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A Guerra Não Tem Rosto de Mulher

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A Guerra Não Tem Rosto de Mulher

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Autor: Svetlana Aleksiévitch

Editora: Companhia das Letras

Assunto: Jornalismo

Traduzido por: Cecília Rosas

Páginas: 390

Ano de edição: 2016

Peso: 470 g

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Excelente
Marcio Mafra
14/04/2017 às 00:25
Brasília - DF
Svetlana Aleksiévitch, com o livro “A Guerra Não Tem Rosto de Mulher” recebeu o prêmio Nobel de Literatura de 2015.
Nunca qualquer autor ou historiador escreveu sobre as mulheres que foram para a 2ª Guerra.

Salvo uma ou outra exceção como a polonesa Krystyna Skarbek, a neozelandesa Nancy Wake, a francesa Andrée Borrel, a britânica Cecile Pearl Witherington e a americana Virginia Hall.

Na verdade, ninguém deu bola para quase um milhão de mulheres russas que enfrentaram os horrores da guerra. Essa visão feminina tem sido negligenciada ao longo dos anos.
Histórias da guerra são contadas pelos homens, só eles aparecem como heróis ou mártires, como se elas nem sequer tivessem lutado naquelas cruéis frentes de batalha contra os alemães nazistas.

Se não bastasse toda a angústia da guerra, ao longo do livro também se percebe que para as russas a guerra não terminou com o suicídio de Hitler.

Aquelas mulheres, ao retornarem para suas cidades de origem e tirarem suas pobres fardas não eram bem vistas pelas famílias que não foram para as frentes de batalha.

As guerreiras, todas ainda jovens, só foram úteis para lutar.

Após o “Dia da Vitória” ao retornarem para suas cidades, suas casas e famílias elas eram consideradas vadias, putas, e libertinas.
Mulheres mal vistas que não serviam para casar.

É um livro chocante, diferente, emocionante, sensacional. Leitura pra macho ficar comovido.

Marcio Mafra
14/04/2017 às 00:00
Brasília - DF

A Guerra Não Tem Rosto de Mulher são depoimentos pessoais e verdadeiros feitos à autora, pelas  mulheres soviéticas que lutaram na Segunda Guerra Mundial, e claro, não morreram.

Na época da guerra, durante os anos 1941 a 1945, quando a Alemanha invadiu a Rússia, perto de um milhão de mulheres foram recrutadas para lutar pela defesa da pátria.

Elas não passavam de mocinhas, quase meninas, com idades entre quinze e vinte cinco anos.

As batalhas eram muito cruéis, com normas definidas apenas por homens.

Elas não tinham sequer o direito de receber fardas apropriadas para mulheres.  

Lutavam como como fuzileiras, paraquedistas, infantaria e enfermeiras.

Neste livro se conhece os horrores e o heroísmo das russas, jamais valorizado pelos homens, nem pelos militares da Rússia ou de qualquer outro país.

 
Marcio Mafra
14/04/2017 às 00:00
Brasília - DF

 

História: Conheci pessoalmente a autora Svetlana Aleksiévitch, no dia 2 de julho, durante a Flip 2016, em Paraty, Rio de Janeiro. Ela deu o seu show, com platéia saindo pelo ladrão e aplaudida de pé. Pudera, era o Nobel de Literatura de 2015. Na verdade não entendi quase nada do que ela falou. A tradução simultânea não era lá essas coisas. Mas comprei “A Guerra Não Tem Rosto de Mulher” achando que seria um livro porre, de feminista desvairada como já conhecia muitas. Por desinteresse e falta de tempo só fui ler o livro um ano depois. Quebrei a cara. O livro é sensacional. Leitura pra macho ficar comovido. Pra mim o Nobel foi mais que merecido.

 

Trecho

‘SÓ OLHAR UMA VEZ…’

 

E agora, uma história de amor ...

O Amor é o único acontecimento pessoal na guerra. Todo o resto é coletivo - até a morte.

O que terminou sendo inesperado para mim? Que, sobre o amor, elas falassem de forma menos franca do que sobre a morte.

 

O tempo todo eu sentia que elas não contavam a história comple­ta, sempre paravam em algum ponto. Protegiam isso vigilante­mente. Existia entre elas um acordo não dito: daqui

Existia entre elas um acordo não dito: daqui pra frente é proibido. Baixa-se a cortina. Eu entendia do que elas se defendiam das  ofensas e calúnias do pós-guerra. Tinham levado a cul­pa! Depois da guerra, tiveram ainda uma outra guerra, não me­nos terrível do que aquela da qual voltavam. Se alguém decidia ser sincera até o fim, se deixava escapar uma confissão desesperada, invariavelmente vinha o pedido no fim: "Mude meu sobrenome'; ou "Na nossa época não era permitido falar disso em voz alta ... era indecente ... ". Escutei mais sobre o romântico e o trágico.

 

Claro, não é nem toda a vida, nem toda a verdade. Mas é a verdade delas. Como reconheceu sinceramente um escritor da geração da guerra: "Maldita seja a guerra, nosso momento triun­fal!". Essa era a senha, a epígrafe comum da vida deles.

 

E ainda assim: como era ele, o amor? Ao lado da morte ...


 

SOBRE A MULHER DOS DEMÔNIOS E AS ROSAS DE MAIO

 

''A guerra tirou o meu amor de mim ... Meu único amor ... Estavam bombardeando a cidade; minha irmã Nina veio correndo falar comigo, nos despedimos. Já pensávamos que não íamos mais nos ver. Ela me disse: 'Vou me juntar aos enfermeiros paramilitares, só preciso encontrá-los. E então eu entendi: olhei para ela, era verão, ela estava usando um vestido leve, e vi que ela tinha um sinal de nascença no ombro esquerdo, ali, perto do pes­coço. Era minha irmã, mas eu notei isso. Olhava e pensava: 'Vou reconhecê-Ia em qualquer lugar'.

 

E um sentimento tão pungente ... Um amor desses ... Me parte o coração ...

 

Todos estavam indo embora de Minsk. As estradas estavam sendo bombardeadas, Íamos pela floresta. Em algum lugar, uma menina gritava: 'Mamãe, a guerra'. Nossa unidade estava recuan­do. Íamos andando por um campo largo, o centeio espigando, e perto da estrada havia uma isbá camponesa baixa. Já estávamos no distrito de Smoliénsk ... Uma mulher estava postada ao lado da estrada, parecia maior que a casinha, toda vestida de linho bordado com um desenho tradicional russo. Ela cruzava as mãos no peito e fazia reverências profundas; os soldados passavam, ela fazia uma reverência para eles e dizia: 'Que o Senhor lhe permita voltar para casa'. Sabe? Ela se inclinava para cada um e falava isso.

 

Todos ficaram com lágrimas nos olhos .

 

Me lembrei dela por toda a guerra E ainda tem outra coisa, isso foi na Alemanha, quando estávamos perseguindo os alemães. Em algum povoado ... Vi duas alemãs sentadas no pátio, com suas touquinhas, bebendo café. Como se não estivesse acon­tecendo guerra nenhuma ... E pensei: 'Meu Deus, do nosso lado está tudo em ruínas, nossa gente está vivendo debaixo da terra, comendo grama, e vocês sentadas, tomando café'. Nossos veícu­los, nossos soldados passando ao lado ... E elas bebendo café ...

 

Depois viajei por nossa terra ... O que vi? No lugar de uma vila, sobrou só um fogão. Um velho estava sentado, e atrás dele três netos; pelo visto, tinha perdido o filho e a nora. A velha esta­va recolhendo tições para acender o fogão. Tinha uma peliça pen­durada, ou seja, tinham vindo da floresta. Não cozinhavam nada no fogão.

 

Um sentimento tão pungente ... Um amor desses ...

... Nosso trem parou. Não lembro o que aconteceu - est­ vam fazendo um conserto nos trilhos, ou iam mudar a locomoti­va. Eu estava sentada com uma enfermeira, e ao lado dois solda­dos nossos estavam cozinhando mingau. Saídos não sei de onde, dois prisioneiros alemães se aproximaram de nós e começaram a pedir para comer. Tínhamos pão. Pegamos uma bisnaga, parti­mos e demos para eles. Escutei a discussão dos soldados que esta­vam cozinhando mingau:

 

'Veja quanto pão as médicas deram para o nosso inimigo!', e depois algo como: será que elas sabem o que é a guerra de verda­de, ficam só nos hospitais, de onde vieram ...

 

Um tempo depois outros presos se aproximaram desses sol­dados que estavam cozinhando o mingau. E o mesmo soldado que havia pouco nos repreendera disse a um alemão:

 

'O que foi, quer rangar?'

 

E ele ficou lá ... Esperando. O outro soldado deu uma bisna­ga para o camarada.

 

'Certo, corte um pouco para ele.'

 

Ele cortou um pedaço para cada. Os alemães pegaram o pão e continuaram parados - olhando o mingau no fogo.

 

'Ah, está bem', disse um soldado, 'dê mingau para eles.'

'Mas ainda não está pronto.'

 

Entende?

 

E os alemães, como se também entendessem a língua, fica­ram parados. Esperando. Os soldados temperaram o mingau com sal e deram para eles em latas de conserva.

 

Esta é a alma do soldado russo. Nos julgaram, mas eles pró­prios deram pão, e ainda deram mingau, mas só depois de tempe­rar com sal. É isso o que eu me lembro.

 

E um sentimento tão pungente ... Tão forte ...

 

A guerra tinha terminado havia muito tempo ... Eu estava me preparando para ir a um balneário ... Foi exatamente na épo­ca da Crise dos Mísseis de Cuba. O mundo estava intranquilo de novo. Tudo se agitando. Estava fazendo a mala, pondo vestidos, casaquinhos. Parecia que eu estava me esquecendo de algo. Peguei a bolsa com os documentos e tirei de lá minha carteirinha militar. Pensei: 'Se acontece alguma coisa, vou na hora ao centro de alistamento'.

 

Já estava na praia, descansando, e contei para alguém no restaurante que viera com minha carteirinha militar. Falei assim, sem nenhuma intenção ou desejo de embelezar a história. Um homem que estava na nossa mesa ficou alvoroçado:

 

'Não, só uma mulher russa, quando vai para um balneário, leva a carteirinha militar e pensa que, se acontece algo, já vai dire­to para o centro de alistamento.'

 

Eu me lembro do estado de êxtase em que ele ficou. Da ad­miração. Meu marido me olhava assim. Com esse olhar ...

 

Desculpe por essa longa introdução ... Não sou capaz de contar na ordem. Meus pensamentos sempre saltam, os sentimentos irrompem ...

 

Eu e meu marido fomos juntos para o front. Os dois. Esqueci muita coisa. No entanto, todo dia me lembro de algo. A batalha terminou ... Não podia acreditar naquele silêncio.

 

Ele afagava a grama com as mãos, a grama suave ... E olhava para mim. Olhava ... Com uns olhos ...

 

Tinham saído em grupo para a prospecção. Esperamos dois dias ... Eu não dormi por dois dias ... Então cochilei. Acordei com ele sentado ao meu lado, olhando para mim. 'Durma.' 'Fico com pena de dormir.'

 

Um sentimento tão pungente ... Um amor desses ... Me par­te o coração.

 

Esqueci muita coisa, esqueci quase tudo. Achava que não ia esquecer. Que não esqueceria por nada.

 

Estávamos atravessando a Prússia Oriental, todos já estavam falando da Vitória. Ele morreu ... Morreu instantaneamente ... Pelos estilhaços ... Morte instantânea. Em um segundo. Me infor­maram que o corpo tinha sido trazido, corri para lá ... Eu o abra­cei e não deixei que o levassem. Para enterrar. Na guerra, faziam os enterros logo em seguida: no dia da morte, se a batalha era rápida, juntavam todos na hora, traziam de todos os lugares e cavavam uma grande fossa. Cobriam. Às vezes, só com areia seca.

E se você olhasse muito tempo para essa areia, parecia que ela se mexia. Tremia. A areia sacudia. Porque lá ... Para mim, ainda ha­via gente viva, estavam vivos havia pouco. Eu os via, falava com eles ... Não acreditava ... Todos nós andávamos por ali e não acre­ditávamos que eles tinham ido para lá ... Lá onde?

 

Não permiti que ele fosse enterrado ali. Queria que ainda tivéssemos mais uma noite. Deitar ao lado dele. Olhar ... Afagar ...

De manhã ... Decidi que o levaria para casa. Para a Bielorússia. E isso ficava a milhares de quilômetros. Estradas de guer­ra ... Uma confusão ... Todos achavam que eu tinha ficado louca de tanta dor. 'Você precisa se acalmar. Tem que dormir.' Não!

Não! Eu ia de um general a outro, e assim cheguei ao comandan­te do front, Rokossóvski. No começo ele recusou ... Estava louca!

Quantos já estavam enterrados em valas comuns, em terras es­trangeiras ...

 

Tentei mais uma audiência com ele:

'Quer que eu fique de joelhos?'

'Eu entendo ... Mas ele já está morto ... '

'Não tive filhos com ele. Nossa casa foi reduzida a cinzas. Até as fotografias foram perdidas. Não ficou nada. Se eu o levar para a nossa terra, restará ao menos o túmulo. E vou poder voltar para lá depois da guerra.'

 

Ele ficou calado. Andava pelo gabinete. Andava.

 

'O senhor já amou alguma vez, camarada marechal? Eu não estou enterrando meu marido, estou enterrando meu amor.'

Silêncio.

 

'Senão, também quero morrer aqui. Para que vou viver sem ele?'

Ele passou muito tempo calado. Depois, se aproximou e bei­jou minha mão.

 

Deram-me um avião especial por uma noite. Entrei no avião ... Abracei o caixão ... E perdi a consciência ... "

 

Efrossínia Grigórevna Breus, capitã, médica

 

''A guerra nos separou ... Meu marido foi para o front. Na evacuação, primeiro fui para Khárkov, depois para a Tartária. Ar­rumei um trabalho por lá. E então uma vez me procuraram, meu sobrenome de solteira é Lissóvskaia. Estavam todos me chaman­do: 'Sóvskaia! Sóvskaia!'. Respondi: 'Sou eu!'. Me disseram: 'Vá para a NKVD, pegue uma autorização, depois siga para Moscou'.

Por quê? Ninguém me explicou nada, e eu não sabia. Tempos de guerra ... Durante a viagem, pensava que meu marido talvez esti­vesse ferido, talvez estivessem me chamando para ficar com ele. Já tinha quatro meses que eu não sabia nada do paradeiro dele, nenhuma notícia. Estava determinada: se o encontrasse sem braços, sem pernas, inválido, eu o pegaria e levaria para casa imediata­mente. Viveríamos de alguma forma.

 

Cheguei a Moscou, fui até o endereço. Estava escrito: TSKKPB, * ou seja, nosso governo bielorrusso, e lá havia muita gente na mesma situação. Queríamos saber: 'O quê? Por quê? Para que nos reuniram?'. Disseram: 'Logo vão saber'. Reuniram todos em uma sala grande: lá estavam nosso secretário do Comitê Central da Bielorrússia, camarada Ponomarenko, e outros dirigentes. Per­guntaram para mim: 'Quer ir para o lugar de onde você veio?'.

Bem, eu vim da Bielorrússia. Claro que quero. Me colocaram em uma escola especial. Começaram a me preparar, depois me man­dariam para a retaguarda do inimigo.

 

Num dia terminamos o treinamento, já no dia seguinte nos puseram em veículos e nos levaram até a linha de frente. Depois fomos a pé. Eu não sabia o que era o front e como era a faixa neu­tra. Comando: 'Preparar! Prontidão ... '. 'Bum!' - atiraram o mís­sil. Vi a neve, branca, branca, e ali havia uma faixa de gente: éra­mos nós, deitados um após o outro. Havia muitos de nós. O míssil se apagou, não houve tiros. Mais um comando: 'Correrl', e saímos correndo. Passamos assim ...

 

No destacamento da resistência por algum milagre me chegou uma carta do meu marido. Foi algo tão alegre, tão inespera­do, fazia dois anos que eu não sabia nada dele. E então um avião jogou comida, munição ... E o correio ... E nesse correio, nesse saco de lona havia uma carta para mim. Então fiz um requeri­mento escrito para o comitê central. Escrevi que faria qualquer coisa para que eu e meu marido ficássemos juntos de novo. E dei a carta para o piloto, escondida do nosso comandante. Logo sou be as notícias: pelo serviço de comunicação, informaram que, depois do cumprimento da missão, estavam esperando nosso grupo em Moscou. Todo nosso grupo. Nos mandariam para outro lu­gar ... Todos deviam pegar o avião, e Fedossenko principalmente.

 

Esperávamos o avião, era de noite, estava escuro como breu.

E um avião voava em círculos, depois começou a nos bombar­dear. Era um Messerschmitt, os alemães localizaram nosso acam­pamento; ele deu mais uma volta. Nessa hora, o nosso avião, um U-2, desceu bem debaixo de um pinheiro, ao meu lado. O piloto mal aterrissou e já ia subir mais uma vez porque viu que o alemão estava fazendo a volta e atiraria de novo. Eu me agarrei na asa e gritei: 'Vou para Moscou! Tenho permissão!'. Ele até soltou uns palavrões: 'Suba!'. E assim voamos os dois. Nem feridos havia ...

Ninguém.

 

No mês de maio, em Moscou, eu andava de botas de feltro. Ia ao teatro usando botas de feltro. E era maravilhoso. Escrevia ao meu marido: quando nos encontramos? Por enquanto estou na reserva ... Mas me prometem ... Eu pedia por todos os lados:

mandem-me para onde está meu marido, deem-me nem que seja dois dias, quero só olhar para ele uma vez, depois volto e vocês me mandam para onde quiserem. Todos davam de ombros. Mas mes­mo assim eu sabia, pelo número do correio, onde meu marido estava combatendo, e viajei para encontrá-lo. Primeiro fui para o Comitê Regional do Partido, mostrei o endereço do meu marido e os documentos para provar que éramos casados e disse que queria me encontrar com ele. Me responderam que isso era im­possível, ele estava bem na linha de frente, me mandaram voltar, e eu estava tão abatida, tão faminta, como ia voltar? Fui falar com o comandante do centro de alistamento. Ele olhou para mim e or­denou que me dessem alguma coisa para vestir. Deram-me uma guimnastiorka e um cinto. Ele começou a me dissuadir:

'Está louca? O lugar onde está seu marido é muito peri­goso .. .'

 

Fiquei sentada, chorando, e então ele se compadeceu e me

deu uma autorização.

 

'Vá para a estrada', disse, 'lá há um controlador de tráfego;

ele vai lhe mostrar como ir.'

Encontrei aquela estrada, aquele controlador de tráfego, ele me pôs num carro e eu fui. Cheguei na unidade, lá todos se sur­preenderam, todos à minha volta eram militares. 'Quem é você?', perguntaram. Eu não podia dizer 'esposa'. Bem, como ia falar as­sim quando havia tanta bomba explodindo ao meu redor? Res­pondi que era irmã dele. Nem sei por que disse isso: irmã. 'Espe­re', me disseram, 'você ainda precisa andar seis quilômetros para chegar lá.' Como eu ia esperar, se já chegara tão longe? Justo de lá chegou um carro para pegar o almoço, e nele estava um subte­nente assim arruivado, sardento. Ele disse:

 

'Ah, eu conheço Fedossenko. Mas ele está bem na trincheira.'

Eu o convenci. Me mandaram para lá; quando estava indo, não se via nada nem ninguém ... Floresta ... Uma estrada pela flo­resta ... Para mim, era uma novidade: estava na linha de frente, e lá não havia ninguém. De vez em quando alguém atirava em al­gum lugar. Chegamos. O subtenente perguntou:

 

'Onde está Fedossenko?'

Responderam:

 

'Ontem eles saíram para um reconhecimento, acabou ama­nhecendo e eles tiveram que esperar lá.'

Mas tinham como se comunicar. Avisaram a ele que sua ir

ma viera. Que irmã? Disseram: 'A ruiva'. Mas a irmã dele era mo­

ren bem, se é ruiva, na hora ele adivinhou que irmã era. Não sei como ele escapou, mas Fedossenko logo apareceu, e então nos reencontramos. Foi uma felicidade ...

 

Fiquei com ele um dia, outro, e decidi:

'Vá para o estado-maior e informe a eles: vou ficar aqui com você.' 


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Marcio Mafra
14/04/2017 às 00:00
Brasília - DF

Conheci pessoalmente a autora Svetlana Aleksiévitch, no dia 2 de julho, durante a Flip 2016, em Paraty, Rio de Janeiro.

Ela deu o seu show, com platéia saindo pelo ladrão e aplaudida de pé.

Pudera, era o Nobel de Literatura de 2015.

Na verdade não entendi quase nada do que ela falou.

A tradução simultânea não era lá essas coisas.

Mas comprei “A Guerra Não Tem Rosto de Mulher” achando que seria um livro porre, de feminista desvairada como já conheci muitas.

Por desinteresse e falta de tempo só fui ler o livro um ano depois.

Quebrei a cara.

O livro é sensacional. Leitura pra macho ficar comovido. Pra mim o Nobel foi mais que merecido.

 

 

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