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Dinah Silveira de Queiroz

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Dinah Silveira de Queiroz

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Autor: Nataniel Dantas

Editora: Lisa

Assunto: Coletânea

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 177

Ano de edição: 1982

Peso: 230 g

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Bom
Marcio Mafra
03/03/2003 às 15:06
Brasília - DF

Este bom livro pretende analisar - sob o ponto de vista literário - a bibliografia de Dinah Silveira de Queiroz. É um texto cru, bastante indigesto para quem não tem o hábito da análise literária. É quase didático. Mas é bom, tem conteúdo e qualidade.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Análise literária dos trabalhos de Dinah Silveira de Queiroz, passando pelos romances, contos, ficção científica, crônicas e memórias.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A Muralha. Ela ficou muito tempo a olhar aquela arca, que lhe recordava a vergonha, a esperar Isabel que não vinha. A janela aberta recolhia o vozerio e a confusão dos escravos. Ouviu tinir um chicote. Unia-se à voz de mãe Cândida e de Rosália, lá fora no pátio. E como que tangidas pela irritação que ela sentia na tarde, entravam moscas, moscas tontas, a lhe percorrerem os braços, que ela agitava molemente, numa canseira pesada. A essas horas Tiago estaria no seu quarto. Havia um preto, que aprendera ofício de branco, sabia aparar cabeleiras, barba e até arrancava dentes, se preciso fosse. Mãe Cândida, vez por outra, o levava a seu lado, e ele se sentia honrado em sua situação de enfermeiro. De certo, a estas horas estaria a ajudar o sinhozinho. Cristina sacudiu aquelas moscas, que empestavam o quarto, numa voracidade de coisa alguma, como se elas se sentissem atraídas pelo podre que via em si mesma. Entre as coisas que a desgostavam da nova terra, havia mais este horror dos insetos que vinham dos ares, do chão, de toda a parte, e que desabavam sobre a casa, mal a noite se anunciasse, com seus zumbidos irritantes. Quando ela avistara a terra cheia de folhagem e de viço, não podia pensar que tanta limpeza de céu e que tanta perfeição de terra dessem de si aquela nojeira dos insetos, a poluir a vida, a exasperar a paciência. Já estava meio adormentada nessa espera vazia, quando a fala de Dom Braz estrondou rente, no corredor: - Gente! Gente surda! Genoveva! Basília! Onde é que vosmecês estão? Passou e, instantes depois, a voz sumida, já longe, mas bastante gritada para que fosse perfeitamente percebida por Cristina, berrou uma terrível praga. E logo em seguida, o costumeiro "Diacho!", dizendo: - Corre, Aimbé! Traz aquele diacho antes que eu arrase com a vida dele! Algum negro teria fugido? Devia ser. E fugir para onde? Por que fugiriam esses pobres diabos? São Paulo era aquela pobreza enfatuada e a rica gente do lugar não viveria melhor que os brancos da Lagoa Serena. Fugir para onde, neste deserto miserável? Ela também quisera agora fugir, mas bem sabia como era impossível. Teria vergonha de seu irmão e dos que a conheciam. Diriam as velhas amigas de sua mãe: - Esta menina, tão sem sorte, nem na terra dos negros foi servida. Nem por lá arranjou marido, e a mandaram de volta. Quando estava ainda fechada nessas incertezas, Basília a veio buscar: - Está na hora da janta! Tinha o chicotinho de couro muito luzente e de punho de prata, com que Leonel a presenteara. E disse à Cristina, para puxar assunto, como visse a outra se levantar tão marcada de tristeza profunda: - Já entrou em uso hoje. Isso é para espantar os moleques, que andam a tirar a paciência da gente, e dar forma neles. Cristina, que estava de roupão, olhou a blusa amarela em cima de um tamborete, com certa malícia melancólica: - O que me aprontaste hoje, hein? E se vestiu com outra blusa, enquanto pensava: "nem que fosse benta e exorcizada, tiraria de mim tal humor peçonhento". E, tendo Basília seguido à frente, saiu para o corredor, chegou à sala da comida. Havia espera de chuva. O sol desaparecera. A lagoa era corrida de ondazinhas miúdas. Portas batiam. As árvores se entortavam, cabelos loucos, que flutuavam no ar, como plantas tangidas no fundo da água. Alguém deveria ordenar que se fechassem janelas, cerrassem as portas, acendessem candeeiros, mas não se ouvia voz nenhuma. Cristina, ela mesma, fechou as janelas e deu centelha ao candeeiro de azeite. Foram chegando mãe Cândida, Basília, Dom Braz. Cada qual tomou o seu assento em silêncio. Sentaram-se todos, e houve assim como uma espera. Mãe Cândida puxou pelo braço do marido: - Dia... Que me esqueci. Em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo. Serviu-lhe mãe Cândida o cozido fumegante. Estavam vagos os lugares de Margarida e Leonel, de Isabel, de Tiago e de Rosália. O jantar, que deveria ser de festa, era de uma tristeza acabrunhante. Cristina perguntou a mãe Cândida preferindo não saber de Tiago: - Ainda não conheço Isabel... Ela não vem jantar? Dom Braz mastigava, colérico, as espessas sobrancelhas unidas, e não fitava ninguém. Parecia que nem sabia o que estava comendo, tal a raiva que devia sentir. Mãe Cândida respondeu, triste e sisuda: - Isabel chegou doente, está de cerimônia com vosmecê. Quis ficar no quarto de trás, ao lado de Genoveva. Também, com a jaguatirica que trouxe, vosmecê não agüentaria a inhaca. Cristina pensou que, felizmente para ela, o ódio de Dom Braz deveria ser contra o negro fugido ou por um outro motivo. Não acreditava que mãe Cândida pudesse ela mesma confidenciar a respeito da triste história da arca, com seu marido. Houve um tropel lá fora. Chegavam cavaleiros. Tiago e Aimbé daí a pouco entraram na sala, que se abrira sobre a friúra da tarde. Tiago, ainda do mesmo modo que Cristina o vira, se apresentou ao pai: - Meu pai, eu tomei cavalo, mar de ir a São Paulo combinar assuntos meus. O olhar do velho chispou de través, riscando de baixo para cima as sobrancelhas arrepiadas, e sua voz pausada, sem alteração alguma, perguntou: - Desde quando vosmecê é livre de fazer o que lhe dá na cabeça? Tiago tartamudeou: - Bem, não havia precisão de mim em casa. - Então - disse o velho, pondo-se de pé, subitamente vermelho - tu chegas do sertão, ainda com pó dentro do umbigo, nem tomas benção direito a tua mãe, nem fazes o conhecimento de tua noiva, que te viu como relâmpago, e tu te pões a caminho de novo? Aimbé disse respeitoso: - Meu senhor, seu filho taí. E se retirou para a cozinha, tendo a noção de que havia inconveniência se ficasse. Tiago estava agora trêmulo e também raivoso: - Não vejo razão para ser procurado e caçado que nem negro fugido. Dom Braz explodiu: - Quem não quer ser procurado como negro fugido, não faça papel de negro fugido. Sente aí, aí, ao lado de Cristina. Tome seu caldo. Tiago respondeu: - Meu pai, com licença de vosmecê, vou para o quarto. Não quero jantar. Subiu ao auge a cólera do velho Capitão: - Deus Nosso Senhor não me faça perder a calma: eu devia era tanger o chicote no teu lombo, para te ensinar a respeitar teu pai, tua mãe, tua noiva e tua casa. Mãe Cândida fez uma intervenção sem nenhum proveito: - Vosmecê deve perdoar, para não me tirar de todo a alegria da chegada. - Que alegria, que coisa nenhuma! Por que é que esse diabo não morreu no sertão, para não dar um desgosto desses a gente? Já te disse, Tiago. Tu te sentas aqui, e não se fala mais na história. Cristina percebeu, no tom agressivo, quase um pedido de graça ao filho. Sua garganta se apertou. Tiago deu as costas. - Boa noite, meu pai, boa noite, minha mãe! Então o velho, as barbas a lhe tremerem, se afastou com dois passos da mesa, e fazendo voltear Tiago pelos ombros, disse: - Ajoelha já e pede perdão. Mãe Cândida também se levantava e dizia a Tiago: - Meu filho, não me dê esse desgosto. Obedeça a seu pai. Foi o próprio Dom Braz que, erguendo o punho com força, abateu Tiago no chão, obrigando-o a ajoelhar-se. Tiago já se ia levantar quando Dom Braz Olinto, tirando do bolso um longo lenço de fazenda desenhada, bateu com ele no alto da cabeça do moço, umas três vezes. Tiago se pôs de pé, as mãos cobrindo o rosto e saiu da sala. Cristina pensou que ninguém mais, depois disso, continuasse a jantar. Mas o velho casal voltou a seu lugar. Mãe Cândida prendeu uma lágrima fechando os olhos, rápido. Dom Braz mastigou, em silêncio, bebeu um gole d'água e afastou o prato. Então a voz do vento se alteou e subjugou a casa, num gemido monstruoso, que parecia o uivo da mata, o pranto daquela terra diferente, de costumes diferentes. .. .Mais tarde, Basília chegou ao pai: - Nhôr pai, quer que lhe traga o livro de assentamentos? O velho fez um "ah", riscando com a mão no ar e depois mudou de idéia. Cristina, num abatimento enorme, os olhos a se esconderem de todos, se sentava agora junto da Virgem, cuja lamparina estava apagada. Mas havia um cheiro de azeite: o resto do fervor,ali posto, do pedido geral de proteção pelos varões da Fazenda. O velho pareceu mudar de idéia, e disse: - Traga esse livro, Basília, vosmecê sabe o que faz. Sabe o que quer. Havia na sala um pesado bufete, quase sempre fechado. Basília meteu a chave numa das suas portas, e lá de dentro extraiu um grande livro coberto de veludo azul já desbotado. Basília trouxe a tinta, a pena de pato e pôs tudo junto do pai. Depois trouxe mais um candeeiro e colocou-o sobre a mesa escura e longa, com todos os lugares vazios, menos a grande cadeira, agora ocupada por Dom Braz. Basília arredou o banco, sentou-se e o velho lhe foi ditando com impaciência sobre a viagem, os sucessos, a entrada no sertão, a gente que levava, o negro que morreu, o ouro que trouxe - que é tudo que mercê de Deus e tirado o quinto de EI-rei, me foi sobrado. Depois, relatou ainda sobre as compras que trouxera; o presente que levara de Dom Carlos Pedroso para Margarida. O tempo corria. Agora a chuva caía mansa e se unia à lagoa, num torpor doce, que vinha mesmo através das janelas fechadas. Ao acabar de ditar, sobre o número de caixas, arcas, canastras e baús, fechou, assim, seu relato: - Neste dia da chegada à Lagoa Serena, se fizeram prometidos para tomar bênção dentro de dez dias, na igreja do Colégio, na Vila de São Paulo, meu filho - Tiago Olinto, e Dona Cristina de Godói, que, com toda solenidade se obrigaram, sob minhas vistas, a manter sua fé, amor e obrigação, um pelo outro. Ao terminar esta extraordinária declaração, Dom Braz se espreguiçou: - Agora pode ir embora, que eu vou dar gosto à minha rede. Era uma espécie de recado à Cristina, que então, o rosto em fogo, e subitamente corajosa, o interpelou: - Dom Braz, bem sabeis... Vosmecê bem sabe que não celebramos nossos esponsais e que por trato só temos cartas trocadas. A nuvem doce passou pelo rosto de linhas rígidas: - Minha filha, tudo o que acontece eu ponho neste livro. E se não acontece, estando no livro, é o mesmo que ter acontecido. A súbita energia de Cristina a impeliu aonde ela nunca cuidaria poder chegar: - Mas, Dom Braz, acho que vosmecê não devia pôr o preto no branco, quando tudo ainda está no ar. Pelo visto, Tiago está desgostoso. Quem sabe, se ele não quer dar a entender que põe o não pelo sim que assentou na carta? Promessa de casamento não é casamento, Dom Braz, vosmecê sabe disso muito bem. Dom Braz teve um riso triste: - Com quem ia casar Tiago? Com alguma negra, alguma índia? Todo branco que tem filha casadoura e é da altura de minha casa já tratou noivo para ela. Vosmecê não tomou compromisso há dois anos? Homem de sertão não tem tempo para namoro, e quando, por ter sangue quente demais, casa mor de sua aflição, esse casamento vira ajuste do diabo. Nunca dá certo. Casar por conta própria é um negócio desgraçado e infeliz. Eu sei muito bem que vosmecê é mulher de bom molde e de boa raça. Vosmecê já deu sua palavra. Tiago também. Eu já assentei no livro. Vamos tocar a festa depressa para diante. Vou amanhã mesmo justar o padre e providenciar a mudança para a casa de São Paulo. - Mas... Dom Braz... Eu... - Vosmecê vai casar com toda a honra e todo o gasto que for preciso. Vosmecê, desde que entrou na minha casa, ficou minha filha também. Eu sei o que é preciso para vosmecê. Se Tiago fez essa indisciplina, isto em nada se refere a vosmecê. Cuide de se aprestar. - Mas... E se eu não quisesse? Então o velho começou a rir e respondeu, melancólico: - Nossa raça dá às vezes gente ruim, e às vezes gente tão boa, que até santo já deu. Mas louco, isso não! Loucura não vem em nosso sangue, nem que tudo case com primo, e que torne a casar com primo, como sempre foi nosso jeito. Cristina tornou a dizer: - Se eu não quisesse? Eu não sou escrava da Lagoa Serena. Vim livre e se quiser volto livre também. Então o velho fechou o rosto; suas sobrancelhas se ligaram num traço eriçado, e disse com secura, antes de deixar a sala: - Mas vosmecê não é livre de sua vergonha


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

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