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Livro Ótimo - 1 opinião

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Autor: Michel Laub

Editora: Companhia das Letras

Assunto: Romance

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 108

Ano de edição: 2001

Peso: 175 g

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Ótimo
Marcio Mafra
21/06/2003 às 17:29
Brasília - DF

Musica Anterior, assim como Longe da Água, traz a narração na primeira pessoa, embora não se trate de uma narrativa autobiográfica. Personagem narrador é coisa comum nos romances antigos e nos modernos. Mas com talento é coisa rara. A história do irmão do narrador, que condenou um réu, de nome Luciano - pelo crime de estupro - tem início num puteiro, de cidade do interior. Eles, o narrador, seu irmão, mais os amigos Julius e Helio entram na casa, ressabiados, tímidos, e logo depois escolhem as meninas com quem desapareceram para seus quartos. O narrador e seu irmão não conseguem transar, um porque brochou o outro porque, meio bêbado, vomita. Esta e outras passagens da adolescência são as lembranças que vão compondo a narrativa, sem utilizar-se dos clichês literários, nem tampouco dos experimentalismos chatos e pernósticos de alguns escritores atuais. A leitura flui com simplicidade, sem a carga dramática das tintas quando fala de sexo ou de violência. O final da história é tão leve como a música anterior.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história de Luciano condenado pelo crime de estupro, por um juiz, irmão de um médico...

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Todos sabiam sobre as conseqüências da doença do pai. Sempre se sabe das conseqüências, essa é uma das faces cruéis de qualquer doença, as pessoas olham o doente como quem assiste a uma rodada de pôquer, como quem sabe em detalhes os riscos, as possibilidades de vitória e derrota, o tamanho da recompensa, a dimensão da queda. Meu irmão já cumprira a sua tarefa básica de médico, já encarnara o semblante grave e sábio de todos os médicos, o semblante de quem vive em uma esfera superior, selecionada, acima de mesquinharias. O médico trata da instância final, acha descabida a comparação com o advogado, que no máximo trata de liberdade, com o arquiteto, que no máximo trata da forma, com o dentista, que no máximo trata de dentes. Quando a situação do pai piorou, meu irmão reuniu a família e deu os detalhes técnicos daquela fase da doença, reconstituiu em minúcias o diagnóstico feito por um especialista, fez todas as ponderações de ordem técnica que se requeriam. Nos dias seguintes, minha mulher cumpriu as mesuras necessárias e os rituais de consolação, a praxe de quem convive com um parente de doente terminal, mesmo que o "terminal" não fosse para já, e sim para um futuro incerto, cheio de gestos contidos, de longos períodos de dúvida, de uma trajetória lenta e inevitável que geraria um dia expectativas de abreviação. O pai não tinha muito jeito com crianças. Eu também não. Brinquei pouco com o meu sobrinho e nunca fiz careta em frente a carrinhos de bebê. Minha mulher encontrou uma amiga num parque, estávamos caminhando, era uma manhã de sol, sábado, a amiga dela havia dado à luz poucos meses antes. Minha mulher fingiu que morderia o pé da criança"no pé da criança vestiram uma meia de lã, minha mulher dizia, parece um biscoito, dá vontade de morder, e olhava para mim, dá vontade de morder, não dá? Dá, dá vontade de morder, eu respondi, e fiquei quieto, dali a pouco ela saiu da frente da criança como que me oferecendo o palco, o show era todo meu, eu deveria me curvar perante o carrinho e também fingir que morderia o pé da criança, e eu teria de dizer que parecia um biscoito: "Parece um biscoito" era a senha, a chave, o segredo, mas eu não conhecia segredo algum, eu não ensaiei show algum, eu não fiz mímica alguma. Eu continuei de pé num sábado de manhã, fazia sol, estávamos no parque, eu usava abrigo, eu calçava tênis e não sabia que era estéril. O pai não costumava brincar comigo. Lembro que cantava uma musiquinha antes de eu dormir, era uma história sobre um grupo de meninos que procurava um tesouro. O tesouro estava escondido numa caverna, isso se descobria ao longo da trama, inicialmente eles só tinham um mapa e uma vaga indicação de uma floresta, na qual ficava uma trilha que passava por riachos terrosos, desfiladeiros, zonas habitadas por animais ferozes e outros obstáculos. No fim da trilha aparecia a caverna, e a descrição da cena era majestosa: uma loa à coragem dos meninos e ao valor da amizade, da perseverança, do idealismo, da integração. Ele mesmo inventou a música. Os versos eram sempre os mesmos, eu já conhecia de cor. A narrativa toda durava não mais que dez minutos, acho, na época parecia uma eternidade, pelo menos demorava muito até chegar ao final. Um trecho: Vamos então Então vamos Em frente agora Rumo ao tesouro. Os meninos eram exploradores, eles eram os exploradores de cavernas, e deparavam-se com o urro de um urso, o chilrear de pássaros malignos, as pegadas de um anfíbio hostil, monstros. A linguagem vez que outra se tomava de tons épicos. Meu pai misturava fábulas, um sem-número delas, contos populares e fantasias clássicas, e cantava antes que eu dormisse. Eu conhecia todos os versos, eu sabia a métrica de todos, eu intuía a tonalidade das sílabas, a melodia das palavras, as imagens e os silêncios. Meu pai foi enterrado numa quarta-feira. Estavam no cemitério alguns amigos, minha mulher, meu irmão, meu sobrinho, Dona Pequeninha e eu. O serviço começara um pouco atrasado. Alguém disse palavras de homenagem quando o caixão foi à cova. Eu ainda lembrava dos versos da musiquinha da caça ao tesouro: Em frente agora Rumo ao tesouro Nós somos fortes Somos valentes O nosso caso É coisa séria. E o refrão: Somos os exploradores De cavernas. Os exploradores se perdiam enquanto procuravam o tesouro. Alguns queriam voltar para casa, outros queriam seguir na expedição, alguns não sabiam o que queriam, eu todo dia ficava angustiado porque a história demorava para se resolver. Essa era a parte mais comprida. Meu pai repetia as mesmas estrofes todas as noites, eu exigia que ele fizesse isso, era só assim que eu conseguia dormir, mas eu concedia uma exceção no cumprimento dessa exigência, e era justamente o final da história. O final eu deixava o pai improvisar. Cada dia ele cantava uma coisa diferente: numa vez, os exploradores morriam devorados pelo urso; em outra, eles conseguiam achar o tesouro e se safavam incólumes; em uma terceira, não acontecia nada disso. Era como se eu dependesse daquilo, como se eu só dormisse se ouvisse aquilo, e era mais ou menos o que acontecia, os versos eram cantados e eu quase não os escutava - era como um transe, um mantra, um torpor alcoólico, eu já sabia o que estava por vir, eu só voltava a prestar atenção quando o final estava perto. Meu pai mudou o final da história durante anos, parou só quando a mãe morreu. Meu irmão era um bebê, meu irmão nunca ouviu os versos sobre o caso dos exploradores de cavernas, nunca viu o carrinho que a mãe me deu de presente. Meu pai não chegou a cantar para ele, a contar histórias para ele, a enxergar nele qualquer expectativa relativa ao desenrolar de um drama, dê uma aventura, de um épico. Desde o dia em que a mãe morreu, ou desde algum dia próximo, tenho certeza de que foi nessa época, o pai deixou de me cantar os versinhos, e aí comecei a mudar o final da história por minha conta. Eu me deitava e imaginava o que quisesse. Podia ser a qualquer hora, mas não sei por que mantive o hábito de fazê-lo à noite, como se quem estivesse fazendo aquilo fosse na verdade o meu pai, como se eu pudesse ouvir a voz dele me contando a história, como se o meu pensamento fosse traduzido nessa voz, e essa voz fosse externa, e essa voz fosse real. Foi isso que fiz a vida inteira: eu mudo o final de todas as histórias, eu faço com as histórias o que bem entendo. Só que não é a mesma coisa, mesmo que durante muito tempo eu achasse que pudesse ser. Quem deveria ter feito isso, a única pessoa que poderia ter feito isso era o meu pai. Quando me dei conta disso, decidi que passaria a resolvê-las da pior forma possível, eu inventaria os destinos mais cruéis possíveis, e não haveria mais bravura e heroísmo e esperança, e não haveria mais generosidade, com os anos eu fui ficando duro, os meus personagens foram ficando sem saída, os ursos foram ficando realmente ferozes. Não haveria mais saída para os exploradores de cavernas, não haverá saída para os exploradores de cavernas, tenham eles os motivos que tiverem, façam eles o que fizerem, chamem-se eles como se chamarem, eu a partir daquele momento passei a ser o senhor dos destinos deles, eu decido se eles poderão se salvar ou não, se eles poderão ser livres ou não. Tudo agora passa pelo meu arbítrio, pela minha simpatia, pelas minhas impressões, pelas minhas circunstâncias. Eu nunca perdoei meu pai por is


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Li tanta coisa sobre o Michel Laub, que acabei comprando o seu livro duas vezes, uma em agosto de 2007. Aí entrou uma falta de tempo e o livro ficou abandonado. Mais tarde, em fevereiro de 2008, abri a janela do tempo e achei uma relação de livros para serem comprados. Quando o li, em março de 2008 foi que percebi a compra dupla. Numa só tacada comprei: Segundo Tempo, Longe da Água e Musica Anterior.


 

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