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Coisas do Mundo

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Coisas do Mundo

Livro Ruim - 1 comentário

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Autor: Eric Nepomuceno

Editora: Nova Fronteira

Assunto: Contos

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 171

Ano de edição: 1994

Peso: 220 g

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Ruim
Marcio Mafra
19/10/2004 às 19:33
Brasília - DF

Eric Nepomuceno é considerado um escritor latino-americano, da gema. Coisas do Mundo, foi premiado no México. Ele tem nome, livros, amigos e artigos em Madri, Argentina, México, Uruguai, Cuba, Chile e Nicarágua. Contos e crônicas são gêneros de livros, que se lidos fora do contexto ou época em que foram escritos, nem sempre são saborosos. Assim, cronista nordestino não tem muita graça, se lido pelos sulistas. Contista Argentino quase não é compreendido na Colômbia. Coisas do Mundo é assim: a leitura não flui, não engata, não tem elã, embora o autor seja um craque da escrita.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Quatorze contos:

Meu pé direito;

Coisas do mundo;

A pilha gasta;

La suzanita;

O nosso ofício;

A pergunta;

General, general, general;

Tanto tempo;

A noiva do pelotão;

Coisas da vida;

As três estações;

Quando o canário;

Noite de sexta-feira; e

Bangladesh, talvez.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A pilha gasta. Vicente Mazzullo tem setenta e dois anos e durante trinta e cinco foi um bom engenheiro agrônomo. Depois veio a aposentadoria, e há tempos ele não faz mais do que cuidar do pequeno jardim da sua casa na rua Luíza Sua alegria é marcar os limites de cada canteiro com barbante, e depois ficar observando, olhos tranquilos, o que acontece com suas pequenas plantas. Vicente Mazzullo tem setenta e dois anos e é surdo e usa um pequeno aparelho para surdos, desses de pilha, que parece um rádio portátil, pequeno, quase nada. Os meninos da rua Luíza gritam: "Vicente, Vicente!", e dão risada de seu aparelho que parece um radinho de pilha, sempre um ruído de cachoeira em seu ouvido surdo, a pilha sempre gasta, e os meninos gritando coisas que ele não entende e depois dando risada. Faz tempo que Vicente Mazzullo diz: "Isto não é vida". As vezes, nem chega a dizer: move os lábios em silêncio. Como agora, sentando no banco de madeira, os olhos nas pontas dos sapatos marrons, no corredor que vai leva-lo daqui. O mês de julho sempre foi difícil para Vicente Mazzullo. Não tanto pelo clima: pelas férias. Os meninos da rua Luíza não viajam. Ficam por ali, na rua, na calçada, nos muros. Gritam coisas que ele não entende, coisas que a pilha gasta, a cachoeira dentro do ouvido, silenciam. No último dia deste último mês de julho os meninos tentaram aproveitar o pouco vento para soltar pipas na rua Luíza Alguns desistiram do vento e se aproximaram do muro descascado da casa número 481 da rua Luíza Atras do muro, ajoelhado na terra com o ar cansado e alheio dos surdos, Vicente estendia barbante ao redor de um canteiro novo, de gerânios brancos. Os meninos com os braços e as caras por cima do muro gritavam: "Vicente, dá barbante prá gente, Vicente?". E gritavam: "Alô, Vicente, tá ouvindo a gente? Alô alô, Vicente, tá ouvindo a gente?". Vicente Mazzullo gritava de volta: "Sumam daqui!". E os meninos da rua Luíza riam: "Alô alô, Vicente, tá surdo ou tá ouvindo a gente?". E riam mais e mais. E porque isto não é vida, Vicente Mazzullo entrou correndo em casa, tropeçando nas próprias pernas, enquanto os meninos, rindo sempre, pularam o muro e puxaram o barbante recém-estendido ao redor do canteiro novo, de gerânios brancos. Vicente Mazzullo entrou correndo em casa e voltou com uma pistola negra, uma pequena Mauser 7.65, perfeita na palma da mão. E porque isto não é vida, saiu correndo pela rua, correndo atrás de José e de Nicanor, a pequena pistola negra perfeita na palma da mão. José entrou correndo em casa e Vicente tropeçou, levantou aprumado e correu casa adentro, e quando o outro José, pai do José menino, chegou para ver o que estava acontecendo, viu o que ia acontecer: Vicente Mazzullo, a pequena pistola negra perfeita na palma da mão, disparou duas vezes, dois tiros na cabeça de José, pai do menino José. E então veio Suely, que tinha dezessete anos e estudava piano e era irmã de José menino e filha do José morto e tinha ainda um namorado que a apertava com delicada fúria nas noites de inverno, e veio Suely e gritou e Vicente Mazzullo apertou o gatilho mais duas vezes: dois tiros na boca de Suely, que fez um estranho ruído, como se arfasse, como se repetisse ali o mesmo arfar aflito de quando o namorado apertava com delicada fúria seu corpo nas noites de inverno. Depois, e enfim, apareceu Tereza, que tinha trinta e sete anos e era mulher de um José, o morto, e mãe do outro José, o menino, que olhava o mundo com olhos de terror, e de Suely, que abria os olhos para alguma coisa que nunca mais iria ver. Tereza entrou na sala e viu o marido morto e a filha morta e os olhos de terror do filho calado e viu Vicente Mazzullo, a pequena pistola negra perfeita na palma da mão, e Vicente apertou, um tanto exausto, o gatilho outra vez: a quinta vez. Tereza caiu com o tiro ali mesmo, na sala, cansada ela também. Na cabeça de Vicente, a certeza de que isto não é vida. Na cabeça de Vicente, a cachoeira.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

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