carregando

Aguarde por gentileza.
Isso pode levar alguns segundos...

 

Verdade Tropical

Para usar as funcionalidades você precisa estar logado(a). Clique aqui para logar
Erro ao processar sua requisição, tente novamente em alguns minutos.
Verdade Tropical

Livro Ruim - 1 comentário

  • Leram
    2
  • Vão ler
    0
  • Abandonaram
    0
  • Recomendam
    1

Autor: Caetano Veloso

Editora: Companhia das Letras

Assunto: Biografia

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 524

Ano de edição: 1997

Peso: 640 g

Avalie e comente
  • lido
  • lendo
  • re-lendo
  • recomendar

 

Ruim
Marcio Mafra
29/06/2002 às 20:21
Brasília - DF

Interessante. Rico nos detalhes. Por vezes cansativo. Prolixo como Caetano. Caetano é um dos cardeais da MPB, tanto como compositor ou como intérprete. Um artista invejável. Na música e na composição ele é brilhante. Como escritor, porém, não se pode dizer o mesmo. Assim como Jô Soares e Chico Buarque - que também são estrelas - o Caê não pode ser bom em tudo. Ninguém o é. Talento de artista é cada vez mais raro. De escritor nem se fala. Acontece que livro de memória ou biográfico quando escrito pelo próprio personagem, acaba sendo burilado e remexido para parecer bonzinho. Nunca se lê uma só açãozinha sórdida, nem mesmo condenável, quando o autor deseja preservar sua imagem pública. O Caetano numa de suas canções diz algo como..."de perto, ninguém é normal..." Em Verdade Tropical, só se lê coisa boa, arrumadinha, bonitinha, engraçadinha, curiosinha, normalzinha e certinha. Conclusão: mesmo após a leitura de Verdade Tropical, o leitor só terá visto Caetano Veloso de longe. Muito de longe. Este livro é mais que ruim.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Biografia de Caetano Veloso, com história e crítica da música popular incluindo todas as fases da MPB e Tropicalismo.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Nesse clima de ânimos exaltados e ruas conflagradas é que o auasca - assim é que se chamava a bebida que Carlos Marques trouxera da Amazônia - fez sua aparição. Gil, depois dessa experiência solitária no vôo Rio-São Paulo, propôs que fizéssemos todos uma "viagem" em conjunto. Ele veio para o meu apartamento com a garrafa e serviu a cada um a quantidade que Marques ("Marx") tinha recomendado: pouco mais de meio copo. Minha primeira experiência com uma droga que não fosse álcool ou tabaco tinha sido uma catástrofe. Aos catorze anos, no primeiro Carnaval que passei em Santo Amaro depois de voltar do meu ano no Rio, Luís César, um companheiro do ginásio que já fora meu colega no curso primário, propôs que tomássemos um porre de lança-perfume juntos. O lança-perfume era um sinônimo de felicidade para mim. Vendido em garrafinhas de metal dourado ou de vidro com um dispositivo para fazer, com uma pressão do polegar, esguichar um jato fino de perfume que gelava a pele que tocasse, esvanecendo-se em segundos, ele era um elemento que ampliava a magia do Carnaval, porque trazia antevivências de paixões amorosas (em princípio, ele existia para ser apontado por nós para meninas que se sentiriam fugazmente geladas, perfumadas e lisonjeadas - ou assim esperávamos) e uma sugestão olfativa de sonho. Meu pai comprava uma garrafinha para cada um de nós (que respeito ele tinha pelo Carnaval!), mas diversas vezes o ouvi recriminar o uso que se fazia do seu conteúdo como entorpecente e frisar que podia causar uma parada cardíaca. Sem embargo, eu ouvia de alguns conhecidos mais velhos (inclusive meus irmãos) elogios à maravilhosa sensação do "porre". Assim, quando Luís César me propôs a experiência, embora eu resistisse por muito tempo, chegou um ponto em que a curiosidade foi maior que o medo. Aspirei o lenço embebido no líquido e, em um segundo, era a pessoa mais infeliz sobre a face da terra. Toda a praça iluminada mergulhou numa escuridão que se originava em mim, e um zumbido em meus ouvidos, de intensidade regularmente oscilante mas também regularmente crescente, me levava a sentir-me perdendo o mundo - e perdendo-me para o mundo. O mais feroz pavor infantil de aniquilamento tomou conta de mim nesses segundos que pareceram durar uma eternidade, pois, à medida que eu afundava mais e mais na escuridão e na zoeira, eu era como que gradualmente desfeito de tudo, menos da lucidez para observar, dilacerado, o horror que estava me acontecendo. Luís César foi e voltou de seu mergulho sem demonstrar grande gozo ou grande sofrimento. Suas primeiras palavras denotavam um mero aumento da curiosidade a respeito do que se podia extrair de interessante do lança-perfume como droga. A imensurável alegria que ia se apossando de mim, à medida que eu percebia que estava voltando à vida, não foi bastante para impedir que, imediatamente depois de refeito, eu entrasse numa espécie de depressão que estragou meu Carnaval de 57 - e, em certa medida, todos os meus dias dali em diante. Eu visitara um inferno onde o absurdo insuportável de uma alma sem corpo - e de uma consciência sem objeto - se me apresentara como uma evidência terrível: odiei para sempre a idéia de que possamos seguir sendo nós mesmos depois da morte. Ainda hoje, cada vez que ouço alguém falar de espíritos de parentes ou conhecidos mortos que tentam se comunicar com os vivos, me angustio só de imaginar a situação. Sinto pena dos mortos e raiva dos vivos que aventam com leviandade uma possibilidade tão horrorosa. Gil, Dedé, Sandra, Péricles Cavalcanti, Rosa Maria Dias, então mulher de Péricles, Waly, Duda e eu, cada um tinha sua dose de auasca. Todos tomaram. Menos eu, que, anos depois dessa experiência com o lança-perfume - e pouco mais de um ano antes dessa noite -, tivera um sofrimento igualmente infernal por causa de maconha. Tinha sido uma negra americana que vivia em Salvador ou ali tinha um apartamento alugado aonde vinha de Nova York para passar semanas -, uma mulher muito interessante cujas atividades na cidade nunca conseguimos precisar, quem nos iniciara, a mim e a um grupo de amigos baianos, na marijuana. Ela tinha grandes quantidades de erva de primeiríssima qualidade - "cabeça de negro" - e deu um cigarro a cada um. Sem saber que isso era muito, fumei o cigarro inteiro puxando com força e segurando a fumaça no pulmão, como ela ensinava. Como eu nada sentisse, procurei seguir suas instruções à risca. Depois de findo o cigarro, ainda dizendo que não sentia nada, levantei-me para ir até a janela. De vez, a luz caiu (era dia), meu coração disparou, minha boca secou e meu corpo ficou dormente - sobretudo as pernas. O susto foi muito grande e cheguei à janela esperando que aquilo passasse logo. Vi as pedras do calçamento como que coladas ao parapeito do terceiro (ou quarto) andar em que estávamos. Percebi que aquilo estava apenas começando. Nenhum dos meus amigos igualmente iniciantes teve reação parecida. Imediatamente demonstrei meu desespero e eles, a partir daí, passaram a se concentrar em cuidar de mim. Eu me sentia longe e tinha uma saudade enorme das mesmíssimas pessoas que estavam ali comigo. Sentia uma saudade desesperada, da Bahia, de mim mesmo, de Dedé, da vida. Me deram doce, leite, laranjada. Nada me fazia melhorar.


Nenhuma informação foi cadastrada até o momento.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Adquirido por Márcio, procurando "conferir" histórias que também viveu como o tropicalismo e a valorização da MPB.


 

Receber nossos informativos

Siga-nos:

Baixe nosso aplicativo

Livronautas
Copyright © 2011-2019
Todos os direitos reservados.