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A Fúria do Corpo

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A Fúria do Corpo

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Autor: João Gilberto Noll

Editora: Record

Assunto: Erotismo

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 270

Ano de edição: 2008

Peso: 345 g

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Ótimo
Marcio Mafra
03/05/2009 às 14:00
Brasília - DF


A Fúria do Corpo é uma história sensacional do Gilberto Noll, que narra a vida de um mendigo anônimo, quase sempre acompanhado de sua companheira Afrodite, e que perambulam pela vida. Numa estrutura erótica existencialista os dois personagens principais vagam e divagam pelos bairros e ruas do Rio de Janeiro, ao longo de uma existência radicalmente livre, tanto social como sexualmente. Eles se deparam e vivenciam a miséria, a violência e as drogas. Mas são livres. Livres e pobres, contrapondo-se - de certa forma - aos demais romances de cunho erótico, que no mais das vezes, se situam no mundo da elite econômica e social. Leitura boa e fácil. Livro mais que ótimo.



Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história de dois desocupados: um mendigão carioca, sem nome, prostituto e Afrodite, supostamente carioca, prostituta e também mendiga.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Subi pro nono andar, fiquei só o tempo de retomar minha roupa de homem, desci e fui caminhando pelas ruas e vi a estreita e suja entrada lateral da Boate Nigth Fair, parei, resolvi entrar e reencontrar o nosso cantinho arcaico, eu e Afrodite no terreno traseiro quase abandonado da boate vivendo ali noites inteiras, dias, olhei o muro, li a eterna inscrição obscena, abri a braguilha, comecei a mijar sobre a inscrição carecendo de estar mijando num enorme terreno baldio esquecido de todos os habitantes da Cidade, eternamente vazio, mijava não ali mas no enorme terreno baldio quando vi na pálida luz da lua que a cabeça do meu pau tinha inchado e avermelhado a ponto de arrebentar, e olhando a cabeça do pau inchada e avermelhada tive a dura verdade do meu destino de agora em diante: era foder com a carne do mundo, doente, podre, fedorenta, mas extrair dela o único prazer verossímil, foder, esporrear, chupar o cu, o grelo, sorver a excreção quente da buceta, era essa a única verdade bruta possível naquela dor toda, a ração de um pobre e abandonado amor: te amo. E me esqueci de tudo tocando uma punheta galopante sobre um lixo esquecido e o caralho que explodiu não vi, voou qual projétil em direção à lua, o caralho voador fecundaria a lua, o caralho voador! - apontou o menino na manhã seguinte e a revoada de crianças correu pra olhar e concluir que o caralho voador existia sim de verdade e ia ali mais veloz que um foguete pra fecundar a lua. As crianças souberam: o caralho voador existia. E quem visse elas reunidas naquela chacrinha afogueada saberia o que é uma festa: pulavam, corriam, se sacudiam inebriadas num fogoso carnaval, o caralho voador existia, não era um modo de dizer assim feito bobagem, o caralho voador voava como qualquer passarinho que a gente nem nota, todos teriam seu caralho voador, era só crescer um pouquinho que o caralho voador sairia deles e alçaria vôo para o ar, alto, bem alto, mais alto que contavam da águia, e cada um teria mais força que todos juntos e todos juntos teriam mais força que qualquer desgraça porque o carallio voador existia, por isso estavam ali brindando em festa, correndo, saltando, se bravatando em socos carinhosos em revoada sobre os pés encardidos de moleque, tão extasiados que de repente fez-se um silêncio tão grande que nem os sons da Cidade se ouviam, a não ser o de um esgoto pingando de um cano arrebentado naquele terreno baldio. O caralho voador existia. Afrodite começa a enlouquecer devagarinho. Dá dó. Ela que entra a envelhecer prematuramente tem conseguido clientes cada vez mais abjetos, ontem foi um bedel de uma escola que queria feri-la com cravos como os do Cristo, queria porque queria pregá-la em cruz, mãos e pés contra a porta e ela ainda viu charme nisso tudo, é louro de olhos azuis ela argumentou efusiva, ele dizia que há ouro no seu cativeiro, e que é nesse cativeiro que ele quer redimir o mundo dos pecados, mas quer redimir o mundo dos pecados no cativeiro de uma mulher como Afrodite porque Afrodite viveu até a última instância do pecado mas tem a santidade inata para a ressurreição. Mas como eu dizia Afrodite começa a enlouquecer devagarinho. Dá dó. Ela talvez perceba a mesma loucura crescente em mim, não sei. Mas tem mais: Afrodite diz que não sabe mais escrever, ontem mesmo foi escrever uma carta a uma tia do Sul e o que saiu foram só traços sem rota, ela chorou e pediu minha ajuda. Perguntei em que eu poderia ser útil. Respondeu que já não tinha a menor complacência para com a utilidade. Agora só almejava a inutilidade. Tanto, que já tinha sido despedida da boate e agora trabalhava só por prazer. Se quisessem pagar que pagassem o que bem entendessem como justo. O bedel por exemplo lhe pagou 10 cruzeiros e afirmou que aquela nota estava carregada de uma simbologia, e que esta simbologia mais valia que qualquer soma mais alta. Começo a sentir um medo quase paralisante diante do olhar hermético de Afrodite. Ou sou eu que já não transporto mais entendimento? Afrodite não sabe mais escrever. Na última madrugada foi escrever um bilhete para o bedel e o que saiu foram traços sem rota. Me chamou, chorou, pediu que eu a ajudasse, perguntei em que eu poderia ser útil, respondeu que o útil lhe dava nojo, queria o ato que apagasse o passado e o futuro, queria o ato que dissolvesse a relação causa - efeito. Queria porque queria. Afrodite estava ficando estupidamente egoísta. Queria porque queria. Eu então escrevia seus bilhetes ou cartas porque de repente ela tinha necessidade de escrever mil cartas ou bilhetes, a qualquer momento uma necessidade de escrever uma carta ou um bilhete, e aí vinha ela a me ditar palavras sem semântica, um amontoado de palavras que não queriam dizer absolutamente nada. E o pior que depois de eu copiar ela desistia de enviar a mensagem porque não tinha confiança na cópia, chorava e dizia sabe lá que enxertos você colocou nesse papel, sabe lá que lapsos, que omissões. Ó Afrodite, eu respondia: você acaba me enlouquecendo também. Afrodite saía todas as noites pra pegar homem na rua, já era uma puta de calçada. Eu às vezes a seguia, ainda ontem a vi conversando com um mendigo e depois entrar com ele por um terreno baldio. Eu, na doce esperança de angariar alguns fundos para os aluguéis atrasados fui e me postei na esquina da Sá Ferreira com Nossa Senhora de Copacabana, botei a mão por dentro da calça, bolinei e endureci o pau, e ali na esquina fiquei até as quatro da manhã e nada; pensei logo que eu também estava envelhecendo prematuramente como Afrodite, já tinha também meus sulcos na cara, a barriga inchando, o olhar opaco. Voltei triste pro conjugado, já sem poder dispor do meu corpo para o sustento o que sobraria? Quando cheguei em casa vi que Afrodite trouxera uma gata preta pra dentro do apartamento, contou que encontrara a gatinha perdida por aí, ficou compadecida e trouxe o bicho pra ficar debaixo de um teto com a gente; Afrodite estava nua, sentou-se no chão com um pratinho de leite na mão e foi molhando a buceta com aquele leite, derramava o leite pelo pentelho, abria os lábios da buceta e lá dentro espargia leite com os dedos, passava nas profundezas o dedo untado de leite, depois pegou a nuca da gata, abriu as pernas, botou a gata na frente da buceta e a gata começou a lamber esfomeada a buceta de Afrodite, a beber da buceta, Afrodite começou a exalar interjeições, disse que sentia novamente o prazer, esgazeava os olhos, mordia os lábios e a gata lambendo esfaimada e mordiscando a buceta de Afrodite, a gata preta com a língua vermelha lambendo a buceta de Afrodite e Afrodite apertando o pescoço da gata e guiando a língua vermelha pelo pentelho, vulva, grelo, às vezes cu. Afrodite deve ter gozado pois fechou súbita as pernas e a gata ali na frente miando com o focinho atônito diante daquela parada brusca na sua alimentação, então peguei a gata pelo cangote e deixei Afrodite ali sentada com as pernas fechadas e expressão letárgica, e joguei a gata pela janela abaixo, a gata foi despencando e grunhindo feito doida lá pra baixo e ainda consegui ver que os pêlos da gata se eriçaram, ficaram de pé, e a gata grunhindo e despencando lá pra baixo. Afrodite não percebeu nada, tão saciada estava ali com as pernas fechadas e ar de pedra. Deixo Afrodite ali e limpo o conjugado, varro, tiro o pó, as cinzas do cinzeiro, ponho lixo na lixeira, faço café e ofereço a Afrodite, ela bebe mecânica deixando que o café escorra pelo canto dos lábios, pego o corpo de Afrodite entre os braços, Afrodite pesa, engordou não sei por que vias, e ponho-a na cama. Ela entra a ressonar imediatamente, beijo seu pescoço, a veia lateja, sopro o rosto suado de Afrodite, retiro a mecha de cabelo de sua testa, penso na luta de Afrodite pelo pão de cada dia, penso que por tudo isso deve estar muito cansada, a mente quase turva, sinto um carinho extremo, pergunto baixinho, encostadinho no seu ouvido o que fazer, praonde ir, como se manter, continuar... Afrodite está morta. Suspendeu a respiração. Abandonou o corpo e foi viver em outra esfera ou não viver, simplesmente. Me abandonou. Afrodite é morta. Já não vive. Superou o tormento da vida. Exerce simplesmente a morte. Mas o corpo de Afrodite eu amo. Beijo seus seios ainda quentes. Afrodite é morta. Nua. Lembro ter visto um lança-perfume no armário do banheiro. Pego um lenço branco, umedeço-o com lança, ponho o lenço sobre o nariz dela. E aguardo... Seis horas da manhã no relógio. Aguardo... E percebo o frêmito no dedo mindinho de Afrodite... Retiro o lenço: por baixo das pálpebras alguma coisa se move com vagar... Agora ela vai abrindo os olhos, entreabre a boca, a língua lá dentro pulsa como um coração vermelho, os órgãos de Afrodite retomam seu trabalho. Ela pede um cigarro. A vida de Afrodite tem luz. Acendo o cigarro, coloco-o na sua boca, peço pra ela não tragar, que cuide da saúde, amanhã vamos procurar um médico, e eu estou aqui. Afrodite está viva, confortada, inteira. Pego sua mão e beijo-a cheio de encantamento pelo novo ser que nasce dela. Mas Afrodite está viva? Tanto do meu estado me acho incerto. Isto foi dito pelo poeta há tanto, isto já foi dito e repito hoje enquanto. Afrodite descansa, repito aqui pelas ruas, agora, nesse pedaço à beira do Atlântico Sul, cercado de viúvas, ninfas, ninfetas, espécimens da mais alta estirpe feminina. E masculina, meninos do Rio, executivos aveludados pelas mãos de massagistas, ginastas curvilíneos. Sei, tenho que morrer e estou cercado pelos vadios do Atlântico Sul, me sentindo no meu estado incerto, eu vou morrer senhores mas a hora da morte anda cara e a moral pede um caixão decente, carpideiras profissionais, aromas florais nauseantes, eu vou morrer e todos são da mesma carne, a pele dourada nem adivinha, não sabe que a morte é certa, traiçoeira, e deixa sua cicatriz nas almas amantes dos que ficam. Eternidade é uma palavra vã, descubro. Afrodite é que me poderia salvar. Mas vive sumida, sonífera ou quem sabe cavucando a gaita pro sustento - coisa que eu já não mais faço -, pobre Afrodite, por onde andará essa mulher que não quer envelhecer, que não é mais a fêmea nuclear nem nada no show do inferninho. Afrodite era a única profissional do show, as outras conversavam durante as cenas de suruba feminina, riam, brigavam, cochichavam distantes dali, acho que Afrodite se abandonava à espera do prazer, mesmo que nunca o prazer a tenha surpreendido ela se entregava toda ao espetáculo, humilde esperava; mas uma noite, sim, nessa noite o que vi foi inegável, Afrodite gozou sim quando um executivo japonês, sério, mórbido, incapaz de uma verdadeira carícia, abaixou-se ali no meio e enfiou a língua na buceta de Afrodite e resmungou um som esdrúxulo pobre Afrodite, gozou com o que não entendia, não sabia que eu estava ali atrás de uma coluna, se soubesse tenho certeza morreria de humilhação e me calei, não disse nada, fomos pra casa debaixo de uma chuva miúda e insistente e no elevador levantei sua saia e alisei seu pentelho enquanto ela chorava de modo surdo, lá por dentro ela chorava pelos pecados do mundo, parecia tão novinha, ainda sonhava ser passionária, barbarela bela, foi ali naquele elevador que amei Afrodite para sempre como nunca, cheguei a desejar que o elevador enguiçasse, que faltasse energia e que ficássemos presos no elevador por soletrados minutos, depois nunca mais foi assim meu amor por ela. Pode ter sido maior, mais fulgurante, mais trágico, mais tudo, mas assim humanamente justo nunca mais, a compaixão sem o remorso da piedade, nunca mais, e o elevador subia, subia em ascensão, na glória amorosa de dois pobres mortais, o pentelho de Afrodite uma rosa toda viva na minha mão, minha Afrodite chorava embora nenhuma lágrima arrebentasse, ela apenas tirou meu pau pra fora e nos confessamos cansados, muito cansados da lida, e o elevador parou, nós dois já recompostos, e a bicha do 904 abriu a porta do elevador e fez cara ma!iciosa, nos cumprimentou esfuziante e eu dei um beijo na face da bicha e ela agradeceu, obrigada ela disse, muito obrigada cavalheiro, e eu ali com a porta do elevador na mão sem conseguir fechá -la e a bicha sem conseguir apertar o botão, Afrodite já botava a chave na fechadura da porta do apartamento e eu e a bicha ali, nos visite eu disse será um prazer, ela passava as unhas vermelhas pela peruca loura e confessava que tivera um filho de um homem muito mau que batia nela e na criança até matar a criança, matava a criança todas as noites mas ela, a mãe, se manteve viva e agora morava sozinha no 904 e saía todas as noites à cata de trabalho porque a panela estava vazia e ela queria mais filhos, tinha necessidade de estar rodeada de crianças, aí ela quase rasgou o decote pra mostrar os dois fartos seios e mostrou-os, porque meus seios estão com todo o leite do mundo, eu quero matar a fome dos famintos, as crianças precisam mamar no meu peito, quero filhos, sempre mais, a menopausa tá longe e meus dois seios precisam amamentar a prole que espera sair aqui do meu útero, isso lhe digo porque o senhor demonstra ser um cavalheiro desses que não há mais - lá embaixo começaram a bater na porta do elevador, cumequié, vamos soltar a porta aí no nono, a bicha piscava os olhos incrédulos diante de tamanha vulgaridade noturna, vê só fazer esse vandalismo a essas horas, acordando o sono dos vizinhos vê só nós dois aqui conversando como dois seres civilizados e a turba lá embaixo nos bafejando ódio, a bicha lacrimejando indignação abria devagarinho o zíper do vestido, eu ali esperando o que iria acontecer com a porta do elevador na mão, lá embaixo gritavam qualé e davam pontapés na porta do elevador, vamos parar com essa conversa mole, fecha essa porta que a gente quer subir seus putos qualé, e a bicha ali no elevador já me mostrava a bunda, bela bunda, a bicha abria as nádegas com as mãos e curvando-se mostrou o eu lisinho sem nenhum fio de cabelo, era vermelho o cu da bicha, bonito, a pele interna delicada e inflamada de tanto uso, vermelha, gomos vermelhos de uma fruta escondida, prendia e soltava os músculos do cu arreganhado, belo eu, belo, lá embaixo gritavam que iam chamar a polícia seus putas, mais um minuto com essa porta aberta que a gente sobe aí e a porrada vai correr solta, mas o cu da bicha era do mundo e naquele momento era meu, então avancei um pouco e ouvi o tropel subindo pelas escadas enfurecido, mas mesmo assim dei um segundo àquele cu, tirei quase rasgando a calça o pau pra fora e enfiei o pau no eu da bicha como se tivesse todo tempo do mundo para penetrá -la, enfiei o pau com a lentidão dos prazeres impossíveis, o tropel subia as escadas esbravejando cada vez mais próximo, a bicha sacode a bunda e pede mais, mete mais, chega até aqui no meu tesouro, eu tenho um tesouro escondido aqui dentro pra você meu adorado, a bicha geme-geme, e quando o tropel subia o lance pro nono andar fechei a porta do elevador, apertei no botão do térreo, e fomos descendo os nove andares na ofegação daquela fada até que entre o primeiro andar e o térreo o meu líquido não suportou mais e inundou o secreto tesouro da bicha que gritou, chorou, se contorceu. Reina nos céus o miserável deus dos homens. Aqui na Terra eu volto para o apartamento pelo mesmo elevador em que acabei de comer a bicha, enquanto a turba galopa agora descendo enfurecida as escadas pra pegar lá embaixo os criminosos que paralisaram o elevador por minutos. Gritam o ódio de toda uma vida. O tropel deve ter aumentado por muitos que aderiram à guerra. Pelos estrondos calculo uns dez enfurecidos. A porta do apartamento aberta, entro, e vejo Afrodite nua, estirada no chão, dormindo.


  • Orgasmo Permanente

    Autor: Bernardo Scartezini

    Veículo: Pensar. Correio Braziliense, pagina 3, Sabado 16 de fevereiro de 2013

    Fonte: Jornal Correio Braziliense

    O Orgasmo Permanente.
    Pensar. Correio Braziliense, pagina 3, Sabado 16 de fevereiro de 2013
    »BERNARDO SCARTEZINI
    ESPECIAL PARA O CORREIO

    Solidão continental não poderia ser um livro de nenhum outro autor brasileiro, a não ser de João Gilberto Noll.  Estamos aqui diante de escritor à vontade em um universo que construiu lentamente, livro a livro, ao longo das três últimas décadas.


    Noll conseguiu aquilo que todos os escritores perseguem e apenas uns poucos realizam: criou um estilo próprio, inimitável, imediatamente reconhecível.

    Solidão continental, no entanto, traz um paradoxo. Pois é tão parecido com o Noll que o leitor já conhece e admira, tão parecido, que isso - miseravelmente - pode se tomar um problema.

    Pode soar como repetição. Pode soar como esgotamento. Daí algumas resenhas atravessadas que o romance recebeu desde seu lançamento pela editora Record no fim de 2012.

    Seria Solidão continental uma depuração do estilo de seu autor? Ou seria somente um trabalho menor - e menos representativo - diante do que já foi feito antes?

    A resposta, em boa parte, passa pela cumplicidade que o livro consegue ou não despertar em seu leitor, e passa necessariamente pelas expectatívas desse leitor.

    - Estaremos aqui na companhia de um personagem anônimo, um sujeito de passado obscuro e futuro incerto.

    -Um homem entrado na meia idade, que vagará sem rumo pelas páginas 'deste breve romance. A narração em primeira pessoa é um recurso para imprimir de vertiginosa subjetividade à saga entortada que parte de um quarto de hotel de Chicago.

    Foi lá que nosso narrador viu escapar o homem que amava. Ou que hoje julga ter amado naquela época.

    Vinte anos depois, ele está disposto a reencontrar a pessoa amada, como que por mágica, e reaver o sentimento perdido. Para isso, ele tenta refazer  seus passos, aluga novamente o mesmo quarto de hotel.

    A história se repetirá como delírio. Nosso herói mergulha no vaso sanitário, como aquele personagem de Trainspotting (abraço pro Irvine Welsh), e entramos nas tubulações de sua cachola.

    E dali, numa sucessão de encontros sexuais frustrados, numa sucessão de coitos interrompidos, amanhecemos nus em uma Porto Alegre que parece não existir em lugar algum para além das memórias do viajante. Nus entre pessoas que parecem não existir em lugar algum para além destas linhas.

    "Eu vivia entre fantasmas, pensei, e dessas companhias etéreas eu não queria me apartar. Os seres físicos não me ofereciam nada mais convincente do que aquelas presenças esquivas ao meu toque, geralmente caladas ... "

    Verbal e sexual

    Solidão continental é entretecido numa sucessão de delírios, em constante "troca de geografias", para tomarmos emprestado um termo adotado por seu verborrágico narrador.

    Um narrador que, por vezes, soa como se estivesse à beira da afasia, como se precisasse escrever escrever escrever, atordoantemente, antes que as palavras passem a lhe faltar. A crença

    derradeira de João Gilberto Noll mais uma vez, parece na linguagem. Seus personagens podem ser misóginos, edipianamente castrados, ser rematados solitários sem esperança, mas

    ainda lhes restam a voz.

    A linguagem, portanto, seria o instrumento para reestabelecer o estado de cousas que se perdeu. O instrumento do impossível. Talvez por isso o fim deste Solidão Continental soe como um novo começo, um reinício, emprestando ao romance uma sensação de continuidade - mas não de apaziguamento - nem nunca de serenidade.

    A linguagem e o sexo. Este Solidão continental seria a tentativa de João Gilberto Noll devolver seu personagem ao mundo dos vivos por meio do arrebatamento verbal e sexual.

    E esse é apenas um dos muitos pontos de contato do livro com as obras anteriores de Noll ... A busca do orgasmo permanente - e a frustração inevitável que ela traz. A busca da comunicação completa, a busca da conciliação máxima entre as palavras e os sentimentos - e a outra frustração inevitável que aqui virá.

    Mais uma vez, um personagem de Noll se encontra à deriva em um mundo que não mais reconhece. A lista de semelhanças e afinidades é numerosa, talvez inesgotável.

    Como em Harmada (1993), temos também a oposição simbólica e dilacerante entre a cidade e a natureza. Temos a água como um rito de purificação, como um segundo batismo.

    Temos ainda um hospital público como um purgatório para o corpo e para a alma.

    Como em A fúria do corpo (1981), Noll desenha um homoerotismo quase narcisista, fazendo do corpo do outro um espelho de si próprio. E daí, como acontecia em Lorde (2004), esse jogo de duplos resvala no fantástico.

    A rigor, o único problema de Solidão Continental é ter vindo depois de todos esses livros, que marcaram não apenas a carreira de João Gilberto Noll,  mas também a literatura brasileira contemporânea. O gaúcho Noll, aos 66 anos de idade, é afinal um dos mais celebrados autores do país. Foi vencedor do Jabuti em cinco ocasiões.

    O barato de Solidão Continental, por outro lado, é marcar uma espécie de retorno de Noll à forma original, um retorno às suas antigas obsessões, após uma série de livros infanto-juvenis lançados nos últimos anos:

    O Nervo da Noite (2009), Sou eu! (também 2009) e Anjos das Ondas (2010).

    O retomo de Noll a uma plena literatura, a esta literatura para adultos, foi um dos fatos mais marcantes da última temporada editorial. E pode anunciar um recomeço em sua carreira. Como este livro não chega propriamente a terminar, parece justo encarar a obra de João Gilberto Noll como uma vertigem ainda longe de se esgotar. Ainda estamos longe do chão.

    Trecho:

    Entre mim e aquele cenário da Osvaldo Aranha havia como uma mucosa transparente doendo se eu tocasse. Não era possível vislumbrar aquele cenário com isenção. Uma menininha filha de mendigos acampados ali embaixo me olhou com uma expressão indefinida, eu parecia lhe causar uma estranha atração. A garotinha usava batom, uma saia comprida de mulher adulta nos ombros, qual um manto fazendo uma cauda, e um sutiã sobre um enorme bustiê rasgado. Recuei. Fechei a janela para evitar o ruído exacerbado do trânsito. Tão logo fechei a janela ouvi uma cantoria só de vozes femininas. Atrás de mim, na sala outrora vazia, tinha uma maca rodeada de velho tas. Elas cantavam certamente um hino religioso, ainda pude ouvir submergindo em uma instância que não estava nem em Porto Alegre nem em parte alguma. Eu via que poderia ser novamente alçado do porto a que havia. poucos segundos tinha retomado para me encantar com aquele canto vagaroso de vozes femininas. Ouvia um hino religioso que dizia serem elas fiéis ao mistério, pois que eram filhas de um enigma. Espiei entre os corpos das mulheres, aproximei-me do centro do ajuntamento e enxerguei aquela que na maca certamente agonizava e senti que aquela reunião final não comportava a minha presença masculina e me retirei sem mágoa, prometendo a mim mesmo que dali em diante seria fiel apenas ao destino de Predenco, que não o abandonaria jamais. Tivesse ele naquele instante já morrido ou se em pouco tempo ele saísse daquele hospital, ressurrecto, seria esse homem que entraria em minha vida mesmo que como um placebo para dirimir o meu isolamento.

    Se ele por acaso não recuperasse os movimentos ou a consciência, eu lhe daria banhos matutinos, pegaria uma esponja e a passaria sobre sua nudez. E esse ato seria o meu sexo diário.

    E melhor, assim eu estaria retomando à meninice, eu voltaria a brincar.

    Afinal, em casa novamente ... "
     

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

João Gilberto Noll estava na FLIP 2008. Festejado, famoso, bom de serviço, respeitado. Na ocasião teve relançamentos de livros. Trouxe A Fúria do Corpo e Acenos e Afagos.


 

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