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As Benevolentes

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As Benevolentes

Livro Excelente - 1 comentário

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Autor: Jonathan Littell

Editora: Alfaguara

Assunto: Romance

Traduzido por: André Telles

Páginas: 905

Ano de edição: 2007

Peso: 1.160 g

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Excelente
Marcio Mafra
22/04/2009 às 12:10
Brasília - DF


As Benevolentes é um livro de memórias, escrito por um militar da SS nazista, que descreve as suas próprias atrocidades cometidas durante a 2ª Guerra Mundial. Ele, que depois de algumas décadas do final da guerra, vivia anônimo na França, trabalhando numa fábrica de tecidos, estava velho e próximo de se aposentar, quando resolveu escrever suas memórias, sem nenhum escrúpulo nem sinal de arrependimento.

A narrativa de Littel - extraordinariamente bem detalhada - é um riquíssimo trabalho de reconstituição histórica, não somente pela bárbara descrição dos massacres, como também pelo desmoronamento da falsa eficiência nazista.

O personagem Maximilien, vai narrando a sua carreira militar desde que ingressou no Exército do Nacional-socialismo, passando por Stalinigrado, na Rússia, durante as execuções de judeus, até a tomada final de Berlim, onde ele tem um encontro inusitado com o Fuhrer Adolf Hitler, que vivia seus momentos finais.

A história, como numa ópera, é dividida em sete enormes capítulos: Toccata, Allemandes I e II, Courante, Sarabande, Menuet, Air e Gigue, nomes musicais, aludidos à paixão dos principais expoentes nazistas, como Himmler, Eichmann, Hess, Borman e Adolf Hitler.

As memórias de Maximilien têm minúcias aparentemente banais, mas que se encaixam no conteúdo com perfeição, como na parte das estatísticas dos mortos por ano, mês, semana, dia e hora, devidamente classificados por nacionalidades, como soviéticos, alemães ou judeus.

O melhor do livro é constatar que os alemães - militares e civis - não se consideravam cruéis, nem injustos, nem culpados de absolutamente nada, nem mesmo pela eliminação dos judeus. Tanto que o lazer preferido dos soldados era fotografar as execuções e enviar esses retratos aos seus familiares. Eles o faziam, não como troféus de caça ou de pescaria fotografados pelos caçadores e pescadores. Os retratos funcionavam como se fossem atestados de antecedentes, que certificariam os bons serviços prestados ao Reich.

Maximilien não era um homem inculto. Pelo contrário. Profundo conhecedor de música, doutorado em direito, admirador de Kant, Hegel e Platão. Se alistou nas fileiras da SS porque tinha sido surpreendido pela polícia num parque de Berlim, freqüentado por homossexuais. Max era completamente desajustado de cabeça, pelos padrões normais de qualquer pessoa. Ele tinha um grande ódio de sua mãe, porque ela ao sair de casa levou junto à única filha, que era irmã gêmea de Max. Antes de se alistar na SS eles mantinham um incesto. Max confessou que sua irmã foi a única mulher com quem sentiu prazer.

Por ocasião do episódio do parque de Berlim ele só se safou da prisão porque o seu inseparável amigo Thomas interferiu. Thomas Hauser foi seu grande companheiro, fiel amigo e conselheiro durante toda a guerra. Quase ao final da história, Max mata, sem dó nem piedade a seu melhor e - talvez - único amigo: Thomas Hauser.

O final da história não surpreende, mas é grandiloqüente, embora num cenário de destruição.

Jonathan Littel não ganhou o prêmio da Academia Francesa por uma ação entre amigos, mas sim pela mais formidável e espetacular ficção sobre o nazismo e a sua grande guerra.

Talento é isso. Aliás sobra talento em todas as 905 páginas do livro. É admirável que Jonathan tivesse apenas 39 anos, ao concluir o seu livro. Mais que excelente.



Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história de Maximilien Aue, um jovem alemão, de origem francesa, que foi oficial da SS Nazista, durante a 2ª Guerra Mundial. Fez parte da assessoria de Eichmann e Himmler. Encarregado de organizar o extermínio dos judeus, na região do Cáucaso, participou dos momentos mais sombrios da guerra e suas memórias são narradas pelo avesso, ou seja, pelo ponto de vista dos alemães.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Acontece que conheci esse Herr Carrell, na Hungria, na época em que ainda se chamava Paul Carl Schmidt e escrevia, sob a égide de seu ministro Von Ribbentrop, o que pensava de verdade em uma prosa vigorosa e cheia de estilo: A questão judaica não é uma questão de humanidade, não é uma questão de religião; é unicamente uma questão de higiene política. Agora, o honorável Herr Carrell-Schmidt conseguiu a façanha considerável de publicar quatro volumes insípidos sobre a guerra na União Soviética sem mencionar uma única vez a palavra judeu. Sei disso, li: é árduo, mas sou teimoso. Nossos autores franceses, os Mabire, os Landemer e outros do gênero, não valem mais que isso. Quanto aos comunistas, é a mesma coisa, só que do ponto de vista oposto. Onde se meteram aqueles que cantavam Filhos, amolem suas facas no meio-fio das calçadas? Ou estão calados, ou mortos. Tagarela-se, careteia-se, chafurda-se em uma turba insossa modelada pelas palavras glória, honra e heroísmo, é cansativo, ninguém fala disso. Talvez eu esteja sendo injusto, mas ouso esperar que me compreendam. A televisão nos entope com números, números impressionantes, uma fila de zeros; mas quem de vocês pára às vezes para pensar realmente nesses números? Quem de vocês tentou ao menos uma vez na vida contar quantas pessoas conhece ou conheceu até hoje e comparar esse número ridículo aos números que vê na televisão, os famosos seis milhões ou vinte milhões? Vamos à matemática. A matemática é útil, oferece perspectivas, refresca o espírito. É um exercício às vezes muito instrutivo. Tenham então um pouco de paciência e concedam-me sua atenção. Vou considerar que os dois teatros em que desempenhei um papel, ainda que ínfimo, foram: a guerra contra a União Soviética e o programa de extermínio oficialmente designado em nossos documentos como "Solução Final da Questão Judaica", Endlosung der Judenfrage, para citar tão belo eufemismo. No que se refere às frentes de batalha no Ocidente, de toda forma, as perdas foram relativamente menores. Meus números de partida serão um pouco arbitrários: não tenho escolha, não há consenso. Para o conjunto das perdas soviéticas, opto pelo número tradicional, citado por Khrutchev em 1956, de vinte milhões, ao mesmo tempo observando que Reidinger, reputado autor inglês, encontra apenas doze, e Erickson, autor escocês tão reputado quanto, se não mais, por sua vez atinge um total mínimo de vinte e seis milhões; os números oficiais soviéticos, assim, cortam muito nitidamente a maçã em duas, com a diferença de um milhão. Para as perdas alemãs - apenas na URSS, entenda-se -, podemos nos basear na cifra mais oficial e germanicamente precisa de 6.172.373 soldados perdidos no Leste entre 22 de junho de 1941 e 31 de março de 1945, cifra contabilizada em um relatório interno do OKH (o Alto-Comando do Exército) encontrado depois da guerra, mas englobando os mortos (mais de um milhão), os feridos (quase quatro milhões) e os desaparecidos (ou seja, mortos, prisioneiros e prisioneiros mortos, cerca de 1.288.000). Digamos então, para abreviar, dois milhões de mortos, os feridos não nos interessam aqui, incluindo os cerca de cinqüenta e poucos mil mortos suplementares entre 10 de abril e 8 de maio de 1945, principalmente em Berlim, a que devemos acrescentar ainda o milhão de civis mortos estimado durante a invasão do Leste alemão e deslocamentos subseqüentes de populações, ou seja, no total, digamos, três milhões. Quanto aos judeus, podemos escolher: a cifra consagrada, ainda que poucas pessoas saibam sua origem, é de seis milhões (foi Hõttl quem disse a Nuremberg que Eichmann lhe dissera; mas Wisliceny, por sua vez, afirmou que Eichmann mencionara a cifra de cinco milhões aos seus colegas; e o próprio Eichmann, quando os judeus finalmente puderam lhe fazer a pergunta pessoalmente, respondeu entre cinco e seis milhões, mais possivelmente cinco). O Dr. Korherr, que compilava estatísticas para o Reichsführer-SS Heinrich Himmler, chegou a pouco menos de dois milhões em 31 de dezembro de 1942, mas reconhecia, quando pude discutir com ele em 1943, que seus números de partida eram pouco confiáveis. Enfim, o respeitabilíssimo professor Hilberg, especialista na questão e que dificilmente teria pontos de vista sectários, pró-alemães pelo menos, chega, ao fim de uma demonstração cerrada de dezenove páginas, à cifra de 5.100.000, o que corresponde grosso modo à opinião do finado Obersturmbannführer Eichmann. Aceitemos então os números do professor Hilberg, o que dá, para recapitular: Mortos soviéticos.......................................... 20 milhões Mortos alemães............................................ 3 milhões Subtotal (guerra no Leste)......................... ... 23 milhões Endtosung....................................................5,1 milhões Total...........................................................26,6 milhões, considerando que 1,5 milhão de judeus foram contabilizados como mortos soviéticos ("Cidadãos soviéticos mortos pelo invasor germano-fascista", como indica muito discretamente o extraordinário monumento de Kiev)......" ...." .... Depois subi a colina até o sanatório e fui bater à porta de Hohenegg. Ele me recebeu deitado em seu divã, descalço, mãos cruzadas sobre a grande barriga redonda. "Peço desculpa por não levantar." Girou a cabeça indicando uma mesinha de mármore. "O conhaque está ali. Pode me servir um pouco, por favor?" Coloquei duas doses nos copinhos e lhe estendi um; depois me instalei em uma cadeira e cruzei as pernas. "Então, qual é a coisa mais atroz que já viu?" Agitou a mão: "O homem, claro!" - "Estava dizendo clinicamente." - "Clinicamente, as coisas atrozes não têm o menor interesse. Em contrapartida, vemos curiosidades extraordinárias que abalam completamente nossas noções. A respeito do que podem sofrer nossos míseros corpos." - "Oquê, por exemplo?" - "Pois bem, um homem receberá um pequeno estilhaço na panturrilha que lhe seccionará a artéria peroneal e morrerá daqui a dois minutos, ainda de pé, com o sangue vazado em cima da bota, sem perceber. Outro, ao contrário, terá a têmpora atravessada por uma bala e se levantará sozinho para caminhar até o pronto-socorro." - "Somos pouca coisa", comentei. - "Exatamente." Provei do conhaque de Hohenegg: era um álcool armênio, um pouco açucarado, mas tolerável. "Sinto muito pelo conhaque", disse, sem virar o rosto, "mas não consegui encontrar Rémy-Martin nesta cidade de selvagens. Voltando ao que eu dizia, quase todos os meus colegas conhecem casos desse gênero. Aliás, isso não é novo: li as memórias de um médico militar da Grande Armée, e ele diz a mesma coisa. Claro, ainda perdemos muitos homens. A medicina fez progressos depois de 1812, mas os recursos da carnificina também. Estamos sempre na rabeira. Por outro lado, pouco a pouco vamos nos aperfeiçoando, tanto isso é verdade que Gading fez mais pela cirurgia moderna que Dupuytren." - ''Ainda assim o senhor realiza verdadeiros prodígios." Suspirou: "Talvez. A verdade é que não consigo mais ver uma mulher grávida. Fico profundamente deprimido ao pensar no que aguarda aquele feto." - "Nada morre senão aquilo que nasce", recitei. "O nascimento tem uma dívida com a morte." ......" ...."Mas eis que me afasto das minhas primeiras reflexões. O que queria dizer é que, se o homem não é, como pretenderam certos poetas e filósofos, naturalmente bom, tampouco é natUralmente mau: o bem e o mal são categorias que podem servir para qualificar o efeito das ações de um homem sobre outro; mas a meu ver são intrinsecamente inadequadas, até mesmo inúteis, para julgar o que se passa no coração desse homem. Döll matava ou mandava matar pessoas, logo é o Mal; mas em si era um homem bom com seus familiares, indiferente aos outros e, como se não bastasse, obediente às leis. Pede-se algo mais ao anônimo das nossas cidades, civilizadas e democráticas? E quantos filantropos, mundo afora, célebres por sua generosidade extravagante, não são, ao contrário, monstros de egoísmo e aridez, sequiosos de glória pública, inchados de vaidade, tirânicos com seus próximos? Todo homem deseja satisfazer suas necessidades, permanecendo indiferente às dos outros. E para que os homens possam viver juntos, para evitar o estado hobbesiano do "Todos contra todos" e, ao contrário, graças à ajuda mútua e ao crescimento da produção daí decorrente, satisfazer uma maior soma de seus desejos, são necessárias instâncias reguladoras que tracem limites para esses desejos e arbitrem os conflitos: esse mecanismo é a Lei. Mas também é preciso que os homens, egoístas e frouxos, aceitem a coerção da Lei. Esta, portanto, deve reportar-se a uma instância exterior ao homem, fundamentar-se numa força que o homem sinta como superior a ele próprio. Como eu sugerira a Eichmann durante nosso jantar, essa referência suprema e imaginária foi por muito tempo a idéia de Deus; desse Deus invisível e todo-poderoso, ela deslizou para a pessoa física do rei, soberano de direito divino; e, quando esse rei perdeu a cabeça, a soberania foi transmitida ao Povo ou à Nação, fundamentando-se num "contrato" fictício, sem base histórica ou biológica, e portanto tão abstrata quanto a idéia de Deus. O nacional-socialismo alemão quis enraizá-la no Volk, uma realidade histórica: o Volk é soberano, e o Führer exprime, representa ou encarna essa soberania. Dessa soberania deriva a Lei, e, para a maioria dos homens, de todos os países, ia moral não é outra coisa senão a Lei: nesse sentido, a lei moral kantiana, que tanto preocupava Eichmann, derivada da razão e idêntica para todos os homens, é uma ficção como todas as leis (mas talvez uma ficção útil). A Lei bíblica diz: Não matarás, e não prevê exceção alguma. Mas todo judeu ou cristão aceita a suspensão dessa lei em tempos de guerra, achando justo matar o inimigo de seu povo, não vendo pecado nenhum nisso; terminada a guerra, as armas novamente na parede, a antiga lei retoma seu curso tranqüilo, como se a interrupção jamais houvesse acontecido. Por exemplo, para um alemão, ser um bom alemão significa obedecer às leis e, logo, ao Führer: moralidade, não pode existir uma coisa dessas, pois nada seria capaz de fundamentá-la (e não é um acaso os raros oponentes ao poder terem sido crentes na maior parte: eles conservavam outra referência moral, podiam arbitrar o Bem e o Mal segundo outra referência que não o Führer, e usavam Deus como ponto de apoio para traírem seu chefe e seu país: sem Deus, isso lhes teria sido impossível, pois de onde extrair a justificação? Que homem sozinho, por vontade própria, pode bater o martelo e dizer: Isso é bom, aquilo é mau? Que arrogância seria, e que caos também, se todos se outorgassem fazer a mesma coisa: se cada homem vivesse segundo sua Lei privada, por mais kantiana que fosse, e eis que voltamos a Hobbes). Por conseguinte, se querem julgar as ações alemãs durante essa guerra como criminosas, é toda a Alemanha que deve prestar contas, e não apenas os Döll. Se Döll viu-se em Sobibor e seu vizinho, não, isso é um acaso, e Döll não é mais responsável por Sobibor que seu vizinho mais afortunado; ao mesmo tempo, seu vizinho é tão responsável por Sobibor quanto ele, pois ambos servem com integridade e dedicação o mesmo país, o país que criou Sobibor. Quando é mandado para o front, um soldado não protesta; não apenas está arriscando a vida, como obrigam-no a matar, ainda que não queira; ele abdica de sua vontade; se permanece no posto, é um homem virtuoso; se foge, é um desertor, um traidor. O homem destacado para um campo de concentração, como o designado para um Einsatzkommando ou um batalhão da Polícia, em geral não raciocina de outra forma: ele sabe intimamente que sua vontade não tem peso algum e que só o acaso faz dele um assassino e não um herói ou um morto. ...." ..."acho, a razão profunda dessas declarações e também por que os chefões suspiravam e suavam tanto, era porque eles também, assim como eu, começavam a compreender, a compreender que não era um acaso o Reichsführer, daquela forma e no início do quinto ano da guerra, evocar abertamente diante deles a destruição dos judeus, sem eufemismos, sem piscadelas, com palavras simples e brutais como matar - exterminar, ele disse, quero dizer matar ou dar ordens para matar -, que, pela primeira vez, o Reichsführer lhes falasse abertamente dessa questão... Para lhes dizer como são as coisas, não, não era decerto um acaso, e se o permitia fazê-lo, então o Führer tinha conhecimento daquilo; pior, o Führer o quisera, daí a angústia deles, o Reichsführer falava obrigatoriamente ali em nome do Führer, e dizia aquilo, aquelas palavras que não deviam ser ditas, e as gravava, em disco ou fita, tanto faz, e tomava nota meticulosamente dos presentes e ausentes - dos chefes da SS, só não assistiam ao discurso de 4 de outubro Kaltenbrunner, que estava com flebite, Daluege, com um problema sério no coração e de licença por um ou dois anos, Wolff, recém-nomeado HSSPF para a Itália e plenipotenciário junto a Mussolini, e Globocnik, que acabava, eu ainda não sabia e só vim a saber depois de Posen, de ser transferido de seu pequeno reino de Lublin para sua cidade natal, Trieste, como SSPF para a Ístria e a Dalmácia, sob as ordens justamente de Wolff, acompanhado aliás, mas isso eu soube ainda mais tarde, de quase toda a equipe do Einsatz Reinhard, inclusive T-4, liquidava-se tudo, Auschwitz seria o suficiente agora, e a bela costa adriática daria um ótimo vazadouro para todas as pessoas sem serventia para nós, até Blobel viria se juntar a eles um pouco mais tarde, quem sabe fossem mortos pelos guerrilheiros de Tito, isso nos pouparia parte do trabalho; e, quanto às personalidades do Partido, também foram notadas algumas ausências, mas nunca vi a lista - tudo isso, portanto, o Reichsführer o fazia deliberadamente, sob instruções, e isso só podia ter uma razão: fazer com que mais tarde nenhum deles pudesse dizer que não sabia, pudesse tentar fingir, em caso de derrota, que era inocente do pior, pudesse jamais sonhar em tirar o corpo fora; era para amaciá-los, e eles percebiam isso muito bem, daí sua angústia. A Conferência de Moscou, em cujo desfecho os Aliados juraram perseguir os "criminosos de guerra" até o rincão mais remoto do planeta, ainda não acontecera, seria dali a algumas semanas, antes do fim do mês de outubro de 1943, mas a BBC já difundia, desde o verão sobretudo, uma propaganda maciça com esse tema, dando nomes, aliás com certa precisão...." ..."As vezes sobravam uns alemães nessas aldeias, discerníamos suas vozes amedrontadas mas pacientes em meio a exclamações e palavrões russos, os gritos tampouco eram raros, sobretudo gritos de mulher. Mas aquilo ainda era melhor que as aldeias incendiadas aonde a fome nos levava: o gado morto infectava as ruas, as casas exalavam, misturado ao cheiro de queimado, um odor de carniça, e, como tínhamos que entrar para encontrar o que comer, não podíamos deixar de ver os cadáveres contorcidos de mulheres, freqüentemente nuas, até mesmo velhas ou meninas de dez anos, com sangue entre as pernas. Mas permanecer nos bosques não ajudava a escapar dos mortos: nas encruzilhadas, os galhos imensos de carvalhos centenários estavam carregados de cachos de enforcados, em geral Volkssturm, tristes idiotas vítimas de Feldgendarmes zelosos; os corpos espalhavam-se pelas clareiras, como aquele rapaz nu, deitado na neve com uma perna dobrada, tão sereno quanto o enforcado da décima segunda carta do Tarô, pavorosamente estranho; e, mais adiante, nas florestas, cadáveres poluíam os lagos turvos que contornávamos amargurando nossa sede. Nesses bosques e florestas, encontrávamos também vivos, civis aterrorizados, incapazes de nos fornecer a menor informação, soldados desgarrados ou pequenos grupos que, como nós, tentavam burlar as linhas russas. Waffen-55 ou Wehrmacht, não queriam nunca nos acompanhar; deviam temer, em caso de captura, ser encontrados com altas patentes 55. Isso fez Thomas refletir e ele me obrigou a destruir minha caderneta de soldo e meus documentos e a arrancar minhas insígnias, para o caso de cairmos nas mãos dos russos; porém, com medo dos Feldgendarmes, decidiu, bastante irracionalmente, que conservaríamos nossos belos uniformes pretos, um pouco descabidos para aquele programa campestre. Todas essas decisões, era ele quem as tomava; eu aceitava sem refletir e lhes obedecia, fechado a tudo exceto ao que me caía diante dos olhos no lento desenrolar da marcha. Quando alguma coisa suscitava uma reação da minha parte, era pior ainda. Na segunda noite depois de Kõrlin, durante a madrugada, entramos em uma aldeola, algumas chácaras em torno de um solar. Um pouco ao lado deste erguia-se uma igreja de tijolos, encostada num campanário pontiagudo e coroado por um telhado de ardósia cinza; a porta estava aberta, por ela ressoava uma música de órgão; Piontek já partira para vasculhar as cozinhas; seguido por Thomas, entrei na igreja. Um velho, perto do altar, tocava A arte da fuga, o terceiro contraponto, creio, com aquele belo rolamento do baixo que no órgão é reproduzido no pedal. Aproximei-me, sentei-me num banco e escutei. O velho terminou a passagem e se voltou para mim: usava um monóculo e um bigodinho branco bem cortado e vestia um uniforme de Oberstleutnant da outra guerra, com uma cruz no pescoço. "Eles podem destruir tudo", ele me disse tranqüilamente, "mas não isto. É impossível, isto permanecerá para sempre; resistirá mesmo quando eu parar de tocar." Eu não disse nada e ele atacou o contraponto seguinte. Thomas continuava de pé. Levantei-me também. Escutei. A música era magnífica, o órgão não tinha grande potência mas ressoava naquela igrejinha familiar, as linhas do contraponto cruzavam-se, brincavam, dançavam uma com a outra. Ora, em vez de me apaziguar, aquela música não fazia senão atiçar minha fúria, estava quase insuportável. Eu não pensava em nada, minha cabeça estava vazia de tudo exceto daquela música e da pressão soturna da minha fúria. Eu queria gritar para ele parar, deixei que terminasse a fuga, mas o velho encetou imediatamente a seguinte, a quinta. Seus longos dedos aristocráticos voavam pelas teclas do teclado, puxavam ou empurravam os registros. Quando rematou com um golpe seco no final da fuga, saquei minha pistola e disparei uma bala na cabeça dele. Ele desabou para frente sobre as teclas, abrindo a metade dos tubos num mugido desolado e dissonante. Guardei a pistola, me aproximei e o puxei para trás pela gola; o som cessou para deixar apenas o do sangue gotejando de sua cabeça sobre as lajes. "Você enlouqueceu completamente!", sibilou Thomas. "Que deu em você!?" Olhei para ele friamente, estava pálido, mas minha voz, entrecortada, não tremia: "É por causa desses fidalgotes corrompidos que a Alemanha está perdendo a guerra. O nacional-socialismo desmorona e eles ficam tocando Bach. Isso deveria ser proibido." Thomas me estudava, não sabia o que dizer. Depois deu de ombros: "No fim das contas, você tem razão. Mas que isso não se repita. Vamos embora." Piontek, no grande terreiro, estava preocupado com o disparo e apontava sua submetralhadora. Sugeri dormirmos no solar, numa cama de verdade, com lençóis; mas acho que Thomas estava com raiva de mim, decidiu que dormiríamos de novo nos bosques, para me atormentar, creio. Mas eu não queria enraivecê-lo, e, depois, era meu amigo; obedeci e o segui sem protestar...."


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Num comentário sobre a Academia Francesa de Letras, li que Jonathan Littell fora premiado na categoria romance, em 2006. Anotei para comprar o livro, o que só aconteceu em fevereiro de 2008.


 

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