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O Maníaco do Olho Verde

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O Maníaco do Olho Verde

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Autor: Dalton Trevisan

Editora: Record

Assunto: Contos

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 125

Ano de edição: 2008

Peso: 200 g

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Ótimo
Marcio Mafra
04/10/2008 às 13:10
Brasília - DF

Dalton Trevisan, com mais de 40 livros publicados, é um festejado escritor, tanto pela crítica como pelos leitores. Em Curitiba Trevisan é endeusado. Com toda a razão. Alguns de seus contos foram adaptados para o cinema e o teatro, outros foram traduzidos em diversos idiomas. O Maníaco do Olho Verde é o titulo do último conto e também titulo do livro.

Livros de contos são muito fáceis de ler. O que não significa que sejam bons livros. Trevisan é uma das poucas e raras exceções. Ele é reconhecido como mestre na arte do conto, embora haja quem o diga refém do minimalismo literário. Até certo ponto é mesmo. Porém, neste livro, tem um conto de 7 longas e compridas páginas, o que contraria a crítica. Leitura ótima.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Vinte e seis contos do Dalton Trevisan.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Tudo aconteceu quando me amputaram a perna sete dias depois de casado. No acidente de carro foi toda esmagada abaixo do joelho. Culpa de um maldito bastardo bêbado.
Por que eu? Sempre tão cuidadoso na direção. Entre todos, logo eu? E não um desses loucos do volante, que costuram nas pistas e furam o sinal vermelho? Não era justo, eu me desesperava, estendido na cama de hospital. Seria indenizado e aposentado, certo. Triste consolo para um deficiente o resto da vida.
Deficiente, droga nenhuma. Inválido, sim. Manco, sim. Aleijado, sim. Em plena lua-de-mel. Um desgracido noivo perneta!
Doravante o farrapo de pessoa, ao lado da minha noivinha, essa, radiosa em saúde e graça, que me assistia na aflição e na crise de choro. Os dias contados e numerados. Infecção hospitalar, quem sabe. A medonha septicemia.
No pavor crescente de perdê-la. Presa fácil das tentações do mundo, assédio dos rapagões malhando nas academias. Fatal. Pelo meu único amor esquecido pra sempre.
Despertava aos gritos, o pijama molhado de suor. O sonho recidivo. Eu corria - a perna sã, refeita - e subia veloz em grandes saltos ladeira acima... ao topo do morro... sempre mais alto... Eis que aos poucos, o caminho estreitando, à beira do precipício negro e sem fundo.
Tão veloz, não conseguia desviar nem parar. E caía e caía, me debatendo, aos berros... Para acordar nos braços fresquinhos da garota caridosa a me enxugar o rosto em febre.
Que não me abandonasse tão cedo, agora em casa, exagerei a minha dependência. As muitas dores e gritos. A famosa comichão no pé, o esquerdo, que já não tinha... E, da cama ao sofá, ensaiava os primeiros passos inseguros no par de muletas. Ela me amparando e animando a não desistir.
Ao contato do seu corpo mal coberto pelo vestido, simplesinho de algodão, era arrebatado por uma fúria erótica urgente. Me via de repente outro louco do volante!ante nas lombadas e curvas dum caminho delicioso nunca antes percorrido.
Espichado no leito, com todo o tempo para evocar retalhos de leitura juvenil. Desde o quadrinho clássico de Carlos Zéfiro uai! ao catecismo do apócrifo Rabelais epa! às bacanais orgásticas do marquês de má fama.
As dores de coluna recomendam a posição supina e passiva. Assim reservei a ela, toda pudica, ex -aluna de colégio calvinista, os gestos inaugurais do nosso batismo amoroso.
- Os noivos que se gostam...
A Rosa cabia adivinhar e improvisar. - ...fazem de tudo!
Nuinha sob o roupão entreaberto. A princípio, com alguma relutância. Olhinho fechado, a mão negaceante. Ai, os lábios duas asas trêmulas de borbom. adejando em volta do dardo erétil que se projeta altaneiro em busca do alvo.
Sou dos que gostam de trautear essa e aquela ária dramática da ópera. No início, rostinho em brasa, a timidez não lhe consentia o mais fraco dó-de-peito. Muito menos uma simples réplica no dueto.
Daí a minha suprema excitação quando, enlevada nos espasmos da volúpia, escutei da primeira vez os seus gemidos e suspiros entrecortados de ai Jesus, ui, meu Deus, ai, ui, Mãezinha do Céu...
A cada dia mais participativa. Abriu os dois olhos e direto as coxas - fosforescentes no escuro e cegantes no claro. E o mais que pedi.
E tudo o que não pedi.
Ganhou confiança, já envolvida em nossos jogos eróticos. O coto de perna, se dificultava, não me impedia. Era o próprio motociclista audaz do Globo da Morte. Sem as mãos no guidão, os braços abertos e agradecendo os aplausos.
Da ingênua menina fiz aos poucos a cúmplice voluntária. E depois minha odalisca do prazer. Ah, que bem-dotada se revelou para os folguedos delirantes da cama. Idéia de quem rasgar a calcinha com os dentes?
Entregava-se agora sem reserva nem pudor. Uma zona erógena só o corpinho inteiro. Sob a enteada dileta de Calvino se espreguiçava a mais safadinha das filhas de Salomé. Abre-te, ó Sésamo! - e a concha rósea bivalve se abriu na apoteose de múltiplos orgasmos. Era muito minha. Ninguém mais podia roubá-la.
Esse o meu erro fatal. A ameaça veio de onde menos esperava. Minha sogra perdeu o marido. Em trinta anos um se dedicou a infernizar e crucificar o outro. E, morto, não é que se transmudava no esposo perfeito? Inconsolável, a bruxa voltou-se para a filha única. E passou a disputá-la. Malcasada, segundo ela, com um inválido sem futuro.
Pelas costas, me tratava somente de apelidos insultuosos - o manquinho, o coxo, o patético noivo perneta. Explorava as muitas deficiências. Ainda me locomovia aos trancos. Quando a minha filha nasceu não pude estar presente feito uma pessoa de duas pernas.
Na convalescença, Rosa descansou algum tempo na casa da mãe. O seu quarto igualzinho à época de solteira. Daí a megera usou contra mim intriga e perfídia. Todas as armas do mais infame ódio de sogra.
Não admitiu voltasse para nossa casa. A criança doentinha carecia de mil cuidados. Só não pôde impedir que Rosa me visitasse, em longas tardes de delícias e orgasmos em série. O anjo Gabriel ali não era chamado.
Uma curra ensaiada em que eu era dois e três - e a vítima agradecia e pedia mais, ainda mais, uma vez mais.
Tive de me conformar. Os dias, da mãe e do nenê. Minhas, sim, as noites inteiras. E autorizadas todas as licenças. Sob o dossel nupcial, de mútuo acordo, nada é proibido.
Mas não para a minha feroz inimiga. Teria eu corrompido a filha inocente, educada em severos preceitos religiosos. Ora, simplesmente a conduzi pela mão, um tantinho deslumbrada, ao nosso jardim das papoulas gordas e bêbadas da luxúria. Desde quando uma esposa nada merece? Todos os êxtases e desmaios e contorções experimentais são exclusividade da concubina?
Maníaco sexual, eu. Induzido pela deformidade à loucura e ao vício. Pervertendo e escravizando a moça aos meus caprichos doentios. Os nossos lícitos prazeres maritais eram, antes, pecaminosos e interditos pelas regras da moral.
Eu, o monstro, lhe desvirtuara a filha. Apartei do bom caminho a virgem singela entregue à minha guarda. O poço fumegante das sarças do inferno já me esperava de goela escancarada. E à moça também, se pronto não me abandonasse.
Era esposa e aleluia! aleluia! a mais fogosa das amantes. Certo, ensinei a escandir palavras porcas no ápice do gozo. Contribuição dela, porém, os santos nomes de Deus, Jesus Cristinho e Virgem Maria. O que a mim, confesso - não de todo incrédulo - um pouquinho escandalizava.
O seu corpo uma ilha descoberta pelo sedento náufrago. Sem marca na areia de pé estranho - rósea e perfumada. Golfo e promontório. Baía e península. Caverna dos nove tesouros do Pirata da Perna de Pau. Na límpida fonte nadam hipocampo e lambari de rabo dourado. Búzio com cantiquinho de corruíra madrugadora. Passagem secreta para gruta encantada. Dunas cilipígias movediças. Ninho escondido de penas de beija-fiores. Em vôo rasante garça-azul de bico sanguíneo.
Às vezes ela trazia a nossa filha. Sem jeito a segurava nos braços, receoso de que viéssemos os dois a cair. Não conseguia suspendê-la do berço. Nem dar banho, a sapequinha espirrava água com os bracinhos gorduchos.
Dia seguinte Rosa era devolvida ao regaço materno com fundas olheiras escandalosas, mal disfarçadas pelo óculo escuro.
Dada a minha ausência, cresceu a influência da bruxa. A mocinha, cada vez mais dócil e obediente, foi a ela e aos preceitos da Igreja se resignando.
Com a sogra ainda podia lidar. Decerto esperançoso de vencer. Eis que uma força maior se levantava.
Deus, Esse, um adversário demais poderoso. Em face do Senhor dos Exércitos, quão pouco valia eu, euzinho, o mais manquitolante dos pernetas?
A batalha já decidida. Antes mesmo de travá-la. Contra o pênis ereto, ai de mim, se erguia a espada de fogo do arcanjo vingador.
Hoje aqui estou, sozinho e solitário. Aos pequenos pulos numa só perna. Sonhando em vão com o meu paraíso achado e perdido.


Nenhuma informação foi cadastrada até o momento.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Li alguma coisa sobre o lançamento do Maníaco do Olho Grande, e anotei mais um Trevisan para comprar.


 

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