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Memórias do Cárcere - Volume I

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Memórias do Cárcere - Volume I

Livro Bom - 1 comentário

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Autor: Graciliano Ramos

Editora: Record

Assunto: Biografia

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 378

Ano de edição: 1984

Peso: 430 g

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Bom
Marcio Mafra
09/02/2003 às 23:03
Brasília - DF

Graciliano morreu antes da publicação de suas memórias. Talvez ele não tenha conseguido se livrar das grades, e assim não concluiu suas memórias. O livro foi catapultado para a fama, devido ao filme criado pelo cineasta Nelson Pereira e estrelado por Carlos Vereza e Gloria Pires, ela no papel da mulher de Graciliano, que o visita algumas vezes na prisão. Como sempre acontece, o livro se confunde com filme e o filme com a história do livro. Os artistas ao interpretarem os personagens, acrescentam força ao talento do escritor, e por vezes, roubam o brilho do livro. A leitura é arrastada, como arrastados são dias passados em prisão. Movimentação e dinâmica é quando surgem personagens do tipo Vanderlino - um verdadeiro faz tudo - que apresentou ao autor o seu amigo gaúcho, ladrão e arrombador. Graciliano descreve tudo com exatidão, com rigor excepcional. Negro é negro, sórdido é sórdido, feio é feio, horror é horror. Graciliano foi preso em 1936 por conta de seu envolvimento político com os comunistas da Intentona Comunista de 1935. Como toda revolução, golpe de estado e ditadura a acusação formal nunca chegou a ser feita. O autor descreve, entre outros fatos, a entrega de Olga Benário para a Gestapo, insinua as sessões de tortura aplicadas a Rodolfo Ghioldi e relata um encontro com Epifrânio Guilhermino, que matou um governista, durante a luta no Rio Grande do Norte. Uma passagem muito nojenta e asquerosa é a descrição das náuseas que lhe provocam a imundice das cadeias. Não é uma leitura agradável.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

O volume 1 das Memórias do Carcere, trata dos capitulos: Viagens e Pavilhão dos Primários.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Recolhi-me, fui entregar-me à redação das minhas notas, mas não consegui fixar-me nelas: a atenção se desviava, fugia para uma figura negra que da coberta nos examinava com insistência. Era um eclesiástico moreno e robusto, de expressão enérgica. Ficava tempo esquecido a pesquisar o fundo do porão, como se procurasse pessoas conhecidas; metia a mão direita na manga esquerda. da batina, parecia indicar ter ali qualquer coisa para enviar-nos. Nunca o tendo visto antes, conservei-me arredio, mas fiquei sabendo o nome do homem. Padre Falcão embarcara na véspera, em Maceió; provavelmente estava ali buscando meio de ser útil aos viajantes de Alagoas. A autoridade experimentaria dura surpresa se conhecesse aqueles manejos. Excelente padre Falcão. Durante o resto da viagem notei-o mais de uma vez em ronda ao nosso curral. O olhar grave se adoçava, os lábios firmes se entreabriam num sorriso bom, exibindo enormes dentes. Era pouco mais ou menos o que poderíamos desejar, ver alguém interessar-se por nós, demonstrar-nos uma solidariedade comprometedora. Isso lá fora passaria despercebido; ali tinha valor imenso: é de coisas semelhantes que fazemos as nossas construções subterrâneas. A verdade é que não consegui escrever. Deitei-me cedo, sem tirar os sapatos, como no dia anterior. Realmente não havia lugar onde colocá-los: se os largasse no chão, amanheceriam com certeza molhados de mijo; ou talvez o gatuno de cara enferrujada os levasse. Necessário vigiar a maleta, a calça e o paletó bem visíveis. na ponta do estrado. A chavezinha estava comigo, dentro do porta-moedas; nos bolsos da roupa não havia nada suscetível de furto. Apesar disso, a bagagem não me parecia segura. Se não fosse o receio de molestar os companheiros, tê-la-ia levado para dentro da rede. Ser-me-ia então possível dormir livre de cuidados. A vigilância pouco a pouco se tomava maquinal: embrenhando-me em pensamentos confusos, às vezes despertava erguendo me sobre o cotovelo, curvando-me sobre a varanda para examinar os troços, a esquina da tábua suja. Esforçava-me por distinguir nos rumores o som de um piano. As redes imóveis: o calhambeque permanecia atracado, provavelmente. Aquela hora visitantes e passageiros estariam dançando no salão; um cretino desejava recitar; diversos irmãos mulatos exibiam coloração muito variada; uma francesa velha, experiente, dava conselhos a um provinciano ingênuo, interrompia-se para resmungar a frase percebida vinte anos atrás: - "Quel pays, mon Dieu!" Haveria um piano a bordo? Talvez não. Viajávamos num traste horrível, caduco, ótimo para naufrágio. Contudo a recordação da antiga viagem me perseguia. A qualquer momento me chegariam compassos de valsa aos ouvidos. Três ou quatro indivíduos, no bar, se distraíam bebendo e jogando poker. Um casal novo se encostava à amurada, em ponto obscuro. Algumas mulheres alegres, em cadeiras de vime e espreguiçadeiras, se expandiam com sujeitos ruidosos, numa grulhada internacional. Bem. Essas observações de vinte anos não tinham significação. Tolice imaginar ali perto o imbecil do recitativo, a família mulata, a francesa idosa, os jogadores do poker, o enlevo de um par jovem; provavelmente argentinas e polacas airadas já não vinham cavar a vida no Brasil. Fumei o último cigarro, lembrei-me de haver esgotado o sortimento da valise. Calculara mal as exigências do vício e achava-me em dificuldade. Passaria o resto da noite sem fumar, não me chegaria o sono. Levava a mão ao bolso, mecanicamente, irritava-me, quando vi, por cima da minha cabeça, o negro que me havia matado a sede. Sem refletir, fiz o pedido: . - O senhor me arranja, por obséquio, três maços de: cigarros e fósforos? - Que marca? perguntou o soldado. - Qualquer uma. Pareceu-me que indicar a marca era demasiada exigência.. Quis designar a que habitualmente usava; talvez não fosse achada, e acanhar-me-ia ver o rapaz ir duas vezes ao bar por encargo tão insignificante. Julgava-me sem direito de escolher, temia que o homem se impacientasse. Era um acaso feliz encontrar quem me valesse em tal dificuldade. Retirei uma cédula da carteira, segurei-me à corda, alcancei os varões de ferro, como na véspera, entreguei o dinheiro ao polícia, jurando no íntimo não tornar a incomodá-lo, voltei a estirar-me, cansado. Em conseqüência da inércia obrigatória, ou por falta de alimentação, qualquer esforço me abatia. Ao cabo de minutos o misericordioso preto ressurgiu: - Abra a rede. Afastei as varandas, recebi em cima do peito os objetos da encomenda, as pratas e os os níqueis de troco. - Muito obrigado. Pus-me a fumar, embalado por uma doce tontura. Com o navio atracado, as oscilações que experimentávamos eram quase insensíveis. Sentia-me realmente bem. As pessoas e as coisas em redor esmoreciam na fumaça do cigarro, as idéias escassas decompunham-se, volatizavam-se, e afinal eu já nem sabia se aquela tênue neblina estava dentro ou fora de mim. Adormecia, acordava, a brasa do cigarro cobria-se de cinza e avivava-se. As pálpebras uniam-se, descerravam-se penosamente, nos vaivéns dos cochilos a figura do negro desaparecia, reaparecia, e isto me reconciliava com a humanidade. Uma grande paz me envolvia, ausência completa das complicações que me aperreavam. A dorzinha aguda que o abscesso da unha me causava extinguia-se, era apenas um leve torpor. Nem picadas no estômago nem contrações nos intestinos: era como se estes órgãos não existissem. Nada havia ingerido ultimamente, impossível até pensar em comer. Ia com certeza prolongar-se a medonha sitiofobia, mas a perspectiva de nenhum modo me assustava. Indiferença. Tanto rendia estar ali como acolá, viver de uma forma como de outra, ou não viver. Não me desgostava acabar suavemente, escorregar aos poucos na eternidade , envolto em sentimentos generosos, levar comigo a recordação do negro que velava a minha fraqueza, firme e sério, de braços cruzados. A visão benigna desmaiou e sumiu-se, as trevas do sono cobriram-me, foram-se adensando. Ligeiras pancadas no corpo despertaram-me súbito. Estremeci, depois me revoltei: da coberta jogavam no porão cascas de tangerina, que me vinham cair dentro da rede. Procediam exatamente como se as lançassem num chiqueiro. Protestei furioso, mas o protesto e a fúria desanimaram, a voz fraca deve ter morrido a poucos metros. Resignei-me em seguida. Inútil gritar. Um chiqueiro, evidentemente. Era como se fôssemos animais. - Covardes. Não xingava, não desabafava: reconhecia somente um fato. Aliás dependia de nós enxergar naquilo um vilipêndio. Não me supunha aviltado. Por instantes imaginei que ignoravam na tolda a nossa existência de tatus. Impossível. Os ruídos, o falatório de algumas centenas de pessoas, o fedor que se exalava da infame cloaca facilmente nos revelavam. As cascas de tangerina caíam-me sem cessar na rede. Tencionei apanhá-las, atirá-las no charco de urina. Contive-me: desprendiam cheiro agradável, e isto obliterou os últimos resíduos da cólera, fez-me esquecer o intuito ruim que as tinha enviado. Esmaguei-as entre os dedos, aspirei o odor acre e espesso; o sumo embebia-se nas mãos, impregnava-se na roupa. Não queria julgar-me tão desgraçado como as aparências indicavam. Um negro boçal me dirigira a pistola à espinha, à ilharga, ao peito. Um negro compassivo me exibira cantos secretos da alma, belezas nunca suspeitadas. Agora indivíduos ocultos, inacessíveis, tentavam ofender-me, insultar-me. As ofensas e os insultos esfumavam-se no ar, convertiam-se em presente amável. Aqueles fatos não encerravam, possivelmente, a significação que eu lhes atribuía. O selvagem de bugalho vermelho me encostara sem raiva a arma ao corpo: ação repetida, profissional, movimento de bruto impassível. Entregando-se ao comportamento bestial, conservava longe o espírito, numa cama de meretriz vagabunda, num botequim sujo de arrabalde. E a criatura solícita que me favorecera duas vezes comportara-se levada pelo hábito, nem avaliava a grandeza do benefício. Proceder mecânico de funcionário. Arreliava-me essa conjetura, confessava-me ingrato. Para justificar o primeiro soldado, reduzia a benevolência do segundo. O infeliz jogo mental nos despoja, nos rouba os impulsos mais sãos. Contingência miserável. Nessa tentativa de nivelamento, precisava esquivar-me às injúrias que vinham da coberta, me batiam nos braços e no rosto, me coloriam de uma camada amarela verdoenga. Loucura ressentir-me. Aquilo era bom. A fadiga crescia, atava-me os membros. E resvalei na escuridão, tranqüilo, absorvendo as emanações das cascas de tangerina, que me vieram perfumar os sonhos.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

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