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Das Cobras Meu Veneno

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Das Cobras Meu Veneno

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Autor: Leila Jalul

Editora: Não Consta Editora

Assunto: Crônica

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 172

Ano de edição: 2010

Peso: 180 g

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Ótimo
Marcio Mafra
27/11/2017 às 23:34
Brasília - DF
Insinuante e rasteira, serpenteando, quando menos se espera, ou quando muito se procura, Leila Jalul surge em seu bote – com veneno, sim senhor – para nos levar ao desconhecido. Surpreendente, gostoso de ler, divertido, sagazes e inteligentes são quase todas as trinta e três crônicas da autora.

Marcio Mafra
27/11/2017 às 00:00
Brasília - DF

Trinta e três crônicas sobre pessoas, coisas, maridos, sacrilégios, virgens, carpideiras e outros fatos ou boatos do dia-a-dia, passados na cidade de Rio Branco, Capital do Estado do Acre. Cada uma dessas crônicas regadas com o doce veneno das cobras. 

Marcio Mafra
27/11/2017 às 00:00
Brasília - DF

Um Tapinha Dói

Já vou começar pedindo desculpas pela falta de jeito. Quando escrevo, além de mim, penso em quem poderá ler os escritos. Vou reprimindo os possíveis exageros e tratando de escolher palavras de sonoridades suaves, mesmo que contrastantes com a "sutileza" de minha alma herege.

Nem sempre dá. Vejam só: quero contar a história de uma amiga minha que gostava de apanhar para trepar.

Apanhava, trepava e pedia de novo para trepar, só para apanhar outra vez. Pronto, esse é o fito da crônica e o desejo da cronista. Traduzindo para um linguajar decente, apropriado para finos ouvidos, ficaria mais ou menos assim: a jovem de mente deturpada que tinha por gosto sofrer espancamentos para copular e, não satisfeita, pedia para copular, com o objetivo de novamente sofrer espancamentos. Coisa complicada! O leitor odeia a palavra cópula. Coito, rima com biscoito. Sem rimas, então. Fazer amor debaixo de porrada, no meu modesto sentir, é de tradução impossível. Conjunção carnal, comunhão de corpos é da literatura do tempo da tuberculose. Vou no popular, atendendo aos meus parcos refinos e ao destrambelhamento do linguajar corrente.

Não gosto de pancadaria. Odeio. Não faz meu gênero. Como no expressivo e conjuntural dizer de minha vizinha Raimunda, a lavadeira: "Não sou obrigada a gostar dessa Sedoma nem aprovar esses semiconflaites de modernidade."

O nome da distinta amiga é Rosa Amélia, mais conhecida como Rosélia, uma forma bonita de fundir seus nomes. Estão vendo como não sou de todo rude e que sei apreciar a sonoridade das palavras?

De certa feita, sem saber dessas excentricidades, fui convidada para comer um bobó de camarão com Rosélia, Mauro Roberto, seu algoz, e com Mariquinha, costureira e amiga comum. Tinha uma viagem marca da para Brasília no dia seguinte. Numa sacola, saindo da Universidade, acondicionei toda a papelada do reconhecimento do curso de Biologia, junto com o bilhete de passagem e mais uns trocados para voltar ao hotel. Assim, por volta do meio dia, cheguei em casa de Rosélia. Na cozinha, Mauro Roberto e Ticiana, a empregada, preparavam o bobó. Tudo no capricho! O cheiro do dendê varava as aberturas e as esquadrias da casa, matando de inveja os alunos do curso Nobel. A pimenta murupi, mon Dieu, era de matar o papa! Pura delicatesse da vecchia cuisine baiana adaptada ao paladar acreano.

Mauro Roberto, em gentilezas, desdobrava-se.

Lá de dentro, em meio a panelas e casseroles, gentilmente diz:

 

- Rosélia, amor, abra uma cervejinha e encontra o disco da Maysa. Quero que a amiga Leila escute nossa música. Anda, amor! Veja lá! Estou com as mãos sujas de gordura e feijão. Resolvi fritar os acarajés. Minha garganta está pedindo uma geladinha. Eu te amo, visse?

- Sou sua empregada não, viado! Se quiser, cerveja, venha pegar. Se quiser música, venha achar o disco.

Por dedução, acho que ela estava com vontade de trepar, digo, com vontade de apanhar, digo, não sei. Fiquei confusa.

Mauro Roberto ainda insistiu.

- Rosélinha, bem, custa?

- Foda-se! Custa, sim.

Na minha santa ingenuidade, ignorei a gravidade do clima. Mauro Roberto fechou-se em copas. Calou-se. Deve estar tudo bem, assim pensei. No entanto, em meio ao silêncio, percebo Ticiana, uma sirigaita de beiços pintados e bem atrevidinha, conversando muito alto com o periquito estrela que trazia no ombro lotado de merda verde.

Depois passou a cantar um brega que dizia mais ou menos assim: "Mulher revoltada, com tudo e com todos, não sabe o que quer. Se me condenas porque te troquei por outra mulher. .. mas eu te perdôo, levanto a cabeça e não falo nada    calado fiquei porque sei que tu és mulher revoltada"        e emendava: "Até parece uma cobra venenosa, você não tem é juízo , você, morena, é um perigo, o que a cobra fez com sapo, você quer fazer comigo". Passava entre os convidados dando rabissacas, torcendo o pescoço.

Fiquei ali. Entendendo nada! Nada! Estaria a empregada mandando algum recadinho? Sabe Deus!

 

Mauro Roberto deixa a cozinha, esboça um pálido sorriso, entra no quarto de som, escolhe o disco da Maysa e, voltando-se para mim, diz:

- Amiga, esta era a música que eu gostaria que ouvisse.

Só deu tempo de ouvir os primeiros acordes de Neme quitte pas.

- Rosélia, isso é para que você aprenda a respeitar o viado que vive com você, sua égua de merda!

Pou, pou! Dois tiros nas pernas da mulata. Por Jesus, nenhum atingiu. Eu e a costureira, quando nos demos por vivas, estávamos na esquina do Nobel, descalças, e, pior, famintas. Peguei um carro de aluguel, deixei Mariquinha em casa e rumei para o hotel. Como explicar o fato de não ter sapatos? Não explicando, ora, ora!

Rosélia, duas horas depois me aparece, pedindo para testemunhar o fato. Lá me toco para a DP, com fome, com sede e de havaianas. Diante do Delegado Colombo, desfiou seu rosário de lágrimas. Colombo parecia não ouvir e recomendou Rosélia a se instalar na casa de amigos ou num hotel. Ela optou pelo último e foi repousar numa suíte presidencial de um quase * * *. Fiquei novamente sem entender lhufas ... Ela se foi e, com toda a delicadeza do mundo, roguei ao xerife que buscasse a sacola com os documentos do curso de Biologia, meu bilhete de passagem para Brasílía e os trocados que tinha dentro.

- Dr. Colombinho, querido, pegue minhas coisas.

O homem está armado. Em nome da nossa amizade, por favor, pegue e deixe na portaria do Hotel Havaí, certo?

O diabo do "da lei" desandou a rir. Mais parecia uma gaveta velha arreganhada. Até que, com jeitão de malaco, me diz:

- Leila, mulher, toda semana é este circo. Rosélia trepa pra apanhar e apanha pra trepar.

- E é?

- É, mas fica calma. Vou pegar tuas coisas e deixar no local combinado. Amanhã estarás em Brasília, criatura.

- Obrigada, amigo. Muito obrigada.

O apanhado desta história de peias, bobós, acarajés, Ne me quitte pas, tiros e confusões é que Mauro Roberto e Rosélia vivem em perfeita união. Até hoje! Bem distante de mim, por sorte. Eu lá sabia que existiam essas coisas e esses tipos de gentes!

Roselia, infelizmente, mantém viva a máxima machista: o homem nunca sabe o porquê do bater; a mulher sempre sabe o porquê do apanhar.

Estou fora! 


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Marcio Mafra
27/11/2017 às 00:00
Brasília - DF

Em Julho de 2017 estive em Rio Branco e Cruzeiro do Sul, no estado do Acre. Trouxe diversos livros sobre a história do Acre e alguns de autores locais, como: O Regresso -  Sergio Santos. Das Cobras Meu Veneno – Leila Jalul Contestado – Walmor Santos O Inverno dos Anjos do Sol Poente – Cláudio Motta  


 

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