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Cazuza - Só As Mães São Felizes

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Cazuza  - Só As Mães São Felizes

Livro Péssimo - 2 opiniões

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Autor: Lucinha Araujo

Editora: Globo

Assunto: Jornalismo

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 379

Ano de edição: 2016

Peso: 530 g

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Péssimo
Jurandir Fermon
27/12/2017 às 10:04
Guará II - DF
Péssimo

Bom
Marcio Mafra
02/12/2017 às 17:36
Brasília - DF
Livro estranho, ou bastante diferente.
Diferente porque não é uma biografia do Cazuza, nem da mãe dele.
A autora é a mãe do Cazuza, dona Lucinha Araújo.
Ela não escreveu uma só página, nem uma linha do livro.
Ela contou a vida dela e a vida do Cazuza para uma jornalista de nome Regina Echeverria. E Regina escreveu todas as 379 páginas do livro.
Assim é melhor: cada um faz o que sabe.
Logo no prefácio do livro, uma frase me impressionou: “Queremos que nossos filhos vivam debaixo de nossas asas, que pensem como nós,
se comportem como nós e, ao crescer, fiquem ricos, famosos e felizes para sempre.”
Com pequenas variações é quase isso mesmo o que pensam os pais sobre os seus filho.s
Prepare-se para uma leitura densa.
É história de mãe.
O livro bom.

Marcio Mafra
02/12/2017 às 00:00
Brasília - DF

Cazuza - Só as Mães São Felizes é um livro sobre os acontecimentos e emoções que a autora narrou para a jornalista Regina Echeverria.

O livro revela por inteiro a figura de Cazuza. Desde sua infância de garoto mimado na zona sul do Rio, passando por aventuras pesadas na adolescência, a carreira de sucesso até o pesadelo final.

São relatos intensos, histórias íntimas e tocantes que marcam a trajetória do jovem gênio rebelde que deixou sua marca na música brasileira.

 
Marcio Mafra
02/12/2017 às 00:00
Brasília - DF

Dois dias depois, sem nenhuma notícia, entrei em pânico. Telefonei para Ricardo Quintana, seu amigo do Santo Inácio, e pedi que descobrisse o paradeiro de meu filho. Ricardo contou que Cazuza estava vivendo na casa de um amigo em comum, um pintor que morava em Copacabana.

Uma semana depois da briga, Cazuza telefonou e apareceu em casa para pegar roupas, mas nada do que eu lhe disse foi capaz de aplacar a revolta e modificar sua decisão.
- Não adianta tentar me convencer. Eu não volto pra casa!

Com o coração partido, dei mais dinheiro a ele, antes que saísse. O impasse só se resolveria com a intervenção de nosso cunhado José Müller,
já falecido, casado com Theresa, irmã de João. Padrinho de meu filho, ele o procurou para uma conversa. Jamais soubemos como e com que argumentos José Müller convenceu Cazuza a voltar para casa, mas o fato é que meu filho concordou e fez a vontade desse tio tão querido, uma das pessoas mais sensatas que conheci e um dos poucos que compreenderam e respeitaram a
personalidade de Cazuza na família.

Essa volta ao lar tinha, segundo ele, uma condição temporária, pois, nesse tempo, ele já pensava em arranjar emprego e ganhar a independência tão desejada. Sete anos depois da morte de Cazuza, João relembrou esses tempos de grande conflito entre os dois:

"Minha geração sempre foi etílica, no máximo experimentávamos lança-perfume no Carnaval, e, portanto, era difícil para mim compreender como meu filho agia sob a ação das drogas. Eu não sabia, mas nessa época ele já deveria estar cheirando cocaína também. Talvez minha atitude de repressão tenha sido um erro. Eu forcei o enfrentamento, disse que ele tinha que acabar com aquilo e pronto. Talvez devesse ter encaminhado Cazuza para um tratamento, ter dialogado mais com ele sobre o assunto. Tentei lhe explicar várias vezes que seu comportamento transgressor não era novidade para mim.

Como homem do disco, convivi com muitas personalidades transgressoras e complicadas. Tentei lhe explicar que poderíamos conviver com aquilo. Mas, ao mesmo tempo, tinha o dever de pai de alertar sobre o perigo que ele corria.
O problema foi que, até chegar a essa fase, demorou muito."

Aparentemente, Cazuza não se abalou com o trauma da briga com o pai e a saída de casa. Viajou à Bahia apesar disso. Em 1976, ano em que cheguei aos quarenta e Cazuza aos dezoito, compramos nosso primeiro apartamento próprio, uma cobertura na ladeira Tabatinguera, na Lagoa. Ali vivemos durante seis anos; na verdade, a fase mais conturbada da juventude de meu filho e onde descobri mais uma faceta desconhecida de Cazuza. Daquela vez, mais do que o choque em saber que usava drogas, fui obrigada a me revirar inteira para tentar entendê-lo e aceitá-Ia. Convivi com um punhal fincado no peito, e nada, nem ninguém, conseguia arrancá-lo para aliviar a tensão. Havia algum tempo vinha notando um comportamento mais estranho ainda em Cazuza.

Andava com uns amigos bastante esquisitos. E eu, cada vez mais desconfiada.

O hábito invasivo de remexer em suas coisas me levou então a encontrar uma carta de meu filho escrita para um amigo. Uma carta excessivamente carinhosa. Todas as vezes que comentei o assunto com João, a resposta era a mesma:

- Você está louca! Só pensa besteira!

O pensamento me dominava dia e noite, e o pavor rondava meus minutos. Coração de mãe pressente, sempre sabe a verdade, mesmo que batesse esperançoso como o meu, rezando para que tudo não passasse de um mal-entendido, um temor sem fundamento. Já havia sido difícil de engolir a questão das drogas. Na verdade, jamais engoli. Talvez eu seja uma das pessoas mais caretas que eu mesma conheça, embora tenha convivido com pessoas inacreditáveis e maravilhosas que nunca esconderam sua opção sexual e o uso de drogas. Então, quando li a tal da carta amorosa de meu filho endereçada a um homem, não me contive. Eu o enfrentei com a pergunta curta e grossa, sem rodeios, diretamente ao assunto:

- Meu filho, você é homossexual?
A resposta veio clara e equilibrada, mas não tranquilizadora:

- Olha, mamãe, eu não sou nem uma coisa nem outra, porque nada é definitivo na vida. Você pode dizer que eu sou bissexual, porque não fiz minha escolha ainda. Um dia posso gostar de um homem como, no outro, gostar de uma mulher. Então, não fique preocupada com isso.

Como se isso fosse possível!!! Minha resposta denunciou a preocupação de mãe e o preconceito enraizado em mim naquela época:

- Meu filho, vou te dizer uma coisa, eu não tenho nada a ver com sua vida particular. A vida é sua, e não tenho nada a ver com isso. Agora, eu quero te proteger, porque sei que toda pessoa que opta por uma minoria sofre. E eu não gostaria que você sofresse. Eu sei que você vai sofrer!

Nunca troquei experiências e informações com outras mães na mesma situação e, portanto, não sei como a maioria delas reage a essa constatação, mas o fato é que, no meu caso, a revelação foi devastadora. Pensava no porquê, na razão daquilo tudo, como se tudo o que acontece neste mundo tivesse uma razão óbvia e absoluta. Não podia ver os acontecimentos com a clareza de hoje, tão absurdamente envolvida nas artimanhas de meu filho. Eu temia pela reação de João, mas, como Cazuza nunca comentou comigo seus romances - tinha realmente um certo pudor com seus assuntos -, eu imaginava que ele se abrisse mais com o pai. Mas não era o que acontecia, como contou João:

"Meu filho não se abria comigo nos assuntos de sexo, era bastante reservado. Fiquei absolutamente surpreso com a revelação, mas não revoltado nem desiludido. Sempre acreditei que a opção sexual de cada um não diz respeito a ninguém. Então, em nenhum momento deixei de ter carinho e respeito - principalmente respeito - por ele. Não tive sentimentos de revolta, tristeza ou perplexidade. O que me incomodou foi a surpresa, da mesma forma como me surpreendi com a questão das drogas. Você nunca imagina que um filho seu esteja tomando LSD. Em geral, o pai tem aquela postura de machão, mas eu sinceramente não me incomodei. Para a Lucinha foi mais difícil, ela era bem mais severa nesse assunto. Eu e meu filho nos entendíamos quase por gestos, havia certos códigos. os respeitávamos. Uma vez, ele quis tirar a prova:

- Papai, você cheira cocaína, não é?
- Eu já cheirei uma ou duas vezes e também fumei maconha, para experimentar. Não são as minhas drogas. Sou da geração do álcool.
-:- Com certeza você deve cheirar cocaína, porque todo executivo faz isso.
- Mas de onde você tirou essa bobagem, Cazuza?
- Estou certo de que todo executivo tem que cheirar cocaína, senão ele não consegue viver, não sobrevive, não vence.
- Meu filho, meu negócio é uísque e cigarro, outras drogas."

Embora Cazuza não comentasse suas relações amorosas em casa, guardamos registro de alguns de seus romances. Acabei descobrindo por vias tortas a primeira paixão de meu filho por uma garota do bairro.

Ele tinha dezessete anos, e ela também. Certo dia, ele pediu dinheiro para pagar um raio X que o médico havia indicado e, tempos depois, recebo um telefonema do consultório cobrando o mesmo raio X.

Nunca gostei de mentiras e apertei Cazuza contra a parede até ele confessar: o dinheiro foi usado para um aborto na namorada.

No momento fiquei bastante aliviada, pois os dois eram muito jovens.

Mas, muitos anos depois, quando reencontrei essa moça já adulta, casada e com dois filhos, lamentei amargamente que essa criança não tivesse nascido.

Na verdade, assim como seu pai, Cazuza adorava uísque.

Testemunhei porres homéricos de meu filho, inclusive com João.

Quando bebia com o pai, ele ficava bastante carinhoso, abraçando e beijando João, como uma criança.

Mas a mistura de drogas e álcool era fatal para Cazuza. Nesses momentos, ele se transformava na encarnação perfeita do exagerado.

Escândalos nos bares, dirigir bêbado e ser barrado pela polícia.

Percorremos, João e eu, muitas delegacias do Rio de Janeiro para livrar nosso filho da cadeia, na base da propina bem-intencionada, embora corrupta, dos pais.

Ora ele era pego com maconha no carro, ora com comprimidos de Mandrix. João ficava furioso, e quando o carro era meu tinha que resolver sozinha a questão.

Havia um agravante nessas prisões todas, que era o fato de ele não ter carteira de motorista. Para tirar seus documentos, montei uma verdadeira estratégia. Eu saía cedo e ficava na fila até que restassem três pessoas na minha frente. Então, ligava para Cazuza e dizia: "Pode vir!".

No dia em que marcamos o exame de motorista, ele chegou em casa com o sol nascendo, embriagado. Foi direto para um chuveiro gelado, e saímos para o teste.

O episódio mais marcante dessa fase aconteceu uma noite em que João e eu estávamos saindo para uma festa, na companhia de amigos. Às onze horas tocou o telefone. Era Cazuza, de uma delegacia.

Havia batido o carro e pedia socorro.

Saímos de casa vestidos para a festa, a bordo do Mercedes de João.

Quando entramos na delegacia, Cazuza estava sentado num canto, pois já haviam dividido os garotos em duas filas, imagino que pela aparência - a dos ricos e a dos pobres.

João negociou com os policiais e, na hora em que chamamos Cazuza para ir embora, ele disse:

  • Só saio daqui se todos sairem tambem.


  • Roda Viva Entrevista Lucinha Araujo, mãe de Cazuza

    Autor: Programa de TV Cultura

    Veículo:

    Fonte: Memória Roda Viva

    Maria Lúcia Araújo 18/8/1997 A presidente da Sociedade Viva Cazuza relata curiosidades da vida do cantor e compositor e enfatiza a necessidade de campanhas mais eficientes no combate à aids Baixe o player Flash para assistir esse vídeo. [programa ao vivo, permitindo a participação dos telespectadores] Matinas Suzuki: Boa noite. O Roda Viva recebe, esta noite, Lucinha Araújo, mãe de Cazuza, e presidente da Sociedade Viva Cazuza [organização não-governamental criada pelos pais do cantor após sua morte, em 1990, cujo objetivo é dar assistência a crianças carentes portadoras do vírus da aids, assistência social a pacientes adultos e difundir informações científicas sobre a doença]. [Comentarista]: Maria Lúcia da Silva Araújo é carioca e tem 61 anos de idade. Casada há quarenta anos com João Araújo, dirigente poderoso da indústria brasileira do disco [é fundador e presidente da gravadora Som Livre, que pertence às Organizações Globo], Lucinha conhece de perto o mundo musical e até experimentou uma breve carreira de cantora, mas de repente teve a vida revirada pelo avesso. Mãe de Cazuza, Lucinha acompanhou toda a agonia do irreverente poeta e cantor do rock brasileiro que morreu há sete anos, vítima da aids. Ela hoje encabeça uma campanha contra o preconceito e a desinformação em torno da doença. Lucinha criou e preside a Sociedade Viva Cazuza, entidade que cuida de crianças portadoras do vírus HIV. A iniciativa veio de um desejo do próprio Cazuza, que conviveu de forma corajosa com a doença e ajudou a ampliar o debate sobre a aids. A vida do ídolo dos jovens brasileiros dos anos 80 agora ressurge através da memória amorosa dessa mulher renascida. No livro Cazuza: só as mães são felizes [Editora Globo, 1997], Lucinha relata os acontecimentos e emoções vividas à jornalista Regina Echeverria e revela por inteiro a figura de Cazuza, da infância de garoto mimado na zona sul do Rio, passando por aventuras pesadas na adolescência, a carreira de sucesso até o pesadelo final. São relatos intensos, histórias íntimas e tocantes que marcam a trajetória do jovem gênio rebelde que deixou sua marca na música brasileira. [Em 2004 foi lançado um filme com a vida do cantor e compositor, Cazuza – o tempo não pára, com direção de Walter Carvalho e Sandra Werneck] Matinas Suzuki: Para entrevistar a Lucinha Araújo, esta noite, nós estamos aqui com muita gente boa: Pedro Bial, editor-chefe do Fantástico [programa de variedades dominical da TV Globo], repórter da TV Globo e apresentador do Espaço Aberto, da Globo News, que é um programa dedicado à literatura. Também estão no estúdio: Maria Amélia Rocha Lopes, editora-chefe do programa Vitrine, da TV Cultura; Marcos Augusto Gonçalves, editor da Folha de S.Paulo; Cadão Volpato, redator da revista Capricho; Márcia Peltier, âncora do Jornal da Manchete e do programa Márcia Peltier Pesquisa [programas exibidos pela extinta Rede Manchete] e Cynthia de Almeida, editora-executiva da revista Caras. O Roda Viva é transmitido em rede nacional para todos os estados brasileiros. Você pode participar desse programa enviando as perguntas pelo telefone (11)252-6525. Se preferir enviar as suas perguntas por escrito, você pode usar o fax (11)874-3454 ou o nosso endereço na internet, que é rodaviva@tvcultura.com.br. Boa noite, Lucinha. Maria Lúcia Araújo: Boa noite. Matinas Suzuki: Muito obrigado por sua presença no nosso programa. Maria Lúcia Araújo: Obrigada pelo seu convite e a todas as pessoas que também vieram aqui. Matinas Suzuki: Lucinha, como nós vimos aí na apresentação, está sendo lançado o livro Cazuza, só as mães são felizes, que é um depoimento seu à jornalista Regina Echeverria, nossa colega de profissão. Lucinha, porque você resolveu lançar o livro depois de sete anos da morte de Cazuza? Maria Lúcia Araújo: Olha, essa idéia realmente nasceu no dia em que o Cazuza morreu. Nesse dia, eu decidi que eu tinha que passar a limpo a minha vida com ele, porque era uma vida muito rica em sentimento. E eu achei que as pessoas que gostavam dele iam querer saber um pouquinho mais da sua vida. Toda vida tem dois lados e a vida dele, pública, era conhecida de todo mundo. Mas, sobre a vida particular, muito pouca gente que conviveu com ele sabia. Estava na hora de exorcizar meus demônios. Faz sete anos que eu penso nisso e consegui colocar no papel. Eu escolhi a Regina por vários motivos: porque ela também é mãe de filho único e porque ela perdeu o marido de aids há três anos. Mas a razão fundamental é que ela é uma grande jornalista e entendeu minha alma. Eu não tirei uma vírgula do que ela escreveu. Cadão Volpato: Em certa passagem, o Cazuza diz que você, por ser obsessiva, não poderia experimentar drogas, porque ia acabar gostando. Maria Lúcia Araújo: Pois é. Cadão Volpato: Eu queria saber se você experimentou, se você teve vontade de experimentar. Maria Lúcia Araújo: Não, eu sou obsessiva, então nunca experimentei. Cadão Volpato: A sua obsessão te impediu? Maria Lúcia Araújo: Não, estou brincando. Minha geração nunca usou drogas e eu custei muito a tomar meu primeiro copo de vinho. Eu já tinha quarenta anos...Tenho um bloqueio quando vejo drogas. Depois que ele me disse isso então, o bloqueio ficou maior. [risos] Maria Amélia Rocha Lopes: Lucinha, eu queria saber o que há de diferente nesse livro que você fez com a Regina em relação àquele da Aretuza Garibaldi que acabou não saindo [logo após a morte do cantor, a funcionária da Som Livre Aretuza Garibaldi iniciou um projeto de livro com Lucinha, cujo nome era Cazuza - todo amor que houve nesta vida]. A gente vê algumas matérias até dizendo que já havia data de lançamento e depois tudo parou, acabou. Eu queria saber se você aproveitou um pouco daquilo ou se você enterrou o projeto e recomeçou tudo com a Regina. Maria Lúcia Araújo: Eu enterrei e recomecei. Agora, a história não podia mudar, é a história da minha vida. Então, o básico ficou a mesma coisa. Agora, o livro é completamente diferente, inclusive pela ótica da Regina, pelo modo de escrever, que é diferente também. Eu achei que ficou um outro livro, ficou mais rico, com mais depoimentos. Maria Amélia Rocha Lopes: Você, lançando esse livro agora, se expõe de uma tal maneira e no fim, faz uma espécie de auto-crítica dizendo: "Será que eu me mostrei uma megera nessa ânsia de mostrar inteiramente o meu filho?". Eu confesso que tomei um susto quando você diz que batia nele quando era pequeno, nessa sua obsessão por perfeição e tudo isso. Eu fiquei achando que você era um pouco megera. Maria Lúcia Araújo: Eu era mesmo, você não achou errado, não. Mas eu era bem intencionada. Eu não batia nele para castigá-lo fisicamente. O Pedro Bial, que conviveu com ele desde criança, sabe que eu era muito exigente, porque eu queria o melhor para ele, mas nem sempre o melhor para os filhos é o que a mãe quer, não é? Então, muitas vezes eu errei, por isso que esse livro é uma mea culpa mesmo. Pedro Bial: E naquela geração, o Cazuza não foi a única criança a apanhar, não é? Maria Lúcia Araújo: Você também? [risos] Maria Lúcia Araújo: Não, coitadinho. Ele até dizia:"Minha mãe, quando me bate, cresce rabo e sai fogo do nariz dela". Eu fazia uma cara de fera para ele. Pedro Bial: Eu vinha pensando numa pergunta e a gente se encontrou antes de vir para o estúdio e todas as perguntas começavam por "se": "Se não tivesse ido para o [colégio] Santo Inácio, se tivesse ido para outro colégio". Depois de todos esses "se", terminando esse livro, você chegou a alguma conclusão do tipo fatalista de que tudo foi o que tinha que ser? Maria Lúcia Araújo: Olha, o Cazuza dizia que preferia viver dez anos "a mil" do que mil anos "a dez". Eu achei que ele pagou um preço muito caro, mas se é o que ele queria... Não era o que eu queria, nem o que eu esperava para ele, mas se foi o que ele quis, de onde ele estiver, deve estar batendo palmas para esse livro, porque eu não tenho culpas por ter feito coisas, entendeu? Eu acho que eu fui bem intencionada, porque eu queria fazer dele a minha imagem e semelhança, toda mãe quer isso, é muito mais cômodo. É muito mais fácil eu ter um filho de terno e gravata, sentado atrás do escritório, seguindo os passos do pai dele na indústria fonográfica do que ter um filho rebelde, problemático como ele foi, durante uma certa época. Márcia Peltier: Lucinha, falando sobre essa questão de buscar a perfeição nos filhos, chegou um momento em que você olhou para o Cazuza e viu que ele era diferente. Quando você percebeu que essa diferença do Cazuza permitia que ele fosse esse rebelde com uma causa que era a música dele, a poesia dele? Maria Lúcia Araújo: Olha, graças a Deus eu tive acuidade suficiente de perceber isso a tempo e os últimos 13, 14 anos da vida dele foram de lua-de-mel para nós dois, né? Então, teve uma época que ele me levou tanto a loucura que eu pensei "vou dar uma parada, ou eu entro na dele ou eu vou perder o meu filho". E ainda bem que eu entrei na dele. Olha, eu vou dizer uma coisa a vocês, com toda a humildade: eu aprendi muito mais com ele do que ele comigo. Eu descobri que eu tinha muito pouco a ensinar a ele, a não ser regras de boas maneiras, de como se sentar, de como comer à mesa, mas isso era muito pouco para uma pessoa tão grande como ele. Márcia Peltier: Mas em algum momento você sentiu: "Agora eu entrei no mundo do Cazuza e senti o mundo dele". Ele lhe deu a chance de penetrar nessa barreira? Maria Lúcia Araújo: Não, eu encostei na parede mesmo, porque comigo é tudo curto e grosso, eu sou assim. Eu falei: "olha, meu filho, qual é a tua?". E quando ele me disse qual era a dele, eu disse: "acho que essa opção que você fez de vida é uma coisa muito sofrida, de minoria. Eu queria poupar você, sempre fui contra esse tipo de desregramento, mas se você acha que é isso que você quer, eu estou com você e não abro". E "ai" de alguém que abrisse a boca para fazer alguma crítica a ele. Só aceitava que o pai fizesse e, assim mesmo, com restrições. Márcia Peltier: E quanto à relação dele com o pai, você se sentia como mediadora nessa relação ou eles conseguiam travar essa relação sozinha? Maria Lúcia Araújo: Nossa relação, minha e dele, era muito bagunçada, era como se fosse uma irmã mais velha. Ele me mandava para aquele lugar, eu também mandava ele, uma coisa horrorosa, mas com o João era uma coisa de pai e filho mesmo, de respeito. Se ele mandasse o João tomar em algum lugar, o João enfiava a mão nele. E comigo não, eu ameaçava, ameaçava, a última coisa que eu dizia era: "seu pai saberá disto!". E o que o João ia fazer? Nada, mas também se fizesse, eu não deixava. Só eu podia falar mal dele. E eu falava, falava mal dele, e o João dizia: "Eu vou tomar uma atitude, vou fazer isso, fazer aquilo". E eu dizia: "não, mas também não é assim como você quer fazer, também ele não fez tanta coisa". Eu queria ser só a dona dele... Marcos Augusto Gonçalves: Lucinha, você, que tinha uma formação conservadora, quando travou contato com esse universo do Cazuza, que é anárquico, isso deve ter provocado algum tipo de reação muito forte e, na medida em que você foi convivendo com esse mundo dele, isso foi te modificando também. De alguma maneira, você reviu a sua própria juventude quando conheceu mais de perto o tipo de vida que o Cazuza tinha. Você se sentiu muito careta quando era jovem? Maria Lúcia Araújo: Nossa, põe caretice nisso! Fui criada como a minha mãe e aceitei tudo isso, não é? Só que da minha geração para a do meu filho foi um abismo, são só vinte anos, mas foi um abismo mesmo. O cantor Caetano [Veloso] sempre dizia assim: "Lucinha, você que é a verdadeira exagerada, o Cazuza é que copiava você", quando eu tinha meus rompantes de loucura, porque eu sou mais ou menos passional. E eu acho que foi isso mesmo, só que eu vivi em uma outra época, eu não tive tempo de soltar o meu exagero. Eu tive a sorte de casar com o meu primeiro namorado, e estou casada com ele até hoje. Então, que experiência de vida eu tinha para passar para o meu filho? Nenhuma, a não ser a do meu sentimento de mãe. Por isso, não tenho o menor "grilo" com isso. Cynthia de Almeida: No seu livro, você conta coisas super interessantes: você nunca baixou a guarda, sempre ficou muito próxima do Cazuza, inclusive quando ele já era um artista bem sucedido, você tomava conta, por exemplo, dos talões de cheque dele. E eu acredito que ele até gostasse dessa super proteção, como ele até chegou a confessar, mas ele te provocava também, escrevendo nos canhotos apenas o que ele sabia que ia te chocar mais: "pó, maconha". Na verdade, você diz que já estavam em um período de entendimento, mas era uma constante provocação. Como você se sentia? Maria Lúcia Araújo: Mas isso era do temperamento dele, eu até achava engraçado. Eu dizia para ele: "Puxa! Na outra vez que você escrever esse tipo de coisa no canhoto, eu vou rasgar e gastar o teu dinheiro todo". Cynthia de Almeida: [interrompendo] Mas isso não fazia você pensar que estava agindo de uma forma super protetora? Maria Lúcia Araújo: Mas eu sempre fui super protetora, até o fim. Cynthia de Almeida: Assumida. Maria Lúcia Araújo: Eu dizia: "espera o dia que eu morrer, aí eu vou parar de pegar no teu pé. Enquanto eu viver, eu vou pegar no teu pé. Pronto, não adianta". E ele adorava isso no fundo, sabe? Eu tinha mania de levar uma [imagem] de Santa Rita, quando ele estava doente. Quando fomos para Boston, eu botava aquela Santa Rita no meio da mala e punha na mesa de cabeceira. E ele dizia: "Mamãe, tira essa Santa daí, que isso parece macumba!". Aí, uma das vezes que a gente foi, eu esqueci a Santa no Rio e ele falou: "Mamãe, cadê aquela Santa Rita?". Pois ele me fez mandar buscá-la no Brasil. Então, no fundo, ele gostava. Matinas Suzuki: A propósito desse assunto, Jaime de Souza Matos, que é de São Paulo, pergunta qual foi a relação de Cazuza com Deus. Maria Lúcia Araújo: Olha, ele acreditava em Deus, mas ele tinha um Deus particular dele, não era o Deus que ele aprendeu no Santo Inácio, evidentemente. Era um Deus todo especial criado por ele, não é? Por conveniência também, eu imagino. Mas ele fez muitas músicas falando de Deus. [A letra] “Quando eu estiver cantando” é uma coisa linda. É muito bonita, inclusive em uma das missas que eu mandei celebrar para ele, o padre leu essa letra e ficou super emocionado. Pedro Bial: Você disse que o protegeu até o fim, mas você conseguiu protegê-lo do preconceito? Ele sofreu preconceito pela doença? Maria Lúcia Araújo: Olha, muito menos do que se eu não o tivesse protegido. De qualquer maneira, quando ele quis declarar publicamente que estava doente, nós fomos contra e ele disse a frase decisiva: “Mamãe, quem fala "Brasil, mostra a sua cara" [refere-se ao primeiro verso da canção "Brasil", um das mais famosas de sua autoria] não pode esconder a sua em um momento como esse. Ninguém mais vai acreditar em nada que eu digo". Pedro Bial: Por que você era contra? Maria Lúcia Araújo: Eu achava que as pessoas iam deixar de gostar dele, iam ter preconceito mesmo, iam se afastar dele. Eu não queria, já estava doente, no auge da carreira dele, a gente fez isso por proteção. E quando ele nos disse isso, derrubou qualquer argumento. Ele chamou a Folha de S.Paulo e falou lá em Nova Iorque. Depois disso, ele foi muito mais amado, ele disse que ficava incomodado de tão amado que ele era. A gente ficou muito mais tranqüilo, ele também e eu achei que ele fez a coisa certa, ele teve serenidade para fazer isso. Pedro Bial: Você acha que essa decisão deveria ser comum de todos os portadores do vírus? Maria Lúcia Araújo: Não, eu acho que depende, porque ainda existe muito preconceito, infelizmente. É porque ele era uma pessoa famosa, era diferente. Márcia Peltier: E quando você soube que ele estava doente, Lucinha? Maria Lúcia Araújo: Eu soube antes dele, uns dois dias. Ele tinha me ligado dizendo que tinha ido ao médico porque estava com umas febres esquisitas e que o médico tinha pedido uns exames e só dali a trinta dias ficariam prontos. Eu falei: "O que ele disse para você?". E ele: " Ah, ele falou para eu maneirar". Eu sabia que "maneirar" era uma palavra que não existia para ele, não é? E então, dali a um mês, o médico nos ligou dizendo que queria falar com a gente no consultório. E eu fui com o João, mas eu já fui mais ou menos sabendo que ia ser uma coisa dessas, porque como é que o médico ia chamar a gente para falar? Era um médico de família. E aí ele nos chamou e disse: "Olha, o seu filho foi tocado pela aids". Saímos dali desesperados e eu disse: "você vai ter que falar isso com o Cazuza, porque ele nunca mais vai ter confiança em você. Ele é um homem de 27, 28 anos. Como um médico vai chamar os pais antes?". Então nós resolvemos ficar em casa sábado e domingo, porque segunda-feira ele ia se consultar. Contamos só para o Ezequiel Neves [produtor musical brasileiro, trabalhou na Som Livre e acompanhou toda a carreira musical de Cazuza e do grupo Barão Vermelho, do qual o cantor fez parte] e o Zeca ficou com esse segredo, ele ia lá em casa no fim de semana, foi lá almoçar, foi uma coisa horrível. E na segunda-feira, ele foi ao médico e o Zeca ficou na porta esperando ele sair para ver a reação. Aí quando ele saiu, falou: "Zeca, eu estou doente, vamos passear na praia". E eles foram para a praia do Leblon, a Ipanema. O Zeca falou: "Cazuza, esse exame pode ter dado errado, vamos repetir esse exame". Ele disse: "Não, não. Há muito tempo que eu estou achando que eu estou com essa doença". E ele estava mixando um disco, e o Zeca: "Vamos para o estúdio acabar de mixar teu disco". Ele falou: "Não, eu vou para casa dos meus pais, que foi onde tudo começou". Eu achei que foi a maior prova de amor que ele nos deu, de confiança, não é? E aí foi aquilo que todo mundo já sabe. Maria Lúcia Araújo: Lucinha. Você estava falando do Ezequiel Neves. Ele foi uma presença muito importante na vida do Cazuza, no surgimento do Barão Vermelho [uma das bandas brasileiras de rock mais influentes da década de 80], e tudo isso. Ainda assim, você teve uma briga feia com o Ezequiel. Maria Lúcia Araújo: Foi. Maria Amélia Rocha Lopes: Eu queria que você contasse o que aconteceu. Maria Lúcia Araújo: Quando a gente estava em Los Angeles, ele mandou um bilhete devolvendo um livro que ele tinha roubado lá de casa - o que é a cara dele, em vez de pedir, ele leva e depois devolve. Então mandou o bilhete: "O livro que você emprestou é uma porcaria". Eu não emprestei, ele roubou. E no final, ele dizia assim: "Estou com muita saudade de você, minha irmãzinha, estou doido para apanhar de novo". Mas foi uma coisa para lá de cômica. Maria Amélia Rocha Lopes: Por que você bateu no Ezequiel? Maria Lúcia Araújo: Eu conto isso no livro também...Você não leu o livro todo? Maria Amélia Rocha Lopes: Eu li, mas quero que você conte a história aqui! Maria Lúcia Araújo: Foi na época em que o Cazuza estava doente, em 1987, se não me engano. Ele estava internado na Clínica São Vicente. A Som Livre lançou um disco que se chamava Cazuza e Barão Vermelho, melhores momentos. E aí o Ezequiel, louco como sempre, disse que aquilo era necrofilia. E o João também deu uns tapas nele. E aí eu falei: "olha, eu também vou te bater, na primeira oportunidade você vai levar uns meus também". E o Cazuza sempre dizia: "Zeca, apanha logo da mamãe, porque a mamãe é assim, ela disse que vai te dar uns tapas, ela vai dar, então deixa ela te bater porque ela está com ódio de você". E aí o Cazuza fez uma festa de aniversário, aos 31 anos, e o Zeca ficou me provocando a festa inteira. Até que num determinado momento, o Cazuza pediu para eu apanhar uma fita no quarto. Eu fui, o Zeca foi atrás de mim e quis pegar a fita antes de mim. Ele puxou a fita da minha mão, eu enchi ele de paulada, quebrei os óculos dele, foi um vexame total! Cynthia de Almeida: Você está falando de vexame. Tem alguma coisa de que você se envergonha, ou que foi difícil você contar, porque te incomodou revelar? Você faz um depoimento maravilhoso, super comovente, super verdadeiro. Teve alguma coisa que foi difícil? Maria Lúcia Araújo: Olha, eu chorei muito, ri muito, até hoje, quando eu leio eu choro e rio Mas não houve dificuldade, eu estava querendo falar, estava na hora de eu passar isso para o papel. Eu tenho a Sociedade Viva Cazuza, eu falo do Cazuza todo dia, tenho prazer em falar dele porque a gente esquece das coisas ruins e só lembra das coisas boas. Sou uma pessoa muito aberta, minha vida é um livro aberto. Não tenho nada a esconder, não tenho satisfações a dar absolutamente a ninguém, a não ser ao João, que foi o meu parceiro nesse filho lindo. Então, assim que o livro ficou pronto, eu o entreguei na mão do João. Ele leu, não tirou uma vírgula, deu todo o apoio. Matinas Suzuki: [interrompendo] Lucinha, você falou da sua relação com o João. O Afonso, do Butantã, diz o seguinte: “Comprei o seu livro na sexta-feira e o li em uma sentada, em quatro horas. É o melhor livro do ano. Na página 348, falando da sua relação com seu marido João, você diz: temos um ao outro, mas não temos mais sonhos”. O que você quis dizer com isso? Maria Lúcia Araújo: Eu acho que já está implícito, não é? Desde o momento em que você perde o seu filho único, a gente não tem mais sonho, mas ainda bem que a gente tem um ao outro. Eu quis dizer isso porque você fica mutilada para sempre. Quem perdeu um filho vai me entender. Eu vou sonhar o quê? Já estou no declínio da minha vida, então nós temos um ao outro, mas não temos mais sonhos. Agora a gente tem que solidificar a Sociedade Viva Cazuza e cultuar a memória do nosso filho. Foi o que sobrou para a gente. Márcia Peltier: Lucinha, em depoimentos, você diz que se lembra cada vez mais de Cazuza. Você não sente que está dando chance e oportunidade para outras crianças, outras mães...contribuindo com uma coisa maior? Você até disse que preferia que ele tivesse sido um anônimo desconhecido, mas ainda estivesse aqui. Tudo bem, mas não dá para ter um ideal de vida, quer dizer, essa campanha que você leva tão bem? Maria Lúcia Araújo: Claro, isso aí é o meu alimento. 50% é o meu casamento e os outros 50% são essa obra. Ainda bem que eu fundei a Sociedade Viva Cazuza. Você pensa que em cada sorriso de uma criança eu não encontro o meu filho? Diariamente. Se é que isso é compensação... Matinas Suzuki: Conte um pouco como é a Sociedade, o trabalho você desenvolve, como ele vem sendo feito. Maria Lúcia Araújo: A Sociedade Viva Cazuza vai fazer sete anos agora no dia 17 de outubro. Ela foi fundada em 1990, três meses depois da morte do meu filho. Em princípio, eu trabalhava com adultos com aids em um hospital do Rio, mas aquilo me fazia muito mal, aquilo era um vídeo da minha vida. Eu sofri muito, passei um ano sem conseguir encarar os pacientes. E depois eu vi que eles precisavam de mim. Eles não queriam só o que eu estava dando de material para eles, eles queriam conversar com a mãe do Cazuza, que foi um símbolo de resistência na luta contra essa doença. E realmente me dava prazer quando eu entrava na enfermaria e eu perguntava: 'como é que estão todos?" Eles diziam: "Depois que você entrou aqui, muito melhor". Então eu falei: "Egoísmo, agora eu vou ter que entrar todos os dias". Mas, eles morrem em bando, é muito sofrimento, eu não conseguia segurar. E ali também era universidade, era muito complicado, era reitoria, cacique, muito mais cacique do que índio. Como eu não sou cacique nem índio, falei: "está na hora de eu sair e fundar a Sociedade Viva Cazuza". Uma coisa que me incomodava muito lá: as pessoas tinham alta e não tinham para onde ir, ou então as famílias não queriam levar. Então abri uma casa para essas pessoas, que estão fora de crise, poderem viver. Depois, me resolvi por crianças, foi por ali que eu fiz a minha estrada. E acertei. Foi bom que eu tenha feito com criança, porque criança é diferente, criança é inocente. Eles sabem que têm uma coisa diferente, mas não sabem o que é, então eu posso conviver com eles sem sofrer tanto, porque você quando está sofrendo, você não consegue passar nada de bom, não é? E eu acho que eu estou fazendo um trabalho legal, me satisfaz muito, é lógico que eu não faço isso sozinha, ninguém faz nada sozinho. Eu tenho uma equipe muito boa e agora estou tendo até o reconhecimento do governo, nos dá "grana" também, porque lá é uma despesa, é uma coisa! Se vocês imaginarem que eu gasto dois mil reais por criança, tenho 35 crianças...Então eu não poderia, só com os direitos autorais do Cazuza, sustentar aquela casa, não é? O João me ajuda, mas eu tenho orgulho de ter precisado disso poucas vezes. Marcos Augusto Gonçalves: E como você avalia o papel das instituições e do governo em relação à aids? Você acha que há algum tipo de progresso, de maior interesse em combater a doença, em estimular a pesquisa, etc? Maria Lúcia Araújo: Ah, eu sinto, cada vez mais. E eu acho que essa parceria é fundamental, ninguém faz nada sozinho, nem o governo, a gente não pode acusar de não fazer nada se a gente não ajuda. Então, eu fiquei muito satisfeita com essa parceria com o Ministério da Saúde. É uma luta muito dura, não só psicológica...Se bem que, no último ano, a gente teve esse coquetel, que está tendo um efeito bom, nossas crianças foram as primeiras a tomar no Brasil. Não faço por menos, eu prefiro ter menos crianças com mais qualidade de vida, do que ter muita criança sem ter dinheiro para comprar o coquetel para eles. Márcia Peltier: Falando de religião, você falou que levava Santa Rita acompanhando Cazuza e ele tinha uma relação com Deus muito particular. E você? Como é a sua relação com Deus e como é a aceitação de tudo que você passou? Você se segurou na fé, procurou terapia? Maria Lúcia Araújo: Olha, eu não me segurei nem na fé nem na terapia. Eu me segurei mesmo foi no trabalho! O que você quer mesmo quando acontece isso que aconteceu comigo, é deitar, chorar, chorar, chorar, querer morrer junto com teu filho. Mas como eu ainda tinha o meu marido e não há marido que agüente aquela mulher vestida de preto, chorando dia e noite em casa, é duro. E não era isso que meu filho queria de mim, eu tenho certeza absoluta. E eu falei: "Melhor coisa é o trabalho". Hoje, 50% da minha vida é trabalhar e eu não me arrependo. E eu acho que eu estou fazendo um trabalho bom, pelo menos estou sendo reconhecida, a causa é muito nobre, as pessoas têm me ajudado cada vez mais. Enquanto eu tiver saúde, a única coisa que eu peço é saúde...Agora, sobre o meu relacionamento com Deus, eu tenho formação católica, mas eu sempre fico me perguntando: "Que Deus é esse que faz isso com meu filho?". Eu tenho muitas perguntas, porque o Cazuza dizia: “Eu não posso fazer mal nenhum, a não ser a mim mesmo”. Ele nunca fez mal, era um menino ótimo, sabe? Um caráter ótimo, bom amigo, bom filho, bom neto, no auge da beleza, da juventude, do sucesso. Sabe, caiu uma faca em cima da cabeça dele. Eu não achei justo o que aconteceu com ele, não. Ele não merecia isso, mas eu estou aqui conversando com vocês aqui, tocando o meu trabalho, não é? E ele não, ele perdeu o melhor dom que você pode ter, que é a vida. Então, tenho muitas dúvidas, muitas perguntas que eu espero serem respondidas nos últimos anos da minha vida. Márcia Peltier: O Papa vai visitar a Sociedade Viva Cazuza. Maria Lúcia Araújo: Está marcado para outubro. Márcia Peltier: Pois é. Maria Lúcia Araújo: Será que ele vai me responder as perguntas? Márcia Peltier: Você pretende perguntar alguma coisa ao Papa, Lucinha? Maria Lúcia Araújo: Sei lá, coitado. Ele está muito velhinho, não vai poder me responder não, vou constrangê-lo. É melhor deixar o Papa lá, abençoando as criancinhas e pronto. Cynthia de Almeida: Você acha que o preconceito atual contra essa doença é o mesmo de sete anos atrás, quando o Cazuza morreu? Maria Lúcia Araújo: Olha, o mesmo eu não diria, mas existe muito ainda, nem que seja velado, mas existe. Eu sei que existe. Agora, o preconceito também é fruto da falta de informação. O que gera o preconceito é a falta de informação. E as campanhas não têm solução de continuidade, sabe? Você faz uma campanha bonita e, dez minutos depois, já não passa mais na televisão, as pessoas não sabem. A gente faz muita palestra em escolas, em empresas. Cynthia de Almeida: Você vai levar o livro para escolas e falar com filhos? Maria Lúcia Araújo: Não, eu acho que o livro não tem nada a ver com isso, não fala de preconceito, não é? Eu acho que nós vamos fazer um livro sobre nossa experiência lá na Sociedade. Quem sabe isso abra novas casas de apoio pediátrico nos moldes da nossa e a gente possa ajudar, não é? Pedro Bial: Lucinha, as crianças te perguntam sobre o Cazuza? E, se a gente for ver de um ponto de vista conservador, meio careta, o Cazuza não seria exatamente um bom exemplo para elas, ou seria? Qual seria o bom exemplo do Cazuza? Maria Lúcia Araújo: Olha, elas sabem do artista Cazuza, faço questão que elas saibam que aquela casa existe porque meu filho morreu dessa doença. Aquela casa só existe por isso. Eu não sou boa, sou uma pessoa normal, só que a vida castigou, caprichou. O destino caprichou comigo, então eu abri essa casa porque meu filho morreu de aids. Às vezes fico me perguntando: "será que se meu filho não tivesse morrido dessa doença, essas crianças estariam aqui alegres e brincando?". Claro que não, eu não teria aberto essa casa. E elas me perguntam pelo Cazuza, onde está meu filho. E eu explico: "O Cazuza morreu com a mesma doença que sua mãe morreu". Matinas Suzuki: Lucinha, como é a realidade do tratamento dessas crianças fora de uma fundação como a sua? Maria Lúcia Araújo: Ela é negra. Eu não estou querendo dizer que a minha seja a melhor, mas é muito boa, apesar de muito cara! O problema esbarra sempre em dinheiro, infelizmente é isso. Você imagina um coquetel desses, que custa quase mil reais por mês por criança, fora os remédios nacionais, a alimentação, a enfermagem para cuidar delas. 60% do meu gasto é com pessoal especializado. Você não pode botar uma babá qualquer para tomar conta de uma criança com aids. Você tem que fazer um treinamento, tudo custa dinheiro e tempo. Matinas Suzuki: Além da Fundação Viva Cazuza e do padre Lancelotti [No Brasil, o padre Júlio Lancelotti fundou, em 1991, a Casa Vida] em São Paulo, há outras experiências pelo Brasil de casas que se dedicam a um tratamento digno para crianças? Maria Lúcia Araújo: Olha, eu sei que existe, mas esbarra sempre nisso que eu te falei, é um tratamento muito caro. A Casa Vida tem financiamento da embaixada britânica, da secretaria estadual, faz um serviço lindo. A prestação de serviço dele é maravilhosa e as freiras são voluntárias. No meu caso, eu tenho que pagar todo mundo que trabalha lá, porque eu não posso trabalhar com voluntário, do voluntário você não pode exigir nada. E são crianças que já perderam tudo na vida, pai, mãe, tudo. Elas não podem perder mais nada. Então você se acostuma com uma carinha, no dia seguinte a carinha some, eles vão se sentir novamente rejeitados. Matinas Suzuki: Você acompanha a pesquisa científica com relação à doença? Eu imagino que, durante a doença do Cazuza, você sabia tudo, não é? Maria Lúcia Araújo: Houve pouca evolução até um ano atrás. De um ano para cá, foi que a coisa melhorou e a doutora Loreta [a médica especialista em aids Loreta Burlamaqui da Cunha] vai todo ano aos congressos de aids, para se informar, ela é uma pessoa muito bem informada, eu tenho confiança nela. Só tenho pena do Cazuza não ter a conhecido, não ter usado os serviços dela. Maria Amélia Rocha Lopes: Lucinha, como deveriam ser as campanhas do governo contra a aids? Maria Lúcia Araújo: Olha, eu não sei como deveriam ser, porque não sou técnica de comunicação. Eu sei como não deveriam ser. São essas que estão aí. Para fazer uma campanha, você precisa consultar os técnicos, chamar um médico para dirigir, o palavreado tem que ser chulo... Maria Amélia Rocha Lopes: [interrompendo] É, isso que eu ia falar, porque todas vezes que você vê as pesquisas, as pessoas não entendem... Maria Lúcia Araújo: Tem que ser mesmo, você não pode florear nada, senão o grande público não vai ser atingido. Maria Amélia Rocha Lopes: Teria que ser uma linguagem mais explícita, não é? Maria Lúcia Araújo: É, pois é. Cadão Volpato: Lucinha, eu queria mudar um pouquinho de assunto, na verdade. Ao contrário do que afirmou uma reportagem da revista Veja, a obra de Cazuza sobreviveu? Por que você acha que isso aconteceu? A que se deve essa sobrevivência? E emendando, eu queria saber qual é a sua canção predileta dele. Maria Lúcia Araújo: Olha, eu acho que sobreviveu porque é bom, as coisas só sobrevivem porque são boas. Eu acho que o Cazuza foi o grande poeta dos anos 80. Eu não tenho o menor pudor de dizer isso, que os outros me perdoem. Não sou eu que estou dizendo, tem muita gente que acha. E essa revista é imprensa marrom, foi uma coisa idiota que eles fizeram, que todo mundo já esqueceu. Ainda bem! E foi o único órgão de imprensa que fez isso com o Cazuza. A imprensa sempre o respeitou muito. Cadão Volpato: Você diz no livro que foi o que mais feriu Cazuza. Maria Lúcia Araújo: Ah, foi uma coisa terrível, muito triste. Foi um episódio que a gente quer até esquecer, mas não consigo. Cadão Volpato: Você acha que a imprensa, de uma maneira geral, se comportou bem em relação à doença do Cazuza? Maria Lúcia Araújo: Eu achei, tirando esse episódio lamentável, ele sempre foi muito respeitado pela imprensa, foi sempre enaltecido, sempre falaram bem, sempre elogiaram. Eu achei que tiveram muito respeito com ele, porque ele era uma pessoa muito respeitosa, apesar de todo o exagero, toda maluquice. Ele era um grande artista. Eu acho que eles lidaram muito bem com isso, eu não tenho queixa nenhuma da imprensa. Cadão Volpato: E qual é sua canção predileta? Márcia Peltier: Você já tentou cantar alguma música do Cazuza? Maria Lúcia Araújo: Algumas são muito difíceis, eu não consigo. Adoro “Quando eu estiver cantando”, “Codinome Beija-flor”, “Faz parte do meu show”, sempre que posso, canto. As pessoas me pedem muito para cantar e eu não me faço de rogada. Márcia Peltier: Você canta bem? Maria Lúcia Araújo: Não, não é que eu cante bem, mas... Márcia Peltier: Você é afinada. Maria Lúcia Araújo: Eu sou muito afinada, mas me faltou carisma, que era o que sobrava nele! Carisma é aquilo que eu chamo...o Cazuza, quando subia no palco, a luz procurava por ele. Você vê o Caetano [Veloso], aquela pessoa frágil, senta ali, pega o violão e canta, fica todo mundo estático olhando para ele. É o maior cantor do Brasil, é o maior artista, mais completo do Brasil, eu acho ele bárbaro. Eu não era assim, mas descobri isso a tempo, voltei para a roda de amigos de onde eu nunca deveria ter saído. [risos] Maria Amélia Rocha Lopes: Lucinha, você gosta da forma como a Cássia Eller [(1962-2001) cantora e instrumentista do rock nacional, regravou diversas músicas de Cazuza] canta as músicas do Cazuza? Maria Lúcia Araújo: Eu gostei, gostei muito. Eu sempre costumo dizer que ela é o Cazuza de saias, não é? Eles têm muita coisa em comum. Gostei muito da homenagem que ela prestou, achei o disco muito bem tratado, muito bem cuidado. Gostei muito do show, achei uma homenagem linda. Fiquei muito feliz. Márcia Peltier: Você se sente musa de várias músicas do Cazuza? Você se identifica nas músicas do Cazuza? Maria Lúcia Araújo: Não, imagina. Márcia Peltier: Nada? Maria Lúcia Araújo: Nada, não sou musa de nada. Ele fez uma música para o pai dele. Márcia Peltier: Qual foi? Maria Lúcia Araújo: Se chama “Vida fácil”, coitado! O João lutou tanto, mas esse é o nome da música. [risos] Márcia Peltier: Você nunca pediu uma para ele? Maria Lúcia Araújo: Não, imagine. Se eu pedisse, aí mesmo que ele não fazia. Não, eu nunca me identifiquei com nada, o tipo de música que ele fazia não se encaixava em mãe, imagina. Quando ia aos shows dele, ele pedia para eu ficar na última fila. Cynthia de Almeida: Ah, mas você não aceitava. Maria Lúcia Araújo: Não podia comprometê-lo. Dizia: "Mamãe, roqueiro não tem mãe, vai para a última fila, pelo amor de Deus! Pára com tietagem". [risos] Márcia Peltier: Ele nem te mostrava as músicas quando ele compunha? Você era a última da fila? Maria Lúcia Araújo: Não, normalmente eu já via o produto pronto. Mas depois que ele ficou doente, eu participava, porque ele tinha insônia e escrevia. O “Blues da piedade”, que é uma das músicas que eu mais gosto dele, ele fez na Clínica São Vicente. Então ele não estava escrevendo com muita força e eu passava a limpo, corrigia os erros de português, aí eu participei sim. O Frejat [cantor, guitarrista e campositor brasileiro, foi um dos integrantes da banda Barão Vermelho e o melhor amigo de Cazuza] foi lá - foi muito bonito - levou o violão e colocou a música. E tinha uma senhora hospitalizada no quarto ao lado, de cabecinha branca, ela chegou por aquele murinho, bateu palmas, aplaudindo, disse que tinha adorado, deu parabéns, foi emocionante, muito bonito. Márcia Peltier: Como você se sentia quando via o Cazuza fazendo esse sucesso? Maria Lúcia Araújo: Olha, você sabe que muito melhor do que você fazer sucesso é seu filho fazer, isso eu te garanto. Eu esquecia até que eu quis ser cantora um dia, imagina! Matinas Suzuki: Lucinha, o Marcos Vieira, de Recife, pergunta quais os motivos que levaram Cazuza a sair do Barão Vermelho. O Frejat era realmente o melhor amigo do Cazuza? Maria Lúcia Araújo: Eu acho que ele era o maior amigo do Cazuza, ele era o irmão que o Cazuza não teve. Eles se completavam, se adoravam, foi uma amizade muito linda, sabe? E ele saiu do Barão por motivos que todo mundo sabe, não é? Ele achava a banda ótima, enquanto durou foi muito bom, fizeram muito sucesso, mas o Cazuza, como todo filho único, não dividia nada com ninguém, muito menos o palco. E foi bom, porque o Barão fez sucesso, continuou fazendo e ele também. E continuaram super amigos, super amigos. Pedro Bial: E isso está tudo contado no livro também. Maria Lúcia Araújo: Está tudo no livro. Daqui a pouco ninguém vai comprar meu livro, vocês perguntam tudo! [risos] Márcia Peltier: Você era muito ciumenta do Cazuza? Maria Lúcia Araújo: Não, dele não. Eu sou muito ciumenta, mas o Cazuza tinha horror a ciúme, cena de ciúme e o João também. São as duas únicas pessoas em quem eu não consegui mandar na minha vida. Pedro Bial: Mas ele era ciumento? Maria Lúcia Araújo: Ele era ciumento sim, era muito ciumento. Uma vez, foi até uma coisa muito engaçada: O Zeca chegou lá em casa com uma calça que ele queria usar numa festa. Ele costumava botar fita crepe, homem solteiro, sozinho em casa, colocava fita crepe. E eu queria fazer a bainha para ele, já costurei para fora. E aí o Cazuza entrou quando eu estava fazendo a tal da bainha, ele quis bater no Zeca:”Quem você pensa que é? Minha mãe costurando para você, seu ridículo! Passa fora daqui! Mãe, você está proibida de fazer bainhas”. Falei: "Ah, só pode fazer para você?". E ele: “É isso mesmo! Manda ele pedir para a mãe dele.” Márcia Peltier: Era vaidoso? Maria Lúcia Araújo: Ele era super vaidoso, mas saía todo rasgado, depois de experimentar vinte camisas, quarenta calças... Marcos Augusto Gonçalves: Você conta no livro que ele rasgava suas roupas, não é? Maria Lúcia Araújo: Sim, para usar nos shows. Eu tinha que trancar o meu armário, pegava as melhores roupas, levava para a casa dele, depois dava para os amigos. A casa dele era o buraco profundo, nunca mais saía de lá, sumia. Matinas Suzuki: Lucinha, vamos fazer um rápido intervalo. Até já. [intervalo] Matinas Suzuki: Voltamos com Roda Viva, que entrevista Lucinha Araújo, presidente da Sociedade Viva Cazuza e que está lançando também o livro Cazuza: só as mães são felizes, depoimento à jornalista Regina Echeverria. Lucinha, o que você aconselharia a um pai quando ele descobre que seu filho está envolvido com drogas? Maria Lúcia Araújo: Ah, eu não dou conselho a ninguém. Eu não aconselho nem um cachorro na rua a me seguir, quanto mais ter a pretensão de dar conselhos a alguém. Marcos Augusto Gonçalves: E como você se comportou quando soube que o Cazuza usava drogas? Maria Lúcia Araújo: Bom, a primeira vez que eu vi maconha, eu joguei no vaso sanitário e puxei a válvula. Isso também está no livro, ninguém vai comprar meu livro! [risos] Pedro Bial: Não, mas o livro conta detalhes. Marcos Augusto Gonçalves: O livro tem muito mais. Maria Lúcia Araújo: E ele chegou em casa, vi que ele estava procurando alguma coisa e ele chegou para mim: "Mamãe, você viu um embrulho de jornal assim, assim?". E eu: "vi, era maconha, eu cheirei e eu joguei no vaso sanitário e puxei a válvula". E eu me preparando para fazer um sermão e ele disse: “Mamãe, você está louca, você não tem noção de dinheiro? Aquilo era maconha da melhor qualidade, como é que você faz uma coisa dessas? Isso não era só meu, era dos meus amigos também". Márcia Peltier: Você ficava atrás dele com relação às drogas? Maria Lúcia Araújo: É, não adiantava nada, mas eu ficava. Com 18 anos, ele já estava morando sozinho, então o meu controle era relativo. Agora, é como eu dizia a ele: "vou pegar no teu pé, enquanto eu for viva". Pedro Bial: Você conseguiu superar aquela pergunta "onde foi que eu errei?"? Maria Lúcia Araújo: Olha, infelizmente, essa pergunta me acompanha até hoje. Agora, não sei nem se eu errei, porque eu fui bem intencionada, mas devo ter errado, devo.. Matinas Suzuki: [interrompendo] Ao ler o livro, fiquei com a impressão de que você se atormenta mais do que deveria, porque é difícil controlar a alma de um artista, a vida de um artista. Por exemplo, "ah, se eu fosse mais severa, se eu fosse mais rígida, se eu tivesse cobrado mais ele", quer dizer, essa relação é sempre difícil, porque não há uma regra, uma maneira. Maria Lúcia Araújo: É verdade, eu custei a entender, custei a entender. Matinas Suzuki: Ser artista é isso: correr riscos, enfrentar limites que os outros não enfrentam, quebrar, transgredir, senão não seria um artista. Maria Lúcia Araújo: Eu custei a entender, mas depois que entendi eu confesso que fui muito mais feliz, deixei de me atormentar; e ele também, porque para ele, era uma coisa horrível, ele transgredia, fazia tudo que queria, enfrentava a gente, mas também sofria, ele gostava de nós. Cynthia de Almeida: Em que momento você entendeu tudo isso? Maria Lúcia Araújo: Depois que ele fez 18 anos. Cynthia de Almeida: Ele já tinha se revelado como um artista? Maria Lúcia Araújo: Não, não tinha, ele não era artista, foi muito antes. Ele já tinha se revelado como um grande aprontador. Ele era um artista da vida também. Quando eu vi que ele era incontrolável, eu resolvi me controlar para tentar entendê-lo. Pedro Bial: Não, porque é muito fácil a gente ficar no discurso moralista:"Ah, o cara usava drogas, fez isso, fez aquilo...". Qual é o bom exemplo do Cazuza, fale um pouco sobre isso. Maria Lúcia Araújo: Vários exemplos! O que eu quis contar no livro, que eu imagino que eu tenha atingido muita gente, foi esse lado legal dele. O Cazuza era uma pessoa de um caráter como eu nunca mais vi ninguém. Eu não conheço ninguém com um caráter como o dele. Sabe, uma vez ele me disse uma coisa comovente: “Mamãe, depois que eu descobri que eu estava doente, nunca mais transei com ninguém. Nem com camisinha". Isso é caráter. Ele me deu muitas lições, uma delas foi essa de ter caráter acima de qualquer outra coisa. Era uma pessoa super honesta, amigo dos amigos dele, então acho que foi a grande revelação que eu tive com meu filho, além das outras todas, desse lado artístico dele, porque ele sempre foi uma pessoa diferente. Pedro Bial: Desde pequeno. Maria Lúcia Araújo: Ele era especial. Pedro Bial: Muito corajoso, porque quantas crianças talentosas não foram massacradas por uma mãe super protetora? E ele se rebelou, ele conseguiu ir adiante. Maria Lúcia Araújo: É verdade, é isso mesmo. Márcia Peltier: Como foi o começo dele na música com o João? O João aceitou essa entrada do Cazuza no meio musical, foi uma coisa difícil para os dois se relacionarem? Maria Lúcia Araújo: Não, difícil não foi. O João é muito escrupuloso, eu acho até que ele está certo. Ele é presidente de uma gravadora, apareceu o filho, puxa! O filhinho do papai que quer brincar de fazer um disco, não é? Eu sofri preconceito e não gravei na Som Livre , imagina o Cazuza! Pedro Bial: O Cazuza também tinha esse "grilo", não é? Maria Lúcia Araújo: Ele era super "grilado". Dei graças a Deus quando o Cazuza fez sucesso. Era tudo que eu queria, não é nem só pelo sucesso, mas para ele poder superar isso e dizer: "Eu não vou trabalhar em gravadora, porque meu pai é tão bom no que ele faz que eu não vou superar ele nunca, eu vou trabalhar em outra coisa". Márcia Peltier: O João, quando viu ele cantando, logo reconheceu o talento? Maria Lúcia Araújo: Ele já fazia poesia desde garoto. Eu dei o maior incentivo e o João também, mas gravar na gravadora do João. Mas era uma coisa...você gravar teu filho parecia "forçar a barra", mas ao mesmo tempo, você soltar seu filho e ele fazer sucesso em outra gravadora, ia parecer que você não tinha reconhecido o talento dentro de casa. E o João deu uma chance. E gravaram o primeiro disco, que é um disco super mal gravado, um som que não é legal, mas tem músicas como “Todo amor que eu tenho nessa vida” e “Bilhetinho azul”, que são obras primas. Cadão Volpato: Mas o fato de ser mal gravado também tem a ver com o espírito da época. Maria Lúcia Araújo: Na época, era aquele som de garagem, isso é verdade. Cynthia de Almeida: Lucinha, você falou que ele foi o grande poeta dos anos 80. Como você define essa geração? Maria Lúcia Araújo: Havia a ditadura militar...O Cazuza foi votar pela primeira vez para presidente, quando já era grande, já devia ter mais de 25 anos. Então eu achei que eles se revelaram na arte, não é? É uma geração muito rica... Cynthia de Almeida: Você acha mais amarga ou mais resistente? Maria Lúcia Araújo: Foi uma geração muito rica, você vê o produto, que nós temos até um deles aqui do lado [refere-se ao jornalista Pedro Bial], não é? Não foi subproduto, foi produto de alta qualidade. Então eu acho que foi uma geração muito rica, mas muito sofrida. Márcia Peltier: Lucinha, naquela música “Brasil”, o Cazuza faz uma crítica feroz contra o Brasil, sobre política, a própria elite, a economia do país. O que mais o revoltava no Brasil, era a hipocrisia? Maria Lúcia Araújo: Ah, ele sempre dizia que o Brasil tinha que tomar vergonha na cara. E a hipocrisia, claro. Aliás, continua tudo igual até hoje, não mudou muito. E ele também tem uma letra que se chama “O Brasil vai ensinar ao mundo”, super política, uma letra muito boa, que não fez sucesso, porque foi quando ele já estava doente. E ele tem também “Burguesia”, que é bárbara. Márcia Peltier: Que é bárbara. Maria Lúcia Araújo: Ele diz "Sou burguês, mas eu sou artista". Matinas Suzuki: Lucinha, a Márcia Ribeiro, que é a produtora, pergunta: "a gente aprende mais com a vida ou com a morte?". Maria Lúcia Araújo: Essa pergunta é muito difícil de responder. Eu aprendi com a vida, mas foi a morte que me ensinou, apesar de eu estar viva, não é? Por isso que a gente só tem experiência depois de velho. Pelo menos, você chega nessa idade e tem mais experiência que os jovens. Márcia Peltier: Você não acha que também existe uma coisa da sua própria geração de as mulheres ficarem muito acomodadas e não se envolverem? Quer dizer, você não se sente um objeto raro dentro da sua própria geração, já que você está envolvida nisso? Maria Lúcia Araújo: Não, porque você sabe que eu nunca fui só dona de casa, esposa e mãe. Eu sempre trabalhei, eu sempre ajudei nas despesas da casa, já tive loja, eu sempre procurei alguma coisa para fazer, porque eu acho muito pouco esse negócio de você ficar em casa. Márcia Peltier: Mas você já foi uma coisa meio rara na sua geração. Maria Lúcia Araújo: Não, rara eu não digo, mas eu conheço bastante gente da minha geração que foi assim. Márcia Peltier: Mas se envolver em problemas sociais...Você acha que tem que ter uma conscientização melhor da própria elite, que está muito desligada? Maria Lúcia Araújo: Acho, só que, na minha geração, não tem mais jeito. Márcia Peltier: Não tem mais jeito? Maria Lúcia Araújo: Mas essa que está aí não é assim, porque a mulher reivindicou o lugar dela na sociedade, não é? Claro que está pagando um preço, mas acho que vale a pena. Não sou feminista, mas acho que vale a pena. Pedro Bial: No processo do livro, mesmo quando a gente se dispõe a contar tudo, a gente não consegue contar tudo. Onde que entrou a tua auto-censura? Maria Lúcia Araújo: Olha, se eu disser que contei tudo, você não vai acreditar, mas eu contei tudo. Tudo que eu sei, não é? Tem muita coisa que eu não sei, e eu soube muitas coisas através dos depoimentos. Eu abri meu coração. Se há uma palavra que possa sintetizar o que é esse livro, é sinceridade. Pedro Bial: Já foi dito que a renda do livro vai... Maria Lúcia Araújo: A renda do livro vai toda para a Sociedade Viva Cazuza. A editora nos deu uma edição de luxo, são trezentos exemplares que a gente está vendendo mais caro, porque vem com um encarte de um CD do Cazuza. Por isso que eu quero que venda muito, a gente precisa disso. Maria Amélia Rocha Lopes: Lucinha, o Tavinho Paes [poeta, escritor e compositor carioca de comportamento marcadamente outsider, apesar de ser autor de letras de músicas gravadas por compositores de sucesso] escreveu um livro chamado Duas ou três coisas que eu sei sobre ele, que seria sobre o Cazuza, quando o Cazuza ainda estava vivo. A família proibiu e eu queria que você falasse o porquê. Maria Lúcia Araújo: Você sabe o que aconteceu? O Cazuza estava numa fase muito adiantada da doença e ele foi lá colheu depoimentos absurdos, o Cazuza estava sobre efeito de vários remédios, nem sempre ele estava bem. Eu não queria a divulgação desses depoimentos. Podiam até serem verdadeiros, mas nem tudo que é verdadeiro você pode divulgar, não é? Então, eu não tenho nada contra, ele pode lançar o livro agora. Mas nós tínhamos que ler esse livro, saber o que continha e ele se recusou a nos dar o livro para ler. Ele pode fazer um outro livro, com outro nome, mas usando o nome Cazuza, ele vai ter que submetê-lo a nossa aprovação. Maria Amélia Rocha Lopes: Você não chegou a ver nada desse livro? Maria Lúcia Araújo: Não, eu li inteiro, porque depois o João entrou em contato com ele e ele nos deu os originais do livro. Tinha resolvido não lançar mais. Maria Amélia Rocha Lopes: Você não gostou do que leu? Maria Lúcia Araújo: Não, nem consegui ler tudo...mas seria um livro de escândalo, e eu não queria isso. Maria Amélia Rocha Lopes: Você considerava que o Tavinho fosse um amigo do Cazuza? Maria Lúcia Araújo: Olha, não sei. Amigo não teria feito isso. Matinas Suzuki: Lucinha, passou por você, em algum momento, essa coisa de que, às vezes, é o ambiente, é a influência, eram os amigos? Você chegou a ter essa sensação? Maria Lúcia Araújo: Ah, era só o que eu pensava. Durante um certo tempo eu só falava isso, não é, Bial? Dizia: "seus amigos não prestam". Aí ele me deu também outra lição: "Mamãe, ninguém presta, eu não presto, você não presta, o papai não presta, meus amigos não prestam. Então, esquece e aceita as pessoas como elas são". Porque a gente acha que são as pessoas que estão contaminando o teu filho, quando na realidade, pode ser até o contrário, não é? Quem sabe se é até o teu filho que está fazendo isso? Matinas Suzuki: O Cazuza, pelo pouco que conheci, era uma pessoa muito aberta, a porta da casa dele estava aberta, chegavam pessoas que ele conhecia e que não conhecia. As pessoas dormiam lá, ficavam lá, saíam, quer dizer, ele tinha realmente isso... Pedro Bial: [interrompendo] Mas ele também não fazia cerimônia para mandar todo mundo embora, não. [risos] Matinas Suzuki: As pessoas se aproveitavam disso? Você sentia que seu filho, às vezes, estava sendo usado? Maria Lúcia Araújo: Claro, lógico. Eu sabia muito bem quem era quem, quem eram os amigos e quem não era, mas não adiantava falar. Ele era adulto, tinha a casa dele, ganhava o dinheiro dele, sustentava a casa dele, eu tinha muito pouco a fazer, a não ser chorar. Ele não deixava eu me intrometer na vida dele, mas também se ele deixasse, estava perdido. [risos] Márcia Peltier: Lucinha, ele falava com você sobre morte? Sobre o que aconteceria, o que ele achava, se teria uma reencarnação, se ele voltaria, se tinha vida além da morte, ele especulava com você sobre isso? Maria Lúcia Araújo: Olha, a gente tinha combinado de não falar de morte, quando ele soube que estava doente. Mas, uma vez, uns dois anos antes de morrer, ele me ligou e pediu para eu ir à casa dele. Aí fui dormir na casa dele, porque de vez em quando ele queria colinho, eu estava sempre disponível. E ele me disse: “Mamãe, se eu morrer um dia, como é que você vai ser? Você vai ser forte como a Regina Gordilho [dona de casa carioca, que teve o filho Marcelus Gordilho morto a pauladas pela Polícia Militar, em 1987. Depois disso, Regina entrou para a política, sendo eleita vereadora e deputada federal], ou você vai ser dessas chatas, toda vestida de preto, chorando pelos cantos da casa, querendo o filho de volta?”. Falei: "Ah, eu vou ser como você quiser que eu seja". Aí ele disse: “Eu quero a força da Regina Gordilho”. Então, foi a única vez que ele falou de morte. Aliás, fiquei amiga da Regina. Abri meu coração para ela, abri minha vida, a gente chorou. Eu ganhei uma amiga. Matinas Suzuki: Lucinha, há gravação de coisas inéditas do Cazuza? Há outra pergunta aqui, do Luiz Fernando Maciel de Oliveira: "Vai sair um box com toda a obra do Cazuza, com coisas raras?". Maria Lúcia Araújo: Eu tenho mais de sessenta letras inéditas do Cazuza. Algumas já foram musicadas, por exemplo, “Malandragem”, que foi a música que lançou a Cássia Eller. E, aliás, foi muito bem gravada. Mas as outras eu não queria colocar com parceiros que não fossem os de sempre, como o Frejat, Nilo Romero. E já tenho uma editora interessada em fazer um livro chamado Todas as letras [O livro, intitulado Cazuza - Preciso dizer que te amo - Todas as letras do poeta, foi lançado em 2001, também pela jornalista Regina Echeverria] , e aí entrariam também as letras inéditas dele. Pedro Bial: Esse "Blues da piedade"...no livro, você conta que ele ficava muito irritado com as pessoas que chegavam falando "Coragem, força!". Maria Lúcia Araújo: É verdade. Pedro Bial: Então, com se aproximar de uma pessoa doente? Maria Lúcia Araújo: Do modo mais normal possível, porque ela é super normal, só é HIV positivo. Mas as pessoas, coitadas, queriam transmitir força e isso o incomodava, ele se sentia mal com isso. Com um simples apertar de braço, ele já ficava nervoso, sabendo que alguém estava com pena dele. E ninguém gosta disso, não é? Pedro Bial: Se vitimizar... Maria Lúcia Araújo: É, não tinha nada a ver com ele. Cynthia de Almeida: Lucinha, como é a sua relação hoje com os amigos dele? Você procurou mantê-los em torno de você? Maria Lúcia Araújo: Ah, é o que eu mais quero. Eles me procuram sempre, vão muito à minha casa, me procuram, me telefonam. Agora, no lançamento do livro, não faltou nenhum, estavam todos lá, disso eu não abro mão, porque é como se meu filho estivesse junto de mim de novo, não é? É um renascer, eu me sinto muito bem com eles. Cynthia de Almeida: O livro foi lançado terça-feira, no Rio de Janeiro. Já teve uma volta para você, um retorno de reação, de repercussão, por parte dos leitores? Lucinha Araújo: Olha, as pessoas tem gostado demais, todo mundo, o telefone não pára, de todos os estados do Brasil. Acho que estou atingindo o meu objetivo. Não quero servir de exemplo para ninguém, muito pelo contrário, mas se eu conseguir atingir uma mãe que seja, ajudando a compreender o filho...então a minha finalidade já foi cumprida. Matinas Suzuki: Como você lê essa frase "Só as mães são felizes"? Maria Lúcia Araújo: Olha, eu não entendia nada. Quando ele me disse que tinha feito uma música chamada "Só as mães são felizes", eu achei que era uma homenagem a mim e a todas as mães do Brasil. E fui ao show para assistir, chiquérrima, cheirando aquela grande homenagem que ele ia me prestar. Para minha surpresa, aquela letra, uma coisa de louco. Fui sentindo que aquilo não tinha nada a ver comigo, cada palavra que ele dizia era uma bofetada. Eu quase entrei debaixo da mesa quando a música acabou. Senti vergonha, achei que estava todo mundo olhando para a minha cara. Ninguém nem sabia quem eu era. Quando eu fui ao camarim, disse: "Cazuza, você pirou, que é isso? Por isso que essa música foi proibida, que coisa mais maluca! O que tem a ver isso com mãe?". Ele disse que não tinha nada a ver mesmo. Mas, no fundo, eu achava que ele queria "livrar a cara" das mães, entendeu? As mães estão acima do bem e do mal. Então as mães nunca fizeram aquilo tudo que ele diz na letra, foi o que eu entendi. Mas depois revendo, depois que eu coloquei o título no livro eu acho que nem sempre as mães são felizes. Isso é uma coisa muito radical, infelizmente. As pessoas normais, de um modo geral, não são sempre felizes, não é? Maria Amélia Rocha Lopes: Você conclui o livro assim, não é? A última frase é: "Nem sempre as mães são felizes". Maria Lúcia Araújo: Pois é, eu infelizmente descobri isso. Mas eu acho o seguinte: nem todo mundo é feliz o tempo inteiro, não existe quem seja feliz. Quem diz que é feliz o tempo inteiro ou é burra, ou não tem a menor ansiedade, se contenta com aquilo ou então está mentindo. Então a vida é assim, você tem um pedacinho, agora eu estou feliz, porque estou aqui conversando com vocês, então vou aproveitar esse pedacinho junto com outro, e assim sucessivamente, não é? Aí isso vira felicidade, mas felicidade são pedacinhos. Márcia Peltier: Você falou há pouco que, se tivesse errado, errava na boa intenção. É evidente que uma mãe não vai errar objetivamente com o filho, sempre terá a melhor das intenções. Será que não é isso que faz as mães felizes, mesmo errando elas fazem na boa intenção, sendo absolvidas? Maria Lúcia Araújo: É, é verdade. É isso mesmo. Márcia Peltier: Vamos "livrar a nossa cara"? [risos] Pedro Bial: É o jeito, e que conceito de erro ou acerto é esse? Educar é possível, Lucinha? Você acha que educar é possível? É uma missão impossível! Maria Lúcia Araújo: Olha, eu fico pensando que é, eu só tive um filho, então dizem que você aprende com o primeiro para depois ensinar os outros com a sua experiência. Eu só tive um filho... E não veio com bula. Então, eu tive erros e acertos. Pedro Bial: Cada um é diferente... Maria Lúcia Araújo: Pois é! Pedro Bial: O que mais te chocou? Foi saber que o Cazuza usava drogas ou conhecer as opções sexuais dele? Maria Lúcia Araújo: Foram as duas coisas juntas. Cynthia de Almeida: E elas vieram juntas? Maria Lúcia Araújo: Vieram juntas. Quanto às drogas, eu acho que droga devia ser vendida em drogaria. Eu não sou apologista das drogas, mas acho que vendendo em drogaria, você tirava o traficante do mercado, não é? Mas é uma coisa muito complicada. Outro dia, eu estava lendo em algum lugar que existem quinhentos bilhões de dólares no mundo na transa da droga e os Estados Unidos, que é um país milionário, investe em campanha contra droga cerca de cinco bilhões de dólares. Então é uma coisa que não vai ser resolvida nunca. Não sou eu que vai resolver, não é você. Mas eu acho que tirando o traficante do meio, já resolvia muita coisa. Agora, opção sexual é opção sexual, você tem que respeitar. Márcia Peltier: Mas você se cobrou nessa hora também ou não? Maria Lúcia Araújo: Não, não me cobrei. Não era isso que eu queria para ele, viu, Márcia? Porque eu acho que é uma coisa de minoria, ele ia sofrer, eu queria protegê-lo. Eu achava que isso era um caminho de sofrimento, que a sociedade não aceita, então eu quis que ele fosse preservado, como toda mãe vai querer que seu filho seja. Mas, desde o momento que a opção está feita, está feita. Márcia Peltier: Mas isso foi um papo franco entre vocês dois? Maria Lúcia Araújo: Foi super franco, assim como eu estou falando com você, eu falei com ele. Matinas Suzuki: Você chegou a ter uma relação tranquila com algum namorado do Cazuza? Maria Lúcia Araújo: Ah, tem um que eu me dou até hoje, que mora nos Estados Unidos, o Serginho, adoro ele, é super meu amigo. Agora, eu não sabia, eu só soube depois, porque o Cazuza era muito discreto. Tem um limite na relação mãe e filho. Você, por mais aberto que você seja com a sua mãe, não pode falar tudo para a sua mãe, existe uma barreira, não é? Nem que seja pela geração ou porque é a tua mãe. Então ele não se abria sobre seus amores, femininos ou masculinos. Eu fui sabendo através dos próprios. Ele não me contava nada. Márcia Peltier: Com relação à aids, ele comentava com você como tinha pegado? Maria Lúcia Araújo: Não, isso não importa. Márcia Peltier: Mas ele chegou a tocar nesse assunto? Maria Lúcia Araújo: Eu acho que quando e como pegou não é importante. O importante é que você está HIV positivo e ponto. Dali para frente, vamos ver o que você vai fazer. Eu nunca me perguntei como. Ele nunca contou como. Márcia Peltier: E ele também nunca se cobrou: "Se eu tivesse feito diferente...". Ele nunca parou para pensar nisso? Maria Lúcia Araújo: Imagina! Ele não era homem de fazer isso. Você não o conheceu. Ele não era homem de se cobrar nunca. Pelo contrário, ele só se arrependia do que não tinha feito. Do que ele tinha feito, jamais. Marcos Augusto Gonçalves: Lucinha, você é uma observadora privilegiada da obra do Cazuza. Você acha que é uma obra com marca biográfica muito forte, no sentido de que o que ele escrevia tinha uma relação imediata com a vida dele ou a elaboração poética... Maria Lúcia Araújo: Não, eu acho que é isso mesmo que você falou, tem ligação imediata com a vida particular dele, porque ele mesmo conta que ele cantava os amores tresloucados, desvairados. E depois que ele ficou doente, ele passou a parar de olhar o seu próprio umbigo e cantar o país dele. Ele fez [letras como] "Brasil", "Ideologia"... Marcos Augusto Gonçalves: Exato. Cadão Volpato: Eu me lembro que, quando o Cazuza começou na carreira, o que se falava é que ele trazia para o rock uma sofisticação que tinha muito a ver com MPB [Música Popular Brasileira]. Maria Lúcia Araújo: [interrompendo] Ele era um privilegiado, porque ele foi criado no berço esplêndido da música brasileira. O pai dele, desde os 16 anos, não teve outro emprego. Trabalha com música, já fez de tudo em disco, desde botar o disco debaixo do braço e pedir para tocar. Criou uma gravadora que existe há 27 anos e é líder no mercado. A primeira gravadora brasileira foi a Som Livre. Então ele foi criado assim, para ele não existiu ídolos, nem mitos, porque ele foi criado no meio deles todos. Ele estava acostumado a ouvir Dolores Duran [Adiléia Silva da Rocha (1930-1959), cantora e compositora, considerada a maior representante do samba-canção, conquistou renome internacional, destacando-se entre seus sucessos: "Fim de caso", "Castigo", "A noite do meu bem". Fez parceria de sucesso com grandes nomes da MPB e morreu precocemente aos 29 anos], que era minha amiga, Silvinha Telles [(1934-1966) cantora que representou a passagem do samba-canção romântico dos anos 50 para a bossa nova dos 60], minha colega de colégio, Maysa [(1936-1977) cantora brasileira de boleros, samba-canção e bossa nova]. Então, para ele, não existia isso e o ouvido foi se acostumando. As letras do Cazuza são atemporais. Você pega uma letra dele e pode encaixá-la em um tango, em um samba... Cadão Volpato: Mas você acredita que depois da morte dele, existe um outro ponto de vista sobre o trabalho dele? Essa sofisticação continua para as pessoas que o ouvem hoje, ou elas associam uma coisa com a outra, quer dizer, uma morte trágica, a figura do ídolo que desapareceu? Isso acaba dando uma outra leitura do trabalho dele? Maria Lúcia Araújo: Não, não acho não. Eu o comparo sempre com Noel Rosa - eu sou super pretensiosa quando se trata do meu filho, não reparem. Noel morreu, aos 26 anos, de uma doença que era a aids da época: a tuberculose. Ele foi o Noel dos tempos dele. A gente lembra que ele morreu jovem e deixou canções maravilhosas que nunca mais o Brasil esqueceu e são regravadas até hoje. Então, é assim que eu quero que ele fique. Eu imagino que essa doença tenha cura até o ano 2000, vão esquecer a doença que matou o Cazuza e só vai ficar aquela coisa que ele deixou de positivo: a obra que ele teve. Eu tenho certeza que vai ficar, porque não foi passageira. Matinas Suzuki: Lucinha, você conta no livro um episódio interessante em relação à Elizeth Cardoso [(1920-1990), cantora brasileira de choro, samba-canção e bossa nova], mesmo antes de ter uma relação com o João. Maria Lúcia Araújo: Foi. Meu pai trabalhava numa fábrica de perfumes lá em São Cristóvão e era presidente de um clubezinho que tinha lá na firma. Então, mamãe estava viajando e eu fui representando mamãe a um show. Era o tempo dos bailes e quem era crooner da orquestra era a Elizeth Cardoso. Eu devia ter uns 13 anos, nem conhecia o João, mas eu sempre gostei de cantar, conhecia música, vivia na Rádio Nacional. E então, a Elizeth foi sentar-se a nossa mesa e eu comecei a conversar com ela, fiquei encantada, ela estava lançando aquela música “Canção de amor”. Ela me deu o telefone da casa dela, imagina? Eu tinha 13 anos, eu não me lembro quantos ela tinha, mais tinha uns 10 pelo menos mais que eu, eu imagino. E eu telefonava para a casa dela e ela me atendia, cantava e eu fazia fofocas sobre os programas de rádio e outras cantoras da época. Anos depois, mais de vinte ou trinta anos, eu a encontrei, contratada pela Som Livre. E eu falei: "Elizeth, aquela menina era eu". Ela disse: “Lucinha, que coisa emocionante, não acredito que era você!”. É engraçado. Olha, eu estou contando o livro inteiro, hein? Gente, por favor, comprem! Matinas Suzuki: Olha, muitos telespectadores querem saber o endereço e telefone da Sociedade Viva Cazuza. Também querem saber se tem camiseta da Sociedade e se os CDs do Cazuza podem ser encontrados lá. Maria Lúcia Araújo: Positivo, tudo. O endereço é: Rua Pinheiro Machado, 39 - Laranjeiras, o telefone é 551-5368. E nós vendemos camisetas sim, agora fiz umas lindas com as frases do Cazuza. A que mais vendem são “Mentiras sinceras me interessam” e “Eu quero a sorte de um amor tranqüilo”, que é uma utopia, não é? Mas todo mundo gosta. Os livros vão ser vendidos também. Nós recebemos visitas de faculdades e de escolas querendo fazer trabalhos, eu vendo CDs lá também. É mais uma receita que entra para a Sociedade Viva Cazuza. Você pode comprar o livro também. Pedro Bial: Você escreveu o livro, está trabalhando na Sociedade, está ativa. E o João, como ele está? Maria Lúcia Araújo: Olha, nem sempre bem. O João é uma pessoa muito para dentro, não é? Eu sou super extrovertida, como já deu para notar, eu sou a verdadeira exagerada. E o João é uma pessoa justa, o oposto, por isso que a gente está junto há tanto tempo, porque os opostos se atraem. Ele sofre calado, tem insônia, não dorme bem à noite, porque foi uma coisa muito dura que a gente passou. Ninguém supera. O tempo não apaga, o tempo aviva, o tempo piora tudo. Cynthia de Almeida: Qual foi a participação dele no livro? Teve algum papel? Maria Lúcia Araújo: O João deu um depoimento comovente, aliás, eu acho que a parte mais linda do livro é o depoimento dele, é comovente, é muito bonito. Cynthia de Almeida: Ele se ateve ao depoimento ou vocês conversavam a respeito de tudo? Maria Lúcia Araújo: Não, eu não fiz uma linha sem falar com ele porque ele é meu censor, não é? A pessoa mais sem censura que você conhece sou eu. E ele é uma pessoa muito mais equilibrada. Cynthia de Almeida: Mas, ao mesmo tempo, você disse que ele não tirou uma vírgula. Maria Lúcia Araújo: Pois é, foi um prêmio, ele ficou lendo o livro, ele leu numa noite. E eu fiquei fingindo que estava vendo televisão e olhando para ver as reações dele. De vez em quando ele tinha um susto, mas não tirou uma linha, quando acabou de ler, ele fechou e falou: “Olha, esse livro vai ser um sucesso, está muito bonito, estou orgulhoso de você”. Márcia Peltier: Lucinha, não é um pouco de ficção a gente dizer normal, não é? Quer dizer, não tem aquela frase do Caetano que "de perto, ninguém é normal"? Maria Lúcia Araújo: É, gente normal é muito chata, não é? Cynthia de Almeida: O que você acha que o Cazuza ia gostar mais no seu livro? Maria Lúcia Araújo: Olha, já me perguntaram se eu não achei que eu expus muito o Cazuza. Isso é uma pergunta que me incomodou, mas eu não acho isso. Ele foi a pessoa que mais se expôs e eu não cometo nenhuma inconfidência, quer dizer, nada que eu conto ninguém sabe a não ser as particularidades dele. Pelo contrário, pelas declarações dele à imprensa, ele falou muito mais do que eu conto no livro. Então eu acho que, de onde ele estiver, ele está aplaudindo, com certeza. Maria Amélia Rocha Lopes: Lucinha, você disse que o Cazuza, por conviver com os artistas e tudo isso, não tinha mitos. Será que foi por causa disso que ele demorou tanto para deixar o Caetano chegar perto dele? O Caetano se queixa que tentava ficar amigo do Cazuza, tentava chamar a atenção e não tinha jeito. Maria Lúcia Araújo: Pois é, o Caetano acha que ele quis ficar, mais ou menos, em igualdade de condições, imagina. Eu não acredito nisso, porque o Caetano é intocável, ninguém vai chegar até lá. Maria Amélia Rocha Lopes: O Cazuza nunca comentou? Maria Lúcia Araújo: Não, eu acho o Cazuza super a cara do Caetano, eu até comparo os dois - eu sou tiete a esse ponto - mas eu acho o Caetano o artista mais completo do Brasil. Ele é o maior cantor do Brasil, ele é o maior compositor do Brasil. Eu acho ele bárbaro! Mas o meu filho era muito bom, no mesmo patamar. Matinas Suzuki: Lucinha, o Juliano Cintra pergunta se você tem alguma música ou algum verso que seja mais a cara do Cazuza. Maria Lúcia Araújo: Não, particularmente não. Eu acho que todas as músicas do Cazuza são inconfundíveis, as letras. Eu reconheço uma letra do Cazuza, tanto que quando eu fui mexer nos papéis dele depois que ele morreu - por sinal fui super invasiva. Fomos eu e o Ezequiel, a gente abriu uma pasta em que estava escrito "particular". Foi uma coisa horrorosa e estava escrito: "Não mexa, isso aqui é particular, vocês se arrependerão!". Mas nós abrimos - lendo, lendo, lendo e a gente soube identificar direitinho o que era dele e o que não era, pelo estilo, pelo modo de falar. Ele tinha um modo simples de dizer as coisas complicadas da vida. Isso é uma coisa que eu invejo num poeta. Matinas Suzuki: Mas ele organizava essas coisas? Maria Lúcia Araújo: Tinha tudo dentro de uma pasta, manuscrito. Eu até enquadrei tudo, está lá na parede da minha casa. Matinas Suzuki: E ele tinha alguma preferência para compor? Ele se isolava, saía? Maria Lúcia Araújo: De madrugada, sempre. Ele era o homem da noite. Sempre, durante a noite, era aquela maquininha batendo, porque ele não foi da era do computador, não é? Márcia Peltier: Teve algum momento em que ele teve alguma crise como "Não estou conseguindo escrever"? Maria Lúcia Araújo: Ah não, isso não aconteceu nunca, ele tinha um jorrar de talento dentro dele, uma coisa invejável. Depois então que ele soube que o tempo dele era curto, eu acho que ele acelerou aquela máquina. Havia noites em que ele fazia três, quatro letras. Cadão Volpato: Aliás, como ele trabalhava, Lucinha? Ele fazia as letras e as pessoas concluíam em cima, invariavelmente? Maria Lúcia Araújo: A maioria das vezes era assim. Cadão Volpato: Ele burilava, mexia em cima de um... Maria Lúcia Araújo: Às vezes, tirava, aumentava, diminuía para poder caber dentro da música, aí ele fazia junto com o parceiro, mas a maioria das vezes ele fazia a letra primeiro. E ele tem várias músicas que são letra e música dele também. Márcia Peltier: E quem dava o título da música? Era ele? Maria Lúcia Araújo: Ele próprio. Às vezes, o Ezequiel. Aí ele dava parceria, imediatamente. Márcia Peltier: Ele se considerava um excelente letrista e menos em relação à música? Ele falava sobre isso? Maria Lúcia Araújo: Ele sempre dizia: “Eu não sou poeta, eu sou poeta da música. Eu não sou um poeta, eu sou um letrista”. Ele achava diferente, apesar de eu não estar de acordo, eu acho que ele foi um grande poeta, mas ele se recusava ao título de poeta, ele dizia que ele era letrista. “Existe uma diferença entre letrista e poeta”, ele sempre dizia isso. Maria Amélia Rocha Lopes: Ele nunca escreveu nada que não fosse para ser musicado? Maria Lúcia Araújo: Não, escreveu, ele tem muitas poesias. No túmulo da minha mãe, há uma poesia que ele escreveu quando tinha 17 anos. Maria Amélia Rocha Lopes: Você acha que o Frejat foi o parceiro mais perfeito dele? Maria Lúcia Araújo: Não, eu não diria o mais perfeito, mas o mais constante e com quem ele tem o maior número de hits. Pedro Bial: E foi onde ele encontrou um canal. Maria Lúcia Araújo: Exatamente. De imediato, no que eles se encontravam, saía uma coisa bonita. Eles não têm uma música que não seja bonita, todas são lindas. Mas ele tem sucessos com outros como “Codinome Beija-flor”, que é do Reinaldo Arias e “Faz parte do meu show”, com Renato Ladeira. Mas 50% da produção dele foi com o Frejat. Márcia Peltier: Essas músicas que você falou são suas prediletas? Maria Lúcia Araújo: Sabe que eu não tenho predileta, cada dia é uma predileta. Depende do meu estado de espírito. Maria Amélia Rocha Lopes: Você ouve sempre em casa? Márcia Peltier: Você ouve ele em casa? Maria Lúcia Araújo: Eu ouço o dia inteiro. Lá na Sociedade Viva Cazuza, os vídeos e músicas não páram. O João, por exemplo, não consegue ver vídeos do Cazuza, raramente. É mais forte que ele, ele não consegue. Cadão Volpato: O Cazuza gostava de se ouvir? Maria Lúcia Araújo: Não, odiava. Ele acabava de gravar um disco, não queria mais ouvir, esquecia. Se a gente pusesse, ele tirava. Márcia Peltier: E ele era crítico em relação à obra dele? Maria Lúcia Araújo: Muito crítico. Ele se reconhecia como talento, senão não teria continuado, ele era muito inteligente, ele sabia que ele era bom. Agora, ele não tinha a menor pretensão, outra grande qualidade dele. Márcia Peltier: Quer dizer, ele ouvia a música e fazia crítica sobre a música dele ou não? Maria Lúcia Araújo: Claro! Márcia Peltier: Aquela coisa: podia ter feito melhor. Maria Lúcia Araújo: Podia, mas isso todo artista é assim, não é? Quando acaba, acha sempre que podia ter feito melhor. Isso é próprio do artista, é sempre insatisfeito. Você sabe que, uma vez, ele estava fazendo um curso de teatro e fazia parte de um grupo que se chamava Nossa Senhora dos Navegantes. Eles montaram uma peça e ele pegou um terno do João, terno branco, novinho, do pai dele. Aí quando eu entrei no teatro, que era um teatro de arena, e vi o Cazuza cantando, eu quase caí da cadeira. Falei: "gente, esse menino canta, canta bem, eu não sabia, não é possível!". Marcos Augusto Gonçalves: Mas, em casa ele não cantava, Lucinha? Maria Lúcia Araújo: Ele cantava, mas eu não sei, eu acho que eu não prestava atenção ou então ele cantava escondido, cantava para dentro, porque não era possível... Pedro Bial: Ele já cantava desde muito cedo. Maria Lúcia Araújo: Já, ele sempre cantou. O Léo Jaime [ator, cantor e compositor brasileiro de muito sucesso da década de 80. Indicou Cazuza como vocalista da banda Barão Vermelho] foi que o descobriu, que deu o primeiro empurrão nele. E eu sei que no final da tal peça ele tirava o paletó branco, jogava no chão e todo mundo dançava em cima e eu só ficava pensando: "meu Deus! O paletó branco do João vai sair nojento daí!". Tive que correr para mandá-lo para o tintureiro. Matinas Suzuki: Lucinha, nós estamos chegando ao final do programa. Tem um telespectador aqui que não concorda com nada do que foi falado no programa e ele pergunta: "Você não está endeusando uma pessoa que sempre andou na contramão da moral e dos bons costumes e é um péssimo exemplo para os jovens de hoje?". Maria Lúcia Araújo: Por que ele diz que é contramão? Quem sabe se é a vida dele que está na contramão e ele não sabe, não é? Não estou fazendo apologia da vida do meu filho para ninguém, por favor. Matinas Suzuki: Desde que estou aqui nesse programa, há quase três anos, nunca recebi uma quantidade tão grande de mensagens de apoio. Vou tentar ler rapidamente essas mensagens para você. O Leandro Braga, de Juiz de Fora, diz que o Cazuza inspirou toda a geração dele. O Juliano Levi, de Porto Alegre, diz que os gaúchos gostam muito do seu trabalho e do trabalho do Cazuza, que torcem por você e pela sociedade. Paulo Pereira, de São Paulo, gostaria de parabenizar Lucinha pelo seu trabalho, desejar boa sorte. Sandra Bittencourt, do Rio Grande do Sul, te manda muitos beijos. A Patrícia Aguiar, de Belo Horizonte, quer parabenizá-la pelo filho maravilhoso que teve e está esperando o lançamento do livro em Belo Horizonte. Sandra Moreira: "Lucinha, te admiro muito. Você tem o endereço aqui em São Paulo para que eu possa ajudar com materiais para crianças e gêneros alimentícios?". Maria Lúcia Araújo: A Casa Vida, que eu sempre indico aqui em São Paulo, merece ser ajudada. Matinas Suzuki: O Roberto Rugere, de Pirituba: "Lucinha, não foi só você que perdeu o seu sonho, nós todos perdemos". A Mari, daqui de São Paulo: "Admirei muito o Cazuza pela sua luta contra a morte, ele sempre teve esperança na cura para ele e para outras pessoas". A Maria Aparecida Lender, do Butantã: "Lucinha, você disse que não sabe como a Sociedade Viva Cazuza sobreviveu. Só sobreviveu devido à sua dedicação, corpo técnico, competência, carinho e amor. Você tem Deus no coração". Maria Lúcia Araújo: Obrigada, muito obrigada! Matinas Suzuki: A Francineide Gadilha, de Manaus, gostaria de parabenizar a Lucinha pela sua coragem e por dar a cara para bater. A Maria de Lourdes, de São Bernardo do Campo: "Lucinha, não se pergunte mais onde errou, porque o Cazuza era iluminado e seu trabalho é uma bênção de Deus. Tenho certeza que ele está bem". A Rosângela Avena, de São Sebastião: "Parabéns pelo seu filho, foi um grande poeta". O Milton de Araújo: "Eu gostaria de mandar um grande beijo. Eu lhe admiro muito e sempre admirei e amei muito o Ídolo Cazuza". Leonice Pimenta, de Belo Horizonte: "Convivi alguns anos com o músico Cazuza, ele era maravilhoso, mas tinha a quem puxar: Lucinha, você é maravilhosa". Eu também recebi muitas mensagens na internet, de apoio e de solidariedade ao seu trabalho. Não vou conseguir ler tudo o que está na internet, mas vamos encaminhar todas essas mensagens à Lucinha. Agradeço a sua participação nesse programa que, realmente, teve uma quantidade imensa de mensagens. Maria Lúcia Araújo: Eu que agradeço a todos que vieram hoje aqui e me trataram muito bem. Vou ficar com o maior complexo! Matinas Suzuki: Quero agradecer aos nossos entrevistadores, hoje tivemos uma bancada realmente especial. Lembramos que o Roda Viva volta na próxima segunda-feira, às dez e meia da noite. Até lá, boa semana para todos e boa noite.
Marcio Mafra
02/12/2017 às 00:00
Brasília - DF

Livronautas faz, com frequência,  campanhas para receber livros usados para doações.  

Num dia de setembro um desse livros - não sei como - acabou na minha mesa de trabalho: “Cazuza - Só as Mães São Felizes”.

Nele a anotação na folha de rosto :”Mãe. Obrigada por acreditar em mim, por me acalentar e nunca desistir de mim. Que você seja a mãe mais feliz do mundo. Amo a senhora. Giselle.”