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As Viúvas das Quintas Feiras

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As Viúvas das Quintas Feiras

Livro Ótimo - 1 opinião

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Autor: Claudia Piñeiro

Editora: Alfaguara

Assunto: Romance

Traduzido por: Joana Angélica d'Avila Melo

Páginas: 252

Ano de edição: 2007

Peso: 435 g

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Ótimo
Marcio Mafra
30/05/2009 às 14:53
Brasília - DF


Muitos vinhos argentinos, assim como alguns novos escritores, no geral, são bons. Cláudia Piñeiro é uma jornalista da safra dos anos 80 que, com talento e competência criou uma história divertida, passada nos tempos recentes, de crises e pós crises onde sobressaem as ascenções ou quedas velozes das classes econômicas, de pessoas que viram novos-ricos, e depois da crise, pobres atuais. Fenômenos comuns dos anos 80/90, tanto na Argentina, como no Chile ou no Brasil. O romance se situa na Argentina, em plena crise econômica do final dos anos 90, onde habitantes de Altos de La Cascada preferem ignorar a realidade, fora das cercas de metal que os protege da sociedade em que vivem. Ao longo da leitura se percebe uma crítica direta às elites sociais, com passagens pelo anti-semitismo, pelo preconceito de cor, pela agressão física e abuso de mulheres, e como não poderia de deixar de ser, por algumas taras sexuais. Tudo tem relação, origem e fim - muito bem amarrado - nos três homens que são encontrados mortos numa luxuosa piscina, numa fatídica quinta-feira. A narrativa tem ritmo e a leitura é muito boa. O leitor toma fôlego e lê o livro em duas ou três sentadas. O inesperado final é ótimo.



Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história da família de Virginia Guevara - corretora de imóveis - e Ronie seu marido desempregado, que eram vizinhos da família Urovich, e da família de Tano, e ainda da família de Gustavo Masotta. Eles formavam o seleto grupo de moradores de Alto de La Cascada, um luxuoso condomínio de classe alta, nos arredores de Buenos Aires. Todos eram considerados muito ricos, ou mesmo milionários, porém decadentes, por causa da crise financeira que tinha desabado sobre os Argentinos, pouco antes de setembro de 2001, ocasião da derrubada das torres gêmeas, em Nova York....quando três homens são encontrados mortos na piscina da casa de um deles. Um quarto homem volta para casa antes do horário habitual - naquela quinta feira - dia dedicado à reunião com os amigos e vizinhos, longe dos filhos, das mulheres e das empregadas. O que os levou à morte?

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Lembro-me como se fosse hoje. Uns sapatos de croco, marrons, desceram do carro antes dela. Nem bem Teresa Scaglia avançou, o salto agulha de um deles afundou no terreno que eu queria vender ao casal. Notei que Teresa não gostou e tratei de minimizar o inconveniente. "Todas nós que viemos da cidade passamos por isso alguma vez", comentei. "Custa abandonar o salto. Acredite, é uma das coisas que mais custam. Mas é o salto, ou isto...", exagerei, apontando as árvores e a paisagem que nos rodeavam. Acho que o Tano nem se deu conta do tropeção de sua mulher. Caminhava dois ou três metros adiante dela. Não sei se seria correto afirmar que ele fazia isso de apressado. Ou talvez sim, apressado, mas não pelo tempo que não dá, e sim por urgência, ansiedade, como se não estivesse disposto a aguardá-la, nem ela nem ninguém. O Tano foi se afastando e eu parei um instante para esperar Teresa. E pensar que essa mulher acabou virando paisagista. Quando chegou a Altos de La Cascada, sua única informação sobre o assunto era que gostava de plantas. Teresa tirava o salto afundado da terra macia e tentava limpá-lo na grama, enquanto o outro salto afundava irremediavelmente. Tudo o que ela fazia era em vão. O salto recém limpado voltaria a afundar, o outro sairia sujo e, por mais que ela o limpasse, voltaria a se sujar. Dizer-lhe isso e não respeitar seu próprio mecanismo de aprendizagem do novo terreno me parecia tão ansioso e desrespeitoso quanto os passos do seu marido. Ansiedade não me faltava, a comissão pela venda desse terreno ia me ajudar a concretizar vários arranjos pendentes em minha própria casa. Especulei sobre que opção ela acabaria escolhendo. Na primeira vez em que afundei em La Cascada, tirei os sapatos e acabei percorrendo o terreno com meias calças de seda. Éramos jovens, e Ronie ria; nós dois ríamos. Mas Teresa e eu somos muito diferentes. Aqui, somos todas muito diferentes, embora alguns se confundam e acreditem que morar num lugar assim faz com que as mulheres acabem se parecendo. Mulher country, nos chamam. A falsidade do estereótipo. É verdade que vivemos coisas parecidas, sim, que nos acontecem coisas parecidas. Ou que nos acontecem certas coisas, e nisso nos parecemos. Por exemplo, para todas nós é difícil, no princípio, abandonar alguns costumes adquiridos: aqui, nem sapatos de salto, nem meias de seda, nem cortinas arrastando pelo chão. Qualquer um desses detalhes, que em outro contexto denotariam elegância, em Altos de La Cascada acabam denotando sujeira. Porque os saltos afundam no jardim e emergem cheios de grama e barro, porque as meias-calças se desfiam ao contato com qualquer planta áspera, tábua ou móveis de jardim em ratã, porque nas casas entra muito mais terra do que nos apartamentos e tudo o que se arrasta pelo piso, seja cortina, criança ou cachorro, se suja feio. Teresa levou alguns metros para aceitar que não havia solução possível. Decidiu então caminhar nas pontas dos pés, opção intermediária que vi várias mulheres citadinas escolherem, e conformar-se com olhar de longe, sem percorrer o lote palmo a palmo como seu marido. O Tano, em contraposição, dava passos firmes, com as mãos nos bolsos e os pés apoiados em cheio sobre o terreno. Com cada passo marcava o território; era evidente. Se fosse um animal, teria mijado em cima. Sua atitude não deixava dúvidas, esse era o lote que ele estava procurando. Mas sua atitude, em vez de me alegrar pela comissão quase ganha, me intimidou, e eu disse que precisava confirmar com o dono se o terreno continuava à venda. "Se não está à venda, por que você me mostra?" "Não, sim, à venda ele está, ou estava. Há uns dois meses, Caviró pai, o proprietário, encarregou disso minha imobiliária, mas não sei, eu gostaria de checar." "Se ele o entregou a uma imobiliária é porque o terreno está à venda." E isso podia ser certo em muitos lugares, mas não em La Cascada. Em La Cascada você precisa aprender a se mexer com certa flexibilidade. Às vezes lhe garantem que vão vender e depois aparece um filho querendo ficar com o lote, ou têm vergonha social de vender, ou não entram em acordo com a mulher. E quem acaba quebrando a cara é a imobiliária. Neste caso, eu, Virginia, ou "Mavi Guevara", minha razão comercial. Alguns põem sua casa ou seu terreno à venda só para saber efetivamente quanto valem, quanto o preço aumentou desde que os compraram, porque não entendem a abstração de uma avaliação e precisam ter na sua frente, com o dinheiro na mão para pagar, a pessoa que deseja o que eles possuem. E então dizem que não, não vendem. "Quero este terreno", repetiu o Tano. "Vou tentar", lembro que respondi. "Não entendo", retrucou ele com uma voz calma e ao mesmo tempo firme que me paralisou, tanto quanto os saltos que afundavam no barro paralisavam sua mulher. Eu não sabia o que dizer. O Tano insistiu como quem encosta a ponta da espada num adversário que já caiu no chão e está prestes a abandonar a lura. "Quero este terreno." Hesitei mais um instante, só um instante, porque depois, como uma revelação, me escutei dizendo: "Considere fechado, este terreno vai ser seu." E não foi uma frase feita, nem uma expressão de desejo, nem sequer tinha a ver com minhas possibilidades concretas de conseguir. Foi exatamente o contrário. Foi a convicção absoluta de que aquele homem parado na minha frente, o Tano Scaglia, a quem eu acabava de conhecer, sempre obtinha da vida o que quisesse. E da morte...." ..."Postar-se em frente à saída do buraco 1 e deixar a vista se perder no verde que parece nunca acabar é um privilégio que nós, moradores de Altos de La Cascada, às vezes não valorizamos o suficiente. Até que o perdemos. A gente se acostuma ao que tem, e mais ainda quando o que a gente tem é maravilhoso. Muitos de nós passamos meses sem dar uma volta por algum dos dezoito buracos, como se não nos importasse que eles estivessem ali, a metros de nossa casa e à nossa inteira disposição. Não é preciso ser golfista para desfrutar de semelhante beleza natural. Natural porque feita de grama, e de árvores, e de lagoas. Mas não porque a paisagem tenha estado ali antes de nós. Antes, isto aqui era um pântano. O campo foi projetado pelo engenheiro Pérez Echeverría, famoso pelo campo que desenhou para um clube da zona sul do alto de um helicóptero, enquanto sobrevoava o bosque que deveria derrubar. Hoje é impossível imaginar que nossos fairways tenham sido um pântano. Algum dia. Há espécies arbóreas que foram trazidas especialmente de vários hortos do país. Arbustos plantados por paisagistas, renovados todas as temporadas e mantidos todas as semanas. Rega automática, ligada todas as noites. Fertilizantes, inseticidas, adubos. O riacho que cruza o buraco 15 existia, sim, antes de chegarmos. Mas nós o purificamos. Agora ele é de um verde mais turquesa) graças a um tratamento da água e a certas algas que mantêm mais arejado o ecossistema. Morreram os peixes que existiam antes da purificação. Peixes sem nome, uma espécie de lambaris marrons. Nós semeamos percas de cor laranja que se reproduziram e hoje são as donas do riacho. Elas, as lontras e os patos. Só que, nos últimos anos, as lontras e os patos vêm diminuindo cada vez mais. Alguns dizem que há pessoas que os matam. Para comer. Mas isso é muito improvável. Mesmo que o fizessem, pessoal da manutenção, caddies, parquistas, ou quem se atrevesse, seria impossível que pudessem tirar sua presa do clube quando tivessem de atravessar nossas barreiras. Uma vez encontraram um caddie jogando um pato morto para o outro lado do alambrado, onde uma mulher o esperava. Ele disse que matou o pato acidentalmente com uma bolada, ao bater uma saída do buraco 4. Mas ninguém acreditou. A mulher do outro lado só faltava trazer a panela. Fizeram uma queixa registrada conjuntamente pela Comissão de Golfe e pela de Meio Ambiente. Na realidade, as lagoas são os únicos verdadeiros vestígios daquele pântano. Mas ninguém percebe. Não deve existir campo de golfe que não tenha alguma lagoa. Por um sistema de bombas, escoamos nelas toda a água de chuva acumulada nas valas do bairro para evitar inundações; bombeia-se a água e depois o mesmo riacho a lança fora do clube. Algumas vezes a prefeitura reclamou, porque o problema da água aparece agora no bairro de Santa María de los Tigrecitos, mas houve umas poucas reuniões entre o pessoal municipal e o nosso, e de algum modo o assunto se resolveu. Seria o mesmo que culpar Córdoba pelas inundações em Santa Fé. Foi preciso fazer uma pequena obra, pouco dinheiro. O último investimento importante foi em banheiros químicos, que se tornaram imprescindíveis desde que as mulheres se apossaram do campo. Um homem, premido pela necessidade, pode urinar em qualquer lugar. Atrás de uma árvore, contra uns arbustos. Até num campo de golfe. Uma mulher, não. Nosso campo é replantado todos os anos. Nem todos os clubes fazem isso. A maioria replanta só as saídas de cada buraco. Pencross nos greens e grama bermuda nos fairways. O replantio, somado ao custo das máquinas, ao pessoal envolvido, aos sistemas de irrigação e drenagem etc., faz com que a manutenção do campo de golfe seja um dos itens mais pesados das nossas despesas. Os tenistas se queixam. Há uma implicância entre os que praticam um e outro esporte. Dizem que o clube gasta muito mais dinheiro em golfe do que em tênis, e que tudo sai do mesmo orçamento e dos mesmos bolsos. Mas investir no campo de golfe não é só uma questão esportiva. Os sócios podem caminhar pelo campo, beber alguma coisa no terraço do buraco 9 diante de uma paisagem invejável, escutar música assistindo a um pôr do sol sobre o buraco 15, fazer safáris fotográficos para retratar diferentes tipos de aves. A Comissão de Meio Ambiente fez um excelente trabalho de divulgação, e em cada buraco há um letreiro de madeira com a foto de cada espécie de pássaro que se pode avistar e a lista de suas características principais. Mas, além do prazer que cada um pode extrair do nosso campo, há um importante fator econômico, e isso sabemos todos. O valor de nossas casas está diretamente relacionado, numa percentagem indeterminada mas sem dúvida significativa, com sua proximidade de um bom link de golfe. A mesma casa, num bairro sem campo de golfe, não valeria o que vale. Há alguns anos, jogar golfe era algo muito exclusivo. Em outros países, continua sendo. Na Argentina, já não é. É caro, mas o "um a um" encurtou muitas distâncias, e os termos caro e exclusivo deixaram de significar a mesma coisa. No bar do golfe há plaquinhas de madeira com os nomes dos que ganharam os torneios anuais do clube. E os sobrenomes entalhados, à medida que os anos passam, vão perdendo a ascendência. Em 1975 ganhou um Menéndez Behety. Em 1985, um Mc Allister. E em 1995 um García. E não García Moreno. Nem García Lynch. Nem García Nieto. García, e só. Às quartas-feiras, o campo se enche de japoneses. Às quintas, é alugado a empresas. Quando os que nos procuram são coreanos, o starter tem ordem de dizer que não há vaga ou de mentir o valor do green fie, a taxa que os não-sócios devem pagar para poderem jogar. Dizem que os coreanos não são bem-vindos em nenhum campo, e não só no nosso. Os golfistas reclamam que eles gritam, brigam, giram os tacos no ar e apostam monstruosas somas de dinheiro que geram violentos episódios. Independentemente dos coreanos, porém, já no início dos anos noventa via-se que o golfe começava a deixar de ser um esporte de cavalheiros. São cada vez menos os que se preocupam com usar camisa de gola pólo ou calça de pregas. Há sócios que também gritam. E sócias que pretendem jogar de camiseta sem mangas. Há sócios que arremessam ao alto um taco porque deram um golpe a mais no buraco que definia um torneio. Há quem joga devagar e não cede a passagem, ou quem se queixa aos gritos porque o vagaroso não o deixa passar e até lhe lança uma bola intimidatória. Há quem não apresenta uma cartela com mais tacadas do que as esperadas para manter um handicap social desejado. A esse tipo de golfista não importa jogar bem ou mal, e sim poder dizer que tem 10 ou menos de handicap. Há, ao contrário, quem não apresenta cartelas com poucas tacadas porque pretende manter um handicap alto para, mais tarde, obter vantagem em algum torneio. Em suma, há cada vez mais sócios que mentem na cartela onde se anotam as tacadas. Há de tudo. Mas o cúmulo foi o caso de Mariano Lepera. Na Taça do Clube ele fez um hole in one e o negou, para não pagar a rodada de champanhe para todos. Deu a tacada na saída do buraco 6, e a bola, após descrever uma órbita perfeita, caiu no green, quicou três vezes, rodou e entrou no buraco marcado pela bandeira. Um tiro só, certeiro. Não foram necessárias mais tacadas. Só uma. Em qualquer campo de qualquer lugar do mundo, quem faz um hole in one deve, por cortesia e lei que não está escrita mas que ninguém discute, pagar uma bebida para todos os que estão no campo nesse momento. Geralmente champanhe. Às vezes uísque. Todos, em cada linha, do buraco 1 ao 18. Mariano Lepera perguntou ao starter quantas pessoas ele havia registrado nessa manhã e fez um cálculo rápido: 120 jogadores a uma média de cinco pesos cada um, seiscentos pesos. «Eu não pago isso nem morto", e foi embora antes que alguém pudesse lhe cobrar a dívida. Isso não se faz. Ou não se fazia. Não acontece nada, não há sanção, mas não é próprio de um cavalheiro. Para isso existe o seguro de hole in one. Qualquer seguradora o faz. Elas o oferecem à maioria de nós, quando seguramos a casa. Incêndio, roubo e hole in one, por mais uns poucos centavos mensais. Segura-se um sinistro particular que não é nem um incêndio, nem um roubo, nem um dano a terceiros. Na realidade, segura-se uma alegria, porque quem emboca uma bola a quase 150 jardas com uma só tacada é verdadeiramente um felizardo. Não por acaso, existe no país um registro no qual se podem anotar todos os que tiveram a sorte de fazê-lo. Embora a maioria prefira anotar no registro dos Estados Unidos, para divulgar a proeza em nível internacional. Uma providência simples, uma carta, uns formulários. É uma desconsideração não fazer o seguro e não desfrutar disso como cabe. Em toda uma vida, é baixa a probabilidade de se fazer um hole in one, mas a de deixar de ser um cavalheiro, não.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

As Viuvas das Quintas Feiras é o badalado romance da não menos badalada Cláudia Piñeiro, jornalista festejada pela mídia argentina e que ganhou o prêmio Clarin de 2005. Tanta badalação me levou a comprar o livro, em fevereiro de 2008. Mais uma compra que valeu a pena.


 

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