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Morte e Vida Severina

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Morte e Vida Severina

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Autor: João Cabral de Melo Neto

Editora: Nova Fronteira

Assunto: Poesia

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 135

Ano de edição: 1996

Peso: 220 g

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Excelente
Marcio Mafra
11/10/2008 às 13:52
Brasília - DF

Morte e Vida Severina, ou Auto de Natal Pernambucano é a maior obra poética do Mestre João Cabral de Melo Neto, publicado em 1966.

O livro é um poema dramático, composto entre 1954 e 1955 e relata a dura trajetória de um migrante nordestino que deixa o interior da Paraíba e vai para Recife, na busca de sobreviver.

O próprio autor que intitulou o livro, dizia-lhe um auto de natal pernambucano, pois foi composto todo em versos de sete sílabas poéticas, como as redondilha que já eram usadas desde a idade média.

Na parte inicial de sua andança, Severino vai até o Recife, seguindo rio Capibaribe, ou o "fio da vida" que ele se dispõe a seguir. Em Recife e nos arredores de sua periferia ele vive quase a mesma realidade de sofrimento e miséria que tinha no sertão paraibano, cujo destino era, simplesmente a morte. Então ele se desengana com o sonho da cidade grande e do mar, quando, ao final resolve "saltar fora da ponte e da vida", atirando-se no rio Capibaribe.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Auto de natal pernambucano, que narra - como poemas de redondilha (versos de sete sílabas poéticas) - a história do retirante nordestino que abandona o sertão paraibano e vai em direção ao litoral, em busca de sobrevivência, devido à seca e às sua miseráveis condições de vida no local.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

O meu nome é Severino,

como não tenho outro de pia.

Como há muitos Severinos,

que é santo de romaria,

deram então de me chamar

Severino de Maria;

como há muitos Severinos

com mães chamadas Maria,

fiquei sendo o da Maria

do finado Zacarias.

Mas isso ainda diz pouco:

há muitos na freguesia,

por causa de um coronel

que se chamou Zacarias

e que foi o mais antigo

senhor desta sesmaria.

Como então dizer quem fala

ora a Vossas Senhorias?

Vejamos: é o Severino

da Maria do Zacarias,

lá da serra da Costela,

limites da Paraíba.

Mas isso ainda diz pouco:

se ao menos mais cinco havia

com nome de Severino

filhos de tantas Marias

mulheres de outros tantos,

já finados, Zacarias,

vivendo na mesma serra

magra e ossuda em que eu vivia.

Somos muitos Severinos

iguais em tudo na vida:

na mesma cabeça grande

que a custo é que se equilibra,

no mesmo ventre crescido

sobre as mesmas pernas finas,

e iguais também porque o sangue

que usamos tem pouca tinta.

E se somos Severinos

iguais em tudo na vida,

morremos de morte igual,

mesma morte severina:

que é a morte de que se morre

de velhice antes dos trinta,

de emboscada antes dos vinte,

de fome um pouco por dia

(de fraqueza e de doença

é que a morte severina

ataca em qualquer idade,

e até gente não nascida).

Somos muitos Severinos

iguais em tudo e na sina:

a de abrandar estas pedras

suando-se muito em cima,

a de tentar despertar

terra sempre mais extinta,

a de querer arrancar

algum roçado da cinza. ...



Mas, para que me conheçam

melhor Vossas Senhorias

e melhor possam seguir

a história de minha vida,

passo a ser o Severino

que em vossa presença emigra.



- A quem estais carregando,

irmãos das almas,

embrulhado nessa rede?

dizei que eu saiba.

— A um defunto de nada,

irmão das almas,

que há muitas horas viaja

à sua morada.

— E sabeis quem era ele,

irmãos das almas,

sabeis como ele se chama

ou se chamava?

— Severino Lavrador,

irmão das almas,

Severino Lavrador,

mas já não lavra.

— E de onde que o estais trazendo,

irmãos das almas,

onde foi que começou

vossa jornada?

— Onde a Caatinga é mais seca,

irmão das almas,

onde uma terra que não dá

nem planta brava.

— E foi morrida essa morte,

irmãos das almas,

essa foi morte morrida

ou foi matada?

— Até que não foi morrida,

irmão das almas,

esta foi morte matada,

numa emboscada.

— E o que guardava a emboscada,

irmão das almas,

e com que foi que o mataram,

com faca ou bala?

— Este foi morto de bala,

irmão das almas,

mais garantido é de bala,

mais longe vara.

— E quem foi que o emboscou,

irmãos das almas,

quem contra ele soltou

essa ave-bala?

— Ali é difícil dizer,

irmão das almas,

sempre há uma bala voando

desocupada.

— E o que havia ele feito,

irmãos das almas,

e o que havia ele feito

contra a tal pássara?

— Ter um hectares de terra,

irmão das almas,

de pedra e areia lavada

que cultivava.

— Mas que roças que ele tinha,

irmãos das almas,

que podia ele plantar

na pedra avara?

— Nos magros lábios de areia,

irmão das almas,

os intervalos das pedras,

plantava palha.

— E era grande sua lavoura,

irmãos das almas,

lavoura de muitas covas,

tão cobiçada?

— Tinha somente dez quadros,

irmão das almas,

todas nos ombros da serra,

nenhuma várzea.

— Mas então por que o mataram,

irmãos das almas,

mas então por que o mataram

com espingarda?

— Queria mais espalhar-se,

irmão das almas,

queria voar mais livre

essa ave-bala.

— E agora o que passará,

irmãos das almas,

o que é que acontecerá

contra a espingarda?

— Mais campo tem para soltar,

irmão das almas,

tem mais onde fazer voar

as filhas-bala.

— E onde o levais a enterrar,

irmãos das almas,

com a semente de chumbo

que tem guardada?

— Ao cemitério de Torres,

irmão das almas,

que hoje se diz Toritama,

de madrugada.

— E poderei ajudar,

irmãos das almas?

vou passar por Toritama,

é minha estrada.

— Bem que poderá ajudar,

irmão das almas,

é irmão das almas quem ouve

nossa chamada.

— E um de nós pode voltar,

irmão das almas,

pode voltar daqui mesmo

para sua casa.

— Vou eu, que a viagem é longa,

irmãos das almas,

é muito longa a viagem

e a serra é alta.

— Mais sorte tem o defunto,

irmãos das almas,

pois já não fará na volta

a caminhada.

— Toritama não cai longe,

irmão das almas,

seremos no campo santo

de madrugada.

— Partamos enquanto é noite,

irmão das almas,

que é o melhor lençol dos mortos

noite fechada.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Até Deus sabe que não existiria vida inteligente - nem poética - se não existisse João Cabral de Melo Neto.


 

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