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Dona Flor e Seus Dois Maridos

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Dona Flor e Seus Dois Maridos

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Autor: Jorge Amado

Editora: Martins

Assunto: Romance

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 535

Ano de edição: 1966

Peso: 860 g

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Excelente
Marcio Mafra
23/09/2002 às 16:01
Brasília - DF

Somente o inigualável talento e o pedaço muito mágico, muito milagroso e muito artístico do mestre Jorge Amado conseguiria fazer com que a respeitável Dona Flor vivesse - quase simultaneamente - com seus dois maridos, numa só cama. Este não é um livro de auto plágio, como alguns escritos do Mestre Amado. Excelente. Imperdível.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história esotérica e comovente vivida por Dona Flor, emérita professora de arte culinária e seus dois maridos: Vadinho e Dr. Teodoro Madureira, ambos em espantosa e também comovente batalha entre o espírito e a matéria.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

O rádio, parte de sua bagagem de solteira, antiquado e gasto, só dava despesas, encrencando todos os dias, falhando nos momentos mais dramáticos, mudo na cena mais emocionante. Consertos e mais consertos, inúteis e caros. Dessa vez a decisão de dona Flor era irrevogável: não abriria mão de suas economias, sucedesse o que sucedesse. Afinal, tinha de colocar um paradeiro àquele abuso. Foram-se as alunas numa revoada de risos e um tanto quanto desiludidas: era aquêle sorumbático sujeito num canto a cismar, o tão falado marido da professôra, com fama de perigoso, de irresistível, o do caso com Noêmia Fagundes da Silva? Francamente, não lhes parecera digno de cobiça, muito aquém da insolente legenda. Dona Flor encontrou-se a sós com Vadinho, vis-à-vis com o seu mêdo, a bôca amarga, apresso o coração. Erguendo-se num esfôrço, êle dirigiu-se à mesa, encheu um cálice de licor: - Esse troço é gostoso mas pega que é uma beleza, dá um pileque medonho, uma ressaca horrível. .. Dor de cabeça maior só com licor de jenipapo... Queria parecer despreocupado, veio para junto dela, oferecendo-lhe uma gôta de seu cálice, amável e temo: - Prove, meu bem. . . Mas dona Flor recusava, como recusava-se à carícia da mão a descer do cangote, no caminho dos seios pela abertura da blusa. "Hipocrisia, nada além de hipocrisia," carícias para romper minha resistência, impossibilitar-me a negativa, carícias para minha fraqueza de mulher." Juntou tôdas as fôrças, agravos antigos, a pequena reivindicação de um rádio nôvo, pôs-se de pé, vexada de desgôsto: - Por que não diz logo a que veio? Ou pensa que não sei? Sério e triste, o rosto de Vadinho; vinha porque tinha de vir, porque nada conseguira em parte alguma, mas não vinha contente, de peito aberto e riso sôlto, ahl se pudesse não vir! Também êle sabia o destino que dona Flor pensara dar àquele dinheiro. Seu Edgard Vitrola ainda não aparecera, pois o antigo aparelho continuava na sala como Vadinho constatou logo ao abrir a porta. Mas podia aparecer a qualquer momento com a oitava maravilha do mundo, beleza de móvel em pau marfim e metal cromado, última palavra em maquinaria, em ondas e faixas, em quiloates e voltagens, capaz de captar as mais longínquas emissoras, as do Japão e as da Austrália, as de Addis-Abeba e as de Hong-Komg, sem esquecer os subversivos programas de Moscou, tanto mais proibidos quanto mais procurados. Dona Flor mandara recado urgente a seu Edgard, por intermédio de Camafeu, tocador de berimbau e companheiro inseparável do Vitrola. Primeiro no bonde, com seu palpite e sua vergonha, depois a pé pela rua, viera Vadinho partido em dois. Um na pressa de chegar antes do vendedor de rádios, nunca um palpite o possuíra assim; o outro no desejo de chegar tarde, após seu Edgard, não mais encontrando nem o rádio velho nem os c0bres pagos por dona Lígia, dinheiro ganho por sua mulher à custa de trabalho e de suor: atravessara a noite junto ao fomo, após um dia sem descanso. Partido em dois, no bonde; vindo pela rua, entrando em casa, abrindo a porta: partido em dois. Se seu Edgard não tivesse passado, que sinal mais certo da infalibilidade do palpite? Mas, se já encontrasse o nôvo aparelho, ficaria em casa aquela noite, ao lado de dona Flor, estreando-o, ouvindo música, rindo com as piadas. Partido em dois, dividido pelo meio, assim viera Vadinho. Por que seu Edgard não passara antes? Agora não tinha mais remédio. - Tu pensa que é só por interêsse que eu te agrado? - Só por interêsse e nada mais... Apenas interêsse, vil interêsse; retesava-se dona Flor: - Por que não fala logo? Um muro os separava naquela hora do crepúsculo, quando a tristeza irrompe do horizonte em cinza e em vermelho, quando cada coisa e cada vivente morre um pouco no morrer do dia. - Já que é assim que tu quer, não vou perder mais tempo. Tu vai me emprestar nem que seja duzentos mil-réis. - Nem um tostão... Tu não vai ver nem um tostão... Como tu ainda tem coragem de falar em empréstimo? Quando é que tu já pagou nem que fôsse um vintém? Esse dinheiro só sai de minha mão para a de seu Edgard. - Juro que te pago amanhã, hoje estou precisado de verdade, é caso de vida ou morte. Juro que amanhã compro eu mesmo um rádio para você e tudo mais que tu quiser. .. Pelo menos cem mil-réis... - Nem um tostão... - Tem paciência, meu bem, só essa vez... - Nem um tostão... - repetia como se não soubesse dizer outra coisa. - Ouve. . . - Nem um tostão... - Toma cuidado, não brinca comigo, porque, se não fôr por bem, vai ser por mal.. . Disse e olhou em tôrno como a localizar o esconderijo. Eis que dona Flor perdeu a cabeça e, em desespêro, se atirou para o velho aparelho de rádio; junto às gastas válvulas ocultara o dinheiro. Vadinho a seguira, ela porém já segurava as cédulas, desafiando-o aos berros: - Esse tu não vai gastar no jôgo. Só se me matar. . . Os gritos cortavam a tarde, as comadres em alerta saíam à rua: - É Vadinho tomando dinheiro de Flor, coitadinha. . . - Cão mais tenebroso. Cão das trevas. Vadinho partiu para dona Flor, os olhos cegos, a cabeça vazia, o ódio a cobrir-lhe o entendimento, ódio de fazer o que estava fazendo. Tomando-a pelos pulsos, bradou-lhe: - Larga essa merda! Foi ela quem bateu primeiro: arrancando-se dêle e não querendo deixar-se agarrar novamente, socou-lhe o peito com os punhos fechados, com a mão aberta atingiu-lhe o rosto. "Sua puta, tu me paga!", disse Vadinho, enquanto dona Flor gritava: "me deixa, desgraçado, não me bata, me mate logo, é melhor". Então êle a empurrou, ela caiu por cima de umas cadeiras, gritando: "assassino, miserável"; e êle a esbofeteou. Uma, duas, quatro bofetadas. O estalo dos tapas levantou, na rua, o côro de revolta e lástima das comadres. Dona, Norma abriu a porta, foi entrando sem pedir licença: - Ou você pára com isso, Vadinho, ou eu chamo a polícia. Vadinho nem parecia vê-la: lá estava êle com o dinheiro na mão e um ar perdido, o cabelo revôlto, olhando num espanto para onde dona Flor jazia caída, a gemer baixinho, num chôro manso. Dona Norma correu a ampará-la, Vadinho saiu porta a fora, as notas apertadas entre os dedos. As vizinhas arredaram do passeio, era como se vissem o próprio demônio dos infernos. . Naquele mesmo instante, o táxi do Cigano freou junto à porta. Reconhecendo-o, Vadinho sorriu, porque aquela coincidência era mais uma prova da infalibilidade do palpite. Ia pela rua bem do seu quando tivera aquela certeza, mas uma certeza total e absoluta, sem perigo de engano ou urucubaca, certeza de que nessa tarde e nessa noite êle iria estourar tôdas as bancas de jôgo da cidade, uma por uma, começando pelas roletas do Tabaris, terminando no antro escuso de Paranaguá Ventura. Uma certeza a crescer dentro dêle, a dominá-lo, exigindo ação, obrigando-o a desdobrar-se em inútil peregrinação à cata de numerário, a partir, por fim e a contragôsto, em busca do dinheiro de dona Flor. Ao esbofeteá-la, porém, ficara vazio até dessa certeza, fôra-se o palpite, todo êle ôco por dentro, sem saber o destino a dar àquele dinheiro, como se tudo houvesse sido inútil. Mas, na rua, ante o táxi do Cigano a surgir num milagre - pois Vadinho tinha pressa de iniciar ainda no turno vespertino a maratona do século -, novamente se tranquilizou. Mais uma prova indiscutível de fôrça do palpite, Vadinho sentia um calor nas mãos, uma urgência de partir. Agora, apenas as mesas de roleta, a bolinha a girar, o crupiê, o 17, as paradas, o olhar nervoso de Mirandão à sua esquerda como de hábito, as fichas, apenas o jôgo existia para êle. Quis entrar no táxi mas o Cigano saltara entre as vizinhas em alvorôço. Um rastro de lágrimas nos olhos do chofer, a voz espêssa. - Vadinho, meu irmãozinho, minha velha morreu, minha mãezinha... Eu soube na rua, estou vindo agora de casa. . . Não vi ela morrer, diz que ela chamou por mim quando deu a dor... De comêço Vadinho nem prestara atenção às palavras do amigo, mas logo entendeu e apertou o braço do Cigano. Que estava êle inventando, que história mais maluca? - Quem morreu? Dona Agnéla? Tu está doido? - Nem faz três horas. Minha velha, Vadinho.:. Muitas vêzes em solteiro, e mesmo depois de casado, inclusive em companhia de dona Flor, fôra êle comer a feijoada dominical de dona Agnéla, naquele fim de linha de Brotas. Gordíssima e cordial, ela o tratava como filho, numa fraqueza pelo môço jogador, perdoando-lhe a vida de deboches. Não era êle uma réplica, até nos cabelos loiros, do finado Aníbal Cardeal, batoteiro insigne, seu amásio e pai do Cigano? - Igualzinho ao outro... Dois perdidos.. . Novamente sentiu-se Vadinho sem ar e sem ação, dia mais nojento, dia mais sem jeito: primeiro Flor com aquela teimosia da desgraça, agora o Cigano a conduzir nas dobras do crepúsculo e a atirar no passeio o cadáver de dona Agnéla... - Mas, como se deu? Ela estava doente? - Nunca vi ela doente, que me lembre. Hoje, quando saí, depois do almôço, deixei ela no tanque, lavando roupa. Cantando, contente que só vendo. .. Tu não vê que hoje foi o dia de pagar a última letra do carro, a gente tinha o dinheiro certinho. De manhã a gente ficou, os dois, contando, ela e eu. .. Ela me entregou o que tinha juntado nesse mês, tudo em nota de dez tostões, dois mil-réis. Tava alegre porque agora o carro era meu de verdade. - fêz uma pausa, esforçando-se para não chorar -: Diz que de repente deu uma dor lá nela, no peito. Que foi só o tempo de dizer meu nome e caiu morta... O que me dói é que eu não estava lá, estava pagando a letra do carro. .. Isidro, aquêle do botequim, é que veio me avisar, na praça. .. Fui correndo. .. Ah!, meu irmãozinho ela estava tôda fria, os olhos esbugalhados... Agora eu vim porque estou sem um vintém, o dinheiro foi todo no pagamento do carro... O meu e o dela, de minha velha. . . Sua voz quase em surdina, escutariam as comadres? Mesmo as comadres morriam um pouco na agonia do sol, esbatidas na sombra quando Vadinho entregou ao Cigano aquele sujo dinheiro de violência e seu límpido palpite de vitória. - É tudo que tenho. . . - Tu vem comigo? Tem muito que fazer.. . - Não houvera de ir? Livres da presença de Vadinho, as comadres entravam-lhe casa adentro: no quarto dona Flor e as malas, dona Norma tentando demovê-la. As xerêtas não compreendiam as razões de dona Norma. Razão só dona Flor a possuía, carradas de razão. Um côro de cochichos: - Oh! vida mais injusta, como se pode martirizar assim. . . - Ela devia era largar êle de uma vez.. . - Atrever-se a bater... Que horrorl Jamais dona Flor acreditou não terem elas escutado a conversa do Cigano, seu anúncio de morte. Não fôsse seu Vivaldo, o da funerária, e dona Flor não teria sabido do falecimento de dona Agnéla nem de como Vadinho empregara o dinheiro. Seu Vivaldo passou por acaso: aproveitando estar nas imediações, veio trazer a receita de certo prato de bacalhau, de origem catalã, delícia saboreada em pantagruélico almôço em casa dos Taboadas, em cuja mesa nunca serviram menos de oito ou dez pratos, um esbanjamento. Ao enxergar dona Flor de olhos úmidos, comentou a triste nova: pobre dona Agnéla. Vinha de saber, encontrara Vadinho e o Cigano, ia fornecer o esquife pràticamente sem lucro. Dona Agnéla merecia: uma escrava no trabalho e sempre jovial, pessoa ótima. Seu Vivaldo fôra uma vez, com Vadinho, honrar-lhe a feijoada... Só então dona Dinorá e as outras comadres ligaram palavras e gestos, o dinheiro mudando de mão nas sombras do crepúsculo. Assim o disseram, pelo menos; acredite quem quiser. Despediu-se seu Vivaldo com o compromisso de vir provar o prato espanhol a receita custara-lhe esfôrço e propina: tivera de corromper a ama dos Taboadas, dona Antonieta era ciosa de seus segredos culinários. Dona Flor conhecera dona Agnéla naqueles inesquecíveis dias finais do namôro, às vésperas do casamento, quando passava as tardes com Vadinho na casinha clandestina de Itapoã. O estróina dono da casa, durante o dia ocupado com seus negócios de fumo, para as mulheres reservava as noites, as horas mortas da madrugada. Sucedeu, porém, de passagem pela Bahia, uma carioca sensacional, com apenas uma tarde livre. Vadinho recebeu um recado para não utilizar naquele dia o discreto enderêço


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Comprei este volume, logo na primeira edição, pois este livro não fazia parte de minha "velha" coleção dos livros do mestre Jorge Amado.


 

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