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Não Me Abandones Jamais

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Não Me Abandones Jamais

Livro Ótimo - 1 opinião

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Autor: Kazuo Ishiguro

Editora: Companhia das Letras

Assunto: Romance

Traduzido por: Beth Vieira

Páginas: 344

Ano de edição: 2017

Peso: 419 g

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Ótimo
Marcio Mafra
29/07/2018 às 22:22
Brasília - DF
“Não Me Abandone Jamais”, prêmio Nobel de Literatura de 2017, do japonês-americano Kazuo Ishiguro é um romance completamente novo, diferente, que embora possa parecer um tema pesado é uma leitura gostosa.
O livro, basicamente, conta a história de Kathy, uma cuidadora de 31 anos, que ajuda e auxilia os alunos do internato de Hailsham.
Esses alunos, ao chegarem a idade adulta serão – exclusivamente - doadores de órgãos. Os jovens alunos são clones, e seus objetivos, depois de
deixarem o colégio é fornecer peças de reposição para outros seres humanos, que precisam de órgãos para sobreviver.
E Kathy também será doadora. A vida dos alunos, doadoras, instrutores, tutores e guardiões segue normal como “soi acontecer” em quaisquer internatos.
Todos vivem alegrias, prazeres, tristezas e decepções.
Outros personagens, como Ruth e Tommy são muito amigos de Kathy. Conviverão normalmente até concluírem (ou seja, até morrerem).
Há passagens tristes, claro, por criar-se uma vida, um corpo humano, apenas com a finalidade de fornecer seus órgãos a outros.
Ainda assim a vida dos adolescentes do colégio e internado Hailsham é envolta por uma aura misteriosa e trágica.
Autor excelente, tradutora ótima, livro ótimo.

Marcio Mafra
29/07/2018 às 00:00
Brasília - DF

História de Kathy, cuidadora, 31 anos, aluna do colégio e internato em Hailsham, Inglaterra.

Ela cuida dos futuros doadores e vai contando sua própria história, desde a infância até se tornar adulta, quando finalmente sai da escola para também cumprir seu destino: doar órgãos.

Ela cuida e auxilia os alunos doadores. Doadores são clones de gente, pessoas criadas apenas para doar órgãos, quando forem adultos.

Marcio Mafra
29/07/2018 às 00:00
Brasília - DF

Me chamo Kathy H. Tenho trinta e um anos e sou cuidadora há mais de onze. Tempo demais, eu sei, mas eles querem que eu fique mais oito meses, até o fim do ano. O que dará quase

exatos doze anos de serviço. Sei que o fato de ser cuidadora há tanto tempo não significa necessariamente que meu trabalho seja considerado fantástico. Houve alguns ótimos cuidadores que

receberam ordem de parar depois de dois ou três anos apenas. E  eu conheço pelo menos um que ficou os catorze anos completos, apesar de ter sido um desperdício total de espaço. Portanto, minha

intenção aqui não é me vangloriar. Mas não resta a menor dúvida de que eles estão satisfeitos comigo e de modo geral não tenho do que me queixar. Meus doadores sempre foram muito

melhores do que eu esperava. Todos se recuperaram com uma rapidez impressionante e quase nenhum chegou a ser classificado como “agitado”, nem mesmo antes da quarta doação. Muito

bem, talvez eu esteja me vangloriando um pouco agora, admito. 

É que significa um bocado para mim poder dar conta direito do trabalho, sobretudo essa parte dos doadores continuarem.

Desenvolvi uma espécie de instinto em relação a eles. Sei quando devo permanecer por perto oferecendo consolo e quando é melhor deixá -los em paz; quando escutar o que têm para falar

e quando tão somente encolher ombros e dizer -lhes que não se entreguem ao desânimo.

De todo modo, não estou reivindicando nada de muito grandioso para mim.

Conheço cuidadores que trabalham tão bem quanto eu e que não recebem nem a metade dos créditos.

Se você for um deles, entendo o motivo de possíveis ressentimentos — em relação a meu conjugado, meu carro e, acima de tudo, ao fato de eu mesma escolher os que vão ficar sob meus

cuidados. Sem falar que sou de Hailsham — o que por si só muitas vezes é suficiente para deixar as pessoas de mau humor. Elas dizem, a Kathy H.? Ela escolhe o pessoal a dedo, e sempre da

turma dela: gente de Hailsham ou de algum outro estabelecimento igualmente privilegiado. Não é à toa que ela tem uma ficha excelente. Nem sei quantas vezes já escutei isso, e posso imaginar

que você ouviu muitas mais, de modo que talvez haja um fundo de verdade aí. Mas não fui a primeira a poder escolher, e duvido que seja a última. De qualquer forma, já fiz minha parte,

cuidando de doadores trazidos de tudo quanto foi lugar. Até eu terminar meu serviço, não se esqueça, terei completado doze anos, e só nos últimos seis é que eles me deixaram escolher.

E por que não me deixariam? Cuidadores não são máquinas. 

Nós tentamos fazer o melhor possível para cada um dos doadores, mas no fim o serviço é exaustivo. Paciência e energia têm limite, e isso vale para todo mundo. De modo que quando surge

a oportunidade de escolher, claro que você vai optar por pessoas semelhantes a você. Isso é natural. Eu não teria tido a menor condição de continuar fazendo o que faço durante tanto tempo se

porventura deixasse de nutrir sentimentos pelos meus doadores em cada uma das etapas percorridas.

Além do mais, se eu não tivesse obtido permissão de escolher, não poderia ter me reaproximado de Ruth e Tommy depois de tantos anos, não é mesmo?

Nos dias que correm, claro, há cada vez menos doadores conhecidos, o que significa que na prática não tenho escolhido tanto assim. E, como eu sempre digo, quanto menos ligação existe

com o doador, mais difícil fica fazer o serviço; portanto, mesmo que eu sinta falta de ser cuidadora, acho correto dar finalmente por encerradas minhas atividades no final do ano.

Ruth, por falar nisso, foi apenas a terceira ou quarta doadora que pude escolher. Já havia uma cuidadora designada para ela, na época, e lembro -me que foi preciso uma certa dose de coragem

de minha parte. Mas no fim dei um jeito, e assim que a vi de novo, naquele centro de recuperação de Dover, nossas diferenças — ainda que não tivessem exatamente sumido do mapa

— não me pareceram nem de longe tão importantes quanto tudo o mais: o fato de termos crescido juntas em Hailsham, o sabermos e nos lembrarmos de coisas que ninguém mais sabia ou das quais

ninguém mais se lembrava. Foi dessa época em diante, imagino, que comecei a buscar nos doadores pessoas conhecidas no passado e, sempre que possível, de Hailsham.

Houve épocas, no decorrer desses anos todos, em que tentei esquecer Hailsham e me convencer de que não seria bom ficar olhando tanto para trás. Porém num determinado momento simplesmente parei de resistir.

E isso teve a ver com um doador em particular, de quem tomei conta certa feita, no meu terceiro ano como cuidadora; com a reação dele quando comentei que era de Hailsham. Ele tinha acabado de sair da terceira doação, que não

dera muito certo, e já devia saber que não iria se safar. Embora mal conseguisse respirar, me olhou e disse: “Hailsham. Aposto como era um lugar lindo”. Na manhã seguinte, batendo um papinho

na tentativa de distraí -lo daquilo tudo, perguntei de onde ele era; o doador mencionou algum lugar em Dorset e sua expressão, por baixo da pele manchada, passou a um tipo bem diferente de esgar.

Foi então que caí em mim e percebi a vontade imensa  que ele tinha de não se lembrar de nada. Tudo o que ele queria era que eu falasse de Hailsham.

Portanto, durante os cinco ou seis dias que se seguiram, contei-lhe tudo o que ele quis saber, enquanto, do leito, ele me ouvia fascinado, com um leve sorriso nos lábios.

Falei dos nossos guardiões, das caixas com as coleções que eram guardadas debaixo da cama, do futebol, das partidas de rounders, do caminho estreito que contornava todos os cantos e recantos externos do casarão,

do lago com os marrecos, da comida, da vista que tínhamos das janelas da Sala de Arte pela manhã, com os campos cobertos de bruma. Às vezes ele me fazia repetir vezes sem conta a mesma

coisa; algo que eu mencionara no dia anterior voltava a ser alvo de perguntas, como se ele nunca tivesse escutado uma única palavra sobre o assunto. “Vocês tinham um pavilhão de esportes?”

“Quem era seu guardião predileto?” De início, pensei que fosse apenas efeito dos remédios, mas depois me dei conta de que ele estava bem lúcido. Mais do que ouvir falar de Hailsham, ele queria

se lembrar de Hailsham como se Hailsham tivesse pertencido a sua própria infância. Sabia que estava perto de concluir, de modo que me fazia descrever as coisas de forma que elas penetrassem de

fato em sua lembrança. A intenção dele, talvez — durante as noites insones devido aos remédios, à dor e à exaustão —, era tornar indistintos os contornos que separavam as minhas memórias das

suas. Só então compreendi, compreendi de fato, quanta sorte tivéramos—Tommy, Ruth, eu, na verdade todos nós. 


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Marcio Mafra
29/07/2018 às 00:00
Brasília - DF

Comprei este livro em novembro de 2017, porque o seu autor, Kazuo Ishiguro, que pelo nome eu suponha fosse japonês, havia ganho o Nobel de Literatura.

Um Nobel pode não ser bom, mas jamais é péssimo. “Não me abandone Jamais”, certamente, é um livro senão excelente, é ótimo.


 

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