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O Amor é Fodido

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O Amor é Fodido

Livro Bom - 1 comentário

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Autor: Miguel Esteves Cardoso

Editora: Francisco Alves

Assunto: Romance

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 189

Ano de edição: 1995

Peso: 215 g

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Bom
Marcio Mafra
11/11/2002 às 11:33
Brasília - DF

Márcio Mafra - Data: 10/11/2002 - Conceito : Mediano



Livro editado em Portugal requer bom entendimento do idioma local, senão fica difícil sentir a alma do livro. Miguel Cardoso, que escreveu o livro aos seus 40 anos de idade, consegue romancear o amor sem falar em traição ou em mágoa. Ele conta uma história em que parece acreditar, embora não defina, não conceitue, nem estabeleça nenhuma característica do sentimento amor. Ao longo da leitura, salta a duvida de que os personagens pratiquem o amor, e até, se existem de fato os personagens, na tradicional concepção ficcional. O Amor é Fodido, não é nada que mereça ser considerado uma obra prima. Ao final da leitura fica a impressão de que o amor não é fodido, nós é que fodemos o amor.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história, em português de Portugal, conta onde o amor existe com vida e estrutura próprias, pronto e acabado, sem traições, definições ou mágoas.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Matou-a numa manhã tão clara que nunca mais deixou de a ver. Os anos passaram. Mas levavam-me com eles. Podiam ser como as águas, que puxam pela terra e arrancam o lixo. Mas os anos nada fizeram. Ficou tudo com eles. Até o mais pequeno pormenor. Até o cheiro do cabelo. Até o cheiro dos pulsos. Tudo ficou com eles. Teresa! Vem salvar-me! Havia noites em que fugia. Perdia-me nas pessoas e nas bebidas, nas músicas e nos países para onde viajava. Mas acabava sempre na mesma manhã, partisse de onde partisse, como se fosse devolvido, ou dalgum modo voltasse, ao lugar do crime, à cama onde a tinha morto. E via o rosto dela. Via o rosto dela. Estava sempre diante dele. Naquela manhã de Verão, no sol absoluto; tão branco que parecia que nunca mais iria nascer. Se tivesse sido noutra luz. Ou noutro dia. Se tivesse sido numa hora em que os olhos pudessem fechar-se contra o sol, sem doer e sem queimar. Se tivesse sido assim, ele já teria começado a esquecê-la. Teria começado a confundir certas coisas. Como o elástico com que prendia o cabelo. Como os cotovelos. O cheiro dos cotovelos. Quando a matou, deixou que ela se matasse, deixou-a para ter paz. Estava farto de amar, de amor, de ser amado. Queria a tristeza das coisas do mundo, recuperar o hábito de se esquecer do coração, com o corpo dado aos dias, livre e calado, como os outros. Não queria mais ignorância do que havia e ia acontecer, mais intempérie nos sentidos, mais fantasia sem resposta, naquela sua alma incapaz de ouvir, incapaz de responder, incapaz de tudo menos de chamar. Matou-a - deixou que ela se matasse - por pedido dela, para que ambos tivessem essa paz. «Não podes amar-me mais.. .», acusou ela. E ele dizia «Eu não podia amar-te mais...» E ela respondia, de cabeça a cair, «Pois, eu sei... mas eu precisava. » Era a única coisa nela que ele percebia. Ele também queria, também pedia, que ela o amasse mais. «Amo-te tanto». Sempre essa palavra - tanto. E a pergunta ao outro, a quem parecia tão pouco: Mas quanto? Agora ria-se desses dias e chorava. Se perguntava, perguntava por ela, estupidamente; ou por ele, por quanto teria paz. Quando se esqueceria do que mais lhe doía lembrar? Os pormenores trazem sempre a maior mágoa. A grandeza, relembrada, como a felicidade, e o sonho e o amor, suportam-se por orgulho ou por compreensão, como uma saudade. Mas os pormenores, o conjunto das coisas que só estorvam, que nos azedam na alma, que não nos saem do pensamento, não se conseguem perceber nem aceitar. Ele lembrava-se do elástico com que prendia os cabelos e das flores vermelhas do vestido e da maneira de fumar e a vida parava-lhe no peito. Paralisava. Ficava em casa durante dias. De olhos abertos ou fechados, tanto fazia. Estava a olhar para ela. Não conseguia deixar. Até não poder mais. Até tudo cair à volta dele e ele ver que ela estava morta e ele vivo, e que parecia ser ao contrário, e que ele não podia absolvê-la mais. Culpou-a. Lembrou-se das palavras com que disse: «Mata-me.» Lembrou-se: «Mata-me. Deixa-te estar e mata-me, que eu quero morrer ao pé de ti.» E lembrou-se das vezes, das milhares de vezes, em que disse: «Mata-me, mata-me! Já não aguento amar-te mais!» E então lembrou-se, pela primeira vez, que não tinha sido de manhã que a tinha morto. Não havia luz. Era mais que noite e tudo estava fechado. «Amo-te», disseram na escuridão, «Amo-te tanto...» Lembrou-se que não se via o rosto dela. Nem o cabelo. Nem um único pormenor. Lembrou-se. Culpou-a de deixá-lo sozinho. Culpou-a de deixá-lo com ela. Culpou-a de deixá-lo sem paz. Culpou-a de deixá-lo tão apaixonado. Culpou-a de deixá-lo com vida - só com a vida suficiente para continuar a amá-la, da maneira como amava, mesmo depois de morta, cada vez mais. Mas a culpa não pegou. A paz não veio. O coração, já velho, não sossegou. Lembrava-se de tudo e amava-a cada vez mais. Mudou o dia, mudou a hora, mudou a luz. Convenceu-se que a tinha morto não há nove anos, mas ontem. Não numa sala escura, mas numa varanda. De manhã, não de noite. Numa manhã tão clara - convenceu-se - que nunca mais poderia deixar de a ver. Mesmo se quisesse. E assim os anos passaram. Quase todos sem ela. Tudo comido. O fim não tem tempo. É fácil morrer quando está tudo acabado. E deixar de ver as árvores. E deixar de tocar os muros. Quando os há. O fim não tem pressa. Nem significado. Se ao menos fosse uma surpresa. Ou um alívio. Ou uma inevitabilidade. Poderíamos rir. Poderíamos concluir. Poderíamos conversar. Mas o fim não tem carácter. Só há uma maneira de dizer isto. Só damos por ele quando já é tarde. Nós que nem sequer tivemos a consciência ou a angústia ou o prazer de pensar que houve uma vez em que ainda era relativamente cedo


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

No aniversário do Rafael de 99, passávamos por uma livraria, quando o titulo deste livro nos chamou a atenção. Só o comprei pelo titulo, em face de uma piada particular, que ambos - eu e meu filho Rafael - conhecemos. "Para Rafael, no seu aniversário. Do Marcio, 27/2/99"


 

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