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Triângulo das Águas

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Triângulo das Águas

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Autor: Caio Fernando Abreu

Editora: Nova Fronteira

Assunto: LGBT

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 212

Ano de edição: 1983

Peso: 265 g

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Bom
Marcio Mafra
22/02/2003 às 18:33
Brasília - DF

Caio Fernando de Abreu foi um autor muito festejado em seu tempo. Era incensado antes e depois de cada lançamento. O Triangulo das Águas foi premiado com a Jabuti, na categoria "contos" e então consagrou de vez o autor. Os três longos contos, de alguma maneira se assemelham, se interligam numa mesma estrutura literária. Decaedro, tem a ver com a solidão, assim como O Marinheiro tem a ver com Pela noite. São todas histórias homossexuais, numa trama que passa pelas madrugadas, pela música e solidão.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Três longos contos: Dodecaedro, O marinheiro e Pela noite.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

- Nada, esquisito. Fiquei pensando. E aí o poema era para você. - Claro que era. Nós só tínhamos vinte anos. - Não se justifique. - Não estou me justificando, era bonito. Nós bebemos muito. Cuba, a gente bebia cuba. Era uma ousadia tremenda dele mostrar aquele poema justo depois daquela peça. A gente saiu junto, já estavam fechando o bar, e na praça. A gente estava completamente bêbado, na praça a gente se abraçou com força. Com muita força. Durante muito tempo. Eu me lembro que ele tremia. Acho que eu tremia também. E me beijou, depois, na boca. Ou eu beijei ele, não me lembro. Ou nos beijamos juntos, ao mesmo tempo. - Vocês foram para a cama? - Na mesma noite. Eu morava num hotel pequeno, ninguém via. - Foi legal? - Foi. . . foi complicado. Foi complicadíssimo. Eu não sabia trepar. Nem ele. A gente ficava só do pescoço para cima. Como se o corpo nem existisse. Pau, essas coisas. Mas foi bonito. Não tinha importância que não desse muito certo. - Repetiu: - Nós só tínhamos vinte anos. Santiago cruzou os talheres, empurrou o prato. - E aí? - Aí o quê? - Aí, depois. O que aconteceu na seqüência? Santiago acendeu um cigarro. - Nós vivemos juntos quase dez anos. Quer dizer, eu viajei, ele viajou. Quando um voltava, a gente continuava. Separava, às vezes. Poucas vezes, transava outras pessoas. Mas voltava sempre. - Dez anos? God! longas paixões, hein? Sis anos com a Rejane Magalhães, dez anos com o Beto. Como é que você pode? Porra, eu nunca consegui ficar mais do que um mês transando a mesma pessoa. Sempre me dá uma. Uma coisa, já conheço aquele corpo, aquele cheiro, aquele gosto. Aí vou à luta. Santiago soltou a fumaça pelas narinas e ficou vendo ela embaçar-se sobre a cabeça de Pérsio. Como uma auréola, apagando os contornos dos sátiros, das bacanteso Os cachos de uvas escorregavam meio desmanchados pelas bordas do barril. Roxo sobre o verde, misturavam-se à grama alta, cheia de flores amarelas, madras, mudras, gesto parado. - Muito tempo, não? - Para caralho, cara. E depois? Dez anos, deixa ver. Se vocês começaram a transar quando você tinha uns vinte. Dez anos, quantos você tem agora? Santiago bebeu mais um gole de conhaque. - Trinta e três. Faz quatro anos que o Beto morreu. O rapaz olhava de longe, fazia algum tempo, Santiago tinha visto. Com o canto do olho, enquanto contava, percebeu que ele procurava chamar a atenção de Pérsio. Movimentava-se sem parar, falando muito alto. Mas Pérsio estava mergulhado nas palavras dele, um menino antigo ouvindo uma história de fadas, bruxas, príncipes. Chegara a esquecer a ponta do cigarro aceso entre os dedos, boca entreaberta, olhos arregalados, mais próximos do verde, assim, a luz batendo direto na íris clara. Quis alertá-lo, as estrelas de nossa cultura, lembrou. O rapaz veio-se aproximando por trás, macio, felino, até tocá-lo no ombro. Pérsio assustou-se e queimou os dedos, num sobressalto. - Merda - resmungou, esmagando a ponta no cinzeiro. E voltou-se para o rapaz sorridente, um excesso de dentes grandes enfileirados sobre a gola alta, cabelos curtos, um topete anos 50, as mãos enfiadas nos bolsos das calças largas, cheias de bolsos, um enorme chaveiro pendurado, tilintando enquanto ele se curvava. - Oi - cumprimentou. - Lembra de mim? - Oi - Pérsio lambeu os dedos queimados. Estendeu a mão. - Lembro, claro que lembro. Como vai? Você não é do elenco do Édipo? - Antígona - o rapaz corrigiu. - Do coro, sou o Carlinhos do coro. - Claro, claro. O coro, lembro sim. Não foi você quem levou as fotos e o reiease no jornal? E como vai o espetáculo, Carlinhos Do Coro? - Meio mal, sabe como é - enfiava as mãos até o fundo dos enormes bolsos, balançando-se para a frente e para trás. - Hoje nem teve. Só meia dúzia de pessoas. Puta crise, não é? - Putíssima - concordou Pérsio. E repetiu, olhando para as três mocinhas: - Putésima, de pleno acordo. Eu não sei onde vamos parar com. Para teatro, então, nem se fala. Artes em geral. A deixa exata. Santiago tornou a tragar, demorado, o cigarro, o conhaque, o vinho, a miopia, olhando em volta. Mas não acontecia nada. As três mocinhas disputavam um último pedaço de pizza (de aliche, reconheceu), na mesa grande uma das crianças dormia, afundada nos seios fartos da mãe, enquanto alguém cantava, melancólico, ia stata sera cominciata e giá tinita, o vento lá fora, a moça gorda de tranças e o moço de bigodinho tinham ido embora, uns japoneses frenéticos tinham tomado conta da mesa, falando uma língua cheia de miúdos faniquitos. Quase sem respirar, Carlinhos investiu: - Pois é daí então a gente precisa de força sabe como é cooperativa e tal gente nova todo mundo pôs alguma grana em cima tá super-ruço você sabe daí que se você pudesse dar uma força lá no jornal sabe como é sempre ajuda a divulgação é fundamental só depende da boa vontade de alguns uma questão de acreditar e dar força. Pérsio colocou os óculos de Santiago. Cruzou os braços, balançando a cabeça com ar profissional. - Tá. Vou ver o que posso fazer. Não depende só de mim. Tem os caras mais em cima, você sabe, que mandam mais. Você tem um diretor, eu tenho um editor. Eles é que decidem..


  • Erotismo em Caio Fernando de Abreu

    Autor: Eliana Cardoso

    Veículo: Jornal Valor Economico edição 5/11/2010

    Fonte: Jornal Valor Economico - Edição 5 novembro 2010

    Título: Morangos Mofados
    Autor: Caio Fernandes de Abreu
    Editora: Agir
    Preço:
    Data de cadastro: 06/11/2010
    Previsão de compra: 30/06/2013
    Data de compra:
    Observações:
    Data: 26/09/2011
    Título: LIVRO A COMPRAR - MORANGOS MOFADOS - CAIO FERNANDO
    Fonte:
    Texto:
    TRANSCRIÇÃO ANTIGA BIBLIOMAFRATECA EM 26/9/2011

    06/11/2010 MORANGOS MOFADOS CAIO FERNANDO DE ABREU AGIR

    Ponto e Vírgula: Contos intimistas e densos trazem convites irrecusáveis à busca de significados e interpretações em situações complexas. Só não é ambígua a melancolia que responde à violência e à repressão.
    Erotismo em Caio Fernando Abreu
    Por Eliana Cardoso | De São Paulo
    05/11/10

    Depois que passei a escrever neste espaço, amigos e leitores começaram a me sugerir livros de montão. À medida que a pilha em cima da mesa cresce, tento impor ordem ao caos. Ponho alguns de lado, quando páginas lidas ao acaso não me entusiasmam. Coloco os mais gordos embaixo e os mais magros em cima. Leio e-mails, atendo o telefone e peso as recomendações. Não preciso contá-las para afirmar que o eterno campeão do "você-tem-de-ler-e-comentar" é Caio Fernando Abreu. Assim, mergulho na leitura de "Morangos Mofados".

    O livro se divide em três partes. A primeira, "O mofo", se abre com "Diálogo", uma conversa entre A e B, em que perguntas insinuam um compromisso que tanto pode ser ideológico quanto afetivo. Há insegurança nas perguntas, desejo de ver-se como igual e medo. O dito e o não-dito que marcam esse diálogo, também marcam os contos seguintes. Personagens anônimos exibem solidão, dor e embriaguez, em cenas melancólicas, entrecortadas por melodias populares, escuridão, vodca, desencontros, drogas, vômito e cigarros com gosto de derrota.

    Documento de uma época e de um tipo de comportamento, "O mofo" é a viagem do desbunde da década de 1970. Para Heloísa Buarque de Hollanda, "não há dúvida de que Caio fala da crise da contracultura como projeto existencial e político". Em "Os Sobreviventes" - que inova na forma de exposição do diálogo e transgride a lei da organização linear das falas - a descrição da chamada geração perdida fica clara: "(...) ai que gracinha nossos livrinhos de Marx, depois Marcuse, depois Reich, depois Castañeda, depois Laing embaixo do braço, aqueles sonhos colonizados nas cabecinhas idiotas, bolsas na Sorbonne, chás com Simone e Jean-Paul nos 50, em Paris; 60 em Londres ouvindo here comes the sun, little darling; 70 em Nova York dançando disco-music no Studio 54; 80, a gente aqui, mastigando essa coisa porca sem conseguir engolir nem cuspir fora nem esquecer esse gosto azedo na boca". A melancolia dos nove contos de "O mofo" me deprime.

    Os oito contos seguintes, que formam "Os Morangos", abrem uma fresta de esperança. A paz parece, enfim, ao alcance da mão. Dois textos (mais tarde transportados para a tela de cinema) me emocionam ainda mais do que os outros: "Sargento Garcia", que recebeu o Prêmio Status de Literatura 1980, e "Aqueles dois".

    "Sargento Garcia" começa num quartel, onde jovens entre 17 e 18 anos preparam-se para ingressar nas forças armadas. O olhar de Hermes, o jovem narrador, expõe corpos masculinos e jovens, seus rostos, peitos e pernas. Nesse espaço, o sargento Garcia é poder: o homem forte que exibe sua autoridade. Hermes é o jovem inseguro, todo delicadeza e respeito dentro de sua pele macia. O jogo é de sedução:

    - Eu chamei Hermes. Quem é esse lorpa?

    - Sou eu.

    - Sou eu, meu sargento. Repita.

    [...]

    - Ficou surdo, idiota?

    - Não.

    - Não, seu sargento.

    - Meu sargento.

    - "Meu sargento".

    E um pouco mais tarde:

    - Estuda?

    - Sim, meu sargento.

    - O quê?

    - Pré-vestibular, meu sargento.

    - E vai fazer o quê? Engenharia? Direito, Medicina?

    - Não, meu sargento.

    - Odontologia? Agronomia? Veterinária?

    - Filosofia, meu sargento

    [...]

    - Pois, seu filósofo, o senhor está dispensado de servir à pátria. Pode se vestir.

    O jovem Hermes se veste e pega seu caminho. Fora dos limites e dos muros do quartel, sargento Garcia o aborda, oferecendo-lhe uma carona. O jovem entra. O jogo prossegue.

    - Escuta, tu não tá a fim de dar uma chegada comigo num lugar aí?

    - Que lugar? Temi que a voz desafinasse. Mas saiu firme [...]

    Aranha lenta, a mão subiu mais, deslizou pela parte interna da coxa. Hermes e o sargento seguem para a casa de Isadora, uma travesti, que aluga quartos. Dali para a frente, a vida de Hermes seria diferente: "Queria dançar sobre os canteiros, cheio de uma alegria tão maldita que os passantes jamais compreenderiam. [...] Meu caminho, pensei confuso, meu caminho, não cabe nos trilhos de um bonde".

    Nesse ponto, cativada pela escrita de Caio Fernando Abreu, faço um parêntese para me referir à crônica "As quatro irmãs", publicada na revista "Sui Generis" em março de 1996, e reproduzida em "Caio 3D: O Essencial da Década de 1990" (Agir, 2006). Ali, o autor diz que os homossexuais masculinos de qualquer idade ou nação dividem-se em quatro grupos. Jacira é a pintosa, que todo mundo sabe que é homossexual e acha ótimo ser: usa roupas chamativas e fala alto, pois seu objetivo na vida é aparecer. Oscar Wilde era Jacira.

    Telma, ao contrário de Jacira, é infelicíssima. Depois do terceiro ou quarto uísque transforma-se em homo e, embriagada, ataca. No dia seguinte não se lembra de nada. Rimbaud parece ter começado como Jacira, mas acabou se transformando em Telma.

    Menos trágica e mais complexa, Irma foge de definições e pode não saber que é. Pode, também, morrer sem provar "os prazeres do amor que não ousa dizer seu nome". Verlaine começou como Irma e depois ajacirou.

    A quarta irmã é Irene, que, embora tão assumida quanto Jacira, não dá pinta. Tranquila, não exibe nem constrange. Platão foi Irene, sugere Caio. Penso que Thomas Mann também, embora seu Von Aschenbach comece como Irma e acabe como Telma.

    Voltando aos "Morangos", Raul e Saul de "Aqueles dois" também começam como Irmas. Mas, no penúltimo parágrafo, apanham o mesmo táxi. Acredito que para embarcar na viagem ao encontro da realidade discreta das Irenes.

    Quem conta a história de Raul e Saul - colegas de trabalho que se tornam amigos - é um narrador na terceira pessoa, que usa tom insinuante e ambíguo e deixa dúvidas no ar, criando suspense e sutilezas sobre a relação. Quando o leitor espera uma definição da situação daqueles dois, o narrador muda de assunto e introduz novas informações sobre cada um deles. Mas aos poucos vai relatando como cresce a amizade entre Raul e Saul. Eles passam a se ver nos fins de semana ou ficam desolados quando um deles falta ao trabalho. O jogo de insinuações envolve filmes e música. Em seguida, o narrador insere o olhar dos outros. Os colegas de trabalho refletem a postura moralizante e autoritária da sociedade.

    Finalmente, Raul e Saul são demitidos, acusados de "relação anormal". "Mas quando saíram pela porta daquele prédio grande e antigo, parecido com uma clínica psiquiátrica ou uma penitenciária, [...] estavam ainda mais altos e mais altivos." Ao mesmo tempo, seus juízes se tornavam vítimas de sua prisão. "Pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia a gema de um enorme ovo frito no azul do céu, ninguém conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali tinham a nítida impressão de que seriam infelizes para sempre. E foram."

    "Morangos mofados", o único conto da terceira parte, fecha o livro. O personagem, um publicitário, ex-hippie, cisma que tem câncer na alma ou uma lesão no cérebro provocada por excesso de drogas em velhos carnavais. O sintoma é um gosto persistente de morangos mofados na boca. No fim, ele doma a situação e se recusa a morrer ou enlouquecer. É "um fim lindo, positivo, alegre", diz o autor em carta ao amigo e jornalista José Márcio Penido.

    Os contos desse livro são intimistas e densos. O autor fala da solidão, do isolamento, da angústia do excluído, da descrença na sociedade, da marginalidade sexual, mas também de pequenas alegrias e da possibilidade de escolher a vida. A linguagem é lírica. As vozes que se sobrepõem abandonam os princípios da narrativa tradicional. A estratégia do autor é mobilizar o leitor para que ele busque significados e interpretações. A narração ambígua dá realce à complexidade das situações. A melancolia aparece em resposta à violência e à repressão. Como me disseram os amigos, tem de ler.

    Eliana Cardoso, economista, escreve semanalmente neste espaço.

     

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Comprei o Triângulo das Águas porque o autor ganhou o Jabuti de 1984.


 

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