. Carlo acende o isqueiro sob a folha de alumínio, e logo a bolinha de ópio começa a dissolver-se, soltando a fumaça. Escorre lisa como uma bola de mercúrio ao longo das dobras da folha, deixando para trás uma espuma marrom sutil, e só manipulá-la e olhá-la é algo de... - Vai, aspira - diz Carlo. Enfio o canudo na boca, aspiro. - Tudo - diz Carlo. - Aspira tudo. Olho Carlo e concordo: quer mesmo que me drogue, é isso mesmo. Com efeito, minha primeira tragada foi tímida: sobrou mais fumaça a flutuar no ar além daquela que mandei para dentro. Carlo acende de novo o isqueiro, eu puxo de novo assim que a fumaça começa a sair, e desta vez não desperdicei nem um pouco: tudo na minha boca, com o seu surpreendente sabor de estrebaria, de resina, de pão, de fruta, de grão, de leite, de papel e de incenso - bom, mas no limite da aversão; e da boca para baixo, quente, nos pulmões, mas, sobretudo, para cima, frio, no cérebro. Carlo me passa também o isqueiro, convidando-me a fazer sozinho. Com a folha na mão direita, o isqueiro na esquerda e o canudo na boca, acendo de novo e manobro a bolinha que derrete e aspiro o fumo pela terceira vez, profundamente - pro inferno - até o fim; repito a operação outra vez e depois paro, lhe passo toda a parafernália e me apóio no encosto do sofá. Agora ele recomeça a fumar, e enquanto fuma eu o observo na semi-obscuridade que vai ficando vítrea - ou melhor, granulosa - ou melhor, de gesso: é muito hábil em rolar a bolinha nas dobras da folha e em segui-la com o canudo na boca, demonstra uma habilidade que quase invejo malgrado o que significa. Dá um bocado de longos tragos, depois também se encosta, sorri - as malandras covinhas -, e eis que está na minha vez de novo, e agora trago uma, duas vezes, e existe afinco nos meus tragos, não queria dizê-lo, mas sou tinhoso, há competição, e depois de novo ele, e depois eu, e depois ele, pois é, a maldição de sermos irmãos, metade para um, uma vez para um, primeiro um depois o outro, como quando éramos pequenos, sobre o pônei no parque, ou sobre os discos voadores no Luna Park de Eur, ao lado de papai, e não vendamos nunca, nunca, toda vez era necessário que ficássemos até o fim, mas depois, no duelo final, éramos sempre abatidos, e fiquei com esse trauma de um-contra-outro por anos, não estou brincando, sempre tive medo dos duelos, pensei sempre que os perderia e por isso sempre os evitei, não só no Luna Park, quero dizer, mas na vida mesmo, sempre cuidadosamente evitada, os duelos, os tête-a-tête, o quanto fosse possível, até três anos atrás, até aquela maravilhosa epifania nos carrosséis do Castiglion della Pescaia, quando Claudia insistia que a levasse nos discos voadores, exatamente, e eu juntei coragem e a levei, já sofrendo pela humilhação que experimentaria dali a pouco, logo que algum papaizinho fodido junto ao filho seboso nos abatesse sem piedade, e sem nenhum mérito, acima de tudo, porque não é necessário dizer que aqueles discos voadores não atiram de verdade o quê, afinal? -é a mulher que vende os bilhetes na gaiolinha quem decide tudo, ela decide quem vence e quem perde, ainda que não saiba exatamente como faz se é um interruptor ou o quê, nunca entendi, e em suma saímos no disco voador e eu já penso em como justificar-me depois que tivermos perdido uma, duas, três, quatro vezes, quando Claudia começar a ficar triste, perdendo sempre, e ao contrário, vencemos, sim, os outros caíram um depois do outro, ficamos só com outro disco a atirar na gente por um longuíssimo momento, e ao final vencemos nós, incrível, vencemos até o duelo final, eles caindo e nós permanecendo no alto, e não só vencemos aquele duelo, mas dali em diante continuamos vencendo e não paramos mais, sempre permanecendo no alto, vencendo sempre, contra qualquer adversário, não tinha para ninguém, e é mesmo fantástico vencer dessa maneira, não existe mesmo nada melhor, vencer sem lutar, sem mérito, e sem fim, porque se ganha uma rápida cortesia e a mulher da bilheteria esta noite escolheu a nós, decidiu nos fazer entrar no formidável círculo mágico vitória rápida cortesia outra vitória - ou outra rápida cortesia, e talvez aqueles tenham sido os momentos mais bonitos da minha vida, sim, os momentos nos quais estive mais feliz, aquela noite, nos carrosséis de Castiglion della Pescaia, quando o último adversário que ousou nos encarar caiu no abismo e ficamos sós, Claudia e eu, lá em cima, circundados pelas luzes da costa que pontuam o negro do mar e acariciados pela brisa noturna que nos bagunça os cabelos, ambos certos, agora - e esta é a coisa sem igual-, que daqui a pouco acontecerá de novo, e depois de novo e de novo e de novo, ela porque está convicta de que seu pai é imbatível, eu porque sei que se trata de um milagre, que tenhamos sido escolhidos. No final, Claudia se fartou; juro: depois de dez ou talvez quinze vitórias seguidas, se fartou e quis ir ao bate-bate, e deixamos a rápida cortesia à outra dupla pai-criança, saindo imbatíveis, como Rocky Marciano... Carlo me olha, sorri me passa de novo o ópio. Um drogado. Eu sabia, não é que não o soubesse só que vê-lo com meus olhos me causa certo impacto. Carlo é um drogado. Na minha cabeça está tudo frio, agora, tudo congelado. A palavra drogado está congelada, e eu sou de novo o meu pai, sou meu pai no gelo ártico da palavra pai, que tem razão, agora - uma razão congelada -, porque era verdade, sempre foi verdade, o uso das drogas leves leva ao uso das drogas pesadas, é tão simples, como diabos faziam os meus filhos - olha ali, o rebelde e aquele dissimulado do outro -, que merda faziam os dois malucos para sustentar o contrário? Você sabe quais foram os momentos mais bonitos da minha vida? O quê? Eu disse: você sabe quais foram os momentos mais bonitos da minha, da minha vida? Espera, pára tudo: isso é telepatia, como diabos faz Carlo para... Você se lembra de quando a mamãe nos levava ao parque da Villa Celimontana? Se lembra de quando eu subia no balanço e você torcia as cordas? Mamãe não deixava, mas nós esperávamos que ela se distraísse e, quando se distraía, você torcia as cordas, e torcia tanto que eu não entrava mais no balanço, precisava abaixar a cabeça e ficar todo espremido esperando que você terminasse de torcê-las e as soltasse. As cordas começavam a desenrolar-se e eu, no balanço, começava a rodar, e rodava, rodava, cada vez mais forte, cada vez mais rápido, se lembra? E quando a mamãe se dava conta era tarde, não podia fazer mais nada para deter aquele redemoinho, e a certo ponto as cordas acabavam de se desenrolar, mas então eu girava tão rápido que depois, numa espécie de impulso, elas se enrolavam na outra direção, mas menos, e depois se desenrolavam de novo, e se reenrolavam na outra direção, e ia seguindo até que o balanço parava e a mamãe se irritava e nos levava embora. Pronto, era quando acabava o primeiro desenrolar, aquele velocíssimo, na hora do impulso, antes que as cordas começassem a se enrolar na outra direção: aquele era o momento verdadeiramente fantástico. Nunca mais vivi momentos assim, era tudo que eu queria na vida: havia uma força imensa e inexorável, havia a velocidade, havia o medo, e, portanto, havia também a coragem e a adrenalina, e depois havia a tontura, naturalmente, porque com aquele girar todo não entendia mais porra nenhuma; e naquele instante do impulso tudo isso era insuportavelmente intenso, compreende? Tão intenso que me fazia sentir grande, enorme, para conseguir experimentá-lo, para contê-lo. Tentei milhões de vezes reproduzir aquele instante: com o surfe, com pára-quedas, com bungee jumping, com as drogas, e, não obstante chegasse perto - porque havia a força, havia a adrenalina, a tontura e o cagaço -, faltava sempre alguma coisa. Você diria que me faltava o fato de ser um menino, mas lhe garanto que não é isso, garanto-lhe que quando se salta durante o vôo de um avião, ou quando você experimenta pela primeira vez uma droga forte e desconhecida, você é um menino. Não, não é isso. Aquilo que falta é muito simplesmente o que não existe mais. Falta você; falta a mamãe. Silêncio......"


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Minha amiga Arlete Mendes, no Natal de 2007 me presenteou dois livros: O Filho Eterno e Caos Calmo.


 

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