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Um Defeito de Cor

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Um Defeito de Cor

Livro Excelente - 1 comentário

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Autor: Ana Maria Gonçalves

Editora: Record

Assunto: Romance

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 951

Ano de edição: 2007

Peso: 1.220 g

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Excelente
Marcio Mafra
13/06/2009 às 18:33
Brasília - DF
O livro da Ana Maria mais que surpreende. Encanta. Um Defeito de Cor não é uma historinha, é uma verdadeira saga. Originalíssima história de Kehinde, que assiste ao estupro e assassinato da mãe e do irmão mais velho, enquanto ela e a irmã gêmea, de 8 anos, são submetidas a abuso sexual. Assim começa a saga de Kehinde. As gêmeas são capturadas e trazidas num navio negreiro para o Brasil, como escravas. Ao longo da leitura - narrada na primeira pessoa - a autora reconstitui a era da escravatura, com uma singular riqueza de detalhes, fato que lhe confere um peso documental impressionante, neste trecho pouco conhecido da história brasileira. É a escravidão contada sob o ponto de vista do escravo, não como um estudo antropológico, mas descrita com o talento de Ana Maria Gonçalves, sem perder o elã necessário para que os leitores, dessem conta de suportar tanta crueldade e desprezo ao suor e sangue do negro, que por mais de 300 anos irrigou os canais da economia de então. Impressiona, ainda, que louvada em injustiças a história não se move a ódio nem a vinganças. O livro fala também sobre a vida econômica e financeira dos negros. Um relato de fazer inveja aos tecelões de Rochdale, Manchester, Inglaterra, todos brancos, que em 1844 fundaram uma cooperativa. Os escravos do Brasil também tinham uma cooperativa financeira. Uma espécie de sociedade secreta, que os próprios negros administravam, baseada em cotas de cooperativa, que financiava a compra da liberdade de escravos. O título que a autora adotou para o seu livro vem de um dispositivo governamental que impedia os negros de obterem empregos públicos por causa de sua cor. Era um defeito. Um defeito de Cor. Livro excelente.



Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A saga de Kehinde, criança negra, capturada aos 8 anos de idade, em Daomé (Benin) Africa e trazida para o Brasil onde viveu por mais de 80 anos, entre a Bahia, Rio, Maranhão e São Paulo até que retorna à Africa para, finalmente, voltar ao Brasil.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

 Acordando Orixás. O Eufrásio se desesperou e, não sabendo direito o que fazer, ficou debruçado sobre a Verenciana, que tinha sido colocada no chão, tentando conter o sangue que escorria dos dois buracos deixados no rosto da moça. A Esméria gritou com ele e mandou que a levassem para a senzala pequena, e que o Tico e o Hilário corressem para a senzala grande ou para a roça. Eles deviam chamar o Valério Moçambique e a Rosa Mina, explicando o que tinha acontecido e pedindo que providenciassem com urgência tudo o que fosse preciso para salvar a vida da Verenciana. E que falassem também com o Pai Osório, pois toda ajuda seria necessária. Os dois ajudantes do Eufrásio carregaram a desfalecida para a senzala pequena enquanto ele ia ao lado, chorando feito criança e pedindo perdão, pois a culpa tinha sido dele. Tinha sido por amor que ele contara à sinhá que a Verenciana estava pejada do sinhô, só por amor, e que o amor tinha se transformado em ódio porque ela não aceitara se deitar com ele e tinha se deitado com o sinhô, que logo a trocaria por outra. Ele disse que só por isso tinha contado, para que a sinhá passasse uma descompostura nela, como já tinha feito com tantas outras pretas, e que ela, com medo, parasse de se deitar com o sinhô, ficando mais fácil para ele, Eufrásio, conquistar a moça. Disse também que se dispunha a aceitá-la mesmo pejada, e que estava até guardando dinheiro para libertá-la e os dois viverem juntos, mas que nunca poderia imaginar aquela tragédia. Como falava sem parar, a Esméria mandou que ele se calasse e fosse até a casa ver o que estava acontecendo, que mandasse a Antônia ferver muita água e não voltasse mais na senzala. Se quisesse ser útil, era para arrumar óleo suficiente para manter o lampião aceso durante a noite toda, pois precisariam de claridade. Eu não sabia o que fazer, então tirei meus orixás do esconderijo e comecei a rezar para que eles também ajudassem a Verenciana. Foi o Valério Moçambique quem chegou primeiro. Era um preto velho, muito magro, de olhos enormes e saltados, o que dava a ele uma aparência sempre assustada, mesmo não estando. Era benzedor e carregava muitas sementes nas mãos magras e de unhas compridas e sujas. Algumas daquelas sementes eu já tinha visto em África, mas não me lembrava dos nomes, como também as outras que formavam os vários colares que ele tinha no pescoço, entremeadas com contas e búzios. Ele chegou perto da Verenciana e começou a esfregar uma mão na outra, como se estivesse aquecendo as sementes entre elas, enquanto rezava e cantava em iorubá. A Verenciana, até então quieta como se estivesse morta, tentou levantar os braços, que estavam estendidos ao lado do corpo, querendo levar as mãos aos olhos, no que foi impedida. O Valério Moçambique então olhou para a Esméria e fez um sinal de que aquilo era bom, que ela ter reagido era um recado dos orixás. Eu não tinha coragem de olhar para o rosto da Verenciana, então me sentei bem atrás da Esméria e achei que era melhor apenas rezar. De onde eu estava ainda dava para ver a quantidade de sangue perdido nos inúmeros panos tingidos de vermelho. Os panos eram colocados sobre os olhos dela e trocados de tempos em tempos, muito menos amiúde depois que a Rosa Mina apareceu com uma infusão de ervas para colocar sobre as feridas. Também reconheci o cheiro de algumas delas, vendidas nos mercados em África, mas não sabia dizer quais eram. A Rosa Mina olhou para mim e viu o meu Xangô com a espada de duas pontas, saudou-o com três kaôs e se sentou ao meu lado, olhando para o santo e conversando com ele, enquanto o alisava com as mãos molhadas na infusão. O Valéria Moçambique não tinha parado um só minuto, rezando, cantando e esfregando as mãos nas sementes para depois passá-las por todo o corpo da Verenciana. O Pai Osório apareceu mais tarde, todo vestido de branco e também cheio de colares, pulseiras e anéis feitos de contas, búzios, sementes e cascas de coco. Disse que não podia fazer muita coisa, porque precisava de tambores e ali não era o lugar apropriado para tocá-los, mas tinha jogado os búzios e eles confirmaram que a Verenciana era de Ogum, para quem precisavam fazer uma oferenda. Ogum é guerreiro e com certeza ia socorrer sua filha, ajudando na luta contra a morte. A Esméria então mandou chamar o Eufrásio e disse que o Pai Osório precisava de uma garrafa de aguardente e de um charuto para Exu, o mensageiro, aquele que deve ser saudado primeiro, e de uma vasilha de barro e de todos os tipos de frutas que pudesse arrumar, e também de mel. Tudo para Ogum, aquele que tudo vence. O Eufrásio nem perguntou onde ia arranjar tais coisas àquela hora, voltando com tudo pouco tempo depois, quando o Pai Osório disse que também ia precisar de sete velas brancas e, se possível, de uma galinha e de milho para Omolu, aquele que dá e que tira as doenças. O capataz foi até a casa-grande e o Pai Osório saiu com ele, pois de lá seguiria para a mata, a casa de Ogum, com muita fé e todas as oferendas. Algum tempo depois da partida deles, a Verenciana finalmente deu sinal de estar fora de perigo e começou a chorar baixinho, calma, sem reclamar de nada, enquanto a Esméria derramava as lágrimas por ela. Ficou mais uns cinco dias na senzala pequena com as pretas da casa-grande se revezando para cuidar dela, e ali também recebeu algumas visitas da mãe, escrava da senzala grande. Durante todo o tempo, o Valério Moçambique e a Rosa Mina também apareceram, e nessas ocasiões eu procurava estar por perto, porque eles sempre tinham palavras bonitas de conforto e de fé que diziam para a Verenciana, mas que serviam para todos nós, em qualquer situação. Voltando ao dia em que tudo tinha começado, a sinhá Ana Felipa entrou na casa com os olhos da outra dentro do bolso, trancou-se no quarto e só saiu de lá no dia seguinte, muito mais tarde que de costume. Já estávamos preocupados e curiosos com aquela demora, achando que ela pudesse ter se matado ou algo assim. Mas ninguém se atreveu a entrar no quarto sem ser chamado, e foi com espanto que vimos quando ela abriu a porta e apareceu sem o luto, vestida de amarelo e estranhamente educada e feliz. Inclusive, coisa que nunca tinha feito antes, desejou bom dia ao Sebastião quando ele foi servir o desjejum. Perguntou se o sinhô já tinha chegado da capital e o Sebastião respondeu que tinha acabado de ver o barco dele pertinho da praia. A sinhá então disse que ia esperar por ele, que o Sebastião mandasse alguém correndo até a praia para avisá-lo, e que nenhuma outra palavra fosse dita além do aviso. Chamou a Antônia e mandou que ela continuasse pondo a mesa do desjejum com tudo de bom que houvesse na casa, e que também apanhasse flores, pois queria jarros com flores sobre a mesa, flores frescas. Quando o sinhô José Carlos entrou na casa e perguntou se tinha acontecido alguma coisa, ela respondeu que não, que apenas estava com saudades do marido e queria tomar o desjejum com ele. O sinhô disse que já tinha comido na capital, mas que, se ela fazia questão, comeria de novo. O Sebastião serviu os dois e ela perguntou se o marido queria geléia do reino para acompanhar os pães. Quando ele respondeu que sim, ela entregou o pote ainda fechado, que ele abriu, remexeu com a colher e tirou de lá, junto com a geléia vermelha, um dos olhos da Verenciana. Quando o sinhô deu um grito e um salto da cadeira, a sinhá, como se nada de mais estivesse acontecendo, disse que se ele não gostava daquele sabor podia mandar trocar, mas que era para olhar bem, pois aquela geléia era especial, das preferidas dele. O sinhô não disse nada e saiu da mesa na direção do quarto. O Sebastião contou que ela então sorriu e chamou a Antônia, para que ela trocasse o prato do marido e pegasse outra vasilha de geléia, pois aquela estava estragada. E rápido, antes que o apetite fosse perdido. No prato do sinhô estava um dos olhos da Verenciana, e o outro, ainda mergulhado no pote de geléia, voltou para a cozinha. Ninguém comentou nada sobre o assunto, e naquela mesma noite o sinhô José Carlos voltou a dormir no quarto do casal, sendo que os dois pareceram mais felizes do que nunca na manhã seguinte.... ...."Eu queria morrer, mas continuava mais viva que nunca, sentindo a dor do corte na boca, o peso do corpo do sinhô José Carlos sobre o meu e os movimentos do membro dele dentro da minha racha, que mais pareciam chibatadas. Eu queria morrer e sair sorrindo, dançando e cantando, como a minha mãe rinha feito. Era assim que eu imaginava os minutos seguintes e, pode ser por isso, por causa desse delírio, que durante muito tempo duvidei do que os meus olhos viram em seguida. Só acreditei de verdade alguns anos depois, quando reencontrei o Lourenço e, de certo modo, como podia, ele confirmou tudo. O Lourenço tinha conseguido chorar e, ao perceber isso, o sinhô José Carlos o chamou de maricas e perguntou se estava chorando porque também queria se deitar com um macho como o que estava se deitando com a noivinha dele. Foi então que tirou o membro ainda duro de dentro de mim, mesmo já tendo se acabado, chegou perto do Lourenço e foi virando o corpo dele até que ficasse de costas, em uma posição bastante incômoda por causa do colar de ferro. Passou cuspe no membro e possuiu o Lourenço também, sem que ele conseguisse esboçar qualquer reação ou mesmo gritar de dor, pois tinha a garganta apertada pelo colar. Eu olhava aquilo e não conseguia acreditar que estava acontecendo de verdade, que o Lourenço, o meu Lourenço, o meu noivo, também tinha as entranhas rasgadas pelo membro do nosso dono, que parecia sentir mais prazer à medida que nos causava dor. O monstro se acabou novamente dentro do Lourenço, uivando e dizendo que aquilo era para terminar com a macheza dele, e que o remédio para a rebeldia ainda seria dado, que ele não pensasse que tudo terminava ali. O sinhô José Carlos então se vestiu e gritou para o Cipriano, perguntando se o castrado r de porcos já tinha chegado. O Cipriano respondeu que sim, que já estava tudo preparado. Um velho que eu nunca tinha visto na ilha, que talvez fosse da capital, entrou carregando uma faca com a lâmina muito vermelha, como se tivesse acabado de ser forjada, virou o Lourenço de frente, pediu que dois homens do Cipriano o segurassem e cortou fora o membro dele. Eu olhava e via tudo como num sonho. Se o sentido da visão não era o mais confiável, os que captavam os sons e os cheiros eram, e durante muito tempo a lembrança que tive do Lourenço foi a de um grito abafado e agoniado, seguido de um chiado e o cheiro de carne queimada. A última coisa que ouvi antes de sumir de mim foi o sinhô comentando que aquilo não era nada, que o Lourenço ia sobreviver e que no tempo do pai dele era muito comum ter escravos capados, que os próprios pretos faziam isso em África, onde alguns homens eram capados para que ficassem mais dóceis e delicados para as tarefas de casa. E o pior é que sei que isso é verdade, pois muitas vezes em África, principalmente em Abomé, vi e ouvi os tais capados, os únicos homens que podiam entrar nas dependências destinadas às esposas de um rei.... ...." As irmandades. Na manhã seguinte ao encontro com o Francisco, acordei bem cedo e fui para a Barroquinha falar com uma mulher chamada Esmeralda, que gostou de saber que eu também era jeje como ela e muitas outras mulheres que já faziam parte da confraria. Ela dizia confraria, mas também podia ser chamada de cooperativa, junta, irmandade ou sociedade. Qualquer pessoa podia se inscrever, mas estavam dando preferência às mulheres, já que as outras confrarias eram formadas por muitos homens, e as mulheres tinham algumas idéias diferentes, preocupações bastante próprias, como o cuidado com o futuro dos filhos. A Esmeralda já era forra, tinha conseguido a liberdade depois de comprar, ela própria, uma pretinha recém-chegada de África e treiná-la para deixar em seu lugar na casa da antiga dona, uma freira do Convento do Desterro. A pretinha, de nome Anunciação, já estava fazendo parte da confraria com jóia de entrada paga pela Esmeralda e contribuições mensais feitas com o que ela própria conseguia, depois de ter sido colocada a ganho. Eu me surpreendia com os arranjos que se podia fazer para conseguir a liberdade, e nem imaginava que naquela época ainda não sabia de quase nada, ainda não tinha tomado conhecimento de um mundo às escondidas vivido pelos pretos e crioulos, forros ou não. O que eu tinha que fazer, era pagar cinco mil réis para mim e cinco mil réis para o Banjokô e continuar com o pagamento mensal de pelo menos quinhentos réis, mais o que eu pudesse conseguir. Quanto mais pagasse, mais depressa poderia acumular a quantia de que precisava para comprar as cartas. Se eu não tivesse o dinheiro para as nossas jóias, a Esmeralda disse que poderia indicar pretos que emprestavam a juros, mas, felizmente, não era necessário. Eu já tinha guardado mais de quinze mil réis, e mesmo tendo que ceder parte do dinheiro para a confraria, a título de colaboração e custos administrativos, ficava mais tranqüila por não ter que guardar dinheiro em casa. Meus amigos da loja pareciam bastante honestos, mas nunca se sabia, e eu tomava muito cuidado quando ia guardar o dinheiro em uma caixinha escondida sob o altar montado para os Ibêjis, a Oxum, o Xangô e a Nanã, esta última encomendada a um santeiro conhecido da Claudina, tão bonita quanto a Oxum da Agontimé. O altar parecia um esconderijo óbvio demais, mas não havia alternativas, e a confraria me pareceu um jeito seguro, além de ter outros benefícios. Fazendo parte dela, eu teria direito a empréstimos em caso de precisão, até mesmo de valor maior que o contribuído, e se morresse durante o tempo de contribuição, o crédito a que tinha direito seria empregado conforme eu indicasse; no funeral, de acordo com a minha religião, ou seria entregue a um herdeiro. Seria bom também freqüentar as reuniões aos domingos, quando eram feitas as contribuições e discutidos os assuntos relativos aos empréstimos. Compareci à reunião do domingo seguinte no mesmo lugar, na loja onde a Esmeralda morava com mais ou menos trinta pessoas, famílias formadas apenas por mulheres e seus filhos. Imaginei que aquele seria um bom lugar para morar com o Banjokô, embora não fosse o suficiente para ele, acostumado ao luxo da casa da sinhá, um verdadeiro sinhozinho, que era como a Esméria costumava chamá-lo. Mesmo sendo de brincadeira, eu sabia que tinha um grande fundo de verdade naquilo, mesmo que a sinhá não o apresentasse às pessoas, mesmo que o escondesse quando tinha visitas, perto apenas dela e dos outros escravos, o Banjokô tinha todas as vontades satisfeitas. No primeiro dia eu tinha entrado somente na sala da loja, um cômodo asseado e mobiliado com dois bancos de madeira, uma mesa com duas cadeiras e um altar que abrigava orixás e santos católicos, principalmente Nossa Senhora, representada por três estátuas diferentes, todas de madeira. A sala era a sede da confraria, e a loja ainda tinha mais três andares, e em cada quarto havia uma ou duas famílias alojadas, dependendo do tamanho, que tinham em comum o uso do terreiro onde estavam montados três fogões de tijolos e uma cobertura de telhas romanas, sob a qual tinham sido colocados uma grande mesa de madeira e dois bancos compridos. As reuniões eram feitas nesse espaço, onde, naquele dia, estavam cerca de cem pessoas. Uma mesa menor ocupava o centro do terreiro, e era dali que a Esmeralda, duas outras mulheres e um homem coordenavam a reunião. Discutia-se muito, mas quase todos os problemas já estavam previstos no estatuto, lido integralmente para os novos membros e em parte para os antigos, quando se valiam dele para justificar uma decisão. Os que se achavam tolhidos em seus direitos diziam que não se lembravam das regras, mas acabavam cedendo diante dos fatos. Um dos maiores problemas era em relação aos juros cobrados pelos empréstimos, mais altos para quem contribuía com pouco dinheiro e tirava muito. Alguns escravos tiravam o valor integral de suas alforrias depois de terem contribuído apenas com a jóia de entrada ou pouco mais que isso, e ficavam com uma dívida que era o dobro da quantia emprestada, para ser quitada a longo prazo. Se não me engano, todos os filiados eram escravos de ganho, pois só eles tinham dinheiro ou podiam ganhá-lo. Deste modo, depois de libertos, e não tendo mais que pagar nada aos seus senhores, ficavam com mais tempo livre para trabalhar por conta própria, e não era difícil honrar o compromisso assumido com a confraria. Este era um ponto importante, mas que raramente causava problemas, pois já tendo sido escravos, os forros entendiam a necessidade de continuar pagando em dia para que outros tivessem a mesma oportunidade que eles. Caso não fossem de livre vontade até a sede, havia uma pessoa encarregada da coleta que ia procurá-los. Mas as maiores discussões aconteciam por causa de valores pagos ou devidos, visto que não havia uma escrituração muito confiável. O funcionamento da confraria era responsabilidade de um chefe, que no nosso caso era uma chefe, a Esmeralda, com conhecimento e controle de tudo que acontecia, sendo ela também quem decidia sobre os problemas que não estavam previstos, fazendo com que essa decisão passasse a ser parte do estatuto. Ela era ajudada por uma responsável pela guarda da caixa dos empréstimos, uma nagô chamada Aparecida, de inteira confiança da Esmeralda e sua antiga conhecida, pois tinham trabalhado juntas na casa da freira dona Margarida Alves de Sant'Anna. A Aparecida era semi forra, pois tinha feito um acordo com a freira e pagava a carta a prestação, o que fazia desde muito antes de existir aquela confraria, sendo que por isso não fazia parte dela. Mesmo assim freqüentava as reuniões e era a responsável pela caixa, que ficava guardada em local seguro na casa da freira, onde a Aparecida ainda morava. Tal caixa só podia ser aberta com o uso de três chaves, uma que ficava com a Esmeralda, outra com a Aparecida e outra com um hauçá chamado Gregório, o prestamista. Ele era o encarregado de fazer as anotações e as contas das quantias pagas e emprestadas, chamadas de amortização e prêmio. Quando fui pagar a jóia de entrada, ele me entregou dois bastonetes de madeira em que eram anotados, por meio de cortes, o recebimento ou o pagamento das quantias ou cotas combinadas. Ainda tenho um destes bastonetes entre os guardados do baú de lembranças do Brasil. O Gregório era pago para fazer aquele serviço e tinha muita experiência, pois trabalhava para várias confrarias. O salário dele saía do fundo de administração, para o qual todos contribuíam e que também era usado para a realização dos festejos e das obrigações religiosas, para o pagamento de missas fúnebres dos associados e para a compra de roupas e comida dadas em caridade. A cada ano, desde a data de fundação, aconteciam as reuniões mais interessantes, que causavam os maiores alvoroços, quando se apurava o que tinha sobrado do fundo de administração para a distribuição dos lucros, amortizando a dívida dos que mais tinham contribuído durante o período. Consideravam como dívida a quantia de que precisávamos para a nossa alforria, de acordo com o preço com que tínhamos sido avaliados, não se levando em conta se já tínhamos ou não tirado o empréstimo. Então, mesmo se alguém tivesse somente feito pagamentos e não tirado nada, ele era considerado tão devedor quanto os que já tinham recebido empréstimo e continuavam pagando a prazo, e isso muitas pessoas não conseguiam entender direito. Quanto maior a quantia com que eu tivesse contribuído sem nada retirar, maior a minha derrama para o fundo de administração e para a compra de outras cartas de alforria, e eu seria recompensada entrando na divisão do fundo de caixa que sobrava. Isso tudo o Sebastião me explicou depois, com calma, porque era mesmo difícil de entender durante as reuniões, com todos falando ao mesmo tempo e com a grande confusão que se formava quando algum erro era apontado nas anotações, o que não era raro, em prejuízo dos membros ou da confraria. O Sebastião disse também que muitos pretos forros que tinham um bom dinheiro sobrando costumavam ganhar ainda mais nas confrarias. Eles contribuíam com grandes somas para terem direito aos lucros, e depois faziam a retirada do dinheiro para logo em seguida tornarem a empregá-lo. Era melhor que nada e muito mais seguro do que guardar dinheiro em casa, já que as casas financeiras não gostavam de fazer negócios com pretos, que, por seu lado, se sentiam enganados quando precisavam usar aquelas instituições.....


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Ana Maria era uma das autoras palestrantes em Paraty, RJ, na Flip 2007, convidada para a mesa temática: Álbum de Família. Jovem, negra, bonita, simpática e com ar inteligente foi muito aplaudida e cortejada pela imprensa. Nada mais natural que trazer seu livro, Um Defeito de Cor.


 

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