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Acenos e Afagos

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Acenos e Afagos

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Autor: João Gilberto Noll

Editora: Record

Assunto: Erotismo

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 206

Ano de edição: 2008

Peso: 305 g

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Bom
Marcio Mafra
03/05/2009 às 13:01
Brasília - DF

Acenos e Afagos é livro de capítulo único, daqueles que não tem parada para se tomar fôlego. O João Gilberto Noll é escritor com estilo e muito talento. Aqui ele criou uma narrativa "sem continuísmos" mas cheia de viradas ou "paradas", com o personagem principal voando às cegas, pelas nuvens e ventos do sexo. De quando em vez, pinta um clima de realismo fantástico, à moda do mestre Gabriel Garcia Marquez, como na passagem em que o personagem entra num submarino alemão tripulado por sodomitas, ou mesmo quando, quase ao final do livro, ele passa por uma transmutação sexual, deixando de ser homem e encontrando-se no corpo de uma mulher. O leitor vê transbordando e derramando das páginas do Acenos e Afagos um desmedido exagero - que por vezes enche o saco - do personagem na busca incessante do prazer homossexual, como opção de sua vida. Essa narrativa, um tanto estérica, domina todo o livro. Leitura boa, mas nem tão fácil.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história de um homem que abandona sua vida comum, mulher, filhos e se joga no afã de se descobrir e de viver as suas paixões sexuais.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Observei um lago lá embaixo e para conhecê-lo corri. Perguntava-me se não era domingo ou algum feriado, tamanho o ermo da paisagem. Tirei a roupa, entrei no lago. Num ponto mais estreito, havia uma tábua suspensa, de uma margem a outra, grossa, que deveria servir de banco para a pessoa sentar e se lavar. Sobre a tábua, um sabão já bem consumido por banhos, quem sabe por lavagens de tecidos até. Sentei e comecei a lavar o corpo quente pela andança e pela hora. Apareceu nas margens outro homem, despido também. Ele segurava sua roupa. Depositou-a sobre uma pedra. Perguntou se podia sentar na tábua também. Vinha diariamente se banhar ali. Falei que viesse. Entramos numa prosa. Ele era o que se chama de insuficiente mental. Por fora um adulto, por dentro uma criança siderada, enfim. O senhor é casado, me perguntou. Falei que não. Falei que vivia sozinho numa tapera à beira da estrada que vai dar em Mercês, onde nasci. Só sei que gostei de me ver nessa condição talvez ao cair do dia. Mal sabia ele que eu exercia o ofício feminino quase em tudo e que não queria outra vida. O meu pau era maior que o dele. E por ter percebido esse detalhe, minha cabeça saiu daquela imensidão para memorizar o engenheiro que chegaria a qualquer instante, vindo novamente de seu silêncio mineral, chegando para me fazer lamber e gozar. Súbito, entreguei minha atenção de novo a meu colega de banho, tocando em assuntos rudimentares, como o de certa planta rasinha que dava por ali. O cara parecia infra - humano, não ia além de certo subproduto da meninice. Nele, todo o laivo de frase acabava estourando feito bolha. Em decorrência ele murchava, baixava a cabeça, impregnando-se um pouco mais do lago. Parecia aderir de tal forma às águas que o observador não podia mais destacá-lo do cenário. Virava mancha. Movia as sílabas na boca como se as degustasse, talvez sem compreendê-las direito. Pronunciava à sua maneira as palavras e me olhava buscando reconhecimento. De repente estávamos sem assunto. Começamos a elevar as mãos em concha para o ar, mudos, como se pedíssemos um auxílio dos céus. Súbito veio um gesto inesperado, um tanto melodramático. Langoroso. O gesto no entanto logo se coagulou por falta de mensagens. Essa coreografia mostrou-se um toque de alma no homem. Ele batia a mão na barriga para festejar. Festejar o quê? Ora, nem ele sabia. Agora, eu sabia sim que o homem me contagiara. Então dancei em gestos com ele. Só os braços demonstravam. Fizemos mais uns dois números. O homem não precisava dizer mais nada. Saía agora do banho antes de mim. Procurou alguma coisa no bolso da camisa e veio me trazer. Eu também saía do lago e peguei o papel. Era uma espécie de recibo, dando conta de uma contribuição para a causa brasileira. Ele me mostrava o recibo antes de pedir a doação. Quem sabe esse homem, com sua aparente inocência, me informasse algo sobre a campanha que fizesse toda a diferença? Talvez um tipo um tanto demencial pudesse me esclarecer para além da lógica. Mesmo que desvendasse o espírito desses donativos só com gestos ou sons animais. Bastava isso. Passei o dinheiro. Já era sina. Até aqui, longe das cidades, irrompe novamente a turva campanha que por mim não pede. Ergui o braço como se tivesse um copo de champanhe no alto. O moço me seguiu no gesto. Com a mão erguida eu sentia pelo cotovelo a sobra espumosa da bebida transbordar. O moço ria. E eu mais ainda. O moço talvez não pudesse dissolver o mistério da grandiosa contribuição. Talvez nem existisse mistério naquela onda avassaladora de se pedir e se embolsar dinheiro. Talvez o único mistério morasse na monumental boa-vontade da população perante as já desfiguradas solicitações de ajutório. Apesar disso, esse cara, bastante independente da letra humana, poderia, sem acentuado esforço, ter um clarão que magnetizasse de vez o parvo ouvinte. Sobretudo esse ouvinte aqui, viciado em verificar no espelho das palavras a gasta cópia das coisas, em detrimento da sedução física do verbo. Toda a expressão que o homem do lago ditava parecia se elevar à procura do gesto e da dança. O homem do lago olhava para os esplendores do horizonte, encenando a graça de um certo monarca celestial que eu estava a conhecer ali. De onde vinha esse manancial contemplativo? De alguém que recebe cuidados médicos especiais, como poderia ser o caso daquele homem? Mas possivelmente aqui no mato esses cuidados especiais nem chegassem. E a finalidade dos donativos não seria traduzida nem por ele nem por ninguém. Só restava o indivíduo jogar seus derradeiros bens no fundo sem fundo dessa megacontribuição popular. E então se subtrair de si mesmo e assim flanar. Claro, para chegar com honra a esse ponto, era preciso que o pré-suicida desse esmola pela causa vezes sem conta. Enfim, todos os que pagam essa espécie de imposto branco serão convidados a se retirar. Que mãos se apropriariam dos bilhões do caixa continental? O moço do lago expressava um olhar voltado às esferas magníficas, absolutamente alheias ao aparente deslumbramento assistencialista da nação. Ele não tinha necessidade de se vestir de majestade. Pois reinava nu. Assoviei, ele veio atrás. Assoviamos "Serra da Boa- Esperança", de Lamartine Babo. Por quê? Não faço idéia. Talvez porque a população estivesse entrando num mundo paralelo como esse no alto da serra -, enfim, o "último bem". Como seria a idílica Boa Esperança nos píncaros de um país inteiro? Talvez esse meu campesino demente passasse, no futuro, a fazer parte de uma casta. Esbocei um agrado no homem, mas não fui além desse aceno. Contei até cinco e lhe beijei a mão. Foi a primeira vez que vi seu anel. Tinha uma pedra da cor do rubi. Quando cheguei em casa me olhei no espelho. Notei que meu rosto vinha perdendo os pêlos que compunham a barba. Eu estava virando uma mulher devagarzinho? Esperava que, quando o destino a completasse, eu ainda não sofresse de senilidade e pudesse reconhecê-la, fazendo-a soberana na hospedaria do meu corpo. Não tinha encontrado ninguém no matadouro, ficaria sem carne nos próximos dias. Não me importava. Passaria a cultivar uma vida ascética, sem carne, sem cosméticos, sem sexo fora do casamento nem nada. Quando enfim o engenheiro voltasse, correria para encontrar o matadouro fantasma, tomara que agora povoado. Tirei a roupa, sentei no chão em posição de lótus e morri para o intervalo entre a partida dele e seu retorno. Os dias que eu atravessasse nesse meio-tempo não poderiam ser relatados. Apenas ocuparei a experiência lacunar. Entre ser homem ou mulher fico com os dois. E que ninguém me siga. Acabei ficando assim em posição de lótus por uma eternidade. Os meus cabelos tinham crescido um palmo, apresentavam a novidade do grisalho nas têmporas. Minha face mostrava -se ainda mais despida dos fios de barba. Ouvi uma tosse nas imediações. É dele, concluí. O homem apareceu sacrificado demais, com um ferimento no braço. Nós vamos sair daqui em direção ao Norte. Eu poderia continuar na minha escuta passiva, sem apetite para decifrar os mil enigmas dessa figura amantíssima. Mas dessa vez, não. Ajudando-o a sentar, falei que de agora em diante eu precisava saber para onde ele ia quando viajava. O cara responde que não há tempo para dirimir dúvidas. Para você, estou fugindo? , ele me perguntou. Da polícia, arrisquei. Ele responde, com a voz meio esgazeada, que antes de qualquer confissão deveremos comer o pó de mais estradas. Tinha envelhecido um pouco, como eu. Esperava que, durante esse capítulo da fuga, o engenheiro tivesse tempo de esclarecer o caroço daquilo tudo. Mas que me falasse de imediato somente isso: de quem você está fugindo? Fugindo?, ele responde com uma cara-de-pau mais que exorbitante. Foi a primeira vez que senti uma pontada de ódio por ele. Eu o odiaria mais se isso fosse necessário. Se isso me libertasse enfim da falta que sentia dele em suas viagens infinitas -, talvez até para expandir o seu império carnal. E eu odiaria passar pelos infernos de uma mulher ciumenta. O certo é que, entre o limiar de ódio e a paixão dilacerada, eu assumiria o papel da loba romana de seu próprio homem. Pronta mais uma vez para guardá-lo nas moitas do lar. Homens, certamente seus empregados, entravam trazendo caixas e caixas, sem que eu soubesse do conteúdo do carregamento. Você é traficante?, perguntei à queima-roupa. Silêncio tenso. Traficante de que droga?, completei. Ele estava deitado no sofá, pegando o braço ferido. Eu só tinha um amor estúpido para lhe dar. Talvez fosse inadequada essa atração por alguém com o braço ferido daquele jeito. Fugiria com ele até o fim do mundo e ainda um pouco mais. Eu já era quase uma mulher, meus laivos de seios doíam, prestes a rebentar por baixo da blusa. Eu lhe mostraria os peitinhos antes da partida, e eles estariam durinhos, não por produzirem leite, mas porque tinham acabado de brotar da força do meu corpo -, bicos púberes revolucionando a minha anatomia. Enquanto os homens trabalhavam à nossa volta, fazendo lembrar as multidões de servos erguendo as pirâmides do Egito, verdadeiros formigueiros, enquanto esses homens incansáveis se movimentavam entrando e saindo pela porta da varanda, acordei o meu engenheiro e o levei para a cama. Mesmo com a porta fechada, dava para pegar as vozes, algumas falas inteiras. Ele estava ali comigo, pegando por baixo da blusa nos meus peitinhos em flor, testando a consistência de uma fruta. Pelo seu ar meio faceiro, parecia gostar. Tirei a blusa e ele veio estabanado com a boca alternando entre um bico e outro. Eu respondia me vertendo toda. E acredito que algum leite era sugado mesmo, algum subproduto, talvez, de minha já incontrolável ardência feminina. Fui para o seu cu e nele fucei. Não havia cheiro carnal que suplantasse aquele. Não havia perfume, não havia loção nem talco que lhe fizessem sombra. De certo modo, eu reavivava certa excitação púbere, avessa aos decálogos da higiene. O gato miava pressentindo a nossa fuga. Ele ficaria ali, nos campos semi - áridos dos arredores de Cuiabá. E o casal fugiria em direção ao norte, quem sabe até para outro país. Antes da evasão, o engenheiro permanecia quieto, mamando nos meus peitinhos como se estivesse descobrindo só agora a suculenta dádiva das fêmeas. Eu tratava o engenheiro como um verdadeiro bebê. Apreciava seu corpo encolhido, posição embrionária mas com certeza à beira de amadurecer, pois seu físico já era espadaúdo e mais uma vez me contaminava com sua força e apetite...."


  • Orgasmo Permanente

    Autor: Bernardo Scartezini

    Veículo: Pensar. Correio Braziliense, pagina 3, Sabado 16 de fevereiro de 2013

    Fonte: Jornal Correio Braziliense

    O Orgasmo Permanente.
    Pensar. Correio Braziliense, pagina 3, Sabado 16 de fevereiro de 2013
    »BERNARDO SCARTEZINI
    ESPECIAL PARA O CORREIO

    Solidão continental não poderia ser um livro de nenhum outro autor brasileiro, a não ser de João Gilberto Noll.  Estamos aqui diante de escritor à vontade em um universo que construiu lentamente, livro a livro, ao longo das três últimas décadas.


    Noll conseguiu aquilo que todos os escritores perseguem e apenas uns poucos realizam: criou um estilo próprio, inimitável, imediatamente reconhecível.

    Solidão continental, no entanto, traz um paradoxo. Pois é tão parecido com o Noll que o leitor já conhece e admira, tão parecido, que isso - miseravelmente - pode se tomar um problema.

    Pode soar como repetição. Pode soar como esgotamento. Daí algumas resenhas atravessadas que o romance recebeu desde seu lançamento pela editora Record no fim de 2012.

    Seria Solidão continental uma depuração do estilo de seu autor? Ou seria somente um trabalho menor - e menos representativo - diante do que já foi feito antes?

    A resposta, em boa parte, passa pela cumplicidade que o livro consegue ou não despertar em seu leitor, e passa necessariamente pelas expectatívas desse leitor.

    - Estaremos aqui na companhia de um personagem anônimo, um sujeito de passado obscuro e futuro incerto.

    -Um homem entrado na meia idade, que vagará sem rumo pelas páginas 'deste breve romance. A narração em primeira pessoa é um recurso para imprimir de vertiginosa subjetividade à saga entortada que parte de um quarto de hotel de Chicago.

    Foi lá que nosso narrador viu escapar o homem que amava. Ou que hoje julga ter amado naquela época.

    Vinte anos depois, ele está disposto a reencontrar a pessoa amada, como que por mágica, e reaver o sentimento perdido. Para isso, ele tenta refazer  seus passos, aluga novamente o mesmo quarto de hotel.

    A história se repetirá como delírio. Nosso herói mergulha no vaso sanitário, como aquele personagem de Trainspotting (abraço pro Irvine Welsh), e entramos nas tubulações de sua cachola.

    E dali, numa sucessão de encontros sexuais frustrados, numa sucessão de coitos interrompidos, amanhecemos nus em uma Porto Alegre que parece não existir em lugar algum para além das memórias do viajante. Nus entre pessoas que parecem não existir em lugar algum para além destas linhas.

    "Eu vivia entre fantasmas, pensei, e dessas companhias etéreas eu não queria me apartar. Os seres físicos não me ofereciam nada mais convincente do que aquelas presenças esquivas ao meu toque, geralmente caladas ... "

    Verbal e sexual

    Solidão continental é entretecido numa sucessão de delírios, em constante "troca de geografias", para tomarmos emprestado um termo adotado por seu verborrágico narrador.

    Um narrador que, por vezes, soa como se estivesse à beira da afasia, como se precisasse escrever escrever escrever, atordoantemente, antes que as palavras passem a lhe faltar. A crença

    derradeira de João Gilberto Noll mais uma vez, parece na linguagem. Seus personagens podem ser misóginos, edipianamente castrados, ser rematados solitários sem esperança, mas

    ainda lhes restam a voz.

    A linguagem, portanto, seria o instrumento para reestabelecer o estado de cousas que se perdeu. O instrumento do impossível. Talvez por isso o fim deste Solidão Continental soe como um novo começo, um reinício, emprestando ao romance uma sensação de continuidade - mas não de apaziguamento - nem nunca de serenidade.

    A linguagem e o sexo. Este Solidão continental seria a tentativa de João Gilberto Noll devolver seu personagem ao mundo dos vivos por meio do arrebatamento verbal e sexual.

    E esse é apenas um dos muitos pontos de contato do livro com as obras anteriores de Noll ... A busca do orgasmo permanente - e a frustração inevitável que ela traz. A busca da comunicação completa, a busca da conciliação máxima entre as palavras e os sentimentos - e a outra frustração inevitável que aqui virá.

    Mais uma vez, um personagem de Noll se encontra à deriva em um mundo que não mais reconhece. A lista de semelhanças e afinidades é numerosa, talvez inesgotável.

    Como em Harmada (1993), temos também a oposição simbólica e dilacerante entre a cidade e a natureza. Temos a água como um rito de purificação, como um segundo batismo.

    Temos ainda um hospital público como um purgatório para o corpo e para a alma.

    Como em A fúria do corpo (1981), Noll desenha um homoerotismo quase narcisista, fazendo do corpo do outro um espelho de si próprio. E daí, como acontecia em Lorde (2004), esse jogo de duplos resvala no fantástico.

    A rigor, o único problema de Solidão Continental é ter vindo depois de todos esses livros, que marcaram não apenas a carreira de João Gilberto Noll,  mas também a literatura brasileira contemporânea. O gaúcho Noll, aos 66 anos de idade, é afinal um dos mais celebrados autores do país. Foi vencedor do Jabuti em cinco ocasiões.

    O barato de Solidão Continental, por outro lado, é marcar uma espécie de retorno de Noll à forma original, um retorno às suas antigas obsessões, após uma série de livros infanto-juvenis lançados nos últimos anos:

    O Nervo da Noite (2009), Sou eu! (também 2009) e Anjos das Ondas (2010).

    O retomo de Noll a uma plena literatura, a esta literatura para adultos, foi um dos fatos mais marcantes da última temporada editorial. E pode anunciar um recomeço em sua carreira. Como este livro não chega propriamente a terminar, parece justo encarar a obra de João Gilberto Noll como uma vertigem ainda longe de se esgotar. Ainda estamos longe do chão.

    Trecho:

    Entre mim e aquele cenário da Osvaldo Aranha havia como uma mucosa transparente doendo se eu tocasse. Não era possível vislumbrar aquele cenário com isenção. Uma menininha filha de mendigos acampados ali embaixo me olhou com uma expressão indefinida, eu parecia lhe causar uma estranha atração. A garotinha usava batom, uma saia comprida de mulher adulta nos ombros, qual um manto fazendo uma cauda, e um sutiã sobre um enorme bustiê rasgado. Recuei. Fechei a janela para evitar o ruído exacerbado do trânsito. Tão logo fechei a janela ouvi uma cantoria só de vozes femininas. Atrás de mim, na sala outrora vazia, tinha uma maca rodeada de velho tas. Elas cantavam certamente um hino religioso, ainda pude ouvir submergindo em uma instância que não estava nem em Porto Alegre nem em parte alguma. Eu via que poderia ser novamente alçado do porto a que havia. poucos segundos tinha retomado para me encantar com aquele canto vagaroso de vozes femininas. Ouvia um hino religioso que dizia serem elas fiéis ao mistério, pois que eram filhas de um enigma. Espiei entre os corpos das mulheres, aproximei-me do centro do ajuntamento e enxerguei aquela que na maca certamente agonizava e senti que aquela reunião final não comportava a minha presença masculina e me retirei sem mágoa, prometendo a mim mesmo que dali em diante seria fiel apenas ao destino de Predenco, que não o abandonaria jamais. Tivesse ele naquele instante já morrido ou se em pouco tempo ele saísse daquele hospital, ressurrecto, seria esse homem que entraria em minha vida mesmo que como um placebo para dirimir o meu isolamento.

    Se ele por acaso não recuperasse os movimentos ou a consciência, eu lhe daria banhos matutinos, pegaria uma esponja e a passaria sobre sua nudez. E esse ato seria o meu sexo diário.

    E melhor, assim eu estaria retomando à meninice, eu voltaria a brincar.

    Afinal, em casa novamente ... "
     

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

João Gilberto Noll estava na FLIP 2008. Festejado, famoso, bom de serviço, respeitado. Na ocasião teve relançamentos de livros. Trouxe A Fúria do Corpo e Acenos e Afagos.


 

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