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De Amor e Trevas

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De Amor e Trevas

Livro Bom - 1 comentário

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Autor: Amós OZ

Editora: Companhia das Letras

Assunto: Romance

Traduzido por: Milton Lando

Páginas: 617

Ano de edição: 2005

Peso: 865 g

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Bom
Marcio Mafra
19/06/2009 às 01:07
Brasília - DF

De Amor e Trevas é mistura autobiográfica, de memórias e lutas cotidianas. Narrado na primeira pessoa conta a vida, os costumes, as guerras e as agruras da nação que o autor ajudou a criar: Israel. Gente proveniente de todos os lugares do mundo, marcadas pela tensão da guerra interminável, resulta em cidadãos tensos, briguentos e, às vezes, furiosos. O sentimento de nostalgia, perda e solidão é muito forte entre os israelitas. Amoz Oz traz estes elementos para seu romance e as inquietações de diversas gerações de sonhadores, intelectuais, reformistas, religiosos ortodoxos, e combatentes rebeldes. Algumas celebridades históricas viram personagens, como David Bem-Gurion, um dos fundadores do Estado de Israel, o chefe de organizações clandestinas e primeiro-ministro Menahem Begin, e o Nobel de Literatura, S. Agnon. O livro é a criação romanceada dos caminhos percorridos pelos judeus no seculo 20, desde a diáspora até a fundação do Estado e a história do sionismo. A leitura não é simples, embora o bojo da história tenha sido romanceada. Se o leitor não conhecer - ainda que levemente - o espírito judeu e o espírito sionista, certamente não ficará emocionado e poderá achar muitas passagens cruas e chatas. Vale a leitura.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história da vida do autor, Amós OZ, (OZ em hebraico significa Coragem) devidamente romanceada para caber nos 120 anos da história e das raízes judaicas de sua família.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Quando eu tinha uns seis anos de idade, chegou o grande dia para mim: papai esvaziou um cantinho da uma de suas estantes e permitiu que eu transferisse meus livros para lá. Para ser mais preciso, ele me deu uns trinta centímetros, mais ou menos a quarta parte da prateleira mais baixa. Abracei meus livros, que até então viviam deitados sobre o tapete, ao lado da minha cama, e os carreguei até a estante de papai e os arrumei em pé, as costas voltadas para o mundo exterior, e a frente, para a parede. Aquele foi um ritual de iniciação, o verdadeiro rito de passagem para a idade adulta: o indivíduo cujos livros ficam de pé já é um homem, não mais uma criança. Agora eu era como meu pai. Meus livros estavam de pé. Cometi um erro terrível. Meu pai foi trabalhar, e eu estava livre para fazer no meu espaço da estante tudo o que quisesse. Mas eu tinha idéias completamente infantis sobre como fazer as coisas. Aconteceu, então, que arrumei meus livros pela altura. Os mais altos eram justamente os que empurravam mais para baixo meu amor-próprio - eram livros infantis, com sinaizinhos indicando as vogais, em versos, ilustrados, que eram lidos para mim quando eu era bebê. Coloquei-os na estante, porque queria preencher completamente todo o espaço que me havia sido cedido na prateleira. Quis que o meu cantinho de livros ficasse repleto, abarrotado, transbordando, como o de meu pai. Ainda estava tomado de euforia quando meu pai chegou do trabalho. Lançou um olhar surpreso para minha prateleira, e depois fitou-me longamente, em absoluto silêncio, de um jeito que nunca vou esquecer: era um olhar de desprezo, de profundo desapontamento, que ia além de qualquer coisa que pudesse ser expressa por palavras, quase um olhar de total desespero genético. Por fim, sibilou entre dentes: "Diga-me, por obséquio, você está maluco? Pela altura? Por acaso os livros são soldados? Ou algum tipo de guarda de honra? É o desfile da banda de bombeiros?". E se calou. Fez-se um silêncio longo e terrível. Um silêncio tipo Gregor Samsa, como se eu tivesse me transformado numa barata bem na sua frente. De minha parte também houve um silêncio, culpado, como se eu fosse de fato um mísero inseto e só naquele momento o tivesse percebido, e dali em diante tudo estivesse perdido para todo o sempre. Ao final do silêncio, meu pai me revelou, ao longo de vinte minutos, todos os fatos da vida. Não escondeu nada. Introduziu-me em todos os segredos mais ocultos e recônditos da biblioteconomia. Descortinou ante meus olhos ávidos desde as vias principais até os atalhos nos bosques, do panorama estonteante das criações às nuances, fantasias, vias remotas, sistemas ousados e mesmo excentricidades caprichosas. Podemos arrumar livros pelos títulos, pelos nomes dos autores em ordem alfabética, por editoras, pela cronologia, por idiomas, pelo gênero e pelo assunto, e até pelo local em que foram impressos. Um leque de alternativas. Foi assim que aprendi os segredos da diversidade: a vida é feita de diversas trajetórias. Tudo pode acontecer de um jeito ou de outro. Por sistemas diversos e por lógicas paralelas. Cada uma das lógicas aceitas é uma lógica consistente com sua própria visão, completa e coerente em si mesma, indiferente a todas as demais. Nos dias que se seguiram passei horas e horas organizando minha pequena biblioteca - vinte ou trinta livros, que eu arrumava e desarrumava como as cartas de um baralho, arranjava e voltava a arranjar por todo tipo de lógica e segundo todo tipo de gosto. Assim aprendi com os livros a arte da composição: não pelo que estava escrito neles, mas por eles mesmos, pela sua própria natureza física. Os livros me ensinaram sobre as regiões vertiginosas dessa terra de ninguém, ou zona de sombra entre o permitido e o proibido, entre o legítimo e o excêntrico, entre o normativo e o bizarro. Essa lição tem me acompanhado por todos esses anos. Quando cheguei ao amor, já não era um recruta inexperiente, sabia que existem diversas combinações possíveis. Há a auto-estrada, há as estradas panorâmicas e há as sendas perdidas, quase inexploradas, que o pé do homem raramente palmilhou. Há o permitido que é quase proibido, e há o proibido que é quase permitido. Tem de tudo. Às vezes meus pais me deixavam tirar livros das estantes de meu pai e levá-los para fora, para o quintal, a fim de espanar a poeira: não mais de três livros de cada vez, para não alterar a arrumação e ter certeza de que cada um deles retornaria a seu lugar exato. Era uma responsabilidade e tanto, mas prazerosa, pois achava o cheiro de pó dos livros tão excitante que às vezes chegava a esquecer a obrigação, a responsabilidade, e me deixava ficar no quintal, não voltava para casa até mamãe, preocupada, enviar meu pai em missão de resgate, para verificar se eu havia tido uma insolação ou fora mordido por algum cachorro. E ele sempre me descobria encolhido num canto do quintal, mergulhado na leitura, os joelhos dobrados, a cabeça inclinada e a boca semi-aberta. Quando papai perguntava, num tom que ficava entre a repreensão e o carinho, o que havia comigo, eu precisava de um bom tempo para voltar a este mundo, como alguém que, tendo se afogado ou desmaiado, retomasse bem devagar, contra a sua vontade, de muito longe, de distâncias inimagináveis, ao vale de lágrimas dos singelos deveres cotidianos. Durante toda a minha infância eu gostei de arrumar coisas, de espalhá-las e arrumar de novo, cada vez de um jeito um pouco diferente. Três ou quatro porta-ovos vazios podiam se transformar numa linha de fortificações, ou numa flotilha de submarinos, ou numa reunião de líderes das grandes potências em Yalta. De quando em quando fazia rápidas incursões nos domínios da mais desenfreada desordem. Havia algo de muito ousado e sedutor naquilo: gostava de espalhar pelo chão o conteúdo de uma caixa de fósforos e depois tentar montar, ou classificar de todas as inúmeras maneiras possíveis. Durante os anos da Segunda Guerra Mundial meu pai mantinha pendurado no corredor um grande mapa dos diversos campos de batalha na Europa, com bandeirinhas e alfinetes coloridos. Papai mudava as posições a cada dois ou três dias, de acordo com o noticiário do rádio. E eu construí uma realidade paralela: estendia sobre o tapete o meu próprio teatro de operações, uma realidade virtual, onde eu deslocava exércitos e divisões, comandava ataques pelos flancos, empreendia operações destinadas a confundir o inimigo, desmantelava cabeças-de-ponte, executava manobras de cerco, ordenava recuos táticos e os aproveitava para desencadear ataques estratégicos fulminantes. Eu era um menino com fome de história. Tentava corrigir os erros dos generais do passado, por exemplo, recriando a grande revolta dos judeus contra os romanos, salvando Jerusalém da destruição pelas tropas de Tito, e, ao fazer que a campanha se desenrolasse em território inimigo, levei os batalhões de Bar Kochba até aos muros de Roma, conquistei rapidamente o Coliseu e hasteei a bandeira hebraica sobre a colina do Capitólio. Para isso bastou transferir a Brigada Judaica do Exército Britânico para a época do Segundo Templo. Tive o prazer de constatar o estrago que duas metralhadoras podiam fazer nas magníficas legiões de Adriano e Tito, apagados sejam seus nomes. Um avião leve, apenas um único Piper, é capaz de fazer, em meu tapete, o arrogante Império Romano se prostrar de joelhos. A luta desesperada dos defensores da Massada; foi transformada em fulminante vitória judaica, com a ajuda de um morteiro e de algumas granadas de mão. E a verdade é que essa estranha vontade que eu tinha quando pequeno - a de dar uma segunda chance ao que não tem nem vai ter segunda chance - é uma das coisas que impelem a minha mão também agora - toda vez que me sento para escrever uma história. Aconteceram muitas coisas em Jerusalém. A cidade foi destruída e reconstruída destruída e novamente reconstruída. Conquistadores tomaram Jerusalém inúmeras vezes. Governavam por um tempo, legavam à cidade alguns muros e torres, vasos de cerâmica e documentos de pergaminho, e desapareciam. Evaporavam como a neblina da madrugada sobre estas montanhas. Jerusalém é uma velha ninfomaníaca. Suga até o tutano e depois sacode com um largo bocejo um amante após o outro. Aranha que devora seus machos ainda em pleno acasalamento. Enquanto isso, do outro lado do mundo, esquadras zarpavam para o desconhecido e descobriam ilhas e continentes. Mamãe dizia: Tarde demais, menino. Desista, Fernão de Magalhães e Colombo já descobriram até as ilhas mais remotas. E eu discutia com ela. Dizia: Mãe, como é que você pode estar tão certa? Pois antes de Colombo se pensava que tudo já era conhecido e que não restava mais nada para descobrir. Entre o tapetinho, os pés dos móveis e o espaço debaixo da cama eu descobria às vezes não somente ilhas desconhecidas, mas também novas estrelas, sistemas solares ignorados, galáxias completas. Se alguma vez fosse preso, claro que iria sentir falta da liberdade e de outras coisas - mas não sofreria de tédio, desde que me deixassem levar para a cela uma caixa de dominó, ou um baralho ou duas caixas de fósforos, ou uma dúzia de moedas ou um punhado de botões. Todos os dias me sentaria para arrumá-los. Juntar e separar. Montar, apartar e reaproximar. Dispô-los em pequenas composições. Talvez eu tenha inventado tudo isso por ser filho único: não tive irmãos ou irmãs, e muito poucos amigos, e mesmo eles, depois de algum tempo, cansavam-se de mim, pois queriam ação e não conseguiam se adaptar ao ritmo arrastado dos meus jogos. Por mais de uma vez comecei a arrumar meus jogos no tapete na segunda-feira e, na terça, pensava durante toda a manhã na escola sobre o próximo movimento, e à tarde executava mais um ou dois movimentos, deixando a continuação para quarta e quinta-feira. Para os meus amigos isso tudo era muito chato, acabavam me abandonando com os meus delírios e iam brincar de pegador pelos quintais, enquanto eu continuava a desenvolver os acontecimentos da minha história tapetal ainda por muitos dias, deslocava exércitos, assediava fortificações e capitais, sofria um revés, voltava a atacar, conquistava, montava unidades secretas nas montanhas, investia sobre fortalezas e sobre linhas de casamatas, libertava uma cidade sitiada, ampliava e contraía fronteiras assinaladas por fósforos. Se por acaso meu pai ou minha mãe pisassem no meu universo, eu anunciava uma greve de fome ou o boicote à escovação de dentes. Até que chegava o dia do Juízo Final. Mamãe não agüentava mais os rolos de poeira e varria tudo, esquadras, unidades combatentes, capitais, montanhas e golfos, continentes inteiros. Como se fosse uma hecatombe nuclear. Certa vez, quando eu tinha uns sete anos, um velho tio chamado Nachmia me ensinou um ditado francês: "No amor, como na guerra". Naquela época, sobre amor, eu não sabia absolutamente nada, a não ser a ligação nebulosa pressentida no cinema Edison entre o amor e índios mortos. Mas com base no que tio Nachmia disse, cheguei à conclusão de que não valia a pena se apressar. Anos mais tarde percebi que estava completamente errado, pelo menos no que diz respeito à guerra - no campo de batalha, a velocidade, assim dizem, é uma grande vantagem. Talvez meu erro fosse causado justamente por tio Nachmia, ele próprio um sujeito lento e avesso a mudanças: quando estava de pé, era quase impossível fazê-lo sentar-se. Mas quando finalmente estava sentado, não havia jeito de convencê-lo a se levantar. Diziam a ele: Levante-se, Nachmia, por favor. Vamos, tio, o que há com você, já é tarde, levante-se, até quando quer ficar aí sentado? Até amanhã? Até o Yom Kippur? Até a chegada do Messias? E ele respondia: Pelo menos. E refletia um pouco sobre o caso, dava uma coçadinha, sorria de si mesmo com expressão perspicaz, como se acabasse de decifrar nossos apelos, e dizia por fim: Nada vai fugir. Seu corpo, assim como todos os corpos regidos pelas leis da física, tendia sempre a se manter no mesmo estado. Não sou parecido com ele. Gosto muito de mudanças. Encontros, viagens. Mas também gostava do tio Nachmia. Não faz muito tempo, procurei, mas não encontrei o seu túmulo no cemitério de Givat Shaul - o cemitério se expandiu bastante, em pouco tempo vai chegar até o lago de Beit Nekofá. Fiquei sentado num banco por meia hora, ou uma hora. Uma cigarra obstinada cantava no meio dos ciprestes, um passarinho repetiu o mesmo versículo umas seis ou sete vezes sem parar. Mas de onde eu estava, dava para ver apenas lápides, copas de árvores, montanhas e nuvens. Depois, passou uma mulher magra vestida de preto, com um lenço preto cobrindo a cabeça, e um menino de uns cinco ou seis anos. Os dedinhos do garoto agarravam com força o vestido da mulher, e ambos caminhavam e choravam.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Amós Oz, escritor judeu de 68 que nasceu em Jerusalém e Nadine Gordimer, escritora judia de 84 anos que nasceu em Springs, na Africa do Sul, eram dois importantes convidados da Flip, de julho de 2007, em Paraty, RJ, participantes da mesa temática: Panteras no Porão. Foram aplaudidos de pé por leitores, convidados, escritores e imprensa. Na ocasião gostei mais da Nadine que do Amóz, mas não resisti e trouxe o seu livro também.


 

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