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Uma Noite em Curitiba

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Uma Noite em Curitiba

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Autor: Cristovão Tezza  

Editora: Rocco

Assunto: Romance

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 171

Ano de edição: 1994

Peso: 215 g

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Bom
Marcio Mafra
19/09/2004 às 18:04
Brasília - DF

Cristovão Tezza é um escritor de tamanho grande. Em Uma Noite Em Curitiba é uma história engraçada, mas pouco interessante. O personagem principal, que domina todo o livro é o professor e historiador Frederico Rennon. Ele acaba se apaixonando pela atriz Sara Donavan, que já tinha tido dias melhores em sua carreira. Ela tinha sido uma de suas namoradas há mais de 25 anos, quando solteiro. A evolução do romance acontece através da leitura de cartas que o professor escrevera e escreve para a sua amada. Ele era muito formal e nunca teve experiência extra conjugal. O seu filho as lê no computador e pensa em mostrá-las à sua mãe, a mulher do Professor. As cartas, como toda carta é um monólogo, mas mesmo assim elas são muito longas. O final não é surpreendente.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história do Professor Frederico Rennom, cinqüentão, casado, que revive uma paixão pela atriz Sara Donavan.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Carta 11. Dia 9. 13hs. Sara. Quantos acontecimentos extraordinários em tão curto espaço! O elástico da minha vida, tão caprichosamente esticadinho, soltou-se de repente - zap! - e agora me vejo, figura de desenho animado, de cabeça para baixo, nessa desordem saborosa de todos os objetos - e a tempestade continua, um túnel de vento que me leva e eu não resisto, porque é muito bom. Você é o meu diário. Quem sabe ao fim de tudo eu faça um pacote dessas cartas e mande a você, minha Estrela? Sinto a compulsão da memória: o historiador não pode parar. Hoje estou aqui, mas há lacunas no mapa de ontem, de anteontem! Quero preencher todos os vazios. Como o teatro, meu amor; você sabe. Aberta a cortina, os gestos se sucedem na exata progressão do tempo. Eu preciso revê-los, ensaiá-los, desenhá-los um a um, para saber em que ponto estou, como estou, o que fiz e quem sou. Ou quem somos, assim duplos. Onde eu estava? Na hora do almoço, mas não hoje. Margarida me faz perguntas atravessadas. Setas que, batendo numa parede, refletindo em outra, acabam raspando na minha cabeça. É o nosso estilo. Ela diz - ou sugere - que eu estou ausente. Mal começo a desmentir, com o exagero furioso do amador - então ela não sabe que eu estou até o pescoço envolvido nas palestras?! - o chato do meu filho diz que viu a conferência de Sara Donovan. A primeira. Não sei se ele foi apenas inocente ao te elogiar com tanta ênfase. - Que presença! Que agilidade! Que simpatia! E que experiência de vida ela tem, não é, pai? É possível. Mas farejei alguma agressão no ar, um certo envenenamento dos gestos e da respiração coletiva. Você tem razão, Sara. Decidir. Acabar com isso. Cansaço. É provável que o clima esteja apenas na minha cabeça: tenho a sensação de estar sendo perseguido. Eles sabem - mas não dizem - que eu não fui e não sou um bom pai. Talvez tenham a esperança de que ep ainda venha a ser um bom pai. Dói muito a ausência de Lucila. E como se todas as manhãs eu recebesse um envelope com uma folha em branco, sem texto nem remetente. Durante muitos anos eu desenvolvi técnicas precisas para atravessar as ruas com segurança e para administrar o esquecimento. Vamos esquecendo, mas o esquecimento, ano após ano, vai inchando seu vazio incolor e indolor, ocupando os buracos da parede, esbarrando discretamente nas nossas pernas. Esquecer: uma bela e difícil tarefa. Esqueci pelo negativo: meu trabalho profissional é lembrar como as coisas de fato aconteceram. As coisas dos outros, não as minhas, porque eu não tenho valor histórico - minha participação na História do Mundo é, digamos, 0,000000000001. Menos que isso: divida-se a minha vida pelo número de habitantes que compartilharam a Terra comigo e chegaremos à Taxa Individual de Participação Histórica. Provavelmente algum pesquisador americano já criou essa taxa, com métodos precisos de mensuração. A taxa deve prever algumas variáveis, para mais e para menos. Por exemplo: sou professor, o que aumenta um tantinho minha participação, como multiplicador (no varejo) de opinião. Como pesquisador, meus livros atingiram a marca total de (até março passado) 7.832 exemplares vendidos ou cedidos para divulgação. Mais um pouquinho de participação histórica. Mas como medir a importância dessa participação? Alguém terá mudado em algum grau seu comportamento depois de ler meu trabalho sobre a escravatura brasileira? Exercício de atividade política, eleita ou não: zero. Redução da taxa. Participação em levantes, insurreições, motins, revoluções, luta armada: zero. Redução da taxa. Participação em greves: doze... Não. Treze vezes. Conseqüências históricas: aumento sazonal de salário, fortalecimento da defesa da universidade pública (melhor: generalização da idéia de que a universidade pública é um bom projeto brasileiro). Outra conseqüência, pelo avesso dialético: fortalecimento dos grupos que defendem a privatização do ensino, como resistência estratégica. Dividindo-se o número total de grevistas por treze (qualquer coisa assim, não sou matemático), chegamos à minha taxa de Participação Histórica, que deve ser acrescida por Um pequeno bônus referente à minha relativa importância como destacado professor da Instituição. Resultado global: zero vírgula zero zero zero zero... Uma placa de coca-cola agiu mais sobre o mundo do que eu. (É preciso agora fazer a tabela comparativa entre o quantitativo e o qualitativo, e as variáveis que fazem um dado pesar mais que outro.) Mas eu tenho um trunfo raro, completamente esquecido, prescrito e proscrito, ausente, mas mesmo assim vivo e pulsante. Comprove, minha Sara: Número de homicídios: Isto é, pertenço àquela faixa minoritária porém atuante dos seres que retiram peças do tabuleiro histórico, o que, pelo menos na perspectiva quantitativa, promove substanciais mudanças de rumo. Claro, também aí é preciso avaliar a importância da peça suprimida: um Rei, um Bispo, uma Torre? Não. Um peãozinho, no meu caso. Quer dizer, talvez eu. Esse embrulho no estômago. É o esquecimento e suas pontas imaginárias. Nunca, mas nunca mais falamos disso, não é? Nem ontem. E no entanto Minha mulher me pergunta o que houve. Fiz um estrago no banheiro. Um vômito pavoroso. A substância da alma expulsa o esquecimento invasor; todos os músculos conspiram, trabalham, exalam, fumegam, expulsam - e nós, lá em cima, assistimos a esse espetáculo grotesco. Você está pálido, Frederico. Alguma coisa te fez mal? Me deixe em paz. Eu estou mais ou menos morto - vai depender de mim a sobrevivência. Meu filho achou graça do desastre, mas ficou quieto. Nunca, nunca falamos disso. Nunca falamos qualquer coisa: só ontem. Também ontem falamos pouco, e sempre do que não importa. Não, minha Sara. Não foi isso que eu quis dizer. Claro que importa. Não há tarefa mais difícil para um homem do que ficar nu. O início é corriqueiro: as mãos desabotoam - e a pele, acanhada, provinciana, miudinha, afora sua geografia despedaçada. Quer dizer, eu: manchas, pêlos, riscos, suores, a relativa desproporção dos volumes, as inutilidades adiposas e flácidas, a definitiva impossibilidade da estátua de bronze, para sempre enterrada na História. Você não, minha diva: uma deusa é uma deusa de carne, osso e alma. Nada destrói aqueles a quem outorgamos divindade. Você está nos meus olhos. Há vinte e cinco anos você estava só em você, e isso era insuficiente. Os velhos pombinhos se amam. Sou um velho ridículo. Ridículo, porém apaixonado. O que eu queria era calar você, e isso eu consegui. Não, meu amor e minha cúmplice: não é machismo. Calar: tocar fundo, como só o silêncio faz. De início corriqueira, a nudez vai mostrando as patas. Patas, dentes, unhas, línguas, olhos, todos os fragmentos do desejo. A nudez é úmida, indócil, exigente. A nudez ri por inteira sua zombaria exclusiva, gargalha nosso desamparo. Você é assim: uma mulher nua. Pernas que se movem por conta própria, você é uma índia sem inocência: estratos e mais estratos da civilização do desejo. Há uma metafísica neste ponto-ômega da liberdade, um horizonte de transcendência no desejo que quer ser somente ele mesmo. A natureza, em estado bruto, terá alma? Meu gemido final: tão alto o esquecimento, tão terrível a queda. Você sabe do que estou falando, minha Sara: eu estou perigosamente me entregando ao esquecimento. Meu amor por você será uma espécie complicada de desistência. Você estará disposta a se entregar a este risco? Como sempre, nenhum gesto meu será leviano. Você será, meu amor, minha viagem sem volta. Compreenda: eu desisti.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Porque Cristovão Tezza foi convidado da Flip 2009, já em abril comprei alguns de seus livros, embora já o conhecesse desde dezembro de 2007 com O Filho Eterno.


 

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