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Os Tijolos nas Paredes das Casas

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Os Tijolos nas Paredes das Casas

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Autor: Kate Tempest

Editora: Casa da Palavra

Assunto: Romance

Traduzido por: Daniela P B Dias

Páginas: 331

Ano de edição: 2016

Peso: 455 g

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Excelente
Marcio Mafra
03/12/2016 às 12:53
Brasília - DF
“Os Tijolos nas Paredes das Casas” conta a história de Becky, garçonete, dançarina e massagista; de Pete, um sonhador incorrigível, e de Harry bem sucedida traficante de drogas e irmã de Pete.

A história começa com a fuga desesperada pelas ruas de Londres, de Becky e Harry, num velho automóvel e em alta velocidade, dirigido por Leon.
Fugiram após um desentendimento com o novo fornecedor de drogas e roubaram todo o dinheiro dele, que estava sobre a mesma mesa onde estava a cocaína.
Leon era um tipo de assessor e protetor de Harry, tanto na fuga como no assalto.

Na sequência o leitor percebe o talento da escritora, que passa a narrar em “flash back” a história dos três jovens e principais personagens.
O livro vai passando a história de cada um deles, na cidade de Londres, cujo brilho das drogas está por toda parte.

Numa linguagem pura e despudorada Kate Tempest vai falando da vida passada, as alegrias, os conflitos, as manias, as famílias, os vícios, as dúvidas e as taras de Pete, Leon, Becky e Harry.

Nesse romance ninguém é insignificante; todo mundo tem uma história.

O título que a editora escolheu para o livro reflete mesmo os tijolos nas paredes das casas de Londres.

Leitura empolgante. Livro excelente.

Marcio Mafra
03/12/2016 às 00:00
Brasília - DF

A história de Becky, Leon e Harry, que fogem em debelada carreira pelas ruas de Londres, num velho automóvel. Harry era traficante de drogas, se desentende com seu novo fornecedor e, após uma discussão, rouba-lhe uma mala cheia de dinheiro e um grande tijolo de cocaína.

 
Marcio Mafra
03/12/2016 às 00:00
Brasília - DF

ESPAÇONAVE FRIA NA NOITE QUENTE

 

Harry está segurando um maço de dinheiro. Ela vai começar a contar as notas pela quarta vez. As meias que usa estão grandes demais, frouxas ao redor dos tornozelos. Ela detesta usá-Ias assim, mas não teve tempo de lavar a roupa e sempre usa as melhores meias primeiro. Ela está com um batom vermelho-vivo. Às vezes, quando vai contar seu dinheiro, ela gosta de passar batom e esticar o cabelo para trás, como o de um toureiro espanhol.

 

Leon está descendo as escadas que dão para a sala. As passadas dele são leves, mas Harry as escuta da mesma maneira que uma pessoa ouve as próprias pernas se mexendo. Sabe por instinto em que parte da casa ele está. Leon para na entrada da cozinha.

 

- Tudo certo? - pergunta Harry, sem tirar os olhos do dinheiro.

 

- Tranquilo - responde ele, indo até a geladeira e abrindo a porta para espiar lá dentro.

- Quer uma cerveja? - pergunta.

- Pode ser - diz ela, contando as notas.

Leon puxa uma cerveja da geladeira, abre, passa para ela, depois pega outra para si mesmo e se joga pesadamente numa das cadeiras da mesa, de frente para o lugar onde Harry está.

 

- Quanto nós temos? - pergunta ele, sem erguer os olhos da sua garrafa.

- Seiscentos e setenta mil. - Harry sopra o ar pelos lábios franzidos.

- Com isto aqui e mais o que está guardado. Em uns sete, oito meses conseguimos fechar a conta. Talvez antes.

 

A mãe de Leon, Jackie, tinha fugido de casa aos 15 anos para encontrar um tio que nunca conhecera, mas de quem ouvira falar a vida toda.

Alistair McAlister era irmão gêmeo da sua mãe. Era um jóquei famoso com um casarão e uma esposa pop-star. E morava em Londres, onde todo mun­do era lindo e rico. O espectro descorado que Jackie tinha como pai havia perdido o emprego e nunca mais achara a própria dignidade. Eles moravam numa cidade litorânea perto de Middlesbrough; um lugar onde não havia nada para ela. Só o mar e os pubs e o pai atrás de um emprego. A mãe, usuária pesada de drogas, tinha saído pouco a pouco da vida dos dois. Fazia muitos anos que já não morava em casa. Não chegaram a acontecer brigas nem portas batidas. Um dia ela simplesmente foi embora, sem dizer nada.

O seu vício era uma coisa lenta e triste e silenciosa. Jackie a via de vez em quan­do sentada com os outros na rua principal, enrugada e magra feito a chuva.

Jackie não achava que sentia falta dela, mas a ausência da mãe deixara o pai à deriva. O silêncio na casa era ainda mais forte que o cheiro de umidade.

 

Jackie se sentava com o pai para ver a vida dos outros pela Tv. Os astros das novelas tinham casos amorosos e jaquetas de couro. Crianças iam à escola e tinham sonhos e aventuras. Os jovens tinham romance e tendências de moda. Jackie era uma adolescente solitária que não sabia em que acreditar. Numa noite escura de inverno, um comercial explodiu sala adentro. O tio Alistair sorriu para eles de um estúdio iluminado. Ele estava lançando um novo programa de variedades. Celebridades esportivas davam risada enquanto ele tentava derrotá-Ias na corrida do ovo na colher.

Ele estava usando um terno caro e sapatos de verniz. As cores se chocaram como ondas contra os móveis capengas da casa deles. Os dois, sentados ali no sofá, de repente se viram afogados numa claridade efervescente multi­ cor. O pai de Jackie soltou um tsc reprovador, mas ela sabia que havia uma dose de admiração na reação dele.

 

A mãe de Jackie sempre havia detestado o irmão e não fazia questão de ocultar isso. Jackie tinha estado com ele umas poucas vezes, e só quando era pequena demais para conseguir se lembrar. Era a maneira como Alis­tair havia desejado uma coisa na vida e nem por um instante pensado que não deveria ter essa coisa que incomodava tanto a mãe dela, era da força de vontade dele que ela tanto desconfiava. Mas lá estava ele. Na televisão.

Jackie sentiu seu coração bater mais fundo, todo um grande subwoofer, sem mid-range.

As amizades que ela tinha eram fugazes, isso quando chegavam a exis­tir. Jackie nunca tivera uma melhor amiga, um namorado ou mesmo ami­gos invisíveis. Ela era a garota quieta de gestos nervosos, a que cheirava mal e sofria bullying por causa disso. Em casa não havia quem lhe desse banho ou lavasse as roupas, e os seus olhos cinzentos velozes tinham que saber en­contrar a própria comida. Mas num dia frio de junho ela acordou com um calor nas têmporas, talvez uma febre, talvez uma fúria.

Quando deu meio­-dia, Jackie se viu correndo pelas pedras úmidas da sua cidade natal rumo à estação do trem. No céu, notou um clarão repentino. Uma sirene gemeu no peito. Ela tinha certeza de que o clarão tivera a forma de um disco.

Uma luz branca brilhante. Jackie sempre havia acreditado em alienígenas. Ela sabia que eles existiam em algum lugar por aí e que ficariam do seu lado. Olhou outra vez, mas o céu estava cinza e vazio. E ela soube que esse era o jeito de eles lhe dizerem que estava certa em ter tomado a decisão de fugir. Essa certeza lhe abriu um sorriso culpado no rosto enquanto Jackie passava apressada pela porta giratória. Com o corpo bem apertado contra o da mulher à sua frente, ela se esgueirou para dentro da plataforma sem ter uma passagem.

 

Jackie chegou a Londres sem nada. Ela passara a viagem toda se escondendo do homem que checava os bilhetes no banheiro do trem. Apavorada. Ela saltou para a gare imensa de St. Pancras e sentiu de repente o peso da sua fuga. Todos aqueles desconhecidos, desconhe­cidos altos e adultos, andando com caras sérias para um lado e para o outro. Correndo para embarcar em trens que Jackie imaginava que os levariam para lugares cheios de amor e de supermodelos. Ela começou a repreender a si mesma. Ouviu as vogais sincopadas do pai na sua cabeça e beliscou os próprios braços como forma de se castigar. Ela ainda tentou resistir, mas sentiu a coisa se esgueirando para perto. E começou a chorar.

 

Lily Peake, a esposa de James Peake, estava a caminho de casa depois de ter visitado o túmulo de sua mãe. Mergulhada em reflexões, ela caminhou pelo átrio da estação sentindo com mais força a presença da mãe do que jamais sentira enquanto ela estava viva. Em vida, a mãe fora uma fonte de constrangimentos para Lily. Uma criatura esquisita e que parecia tão inclinada para a fragilidade que ela mal suportava os encontros ocasionais que tinham, sentada diante de bolos com creme numa casa de chá de Londres. Mas a morte fez Lily ver a mãe sob uma nova luz. Ela percebeu que o que ela tanto cultivara não era fraqueza, mas honestidade.

Caminhando pela estação, ela sentia um desejo insuportável de poder estar junto da mãe mais uma vez. De poder observar a maneira como as rugas ondulavam para revelar as expressões que ela tivera diante dos seus olhos desde que os abrira pela primeira vez. Em meio a uma desolação dolorida, ela percebeu que seria capaz de dar qualquer coisa para passar uma hora incômoda ouvindo as opiniões anacrônicas da mãe. Lily não conseguiu se conter; ela começou a chorar.

 

E lá estavam elas, a mulher chorando e a menina chorando. A menos de três metros de distância uma da outra. Jackie, com o corpo meio dobra­do, mas ainda avançando pelo meio da multidão. Lily, mais controlada, mas deixando as lágrimas escorrerem livremente. E, de repente, pelo meio das suas lágrimas, os olhares das duas se cruzaram. Lily ficou chocada com aquela menina assustada. Uma criança de cara suja, chorando. Miúda de corpo e esquelética e desesperada, mas exalando uma calma que não via desde o último olhar trocado com a sua mãe. Lily Peake sempre havia acre­ditado em sinais. Ela enxugou os olhos e tratou de se recompor e ofereceu a Jackie um sorriso que puxou das profundezas do seu ser.

 

Jackie se assustou. Ela correu pela estação, e tropeçou em alças de malas e esbarrou em adolescentes mal-humorados. Os seus ombros os­ sudos espetaram cinturas rechonchudas, as pessoas gritaram com ela en­quanto ela se esquivava e corria em direção à saída. Lily, ainda em choque e com os movimentos lentos, ficou olhando a menina escapar. Mas a sua mente correu depressa. Ela foi atrás da outra antes de saber que estava fazendo isso.

 

- Ei! - Lily escutou uma voz. - O que você pensa que está fazendo?

 

- Era um homem imponente, com a careca brilhosa. Gordo e indignado, o conteúdo da sua valise espalhado no chão. Papéis importantes sendo so­prados pelo vento dos trens de partida, esvoaçando para longe em todas as direções. Ele estrilou e bufou e gritou e, quando Lily abriu caminho pelo meio da multidão, ela viu que ele estava agarrando o ombro da garota.

 

- Olha só o que você fez!

 

A menina tinha um ar de pânico, parecia fraca. Lily correu para aju­dar. Ela partilhava um pouco da tendência do marido de se colocar na posição de salvadora. Isso era produto da riqueza dos dois, da sua boa educação, do seu senso aguçado de moralidade, e também do seu genuíno, embora muitas vezes equivocado, impulso liberal por fazer o bem.

 

- O senhor deveria se envergonhar - disse ela ao homem gordo. ­

Segurando desse jeito uma pobre criança!

- Está com você, essa aqui? - O homem ainda estava segurando a garota pelo ombro. Com força. Jackie sentia o ombro doer embaixo do polegar dele. Ela não se mexeu.

 

- Ela está comigo, sim - falou Lily, piscando o olho para a garota.

 

- Bem, pois trate de controlar melhor a sua guria. Ela esbarrou em mim depois de ter saído do meio do nada, derrubou a pasta no chão e olhe só a bagunça que fez.

- Ah, nós sentimos muito pelo transtorno. Não é mesmo, querida? ­

Lily envolveu a menina nos braços, e quando ela fez isso o homem soltou a mão do seu ombro. - Só estávamos apressadas para pegar o trem. - E, tendo dito isso, Lily, com o coração batendo de um jeito como nunca havia sentido bater na vida, começou a correr com a garota. Juntas elas dispara­ram desajeitadamente para fora da estação e irromperam porta adentro do primeiro prédio que viram pela frente. Um pub. Cheio de fumaça e tecido xadrez e risadas altas. Recuperando o fôlego, sorriram uma para a outra.

 

- Bem - disse Lily, enxugando as lágrimas do seu rosto. - Já que nós estamos aqui, por que não aproveitamos para comer alguma coisa?

E Jackie se viu indo para a casa de Lily Peake nessa noite, e foi assim que, na manhã seguinte, ela conheceu Alfredo, o jovem amigo de James, marido de Lily. Alfredo era um estrangeiro que vivia no anexo instalado no sótão do casarão de frente para o parque. Dos canos, jorrava água farta aquecida pela fornalha que ficava no porão da residência. James trazia caroços de azeitona que sobravam na delicatéssen grega que havia no início da rua e os usava para alimentar a fornalha que aquecia a casa. Jackie ficou empolgada demais com tudo o que estava vendo; dias inteiros se passaram e ela teve certeza de que não tinha nem piscado os olhos um instante que fosse. Quando se deitava para dormir à noite, estava sempre exausta e confusa.

 

A presença de Alfredo lhe provocava excitação. Sempre que o via, ela sentia pontadas no céu da boca e no estômago. Ele era quieto como ela própria. E pisava o chão com cautela, como ela fazia.

 

Alfredo ficou fascinado por Jackie. Ela parecia tão deslocada quanto ele, e tão determinada e cheia de sofrimento também. Eles se sentavam à mesa do jantar com Lily e James Peake, o casal simpático, rico e sem filhos que havia acolhido os dois.

 

Eles se cruzavam no corredor da casa e sentiam o corpo um do outro mudar com a proximidade, algumas partes lá dentro querendo vir para fora. Ansiando por estarem juntos um do outro. Alfredo sentia a pequenez dela e tinha vontade de carregá-Ia nos braços. Sendo, ele mesmo, um ho­mem miúdo. Ou nem bem um homem ainda, um menino.

 

Foi assim que os dois se apaixonaram. À sua maneira quieta de ser.

Eles mal se falavam, mas ela escapou para o quarto dele à noite, incapaz de ficar distante.

 

E trocaram toques em silêncio, ávidos. Os olhos dele como poços de terra preta e úmida, os dela azuis e velozes como o vento.

 

No andar de cima, no seu sótão, Alfredo repetia frases e memorizava textos, preparando-se para o exame de admissão sob a orientação paciente e atenta de James. Lá embaixo, pela porta dos fundos, Jackie - varada de medo - escapuliu para a noite e correu e correu e correu.

 

Ela nunca encontrou o tio. Não chegou sequer a procurar por ele.

 

Em vez disso, se virou sozinha - ficou sendo só mais uma adolescente, grávida e solitária pelas ruas desalmadas de Londres.

 

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Marcio Mafra
03/12/2016 às 00:00
Brasília - DF

A escritora Kate Tempest, compositora de "rapp" e poeta premiada na Inglaterra, foi demoradamente aplaudida quando declamou dois longos poemas na Flip de 2016, em Paraty-Rj. Ela conquistou o público, mesmo tendo lido os poemas em inglês e sem tradução simultânea. Kate, ganhadora de prêmios de poesia, também é conhecida por misturar mitologia com o estilo "cultura das ruas". A alternativa foi comprar seu livro “Os Tijolos nas Paredes das Casas” lançamento no Brasil e na livraria da FLIP, até porque ninguém passa pela FLIP impunemente.

 

 

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