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O Pequeno Wilson e o Grande Deus

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O Pequeno Wilson e o Grande Deus

Livro Ruim - 1 comentário

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Autor: Anthony Burgess

Editora: Ars Poetica

Assunto: Memórias

Traduzido por: Alípio Correia Franca Ne

Páginas: 407

Ano de edição: 1994

Peso: 520 g

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Ruim
Marcio Mafra
19/10/2002 às 19:01
Brasília - DF

Pequeno Wilson e o Grande Deus tem um título pomposo e simpático, com gosto de livro bom! Ledo engano. É livro pouco pior que o ruim.

Não chega a ser a biografia do autor, mas é a sua memória romanceada, salpicada de poucos fatos reais e muitas imaginações, que são próprias da ficção do romanceiro.

Não dá pra gostar de um livro que é sem nunca ter sido. É como um grande salto de quem fica olhando, na beira da rampa de saltos, sem sair do lugar. Não salta, não voa, mas escreve como se tivesse saltado. É como um salto no escuro, mas tão escuro como os antigos laboratórios fotográficos. Pessimo.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Memórias de John Burgess Wilson, desde o nascimento até os 42 anos de idade.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Eu recebera uma notificação cordial da minha admissão no Exército de Sua Majestade, juntamente com uma nota de boas-vindas enviada pelo próprio monarca, cuja fotografia em papel lustroso mostrava um marechal-de-campo com um sorriso amarelo. Presumivelmente, ele devia ter trocado rapidamente de fantasia para as notificações às demais armas. Era por ele que eu devia lutar, ou melhor, não lutar, visto que eu ia entrar no Corpo Médico do Exército Real e tentar salvar vidas, em vez de as eliminar. As autoridades responsáveis pelo recrutamento fizeram uma escolha sensata por mim. Eles devem ter tomado conhecimento da antipatia que sinto por máquinas, até mesmo pelas mais simples, e talvez tenham sabido da tendência que as máquinas, em minha presença, têm de ficarem inibidas, confusas, de se tomarem ineficazes e de até mesmo se destruírem a si próprias. Eu desistira de guiar carros, de usar isqueiros ou de dar corda em trens de brinquedo. Nas minhas mãos, era provável que um fuzil negasse fogo. Eu devia ser um não-combatente, mas não devido à convicção que animava os quacres ou os "Grupos'" de Oxford. Também recebi uma passagem só de ida, na terceira classe, para Eskbank, fora de Edimburgo. Eu jamais tivera uma passagem só de ida. Não havia a esperança confortadora de voltar para casa - não que eu tivesse algum lar. Eu nem sequer tinha um parente, exceto por minha fiancée. Esse termo, sempre duvidoso, já que o acento agudo era a constatação de que se tratava de um estrangeirismo, não era permitido nos destacamentos, e a minha parenta foi reduzida a uma simples amiga. Viajei levando Hopkins e Joyce na minha mochila, e com muito pouca bagagem, nem mesmo uma troca de roupa. Eu pensava que Sua Majestade de imediato me fosse fornecer a mochila de soldado completa, contendo até um novo pacotinho de lâminas de barbear. Era o dia 17 de outubro de 1940, a guerra estava sendo travada havia mais de um ano, Sua Majestade naquele momento se achava plenamente organizada, e em 18 de outubro ou, no mais tardar, no dia 19, eu seria um soldado com todo o equipamento. Eu tinha já o meu número - 7388026 - e, com objetivos mnemônicos, transformara-o numa melodia com base no princípio chinês de notação musical. 1 é a primeira nota da escala diatônica, e 8 é a última. Um zero é a pausa de uma semínima. O número 7388026 deu um terninha fácil de lembrar, e improvisei uma rapsódia sobre ele enquanto ia para o norte. O compartimento continuou vazio por toda a viagem, exceto por outro recruta que ia para Eskbank. Ele era miúdo, de aspecto simiesco, calado. Ofereci-lhe cigarros Chesterfield, e, depois das duas primeiras baforadas, ele os cortou e guardou, à maneira dos estudantes pobres do St Mary's em Strawberry Hill. Ele ocultava alguma coisa, e descobri o que era quando lhe ofereci o meu Manchester Guardian. Ele era analfabeto, e se envergonhava disso. "Eu num aprendi a lê ainda" foi a maneira com que se exprimiu, e parecia pensar que tal incapacidade haveria de ser prejudicial. De certa forma já era, pois ele não conseguia entender as tabuletas das estações, e, em Huddersfield e em Leeds, ele me perguntou se já havíamos chegado nesses lugares. Quando chegamos em Edimburgo, e tivemos de procurar o trem da região, ele ficou grudado em mim, choramingando. Ele tinha uma pasta do tipo attaché feita de cartolina, e esta foi motivo de zombaria por parte do anspeçada1 que nos estava esperando na estação de Eskbank. "Agora ceis tão na porra do exército", disse ele, "e não batendo punheta por causa da porra de um desfile de manequins carregando uma merdinha de uma pasta attaché". Attaché,jiancée - de novo o acento agudo. O meu companheiro disse" Ainda num aprendi a lê", e ele parecia disposto a dizer essa frase como desculpa para todo tipo de mancada que desse. O mau linguajar daquele anspeçada me pareceu artificial. Ele era gorduchinho, usava bigode e tinha as unhas muito limpas - provavelmente, fora um caixeiro viajante antes de ser convocado. Ele estava representando. Todos estávamos representando, as centenas de pessoas que ali ingressavam. Cantamos Ro/l Out the Barrel quando nos obrigaram a fazer fila e a marchar até a colina. Estávamos fazendo o papel de prisioneiros de guerra bem-humorados, mas fazendo cara feia por todo o caminho até os Kriegsgefangenenlager [campos de prisioneiros de guerra]. Fomos obrigados a marchar durante o crepúsculo escocês até Newbattle Abbey; tivemos de responder com uma demonstração de fingida alegria à frase "Fiquem com essas cabeças de merda levantadas", à medida que passávamos pelos portões e chegávamos para descansar num tipo de salão de baile horripilante, onde havia uma galeria de músicos desocupada, cabeças de animais com chifre que eram troféus de caça em toda parte, uma ou duas estátuas delicadas de uma deusa nua de pedra. Um homem com três divisas e com um galardão nos vistoriou com um ar de piedade que tentou educadamente ocultar. "Esse aí", pensei com os meus botões, "deve ser um sargento-ajudante". Tratava se de um erro típico de um civil, e em pouco me envergonhei dele. Lá estava um segundo-sargento. (Fiquei impressionado ao ver que, na versão de Memórias de Brideshead de Waugh que fizeram para a televisão, cometeram o mesmo erro, com menos justificação.) Todos os recrutas pareciam perturbados e rebeldes. Estávamos muito longe de casa, e ninguém acreditava que a guerra fosse acabar antes do Natal. Distribuíram para nós canecas de I quartilho, marmitas de ração, garfo, faca e colher em sacos de lona. Deram-nos a primeira das muitas refeições sórdidas do exército carne cozida fria e duff com creme; depois, fomos agrupados em companhias. Fui colocado na Companhia B, e obrigado a marchar com uma enfiada de marmitas de ração tilintantes até uma cabana de madeira nas fileiras da companhia. Não conseguíamos enxergar nada. A cabana gelada era iluminada miseravelmente pelo que haveríamos de designar mais tarde como lâmpada do Posto de Trânsito de Recrutas pintada de vermelho, com a voltagem mais baixa possível, a luz tão fraca que não chegava a perturbar os homens que dormiam naquele lugar, onde a passagem de pessoas se dava numa base de vinte e quatro horas por dia. Não havia camas; porém, havia fileiras de colchões de capoque, chamados de "biscoitos", e um montão de cobertores imundos. Antes de se deitar, alguns dos recrutas se ajoelhavam para rezar, provavelmente para terem forças. O recruta próximo de mim era um judeu-alemão chamado Judah Apfelbaum, ou Joe Appletree [Zé Macieira], e ele não rezava. Em vez disso, reclamava com o cabo que estava na cabana devido ao frio, à imundície e à falta de educação no trato com as pessoas. "Eu lavarr meus dentes antes de dormirr, mas onde ficarr o lugarr de lavarr, você me dizerr." Não havia nenhum "lugar de lavar", mas apenas uma fIleira de torneiras de água fria a uns 800 metros de distância. O cabo respondeu, sensatamente, que estávamos todos na mesma porra de barco. Apfelbaum, então, examinou-me com o olhar e disse: "Qual serr seu nome?". Eu lho disse. "Senhorr Vilson", insinuou ele, "o senhorr não estarr bem. Estarr frraco, eu verr. O senhorr não serr capaz de suporrtarr. O senhorr e mim vai sairr daqui amanhã se eles não melhorrarr as coisas." Ele parecia achar que o posto de treinamento de recrutas era um hotel vagabundo, que poderíamos trocar por outro. Mas ele estava com a razão por reclamar, como percebemos no dia seguinte.


  • "Laranja Mecânica", de Stanley Kubrick, Completa 40 Anos

    Autor: Elaine Guerine

    Veículo: Valor Economico, final de semana, 5 a 7 de agosto de 2011

    Fonte:

    Laranja Mecânica", obra-prima de Stanley Kubrick, completa 40 anos
    Por Elaine Guerini | Para o Valor, de Cannes


    Ampliar imagemEm "Laranja Mecânica", Malcolm McDowell é Alex DeLarge, líder de uma gangue juvenil, que se torna cobaia de técnicas de controle da delinquência
    Christiane Kubrick, a viúva de Stanley Kubrick, ainda se lembra das ameaças de morte que a família recebeu assim que "Laranja Mecânica" foi lançado, em dezembro de 1971. "Eram cartas aterrorizadoras escritas por pessoas que não entendiam a proposta de Stanley e viam a obra como uma apologia à violência", contou a atriz, cantora e pintora alemã, de 79 anos. Entre as correspondências, a família também recebeu um pacote com uma laranja de plástico que fazia o tique-taque de um relógio. "Imediatamente pensamos se tratar de uma bomba. Mas, nesse caso, o remetente era um fã, que não tinha ideia da loucura que estávamos vivendo", disse Christiane ao Valor, em Cannes.

    Assim como Kubrick, que fugia dos jornalistas, Christiane resiste a conceder entrevistas. No entanto, eventualmente o faz por se sentir responsável pelo legado de um dos maiores cineastas da história. Principalmente nos aniversários de suas obras, como "Laranja Mecânica", que acaba de chegar às lojas do Brasil em Blu-ray, em comemoração aos 40 anos de seu lançamento. Presença garantida na lista dos filmes mais polêmicos de todos os tempos, o clássico segue os passos de Alexander DeLarge (Malcolm McDowell), líder de gangue que rouba e mata por diversão - pelo menos até ser preso e usado como cobaia em tratamento para regenerar criminosos.

    "Stanley provavelmente adoraria o formato do Blu-ray", afirmou Christiane, companheira do diretor por mais de 40 anos. Ambos se conheceram durante as filmagens de "Glória Feita de Sangue" (1957), no qual ela interpretou uma cantora alemã. "A possibilidade de o espectador ver o filme em casa, com excelente qualidade e quantas vezes quiser, vem ao encontro da paixão de Stanley pelo cinema. De tão fanático, ele via filmes sem parar. Via tudo o que podia, incluindo porcarias."

    Como Kubrick gostava de "tentar coisas novas", Christiane adoraria ver seu "2001 - Uma Odisseia no Espaço" (1968) convertido em 3D. "Stanley só conheceu o 3D primitivo, com aqueles ridículos óculos de papel. Mas certamente aprovaria o formato, desde que a história pudesse efetivamente se beneficiar com a tecnologia." Segunda a Christiane, Kubrick era um amante dos eletrônicos. "Sempre teve os aparatos mais avançados da época. Era fascinado por laptops e celulares. Foi a primeira pessoa que eu conheci a comprar um celular, um modelo parecido com um tijolo, de tão pesado." Até hoje Christiane diz que não consegue entrar numa loja da Apple sem se lembrar do marido. "Imagino como ele ficaria maluco diante de tantas novidades."

    Desde a morte de Kubrick, em março de 1999, aos 70 anos, Christiane trabalha pela preservação de sua obra. Colaborou algumas vezes com o diretor, fornecendo quadros para os cenários de seus filmes. É de sua autoria a pintura a óleo, com motivos florais, na casa do escritor recluso que é invadida pela gangue de "Laranja Mecânica". Também assinou a maioria dos quadros que decoravam o apartamento nova-iorquino do casal vivido por Tom Cruise e Nicole Kidman em "De Olhos Bem Fechados" (1999). "Embora ainda lute com um abismo na minha vida, gerado pela morte de Stanley, tento tocá-la do jeito que eu acho que ele gostaria que eu fizesse. Faço por sua memória. Stanley foi um homem fantástico."

    Christine trabalhou em parceria com o Deutsches Filmmuseum de Frankfurt, na Alemanha, na concepção da exposição "Stanley Kubrick", criada em 2004. Desde então a mostra composta por anotações, documentos, fotografias, roteiros, figurinos, adereços e partes de cenários dos filmes do cineasta já passou por Berlim, Zurique, Roma, Melbourne e Paris. E já estão programadas paradas em Praga, ainda neste ano, e em Nova York e Los Angeles, em 2012.

    "Abrir aquela montanha de mais de 500 caixas deixadas por Stanley foi um trabalho penoso", disse Christiane, que contratou um arquivista para ajudá-la a catalogar os itens. "Ele morou na minha casa por mais de um ano. Foi o tempo que levamos para inspecionar tudo." A viúva precisou do arquivista para lhe dar uma "visão mais objetiva" sobre o material. "Por ser sentimental, eu não conseguia separar o que era realmente importante do ponto de vista cinematográfico. Stanley sempre teve a intenção de catalogar as suas coisas. O problema é que ele começava a fazer isso e logo perdia a paciência."

    O que não está na exposição foi doado à University of the Arts, de Londres. "Conheço estudantes de cinema que passam horas vasculhando o material na universidade", comentou Christiane. Para ela, é irônico o fato de os jovens cineastas aprenderem com o que Kubrick deixou. "Enquanto os estudantes de hoje têm à disposição um estúdio de cinema e todo o equipamento necessário, Stanley não teve nada. Ele cortou o seu primeiro filme ("Medo e Desejo", de 1953) com tesouras", contou, rindo. "Felizmente, Stanley era entusiasta e ingênuo o suficiente para achar que podia fazer tudo. Ele não podia, mas acabava aprendendo."

    O próximo passo para Christiane é ver sair do papel um documentário sobre a dedicação de Kubrick ao filme de Napoleão Bonaparte. A maior frustração do diretor foi não ter realizado a cinebiografia, um projeto de superprodução que foi abandonado em 1969 pela MGM, poucos meses antes do início das filmagens. O esforço em vão de Kubrick, que passou mais de três anos mergulhado na pesquisa sobre o imperador francês, inicialmente foi visto no livro "Napoleon - The Greatest Film Never Made" (Napoleão, o Maior Filme Nunca Feito), publicado em 2009 pela Taschen. Com roteiro de Alison Castle, editora do livro, e direção de Erik Nelson, o documentário deverá ser rodado no ano que vem.

    "A ideia é mostrar como seria o filme, interligando a vida de dois gênios: Stanley e Napoleão", contou Christiane, acrescentando que o marido acumulou mais de 17 mil imagens, entre desenhos, pinturas e gravuras, relacionadas à figura histórica. "A fascinação de Stanley por Napoleão é explicada pela fraqueza do imperador, que muitas vezes deixou as emoções afetarem as suas decisões. Stanley sempre achou que quem se deixa guiar demais pelos sentimentos acaba derrotado."

  • No tempo em que filmes de Hollywood quebravam tabus

    Autor: Sergio Rizzo

    Veículo: Jornal Valor Economico - Fim de Semana 5 a 7 de agosto de 2011

    Fonte:

    /08/2011 0
    No tempo em que filmes de Hollywood quebravam tabus
    Por Sérgio Rizzo | Para o Valor, de São Paulo

    A ambição e o destemor de Kubrick fizeram de "Laranja Mecânica" o mais arriscado de seus filmes, com um universo de pesadelo


    Ampliar imagemDesde o antibelicista "Glória Feita de Sangue", o cineasta americano Stanley Kubrick estava habituado a caminhar na contracorrenteLá se vão quase 40 anos desde que Alex (Malcolm McDowell) e seus "drugues" encararam pela primeira vez uma plateia, na pré-estreia americana de 19 de dezembro de 1971. Prostrados na Leiteria Korova, tomavam algo que os deixasse prontos "para um pouco de ultraviolência". "Laranja Mecânica" (1971) ostenta ainda hoje, com seus primeiros 15 minutos, uma condição que dificilmente será igualada: a de longa-metragem industrial com a abertura mais desagradável e incômoda da história. O pacote inicial compreende espancamentos, acidentes de trânsito, enfrentamento de gangues, invasão de domicílio e duas mulheres violentadas, ao som de música clássica e de "Singin' in the Rain". E não acaba por aí.

    "Videie bem", o conselho dado pela gangue de Alex ao personagem que seria forçado a testemunhar o estupro da mulher, continua a soar como provocação endereçada ao espectador. A frase é dita para a câmera, em claro recado: agora que entramos na sala, não vale desviar o olhar; o que veremos também diz respeito a todos nós, compelidos a contemplar atos de violência - "em forma bem horrorshow", segundo Alex. Não é o tipo de experiência que se espera de um filme chancelado pela indústria cinematográfica (aqui, por meio da gigante Warner Bros.) e, portanto, voltado para o grande público.

    Afinal, para ousadias viscerais, existe o cinema comprometido com a vanguarda e a expressão autoral.

    Basta lembrar, a respeito de imagens da violência, o que fizeram no domínio independente o austríaco Michael Haneke, em "Benny's Video" (1992) e nas duas versões de "Violência Gratuita" (1997 e 2007), e o argentino Gaspar Noé, em "Irreversível" (2002). Restritos a um pequeno circuito exibidor, esses filmes enfrentaram plateias que, em tese, estavam preparadas para o embate. Mesmo assim, geraram um grau elevado de rejeição. Como explicar que alguém tenha realizado "Laranja Mecânica" com dinheiro da indústria? A resposta tem a ver com um período estimulante em que a infraestrutura e o know-how do cinema americano eram usados para quebrar tabus, em filmes como "Perdidos na Noite" (1969), "O Poderoso Chefão" (1972) e "Taxi Driver" (1976), mas passa obrigatoriamente pela lembrança de que o alguém em questão era Stanley Kubrick (1928-1999).

    Habituado desde o antibelicista "Glória Feita de Sangue" (1957) a caminhar na contracorrente, ele vinha de uma chanchada de guerra que brincava com a possibilidade de hecatombe nuclear para ironizar o poderio militar ("Doutor Fantástico", 1964) e de uma ficção científica que reformatava o gênero a partir de uma inusitada aproximação entre ciência, filosofia e misticismo ("2001, uma Odisseia no Espaço", 1968). Publicado em 1962, o romance do inglês Anthony Burgess (1917-1993) pareceu a Kubrick um desafio à altura do espaço privilegiado que já ocupava. De um lado, o livro fornecia elementos recorrentes na obra do cineasta, como o instinto de violência associado à natureza humana, a apologia do livre-arbítrio e a presença da tecnologia no processo civilizatório. De outro, possibilitava experiências nos campos temático e formal, com o "Tratamento Ludovico" (a tentativa de condicionamento a que o Estado submete Alex) representando a confluência entre um e outro.

    A ambição e o destemor de Kubrick fizeram de "Laranja Mecânica" o mais arriscado de seus filmes, com um universo de pesadelo embalado em humor negro. Diversos elementos - cenografia, figurinos, câmera, montagem, música e o dialeto de rua criado por Burgess (o "nadsat", baseado em palavras russas) - contribuem para esse aspecto peculiar. Talvez seja também o que melhor resistiu à passagem do tempo, com sua irônica narração autorreflexiva, formato episódico e um anti-herói singular a serviço da "questão moral" que Kubrick condensou da seguinte forma: um homem pode ser bom sem ter a opção de ser mau?

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Não consigo encontrar a referencia deste livro na minha memória.


 

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