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Redemoinho em Dia Quente

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Redemoinho em Dia Quente

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Autor: Jarid Arraes  

Editora: Alfaguara

Assunto: Contos

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 127

Ano de edição: 2019

Peso: 210 g

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Ótimo
Marcio Mafra
30/04/2020 às 17:01
Brasília - DF
Jarid Arraes, filha e neta de cordelistas, possui instruções genéticas em seu DNA de grande parte da cultura nordestina, bem refletida em seus contos, tanto nos temas como questões de identidade e costumes arraigados na gente cearense até os dias atuais.
Seus personagens – homens ou mulheres – não podem ser classificados como gente comum porque retratam algum realismo, muita fantasia e bastante crítica social, embora transitem por gênero, raça e sexualidade.
Leitura muito boa, encantadora e gostosa.

Marcio Mafra
30/04/2020 às 00:00
Brasília - DF
“Redemoinho em Dia Quente” são 30 contos, editados em duas partes distintas. No primeiro capítulo intitulado de “Sala das Candeiais” são 18 contos que versam sobre identidade e costumes. No segundo capitulo “ Espada no Coração” são os outros 12 contos mais sobre gênero, raça e sexualidade.
Marcio Mafra
30/04/2020 às 00:00
Brasília - DF
Marrom-escuro, marrom-claro Minha avó morava numa casa com jardim logo na frente. Parecia até uma daquelas casas de filme, só que, em vez de uma cerca branca, tinha um muro bem baixinho e dois portões pretos de ferro. Eu gostava de sentar no muro e assistir aos carros, às pessoas, aos jumentos passando. Sempre esquecia de levar meus brinquedos pra lá, daí ficava dias e dias contando as cores dos carros. Quando eu tinha seis ou sete anos, abriu uma locadora de video game na calçada da frente. E aí minhas férias se resumiam a pedir dinheiro aos adultos pra jogar Street Fighter. Cinquenta centavos, meia hora. Oitenta centavos, uma hora. Eu sentava na cadeira de macarrão verde e jogava na doida, apertando todos os botões, mas sempre ganhava dos meninos. Numa dessas vezes, conheci Diego. Ele morava na casa ao lado da locadora, uma casinha pequena com porta de madeira e um janelão que vivia fechado. Eu nunca entrei lá, ele dizia que a mãe era chata e não gostava de receber visitas. Então a gente brincava no jardim da minha avó, que não tinha flor nenhuma, só grama mesmo, e no alpendre onde tinha um sofá de cipó seco. As pernas ficavam marcadas de um jeito engraçado. A gente conversava muito, mesmo enquanto jogava Street Fighter. Eu sempre escolhia a Chun Li, mas ele trocava toda vez. Quase sempre perdia e aí botava a culpa nos personagens. Ele que era ruim mesmo, tentava acertar os golpes que a dona da locadora ensinava, x com y e duas vezes pra esquerda, e não conseguia fazer nada direito. Por isso que eu apertava tudo junto. Dava certo. Diego foi o meu primeiro melhor amigo, mesmo que a gente só se encontrasse duas ou três vezes no ano, nas férias da escola e, às vezes, na semana do meu aniversário. Não lembro quando era o aniversário de Diego, nem se ele estudava. Só lembro da gente sentado na calçada, as quatro pernas coladas e as risadas que a gente dava. Ele colocava o braço ao lado do meu e dizia que o meu marrom era menos marrom que o dele. Eu achava isso um absurdo. Todo marrom é marrom, não tem um que seja mais que o outro. Ele dizia que o dele era mais forte e brilhava mais. Eu ficava emburrada. Queria brilhar também. Do lado da sua prima, você brilha. Ele falava sempre que eu ficava de cara fechada. Minha prima era ruiva, os cabelos lisos, o rosto cheinho de sardas. Eu não queria ser ruiva, mas queria ser como ela, ganhar os presentes que ela ganhava, passear com o pai para os lugares que ela passeava, ter as barbies boas que ela tinha, e não aquelas de plástico oco que minha avó me dava. Uma vez, ela disse que eu tinha roubado uma caixinha de música que era um porta-jóias e tinha uma bailarina rodopiando. Ela gritou que era dela, que eu tinha roubado, que eu era uma ladrona. Me doeu muito ser chamada de ladrona, com sete letras. Diego foi quem acreditou em mim primeiro, depois foi minha mãe. Quer dizer, não sei se minha mãe acreditou, ela só confirmou que a caixinha era minha. Que era nossa, ela disse. Mas eu não me lembro de ter ganhado a caixinha. Acho que minha mãe só queria me proteger. Acho que eu roubei mesmo, mas não lembro como e nem quando. Até hoje essa história da caixinha fica futucando meu estômago. Diego parado do lado de fora, tentando escutar a briga, e eu chorando dizendo que não era ladrona, não. Eu não roubei nada, vó, a caixinha é minha. Chorei tanto que fiquei com dor de barriga, passei a tarde inteira no banheiro. Quando eu saí, já era de noitinha, e Diego tava na calçada me esperando. Trouxe duas bolachas de chocolate pra mim. Não aguentou esperar tanto e comeu as outras quatro do pacote. Depois de um tempo as coisas ficaram um pouco estranhas. Quando a gente brincava, sempre dava em briga. Sempre que eu ganhava no video game, ou quando eu não queria deitar na grama, porque me dava uma coçadeira danada, ou se eu escolhia o último picolé de cajá, ou quando eu queria assistir ao Domingo Legal e ele queria sentar na calçada pra contar carros. A gente brigava e eu entrava na casa da minha avó e ficava na sala fingindo assistir à televisão, enquanto ele botava a cara na janela aberta, ajoelhava no sofá de cipó e me chamava baixinho. Ei, ei, ei, ei. Quando eu achava que já tinha castigado o suficiente, voltava pra fora. Uma vez, minha prima saiu e foi conversar com ele. Eu fiquei com ciúmes, com medo de que ela roubasse meu amigo só pra se vingar pela caixinha de música. Olhei e vi os dois cochichando e Diego com cara de triste. Fui chegando perto da janela pra tentar ouvir e, de repente, minha prima gritou que Diego gostava de mim. Gostava assim de outro jeito que não era só como amigo. Ele pediu um beijo, um selinho. Fiquei pensando em como seria dar um selinho nele. As duas boquinhas se juntando e estralando em dois bicos, a gente sem jeito, depois com vergonha. Não pensei mais longe que isso, só disse que não ia dar beijo em ninguém. Eu lembro que ele chorou e eu fui me esconder no quarto. Só depois de quatro dias que voltamos a sentar na calçada pra conversar e contar carros. Eu estava ganhando com oito vermelhos contra três brancos, mas aí Diego achou melhor interromper tudo e vestir uma expressão muito séria. - Eu tenho que te contar uma coisa. Fiquei caladinha, assustada com o tamanho da expectativa que crescia na minha barriga. - Minha mãe disse que a gente não pode mais ser amigo. Eu quis saber o motivo. Diego começou a chorar e eu segurei a mão dele bem forte. As lágrimas dele brilhando no rosto marrom-escuro. Minhas lágrimas brilhando no rosto marrom-claro. - Ela disse que você é rica e eu sou pobre e a gente não pode ser amigo. Achei muito injusto que a mãe dele visse o jardim de grama da minha avó e pensasse que eu era rica. Eu só ia pra lá duas vezes por ano. Não era minha casa. Eu não era rica, eu nem tinha uma Barbie boa, que vinha com roupinha que parecia roupa de gente. Eu nem tinha ganhado a Barbie grávida que vinha com um bebezinho que você empurrava na barriga e tapava com uma parte que encaixava e imitava um bucho de grávida de verdade. Eu nem era ruiva e sardenta que nem minha prima, com os vestidos dela, os sapatos dela e os passeios com o pai. A gente chorou, chorou e chorou até ficar tarde da noite, que era a nossa última noite como amigos. Ele levantou e foi embora me olhando até entrar em casa. Depois olhou mais um pouco de dentro, pela porta de madeira, e aí a mãe dele fechou a brecha e eu nunca mais vi Diego.

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Marcio Mafra
30/04/2020 às 00:00
Brasília - DF
Em Agosto de 2019, a mídia especializada fez muita propaganda dos autores que participaram da FLIP 2019 que aconteceu em Paraty, Rio de Janeiro, entre 10 e 14 de julho. Era o PÓS FLIP, um movimento patrocinado pelos editores que precisavam vender os livros dos autores “convidados da Flip”. A conhecida Festa Literária Internacional de Paraty que acontece desde 2003, no ano de 2019 não teve o sucesso financeiro desejado. Era o primeiro ano do governo Bolsonaro, quando o Ministério da Cultura foi extinto logo no início do governo e recriado pouco depois, tendo sido cortadas grande parte das verbas destinadas no orçamento da União para a cultura. Também a economia em 2019 ainda capengava da recessão porque o país tinha recuperado apenas 30% do que fora perdido na crise política de 2016/2018. A crise fora provocada pelo impeachment da Presidente Dilma Roosevelt e do governo tampão Michel Temer. Então o PÓS EVENTO fez as editoras publicarem ou republicar: (1) Welcome To Copacabana do autor Edney Silvestre (2) Se eu Fechar os Olhos Agora do autor Edney Silvestre (3) Memórias da Plantação da autora Grada Kilomba (4) O Corpo Dela e Outras Farras da autora Carmen Maria Machado (5) Noites em Caracas da autora Karina Borgo (6) Uma Noite Markovitch da autora Aylet Gundar Goshen (7) Também os Brancos Sabem Dançar, do autor Kalaf Epalanga (8) Fique Comigo da autora Ayobani Adebayad, (9) Talvez Ester da autora Katja Petrowskaja (10) Redemoinho em Dia Quente da autora Jarid Arraes (11) No Armário do Vaticano do autor Frédéric Martel (12) Ideias para Adiar o Fim do Mundo do autor Ailton Krenac (13) A Terra Inabitável do autor David Walace Wels (14) Os Dias da Crise do autor Jerônimo Teixeira (15) Oráculo da Noite do autor Sidarta Ribeiro e ainda (16) A Mãe da Sua Mãe da autora Maria José Silveira. Comprei todos os 16 livros porque Livronautas não poderia deixar passar em brancas nuvens esta crise literária, econômica e política.

 

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