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A Casa do Meu Avô

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A Casa do Meu Avô

Livro Ótimo - 1 opinião

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Autor: Carlos Lacerda

Editora: Nova Fronteira

Assunto: Memórias

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 186

Ano de edição: 1977

Peso: 235 g

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Ótimo
Marcio Mafra
21/10/2002 às 15:57
Brasília - DF

O jornalista Paulo Ronai disse que este é um livro de meditação. Glauco Carneiro o comparou ao Pequeno Príncipe. Uma pianista, Maria Lucia Pinho, disse que o livro é uma linha melódica a lembrar Brahms em letra de forma. Carlos Drumond de Andrade disse que este livro é um "despertador de vivências brasileiras" e Josué Montello disse que Carlos Lacerda, com este livro restituiu às letras brasileiras, a arte de bem escrever. Concordo com quase tudo o que disseram, mas que os comentaristas estavam praticando a melhor das "ações entre amigos", não há qualquer dúvida. Este é um livro bom, bem escrito, e de fácil leitura.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Memórias, pensamentos, palavras e obras sobre a casa do avô de Carlos Lacerda.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Uma leve coceira no birro - era assim que ele se chamava - prosseguiu num prurido intenso, seguido de um endurecimento que transformou o órgão murcho do comum pipi num ser extraordinário, a partir do qual irradiavam vibrações por todo o corpo. Os pêlos dourados sobre a pele morena, as pernas esguias, os braços leves, de músculos flexíveis, os olhos cismadores, na apaixonada contemplação de si mesmo, cada pedaço do ser refeito e desfeito, amontoado na curiosidade, no espanto, que me arrepiava todo, em ondas sucessivas - e o corpo cheirava a maresia. Foi num desses quartos do porão habitável, na realidade um verdadeiro andar térreo com entrada própria, que mais tarde me desmanchei em gozo lendo" A Carne", romance exemplarmente ingênuo do naturalismo. Percorria numa aflição crescente, numa pressa tardiamente satisfeita, as digressões eruditas de cada personagem. Cada qual descrevia primeiro e muito sério as diferentes espécies de vegetais da montanha, fazia descrições orográficas e mineralógicas, até chegar à cena predileta, indispensável aos romances realistas e ao cinema nacional: o banho da heroína na cachoeira selvagem, os bicos dos seios em riste, nua aos olhos ávidos do herói, excitado mas hipócrita, escondido atrás do barranco até que não agüentava mais e investia de modo a que o autor pudesse dar vazão à lubricidade incontível de sua pena que em vão digressionava pela anatomia, a psiquiatria e outras desculpas razoáveis. Como a cena excitante custava a chegar! Mas afinal sempre vinha. Então o cheiro do meu corpo me bastava, com um relento acre de planta no sereno. Era um convite, um alento. O pobre autor Julio Ribeiro conseguia o que jamais pensara: dar uma finalidade autenticamente erótica a uma literatura pseudocientífica em que se estendia, convencido da sua missão cultural quando era principalmente ejaculatória. No entanto isso foi só depois que numa privada que cheirava aos vômitos periódicos de um bêbado circunspecto, que a visitava com provecta freqüência, descobri a outra finalidade do birro, ao sentir que saía dele, quase espontaneamente, mediante ligeira ajuda, um líquido levemente leitoso e espumejante que então fez sua estréia na minha vida, na mão em que deslumbrado o colhi. Da latrina emanava o cheiro daqueles vômitos periódicos e do hábito tão difundido e ao que parece invencível, de jogar cigarros que se desintegram, enchem de escuros laivos a água amarelenta, e depois, desmanchados, levantam no ar confinado um cheiro característico, de internato, de trem superlotado, de prisão. Não era, por isso mesmo, o lugar próprio para as reflexões que fiz. Mas o certo é que as fiz, num susto deslumbrado. Então era aquele líquido viscoso a origem da vida? Vínhamos todos daquilo, eu e todos os outros seres? No côncavo da mão a dose esbranquiçada, então muito mais líquida do que viscosa, era um portento. Afinal a prova tão falada, tão esperada. Com certo respeito fui lavar a mão. Ao enxugá-la tive uma vaga sensação de arrependimento, como se me desfizesse de uma parte do meu ser, desperdiçada. Naqueles dias do meu Avô tudo isso eram meras antecipações como que adivinhadas; tudo se passava numa inocência premonitória que as pessoas grandes chamariam de malícia, ou safadeza. O sexo fazia parte do cotidiano, nem mais nem menos de que a fome, a paisagem, o devaneio na força do sol, a melancolia precoce, romanticamente forçada na luz do poente; e convém lembrar a tempo, a força aliciadora do céu, pálio aberto recamado de estrelas que chamavam com sua linguagem perturbadora nunca decifrada. Não obstante toda essa naturalidade havia um susto, um mistério, o agradável sentimento do proibido, do que se obtém à revelia dos regulamentos. Era por si mesmo um código novo e pessoal, um idioma secreto apenas repartido com alguns e algumas, nos brinquedos inefáveis sob as árvores; e certas vezes nas próprias árvores convertidas em castelos, fortalezas. com ameias e alcovas, bárbaros sitiantes, suaves princesas. O descobrimento do corpo, a nudez das pernas lisas, das coxas roliças, a penugem macia, a sombra amável do escondido inominado, o baque do corpo sobre a terra forrada do cetim das folhas também nuas, amarelecendo aos primeiros sóis, umedecidas das últimas chuvas; aprender o nome verdadeiro dessas partes escondidas, o que está por dentro das calças e debaixo das saias, coberto, inacessível, afinal lentamente revelado, explorado com método a que não falta desajeito. Os primeiros desejos, mais de tato do que de palavras, estas indizíveis, aquele transido, carregado de ansiedade deslumbrada. Se dos porões passo ao mirante, foi ali que o embalo da rede, forte demais, nas mãos de minha irmã e minha prilita a quem eu pirraçava, me jogou da rede na escada e quebrei o queixo onde me ficou uma cicatriz; deitado no sofá da sala de jantar, enquanto todo mundo comia davam-me um caldo grosso de feijão preto que eu sorvia com ares resignados para não magoar nem o queixo quebrado nem a mão carinhosa que me levava cada colherada à boca; então senti a sensação de vítima, bem agradável porque o caldo escuro e grosso era como um xarope de carinho, feito um beijo de feijão; quem sabe até heróica tal sensação, em todo caso, estóica, pelo menos eu me sentia herói romano como aqueles cuja história lia; resistente à dor, austero na tristeza, em suma, a palavra é mesmo esta: estóico. Como Septimio Severo ou Mucio Scevola. Um desses que botavam a mão no fogo para jurar a sua verdade. Porém o caldo de feijão na colher reluzente desfazia o meu martírio e se transformava num gozo, outro gozo, mais lento, quase imperceptível, mas denso como a força do verão. Pela janela da sala de jantar - isto não se verá nunca mais, porque ela mudou de feitio e pouso - passava rinchando o carro de bois do vizinho Juca Rosa carregado de. cana da sua lavoura miúda. Não raro os bois metiam o chifre curioso, a espreitar a. sala e a refeição. Deitado no sofá preto de palhinha, de Thoné, chamado austríaco, eu via a cabeça do boi e seus olhos tristes me davam uma impressão de fraternidade e mansidão, confortável como o cheiro de bosta e mijo de boi que pela janela vinha da estrada ao pé do mundo. Outras vezes me ocorreu descobrir o meu e o alheio corpo, na nudez soberba, a que se revela com todas as imperfeições, sem cerimônias nem falsos pudores, contente consigo mesma. Mas foi a partir daquele descobrimento de um país ignoto, de um novo continente, um moreno ardente coberto de penugem dourada, a deslumbrante viagem na própria natureza, a laboriosa e ofegante chegada, depois de tão natural esforço, como o vaivém de um êmbolo, de uma peça de má quina no entanto dotada de sentidos, o olfato apurado, a vista turva, a imaginação solta num campo sem limites, à procura de modelos, de formas tangíveis que dilatam paredes e prolongam sonhos nas túmidas vigílias da adolescência logo despertada. Tudo isso não era precoce nem tardio, era simplesmente natural, como o relincho do cavalo na estrebaria e a manga que cai com som cavo no chão da noite.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Eu mesmo adquiri este livro do Carlos Lacerda, porque em sua época, ninguém ficava indiferente ao que ele dizia, escrevia ou falava.


 

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