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Православная Библия на русском языке (A Bíblia Ortodoxa em Russo)

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Православная Библия на русском языке  (A Bíblia Ortodoxa em Russo)

Livro Muito Bom - 1 opinião

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Autor: Deus

Editora: Não Consta Editora

Assunto: Biblia

Traduzido por: Livro Editado em Russo

Páginas: 1371

Ano de edição: 2011

Peso: 1.385 g

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Muito bom
Marcio Mafra
19/11/2016 às 22:44
Brasília - DF
Если читатель считает Библию как книгу молитв, будь католической, протестантской, православной греческой или русский, Евангелическо, Муслим, Спиритуалисте, еврейской или любой другой деноминации, расы, вероисповедания и религии, то это не для каких-либо комментариев. Было бы бесполезно обсуждать его в этом свете. Эта версия, на русском языке, а также всех других, есть очень красивые отрывки и выдержки стихи и литературные конструкции завидовать талант писателя. Но введение Библии, как в западном христианском мире или православные и мусульманин - просто - трусость: чистая угроза. Если вы не верите, вы идете в ад, к вечной смерти, или будет наказан в некотором роде.

Se o leitor considerar a bíblia como um livro de orações, seja católica, protestante, ortodoxa grega ou russa, evangélica, mulçumana, espírita, hebraica ou de qualquer outra denominação, raça, credo e religião, então não cabe nenhum comentário. Seria inútil comentá-lo sob este prisma. Esta versão, no idioma russo, assim como todas as demais, têm passagens muito bonitas e alguns trechos são poemas e construções literárias de fazer inveja à escritor de talento. Mas a imposição da bíblia como se faz no mundo cristão ocidental ou ortodoxo e mulçumano é - simplesmente - uma covardia: ameaça pura. Se não acreditar, vai para o inferno, para a morte eterna, ou vai ser castigado de alguma forma.


Marcio Mafra
19/11/2016 às 00:00
Brasília - DF

Русская православная Библия состоит из Нового Завета (Евангелия, Деяния, Послания и Откровение), известный, но основан на греческом тексте Ветхого Завета называется Септуагинта, который был использован Христом, апостолами, для всей Церкви, чтобы в четвертом веке, на протяжении всей эпохи Римской империи, и даже сегодня читается в русской литургии.


A Bíblia ortodoxa russa é constituída dos livros do Novo Testamento (Evangelhos, Atos, Epístolas e Apocalipse) conhecidos, porém é baseada na versão em grego do Velho Testamento, chamada Septuaginta, que foi utilizada por Cristo, pelos Apóstolos, por toda a Igreja até o século IV, por toda a era do Império Romano e até os dias de hoje é lida na Liturgia Russa.

Marcio Mafra
19/11/2016 às 00:00
Brasília - DF

Я, которого Я взял концы земли и призвал от самых отдаленных уголков; а кто сказал, Ты раб Мой, Я избрал тебя, и ты не отвергается,

 

Не бойся, ибо Я с тобою; не смущайся, ибо Я Бог твой; Я укреплю тебя, и помогу тебе, и вы продолжаете с моим праведным правой рукой.

 

Здесь постыдятся и посрамятся, что будет все, враждовавшие против тебя; Они будут сведены к нулю, и спорящие с тобою погибнет.

 

Те, кто сражается против вас, заставить его увядать, но не найдет; Они будут сведены к нулю и ничего не стоит тех, кто ведет войну против вас.

 

Поскольку I. Господь Бог твой; держу тебя за правую руку твою, говорю тебе, не бойся, я помогу тебе.

 

Tu a quem tomei das extremidades da terra e chamei dos seus cantos mais remotos; e a quem disse: Tu és o meu servo, eu te escolhi e não te rejeitei,

Não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou o teu Deus; eu te fortaleço, e te ajudo, e te sustento com a minha destra fiel.

Eis que envergonhados e confundidos serão todos os que estão indignados contra ti; serão reduzidos a nada, e os que contendem, contigo perecerão.

Aos que pelejam contra ti, buscá-lo-ás, porém não os acharás; serão reduzidos a nada e a cousa de nenhum valor os que fazem guerra contra ti.

Porque eu. O Senhor teu Deus, te tomo pela tua mão direita, e te digo: Não temas que eu te ajudo.


  • Deus - Uma Biografia

    Autor: José Lopes e Alexandre Versignassi

    Veículo: Revista Super Interessante

    Fonte: Revista Super Interessante, Editora Abril, Novembro 2010, Edição 284.

    Em 8 de dezembro de 2010, foi publicada na revista Super Interessante, um excelente artigo que define Deus, sob o titulo:
    Deus - Uma Biografia.
    É um texto de José Lopes e Alexandre Versignassi.
    Transcrição integral da Revista Super Interessante, Editora Abril, Novembro 2010, Edição 284.
    Pesquisadores revelam que Javé, o grande personagem da Bíblia, não foi visto sempre como Deus único. Antes do Livro Sagrado, Ele erá só mais um entre muitas divindades.
    Saiba como Deus Conquistou Seu espaço no céu. E na Terra. Deus criou o Universo. Deus está em todos os lugares. Deus é a força que nos une. Cada sociedade vê a figura do Criador à sua maneira. Cada indivíduo, até.
    Para Einstein, Ele era as leis que governam o tempo e o espaço - a natureza em sua acepção mais profunda.
    Para os ateus, Deus é uma ilusão.
    Para o papa Bento 16, é o amor, a caridade. "Quem ama habita Deus; ao mesmo tempo, Deus habita quem ama", escreveu em sua primeira encíclica.
    Pontos de vista à parte, toda cultura humana já teve seu Deus. Seus deuses, na maioria dos casos: seres divinos que interagiam entre si em mitologias de enredo farto, recheadas de brigas, lágrimas, reconciliações. Os deuses eram humanos. Mas isso mudou. A imagem divina que se consolidou é bem diferente. Deus ganhou letra maiúscula na cultura ocidental. Os panteões divinos acabaram. Deus tornou -se único. É o Deus da Bíblia, Javé, o criador da luz e da humanidade. O pai de Jesus.
    Essa concepção, que hoje parece eterna, de tanto que a conhecemos, não nasceu pronta. Ela é fruto de fatos históricos que aconteceram antes de a Bíblia ter sido escrita. O próprio Javé já foi uma divindade entre muitas. Fez parte de um panteão do qual não era nem o chefe. O fato de ele ter se tornado o Deus supremo, então, é marcante: se fosse entre os deuses gregos, seria como se uma divindade de baixo escalão, como o Cupido, tivesse ascendido a uma posição maior que a de Zeus
    É essa história que vamos contar aqui. A história de Javé, a figura que começou como um pequeno deus do deserto e depois moldaria a forma como cada um de nós entende a ideia de Deus, não importando quem ou o que Deus seja para você. Deuses nasceram do pôquer. A crença em divindades provavelmente vem da capacidade humana de detectar as intenções das outras pessoas. Somos muito bons nisso desde que surgimos, há 200 mil anos, e precisamos ser mesmo, porque o Homo sapiens sempre levou a vida social mais complicada do reino animal, sempre em comunidades cheias de intrigas, fingimentos, traições.
    Saber o que se passa na cabeça do outro era questão de sobrevivência - e até certo ponto ainda é. E a melhor maneira de tentar se antecipar a um adversário nos jogos mentais do dia a dia é imaginar as intenções dele: "O que será que ele pensa que eu estou pensando?" Nosso cérebro é uma máquina de pôquer.
    Pesquisadores como o antropólogo francês Pascal Boyer defendem que esse sistema de detecção de intenções pode acabar aplicado a coisas que não têm intenções de nenhum tipo - como a chuva, ou o Sol. A ideia de que há espíritos de toda sorte da natureza seria, assim, um efeito colateral do nosso sistema de detecção de mentes, tão hiperativo.
    Por esse ponto de vista, a espiritualidade faz parte dos nossos instintos. É quase tão natural acreditar em divindades quanto comer ou dormir. Cada fenômeno da natureza, então, representava as intenções de alguma divindade. É como ainda acontece nas tribos de caçadores-coletores de hoje. Entre os índios tupis, os trovões são a raiva do deus Tupã. E fim de papo.
    Obras de arte de mais de 30 mil anos atrás dão outra pista sobre essa espiritualidade primitiva - que podemos chamar de "infância de Deus" (no caso, dos deuses). Elas mostram seres que misturam características humanas e animais - sujeitos com cabeça de leão ou de rena e corpo de gente, por exemplo. Acredita-se que essas criaturas híbridas representem um tipo de crença que ainda é comum nas tribos indígenas: a de que não haveria separação rígida entre o mundo dos humanos, o dos animais e a o dos espíritos.
    Seria possível transitar entre essas esferas se você possuísse o conhecimento correto, e, em tese, qualquer falecido, seja pessoa, seja bicho,pode ter um papel parecido com o que associamos normalmente a um deus. Os deuses abandonam de vez as feições animais quando os bichos se tornam menos importantes no nosso cotidiano. Foi precisamente o que aconteceu quando a agricultura foi criada, há 10 mil anos, no Oriente Médio. Graças a ela, montamos as primeiras cidades. E a nossa espiritualidade progrediria junto: acabaria bem mais centrada nas pessoas que na natureza selvagem. Há sinais de que ancestrais mortos eram as grandes entidades com status divino nessas primeiras cidades.
    Um exemplo arqueológico vem de escavações em Jericó, uma das mais antigas aglomerações humanas, que hoje fica no território palestino da Cisjordânia. Os habitantes de Jericó enterravam o corpo de seus mortos, mas guardavam o crânio, que era recoberto com camadas de gesso e tinta, simulando o rosto humano. Assim preparada, a caveira talvez servisse de oráculo doméstico - uma espécie de deus particular para cada família. Os artesãos de crânios de Jericó não tinham escrita - aliás, passariam mais de 5 mil anos até que essa tecnologia fosse inventada. Quando isso finalmente aconteceu, em torno do ano 2000 a.c., os deuses ficaram bem mais sofisticados.
    Entraram em cena criaturas ao estilo dos habitantes do Olimpo na mitologia grega. Em parte, alguns deles até eram mesmo personificações das forças da natureza, mas agora eles ganhavam personalidades e biografias complexas. É aí que está a origem do grande personagem desta história: Javé, uma divindade que provavelmente começou como um deus menor, cultuado por nômades. Bem antes de a Bíblia ser escrita. Ele começou de baixo. Era só mais um deus entre vários outros de sua região. Só que na Bíblia Javé é identificado como o Deus único.
    Hoje, cogitar a existência de outras divindades que teriam convivido com o Senhor da Bíblia é um absurdo do ponto de vista religioso. Mas não do ponto de vista científico. Pesquisadores de várias áreas - arqueólogos, linguistas, teólogos - estão encontrando pistas sobre uma provável "vida pregressa" de Javé. Uma vida mitológica que ele teve antes de seu nome ir parar na Bíblia como o da entidade que criou tudo.
    Onde pesquisar isso? A própria Bíblia é uma fonte. O Livro Sagrado não foi feito de uma vez. Trata-se de uma coleção de textos escritos ao longo de séculos. O Pentateuco, os 5 primeiros livros da Bíblia, foi finalizado por volta de 550 a.c. Mas há textos ali de 1000 a.c., ou de antes. E nada disso foi editado em ordem cronológica - em grande parte, a Bíblia é uma junção de textos independentes, cada um escrito em tempos e realidades diferentes. Como saber a que tempo e a que realidade cada um pertence? Pela linguagem. Pesquisadores analisam as expressões do texto original, em hebraico, e vão comparando com a de documentos enconntrados em escavações arqueológicas, cuja datação é fácil de determinar.
    Com esse método, chegaram a uma descoberta reeveladora. Alguns poemas da Bíblia dão a entender que Javé era uma divindade de lugares chamados Teiman ou Paran - dizendo literalmente que o deus veio dessas regiões. E esses textos estão justamente entre os mais antigos - se a língua do livro fosse o português moderno, eles estariam mais para Camões.
    Teiman e Paran eram lugares desérticos fora das fronteiras onde viviam os homens que escreveram a Bíblia. Não se sabe exatamente que regiões eram essas, já que os nomes dos territórios vão mudando ao longo dos séculos. "Mas arqueólogos supõem que essa região seja no noroeste da atual Arábia Saudita", diz Mark Smith, professor de estudos bíblicos da Universidade de Nova York. E isso diz muito.
    Os autores dos primeiros textos da Bíblia viviam na antiga Canaã - uma região do Oriente Médio onde hoje estão Israel, os territórios palestinos e partes da Síria e do Libano. Ali se formaram algumas das primeiras civilizações da história, há 10 mil anos. E por volta de 1000 a.c. já era um território disputado (como nunca deixou de ser, por sinal). Estava dividido numa miríade de tribos, as dos israelitas, a dos hititas, a dos jebedeus ... Apesar das rivalidades, todas tinham culturas parecidas. Reverenciavam o mesmo panteão de deuses, por exemplo.
    Mas Javé, pelo jeito, não era um deles. Teria sido importado das áreas mais desérticas do sul. Outra evidência disso é a associação de seu nome com os chamados shasu. Shasu é um termo egípcio que significa "nômade" ou "beduíno". Algumas inscrições egípcias mencionam um "Javé dos Shasu". Uma possibilidade, então, é que nômades do deserto teriam se incorporado às tribos israelitas, trazendo o novo deus com eles. Essa divindade se embrenharia no meio da grande mitologia desse povo: o panteão de deuses cananeus.
    Mas quem eram essas divindades? As melhores pistas a esse respeito vêm de Ugarit, uma antiga cidade encontrada durante escavações arqueológicas na atual Síria. Ela foi destruída por invasores em 1200 a.c., quando os israelitas ainda eram um povo em formação. As inscrições encontradas ali, então, servem como uma cápsula do tempo. Revelam o contexto cultural em que nasceu a mitologia israelita, mostra como era a mitologia dos antepassados dos escritores da Bíblia. E os deuses em que eles acreditavam seriam fundamentais para a biografia de Javé.
    O panteão de Ugarit é bem grandinho, mas algumas figuras se destacam. Há o pai dos deuses e dos homens, o idoso, bondoso e barbudo El; sua esposa, Asherah, deusa da vegetação e da fertilidade; a filha dos dois, Anat, feroz deusa do amor; e o filho adotivo do casal, Baal, deus da guerra e da tempestade que morre, ressuscita e derrota as divindades malignas Yamm (o Mar) e Mot (a Morte).
    Muitos estudiosos especulam que as tribos issraelitas originalmente tinham El como seu deus supremo. Afinal, o nome do povo bíblico também termina com o elemento -el. "Esse tipo de nome próprio, conhecido como teofórico ('portador de um deus', em grego), costuma dar pistas sobre o ente divino que o dono do nome venera", diz Airton José da Silva, professor de Antigo Testamento da Arquidiocese de Ribeirão Preto. Mas os indícios a respeito de El vão além da nomenclatura. O deus cananeu também tem uma relação especial com os chefes de clãs, prometendo-lhes uma vasta descendência - exatamente o que Deus faria depois na Bíblia ao selar uma aliança com os ancestrais dos israelitas, Abraão, Isaac e Jacó. "El é o deus desses patriarcas", diz Christine Hayes, professora de estudos judaicos de Yale.
    Uma ameaça pairava sobre os deuses de Canaã. Era a ambição de Javé. O novo deus começou a buscar seu lugar entre as antigas divindades cananeias. E teve sucesso. Com sua personalidade forte, foi ganhando espaço dentro da mitologia israelita, tomando o terreno dos deuses criados pelos povos cananeus. A maior prova disso está em outro texto poético dos mais antigos da Bíblia, o Salmo 82. Ele nos apresenta o chamado" conselho divino": uma espécie de Câmara dos Deputados dos deuses, na qual eles se reúnem para discutir assuntos importantes - um indício de que o Salmo foi escrito antes do próprio início da Bíblia, que já começa apresentando Javé como Deus único.
    A ideia, ali, é que El preside o conselho e seus filhos ou subordinados discursam. Lá, Javé aparentemente perde a paciência: "Deus se levanta no conselho divino, /em meio aos deuses ele julga: /"Até quando vocês julgarão injustamente, /sustentando a causa dos injustos? ( ... ) "Eu declaro: embora vocês sejam deuses, /e todos filhos do Altíssimo, /morrerão como qualquer homem". Trocando em miúdos dos menos rebuscados: "Quem manda aqui sou eu". É difícil dizer a que período da história israelita corresponde esse momento em que, na imaginação religiosa das pessoas, Javé começou a impor sua vontade perante os deuses cananeus.
    Talvez o fenômeno tenha a ver com a consolidação de Israel como povo distinto dos demais cananeus: a adoração a uma divindade unicamente israelita pode ter emergido como um elemennto-chave nessa consciência "nacionalista" dos ancestrais dos judeus. Para completar essa nova fase na vida do Senhor, que poderíamos chamar de começo da vida adulta, falta ainda um elemento crucia!. Lembre-se do impetuoso deus guerreiro Baal.
    O que parece ocorrer, segundo Mark Smith e outros especialistas, é que Javé se "baaliza", virando uma mistura de El e Baal, com ligeira predominância do segundo. As evidências: Javé e Baal estão associados a tempestades, vulcões, fogo e terremoto; ambos são guerreiros invencíveis que habitam o alto de montanhas (Baal vive no lendário monte Zafon, Javé, no Sinai). E a semelhança fica ainda mais detalhada.
    Na tradição mitológica de Canaã, quem tinha triunfado contra Yamm, o deus caótico do mar, era Baal, mas os textos da Bíblia atribuem essa vitória - adivinhe só - a Javé. Mais sugestivo ainda: alguns Salmos parecem ter sido originalmente hinos a Baal que acabaram adaptados para o culto ao Senhor dos israelitas. Só que Javé vai muito além das intervenções típicas de Baal no mundo. Na mitologia israelita, sua grande vitória não é contra o mar, mas, sim, usando o mar como arma contra o faraó que tinha escravizado o povo hebreu no Egito. Escolhendo o profeta Moisés como seu emissário, conforme conta o livro blblico do Êxodo, o novo deus guerreiro puniu os egípcios com uma sucessão de pragas e, como grand finale, destruiu "carros de guerra e cavaleiros" do faraó afundando-os no mar. A diferença em relação a Baal é que o Senhor seria capaz de agir não só num passado mítico mas na própria história dos israelitas. Ele é literalmente "o Senhor dos Exércitos de Israel", aquele que promete a vitória em batalha em troca da fidelidade religiosa do povo.
    Daí em diante, Deus nunca deixa de ser, em grande medida, um guerreiro. Além de herdar o trono de El na mitologia israelita, Javé também pode ter levado Asherah, a mulher do velho deus. Eis aí uma possibilidade para a qual a Bíblia não prepara seus leitores. Os profetas bíblicos vivem chiando contra o fato de que os israelitas estariam se "prostituindo" (metaforicamente, e talvez literalmente também, via orgias rituais) nos altares de Asherah. Mas inscrições achadas ao longo do século 20, como as de Kuntillet Ajrud, um pit stop de caravanas no deserto do Sinai, poderiam indicar que o deus e a deusa não eram inimigos, e sim um casal. As inscrições, datadas em torno do ano 800 a.c., dizem coisas como "a bênção para ti por Javé de Teiman e sua Asherah".
    Seja como for, mesmo se o casamento ainda existisse, Javé logo optaria por um divórcio - daqueles litigiosos, barra-pesada, nos quais o pai joga os filhos contra a mãe. Seu grande momento estava chegando. Era a hora da virada para Javé. Ele deixaria de ser mais um deus. E viraria o Único. No mundo real, esse momento teve data: foi a reforma religiosa introduzida por Josias (649 - 609 a.C.), rei de Judá. Antes, porém, um interlúdio político. Àquela altura, a nação das tribos israelitas de Canaã tinha sido dividida em dois reinos. Um ao norte, o de Israel, e um ao sul, o de Judá.
    E o de cima havia sido derrotado e conquistado pelo Império Assírio. Josias não queria o mesmo destino. E parte de seus esforços para fortalecer a unidade interna de Judá e resistir aos invasores foi uma maior centralização da vida religiosa do reino. Para isso, ele começou a transformar Javé no único deus adorado por seus súditos. n Por decreto: destruindo altares a outras divindades, como El, Baal... E Asherah. Esse foi o divórcio.
    Também é possível que date do reinado de Josias o ataque final dos fiéis de Javé ao culto a Baal, muito criticado pelos profetas dessa época. Para a maior parte dos israelitas, não era problema adorar a Javé e a Baal ao mesmo tempo. É que outra especialidade do antigo deus cananeu era a agricultura - ele mandava chuva para regar as colheitas. Até então, embora Javé tivesse tomado conta das funções guerreiras de Baal, nada indicava que ele também pudesse bancar o regador de plantas. Mas os profetas israelitas passsam, então, a afirmar que o mandachuva era ele.
    Essa expulsão definitiva de Baal do panteão explica o episódio do bezerro de ouro durante a passagem dos israelitas pelo deserto. Para quem não se lembra: o povo de Deus, cansado de esperar que Moisés volte do monte Sinai, constrói uma estátua de ouro de um bezerro (emblema de Baal). Tanto Moisés quanto Javé ficam enfurecidos, e milhares de israelitas morrem como punição pela infidelidade do povo. As ideias de Josias marcariam para sempre a visão que temos de Deus. E mais ainda depois que esse rei acabou morto.
    Na geração dos filhos do monarca reformista, o reino de Judá seria riscado do mapa e Jerusalém, a capital, acabaria conquistada pela Babilônia. Mas a adversidade do povo teve o efeito oposto em sua fé. No mundo mitológico, Javé se fortalecia como nunca. Com a nação agora indefesa militarmente, era a hora de reafirmar que o deus da nação, ao menos, era todo-poderoso. Nisso os profetas israelistas diziam que só Javé tinha existência, vida e poder; os outros deuses eram meras imagens de pedra, metal ou madeira.
    Era nada menos que a inauguração do monoteísmo: um momento tão importante na história da espiritualidade quanto a adoção do cristianismo como religião oficial do Império Romano seria bem mais tarde. E era esse Javé único que iria para a Bíblia. E se tornaria a imagem de Deus no mundo ocidental. Um Deus, agora, não só dos israelitas. Mas da humanidade inteira. O Deus que criou o mundo, que fez o homem à sua imagem e semelhança. E que, de certa forma, era a imagem e semelhança do Javé pré-Biblia: o Deus guerreiro, militar, que pune com rigidez os erros de seus adoradores.
    O Velho Testamento está recheado de castigos divinos: dos mais leves, como transformar o fiel Jó, um milionário, em um mendigo, como um teste para sua fé, até o dilúvio universal praticamente um restart no mundo depois de ter concluído que a humanidade não tinha mais jeito. A justificativa para tal comportamento está na própria historia de Israel. A ideia era acreditar que os maus bocados pelos quais a nação passou nas mãos de assírios e babilônios eram provações divinas, que, se o povo mantivesse sua fé, tudo acabaria bem. Mas Deus surge na Bíblia como algo mais complexo que um mero feitor. Usando os paralelos deste texto, seria como se Ele tivesse amadurecido depois que Josias e os profetas o aclamam Deus único. Javé fica menos humano, menos falível. Passa a ser uma entidade transcendental de fato. Começa a afirmar aos seres humanos que "os meus caminhos não são os seus caminhos" - a ideia hoje familiar de que Deus escreve certo por linhas tortas.
    Mas o caráter divino só se completaria mesmo no século 1. O primeiro século depois de seu filho, quando o Novo Testamento foi escrito. É a metamorfose mais radical do guerreiro Javé. Encarnado na figura de Jesus, Deus apresenta uma nova soluuão para a humanidade. Em vez de castigar ou destruir os homens mais uma vez, decide purgar os pecados dos mortais com outro sacrifício: o Dele próprio. Morre o corpo do Deus encarnado, não o espírito divino. Este, agora mais sereno, continuou zelando por nós. E assim será. Até o fim dos tempos.
    E acaba assim a nossa história, certo? Claro que não. A saga de Javé é só um dos reflexos de uma epopeia maior: a da humanidade buscando um sentido para a existência. Nesse aspecto, continuamos tão perdidos quanto os antigos que não sabiam por que o trovão trovejava ou o que as estrelas faziam pregadas no céu. Ainda não sabemos por que estamos aqui. E a única certeza é que vamos continuar buscando respostas. Seja o que Deus quiser.

  • Comentários Sobre a Biblia

    Autor: Paulo Roberto Santos

    Veículo: Internet

    Fonte: Jornal A Voz do Espírito, edição 87, Setembro-Outubro de 1997

    Não se pode duvidar que os chamados livros sagrados formam o substrato cultural das atuais nações. As três principais religiões, o Cristianismo, o Islamismo e o Budismo - com suas variações - possuem todas textos que ainda hoje influenciam ou mesmo determinam o comportamento das pessoas. Nem todo o furor técnico-científico pôde interferir na ação desse patrimônio comum a toda humanidade, pois nas horas difíceis, nos momentos puramente humanos de enfrentar a morte, a doença, a perda de um ente querido ou adversidades dolorosas, o apelo à religião, qualquer que ela seja virá, com certeza, como fuga ou consolo.

    No caso do Ocidente a influência da Bíblia é inegável. Transparece no comportamento diário, nas explicações para o que ainda é aparentemente inexplicável (mistérios de Deus), na conduta familiar, social, política, econômica etc. O Decálogo, atribuído a Moisés e redigido aproximadamente há 3.220 anos, forma a base de nossa estrutura jurídica, ao lado da grande contribuição do direito romano.
    Mas, afinal, em que consiste a Bíblia? Do ponto de vista puramente materialista resume-se na história do povo hebreu, de Abraão até pouco depois da dispersão dos judeus a partir do ano 70 d.C. Uma enormidade de textos dispersos, muitas vezes contraditórios, passados de geração para geração oralmente e mais tarde escritos ao sabor do gosto do cronista, sempre numa visão nacionalista e sujeita a alterações feitas ao longo do tempo, realizadas pelo próprio autor ou por seus pósteros. Com isso, o texto bíblico não é de leitura fácil para aqueles pouco versados na História antiga e principalmente na História das religiões. Convenhamos que um livro, tal como o conhecemos hoje, a chamada Vulgata Latina, com seus 66 escritos, selecionados a partir dos critérios de um sábio, São Jerônimo, abarcando um período não menor que 1600 anos, necessariamente traz controvérsias de variado teor. Discute-se desde a autenticidade dos textos até sua validade como orientadores da conduta.
    Apesar de todas essas questões a Bíblia está entre os livros mais publicados e lidos em todo o mundo, no seu conjunto ou parcialmente. O Velho Testamento - conjunto de textos anteriores a Jesus - são muito utilizados pelos segmentos protestantes, enquanto o Novo Testamento, escritos posteriores a Jesus, circulam mais entre os católicos, espíritas etc. Os Evangelhos, narrativas que contam a vida e a doutrina de Jesus chegam a 25, segundo alguns pesquisadores, mas são tão confusos e contraditórios que apenas quatro deles foram aceitos por serem mais concordes entre si. Dentre eles o mais "histórico" é o de Marcos, escrito por volta do ano 53 d.C. O de João é considerado o mais "esotérico", ou seja, o que mais carrega a carga doutrinária do Cristo, foi escrito entre os anos 96 e 100 de nossa era. Que o leitor não se espante com esta data. Quando João começou a seguir Jesus era pouco mais que um adolescente e viveu muito sendo, juntamente com Felipe, o apóstolo que teve morte natural. Todos os outros foram mortos por ocasião das primeiras perseguições aos cristãos.
    Os textos bíblicos chegaram até nós em cópias feitas em papiro (feito de uma planta egípcia do mesmo nome) e em pergaminho (feito de pele de animal), dois meios de conservação bastante frágeis e por isso eram copiados e recopiados freqüentemente, sujeitando-se às alterações e interpolações, comentários e adições feitas pelos leitores, autores ou copistas. É curioso observar que nem todos os copistas sabiam ler, eram apenas bons desenhistas e copiavam os textos como quem desenha. Bastava um comentário à margem, uma letra a mais ou o que fosse para que eles "arrumassem" o texto. Com isso não há como duvidar que os textos que nos chegaram não estão exatamente como foram escritos. Apesar disso os especialistas afirmam que o sentido geral (que é o que nos interessa) foi mantido ao longo do tempo. Isso serve de alerta para aqueles apegados mais à letra que ao teor do texto.
    Recentemente, em 1947, foi encontrado um escrito de Isaías numa gruta próxima ao Mar Morto. Ele vem sendo estudado cuidadosamente por ser um texto original e a sua comparação com os textos dos copistas tem demonstrado que praticamente não há divergências relevantes. Isso é importante considerando-se o tempo que já  passou, as inúmeras modificações comprovadas em outras partes da Bíblia, feitas de forma voluntária ou não e o problema lingüístico.
    A região onde ocorreram os acontecimentos narrados na Bíblia constitui o entroncamento de três continentes, área de grande interesse comercial e estratégico desde o passado. Muitas línguas eram faladas ali, a maioria dos dialetos de então já não existem mais e aproveitou-se o que estava em grego e hebraico.
    Bíblia significa "rolos de papiro" ou "livros" e realmente é uma coleção de textos, uma "biblioteca" sobre a história do povo hebreu. Obra preciosa para os estudiosos, sejam materialistas à procura de dados que expliquem a evolução das civilizações, sejam espiritualistas à procura de um código moral para sua vida.
     

  • Comentários sobre a Biblia

    Autor: Paulo Roberto Santos

    Veículo: Internet

    Fonte: Jornal A Voz do Espírito, edição 87, Setembro-Outubro de 1997

    Não se pode duvidar que os chamados livros sagrados formam o substrato cultural das atuais nações. As três principais religiões, o Cristianismo, o Islamismo e o Budismo - com suas variações - possuem todas textos que ainda hoje influenciam ou mesmo determinam o comportamento das pessoas. Nem todo o furor técnico-científico pôde interferir na ação desse patrimônio comum a toda humanidade, pois nas horas difíceis, nos momentos puramente humanos de enfrentar a morte, a doença, a perda de um ente querido ou adversidades dolorosas, o apelo à religião, qualquer que ela seja virá, com certeza, como fuga ou consolo.

    No caso do Ocidente a influência da Bíblia é inegável. Transparece no comportamento diário, nas explicações para o que ainda é aparentemente inexplicável (mistérios de Deus), na conduta familiar, social, política, econômica etc. O Decálogo, atribuído a Moisés e redigido aproximadamente há 3.220 anos, forma a base de nossa estrutura jurídica, ao lado da grande contribuição do direito romano.
    Mas, afinal, em que consiste a Bíblia? Do ponto de vista puramente materialista resume-se na história do povo hebreu, de Abraão até pouco depois da dispersão dos judeus a partir do ano 70 d.C. Uma enormidade de textos dispersos, muitas vezes contraditórios, passados de geração para geração oralmente e mais tarde escritos ao sabor do gosto do cronista, sempre numa visão nacionalista e sujeita a alterações feitas ao longo do tempo, realizadas pelo próprio autor ou por seus pósteros. Com isso, o texto bíblico não é de leitura fácil para aqueles pouco versados na História antiga e principalmente na História das religiões. Convenhamos que um livro, tal como o conhecemos hoje, a chamada Vulgata Latina, com seus 66 escritos, selecionados a partir dos critérios de um sábio, São Jerônimo, abarcando um período não menor que 1600 anos, necessariamente traz controvérsias de variado teor. Discute-se desde a autenticidade dos textos até sua validade como orientadores da conduta.
    Apesar de todas essas questões a Bíblia está entre os livros mais publicados e lidos em todo o mundo, no seu conjunto ou parcialmente. O Velho Testamento - conjunto de textos anteriores a Jesus - são muito utilizados pelos segmentos protestantes, enquanto o Novo Testamento, escritos posteriores a Jesus, circulam mais entre os católicos, espíritas etc. Os Evangelhos, narrativas que contam a vida e a doutrina de Jesus chegam a 25, segundo alguns pesquisadores, mas são tão confusos e contraditórios que apenas quatro deles foram aceitos por serem mais concordes entre si. Dentre eles o mais "histórico" é o de Marcos, escrito por volta do ano 53 d.C. O de João é considerado o mais "esotérico", ou seja, o que mais carrega a carga doutrinária do Cristo, foi escrito entre os anos 96 e 100 de nossa era. Que o leitor não se espante com esta data. Quando João começou a seguir Jesus era pouco mais que um adolescente e viveu muito sendo, juntamente com Felipe, o apóstolo que teve morte natural. Todos os outros foram mortos por ocasião das primeiras perseguições aos cristãos.
    Os textos bíblicos chegaram até nós em cópias feitas em papiro (feito de uma planta egípcia do mesmo nome) e em pergaminho (feito de pele de animal), dois meios de conservação bastante frágeis e por isso eram copiados e recopiados freqüentemente, sujeitando-se às alterações e interpolações, comentários e adições feitas pelos leitores, autores ou copistas. É curioso observar que nem todos os copistas sabiam ler, eram apenas bons desenhistas e copiavam os textos como quem desenha. Bastava um comentário à margem, uma letra a mais ou o que fosse para que eles "arrumassem" o texto. Com isso não há como duvidar que os textos que nos chegaram não estão exatamente como foram escritos. Apesar disso os especialistas afirmam que o sentido geral (que é o que nos interessa) foi mantido ao longo do tempo. Isso serve de alerta para aqueles apegados mais à letra que ao teor do texto.
    Recentemente, em 1947, foi encontrado um escrito de Isaías numa gruta próxima ao Mar Morto. Ele vem sendo estudado cuidadosamente por ser um texto original e a sua comparação com os textos dos copistas tem demonstrado que praticamente não há divergências relevantes. Isso é importante considerando-se o tempo que já  passou, as inúmeras modificações comprovadas em outras partes da Bíblia, feitas de forma voluntária ou não e o problema lingüístico.
    A região onde ocorreram os acontecimentos narrados na Bíblia constitui o entroncamento de três continentes, área de grande interesse comercial e estratégico desde o passado. Muitas línguas eram faladas ali, a maioria dos dialetos de então já não existem mais e aproveitou-se o que estava em grego e hebraico.
    Bíblia significa "rolos de papiro" ou "livros" e realmente é uma coleção de textos, uma "biblioteca" sobre a história do povo hebreu. Obra preciosa para os estudiosos, sejam materialistas à procura de dados que expliquem a evolução das civilizações, sejam espiritualistas à procura de um código moral para sua vida.
     

  • Comentários Sobre a Biblia

    Autor: Paulo Roberto Santos

    Veículo: Internet

    Fonte: Jornal A Voz do Espírito, edição 87, Setembro-Outubro de 1997

    Não se pode duvidar que os chamados livros sagrados formam o substrato cultural das atuais nações. As três principais religiões, o Cristianismo, o Islamismo e o Budismo - com suas variações - possuem todas textos que ainda hoje influenciam ou mesmo determinam o comportamento das pessoas. Nem todo o furor técnico-científico pôde interferir na ação desse patrimônio comum a toda humanidade, pois nas horas difíceis, nos momentos puramente humanos de enfrentar a morte, a doença, a perda de um ente querido ou adversidades dolorosas, o apelo à religião, qualquer que ela seja virá, com certeza, como fuga ou consolo.

    No caso do Ocidente a influência da Bíblia é inegável. Transparece no comportamento diário, nas explicações para o que ainda é aparentemente inexplicável (mistérios de Deus), na conduta familiar, social, política, econômica etc. O Decálogo, atribuído a Moisés e redigido aproximadamente há 3.220 anos, forma a base de nossa estrutura jurídica, ao lado da grande contribuição do direito romano.
    Mas, afinal, em que consiste a Bíblia? Do ponto de vista puramente materialista resume-se na história do povo hebreu, de Abraão até pouco depois da dispersão dos judeus a partir do ano 70 d.C. Uma enormidade de textos dispersos, muitas vezes contraditórios, passados de geração para geração oralmente e mais tarde escritos ao sabor do gosto do cronista, sempre numa visão nacionalista e sujeita a alterações feitas ao longo do tempo, realizadas pelo próprio autor ou por seus pósteros. Com isso, o texto bíblico não é de leitura fácil para aqueles pouco versados na História antiga e principalmente na História das religiões. Convenhamos que um livro, tal como o conhecemos hoje, a chamada Vulgata Latina, com seus 66 escritos, selecionados a partir dos critérios de um sábio, São Jerônimo, abarcando um período não menor que 1600 anos, necessariamente traz controvérsias de variado teor. Discute-se desde a autenticidade dos textos até sua validade como orientadores da conduta.
    Apesar de todas essas questões a Bíblia está entre os livros mais publicados e lidos em todo o mundo, no seu conjunto ou parcialmente. O Velho Testamento - conjunto de textos anteriores a Jesus - são muito utilizados pelos segmentos protestantes, enquanto o Novo Testamento, escritos posteriores a Jesus, circulam mais entre os católicos, espíritas etc. Os Evangelhos, narrativas que contam a vida e a doutrina de Jesus chegam a 25, segundo alguns pesquisadores, mas são tão confusos e contraditórios que apenas quatro deles foram aceitos por serem mais concordes entre si. Dentre eles o mais "histórico" é o de Marcos, escrito por volta do ano 53 d.C. O de João é considerado o mais "esotérico", ou seja, o que mais carrega a carga doutrinária do Cristo, foi escrito entre os anos 96 e 100 de nossa era. Que o leitor não se espante com esta data. Quando João começou a seguir Jesus era pouco mais que um adolescente e viveu muito sendo, juntamente com Felipe, o apóstolo que teve morte natural. Todos os outros foram mortos por ocasião das primeiras perseguições aos cristãos.
    Os textos bíblicos chegaram até nós em cópias feitas em papiro (feito de uma planta egípcia do mesmo nome) e em pergaminho (feito de pele de animal), dois meios de conservação bastante frágeis e por isso eram copiados e recopiados freqüentemente, sujeitando-se às alterações e interpolações, comentários e adições feitas pelos leitores, autores ou copistas. É curioso observar que nem todos os copistas sabiam ler, eram apenas bons desenhistas e copiavam os textos como quem desenha. Bastava um comentário à margem, uma letra a mais ou o que fosse para que eles "arrumassem" o texto. Com isso não há como duvidar que os textos que nos chegaram não estão exatamente como foram escritos. Apesar disso os especialistas afirmam que o sentido geral (que é o que nos interessa) foi mantido ao longo do tempo. Isso serve de alerta para aqueles apegados mais à letra que ao teor do texto.
    Recentemente, em 1947, foi encontrado um escrito de Isaías numa gruta próxima ao Mar Morto. Ele vem sendo estudado cuidadosamente por ser um texto original e a sua comparação com os textos dos copistas tem demonstrado que praticamente não há divergências relevantes. Isso é importante considerando-se o tempo que já  passou, as inúmeras modificações comprovadas em outras partes da Bíblia, feitas de forma voluntária ou não e o problema lingüístico.
    A região onde ocorreram os acontecimentos narrados na Bíblia constitui o entroncamento de três continentes, área de grande interesse comercial e estratégico desde o passado. Muitas línguas eram faladas ali, a maioria dos dialetos de então já não existem mais e aproveitou-se o que estava em grego e hebraico.
    Bíblia significa "rolos de papiro" ou "livros" e realmente é uma coleção de textos, uma "biblioteca" sobre a história do povo hebreu. Obra preciosa para os estudiosos, sejam materialistas à procura de dados que expliquem a evolução das civilizações, sejam espiritualistas à procura de um código moral para sua vida.
     

  • Deus - Uma Biografia

    Autor: José Lopes e Alexandre Versignassi

    Veículo: Revista Superinteressante

    Fonte: Revista Super Interessante, Editora Abril, Novembro 2010, Edição 284.

    Em 8 de dezembro de 2010, foi publicada na revista Super Interessante, um excelente artigo que define Deus, sob o titulo:
    Deus - Uma Biografia.
    É um texto de José Lopes e Alexandre Versignassi.
    Transcrição integral da Revista Super Interessante, Editora Abril, Novembro 2010, Edição 284.
    Pesquisadores revelam que Javé, o grande personagem da Bíblia, não foi visto sempre como Deus único. Antes do Livro Sagrado, Ele erá só mais um entre muitas divindades.
    Saiba como Deus Conquistou Seu espaço no céu. E na Terra. Deus criou o Universo. Deus está em todos os lugares. Deus é a força que nos une. Cada sociedade vê a figura do Criador à sua maneira. Cada indivíduo, até.
    Para Einstein, Ele era as leis que governam o tempo e o espaço - a natureza em sua acepção mais profunda.
    Para os ateus, Deus é uma ilusão.
    Para o papa Bento 16, é o amor, a caridade. "Quem ama habita Deus; ao mesmo tempo, Deus habita quem ama", escreveu em sua primeira encíclica.
    Pontos de vista à parte, toda cultura humana já teve seu Deus. Seus deuses, na maioria dos casos: seres divinos que interagiam entre si em mitologias de enredo farto, recheadas de brigas, lágrimas, reconciliações. Os deuses eram humanos. Mas isso mudou. A imagem divina que se consolidou é bem diferente. Deus ganhou letra maiúscula na cultura ocidental. Os panteões divinos acabaram. Deus tornou -se único. É o Deus da Bíblia, Javé, o criador da luz e da humanidade. O pai de Jesus.
    Essa concepção, que hoje parece eterna, de tanto que a conhecemos, não nasceu pronta. Ela é fruto de fatos históricos que aconteceram antes de a Bíblia ter sido escrita. O próprio Javé já foi uma divindade entre muitas. Fez parte de um panteão do qual não era nem o chefe. O fato de ele ter se tornado o Deus supremo, então, é marcante: se fosse entre os deuses gregos, seria como se uma divindade de baixo escalão, como o Cupido, tivesse ascendido a uma posição maior que a de Zeus
    É essa história que vamos contar aqui. A história de Javé, a figura que começou como um pequeno deus do deserto e depois moldaria a forma como cada um de nós entende a ideia de Deus, não importando quem ou o que Deus seja para você. Deuses nasceram do pôquer. A crença em divindades provavelmente vem da capacidade humana de detectar as intenções das outras pessoas. Somos muito bons nisso desde que surgimos, há 200 mil anos, e precisamos ser mesmo, porque o Homo sapiens sempre levou a vida social mais complicada do reino animal, sempre em comunidades cheias de intrigas, fingimentos, traições.
    Saber o que se passa na cabeça do outro era questão de sobrevivência - e até certo ponto ainda é. E a melhor maneira de tentar se antecipar a um adversário nos jogos mentais do dia a dia é imaginar as intenções dele: "O que será que ele pensa que eu estou pensando?" Nosso cérebro é uma máquina de pôquer.
    Pesquisadores como o antropólogo francês Pascal Boyer defendem que esse sistema de detecção de intenções pode acabar aplicado a coisas que não têm intenções de nenhum tipo - como a chuva, ou o Sol. A ideia de que há espíritos de toda sorte da natureza seria, assim, um efeito colateral do nosso sistema de detecção de mentes, tão hiperativo.
    Por esse ponto de vista, a espiritualidade faz parte dos nossos instintos. É quase tão natural acreditar em divindades quanto comer ou dormir. Cada fenômeno da natureza, então, representava as intenções de alguma divindade. É como ainda acontece nas tribos de caçadores-coletores de hoje. Entre os índios tupis, os trovões são a raiva do deus Tupã. E fim de papo.
    Obras de arte de mais de 30 mil anos atrás dão outra pista sobre essa espiritualidade primitiva - que podemos chamar de "infância de Deus" (no caso, dos deuses). Elas mostram seres que misturam características humanas e animais - sujeitos com cabeça de leão ou de rena e corpo de gente, por exemplo. Acredita-se que essas criaturas híbridas representem um tipo de crença que ainda é comum nas tribos indígenas: a de que não haveria separação rígida entre o mundo dos humanos, o dos animais e a o dos espíritos.
    Seria possível transitar entre essas esferas se você possuísse o conhecimento correto, e, em tese, qualquer falecido, seja pessoa, seja bicho,pode ter um papel parecido com o que associamos normalmente a um deus. Os deuses abandonam de vez as feições animais quando os bichos se tornam menos importantes no nosso cotidiano. Foi precisamente o que aconteceu quando a agricultura foi criada, há 10 mil anos, no Oriente Médio. Graças a ela, montamos as primeiras cidades. E a nossa espiritualidade progrediria junto: acabaria bem mais centrada nas pessoas que na natureza selvagem. Há sinais de que ancestrais mortos eram as grandes entidades com status divino nessas primeiras cidades.
    Um exemplo arqueológico vem de escavações em Jericó, uma das mais antigas aglomerações humanas, que hoje fica no território palestino da Cisjordânia. Os habitantes de Jericó enterravam o corpo de seus mortos, mas guardavam o crânio, que era recoberto com camadas de gesso e tinta, simulando o rosto humano. Assim preparada, a caveira talvez servisse de oráculo doméstico - uma espécie de deus particular para cada família. Os artesãos de crânios de Jericó não tinham escrita - aliás, passariam mais de 5 mil anos até que essa tecnologia fosse inventada. Quando isso finalmente aconteceu, em torno do ano 2000 a.c., os deuses ficaram bem mais sofisticados.
    Entraram em cena criaturas ao estilo dos habitantes do Olimpo na mitologia grega. Em parte, alguns deles até eram mesmo personificações das forças da natureza, mas agora eles ganhavam personalidades e biografias complexas. É aí que está a origem do grande personagem desta história: Javé, uma divindade que provavelmente começou como um deus menor, cultuado por nômades. Bem antes de a Bíblia ser escrita. Ele começou de baixo. Era só mais um deus entre vários outros de sua região. Só que na Bíblia Javé é identificado como o Deus único.
    Hoje, cogitar a existência de outras divindades que teriam convivido com o Senhor da Bíblia é um absurdo do ponto de vista religioso. Mas não do ponto de vista científico. Pesquisadores de várias áreas - arqueólogos, linguistas, teólogos - estão encontrando pistas sobre uma provável "vida pregressa" de Javé. Uma vida mitológica que ele teve antes de seu nome ir parar na Bíblia como o da entidade que criou tudo.
    Onde pesquisar isso? A própria Bíblia é uma fonte. O Livro Sagrado não foi feito de uma vez. Trata-se de uma coleção de textos escritos ao longo de séculos. O Pentateuco, os 5 primeiros livros da Bíblia, foi finalizado por volta de 550 a.c. Mas há textos ali de 1000 a.c., ou de antes. E nada disso foi editado em ordem cronológica - em grande parte, a Bíblia é uma junção de textos independentes, cada um escrito em tempos e realidades diferentes. Como saber a que tempo e a que realidade cada um pertence? Pela linguagem. Pesquisadores analisam as expressões do texto original, em hebraico, e vão comparando com a de documentos enconntrados em escavações arqueológicas, cuja datação é fácil de determinar.
    Com esse método, chegaram a uma descoberta reeveladora. Alguns poemas da Bíblia dão a entender que Javé era uma divindade de lugares chamados Teiman ou Paran - dizendo literalmente que o deus veio dessas regiões. E esses textos estão justamente entre os mais antigos - se a língua do livro fosse o português moderno, eles estariam mais para Camões.
    Teiman e Paran eram lugares desérticos fora das fronteiras onde viviam os homens que escreveram a Bíblia. Não se sabe exatamente que regiões eram essas, já que os nomes dos territórios vão mudando ao longo dos séculos. "Mas arqueólogos supõem que essa região seja no noroeste da atual Arábia Saudita", diz Mark Smith, professor de estudos bíblicos da Universidade de Nova York. E isso diz muito.
    Os autores dos primeiros textos da Bíblia viviam na antiga Canaã - uma região do Oriente Médio onde hoje estão Israel, os territórios palestinos e partes da Síria e do Libano. Ali se formaram algumas das primeiras civilizações da história, há 10 mil anos. E por volta de 1000 a.c. já era um território disputado (como nunca deixou de ser, por sinal). Estava dividido numa miríade de tribos, as dos israelitas, a dos hititas, a dos jebedeus ... Apesar das rivalidades, todas tinham culturas parecidas. Reverenciavam o mesmo panteão de deuses, por exemplo.
    Mas Javé, pelo jeito, não era um deles. Teria sido importado das áreas mais desérticas do sul. Outra evidência disso é a associação de seu nome com os chamados shasu. Shasu é um termo egípcio que significa "nômade" ou "beduíno". Algumas inscrições egípcias mencionam um "Javé dos Shasu". Uma possibilidade, então, é que nômades do deserto teriam se incorporado às tribos israelitas, trazendo o novo deus com eles. Essa divindade se embrenharia no meio da grande mitologia desse povo: o panteão de deuses cananeus.
    Mas quem eram essas divindades? As melhores pistas a esse respeito vêm de Ugarit, uma antiga cidade encontrada durante escavações arqueológicas na atual Síria. Ela foi destruída por invasores em 1200 a.c., quando os israelitas ainda eram um povo em formação. As inscrições encontradas ali, então, servem como uma cápsula do tempo. Revelam o contexto cultural em que nasceu a mitologia israelita, mostra como era a mitologia dos antepassados dos escritores da Bíblia. E os deuses em que eles acreditavam seriam fundamentais para a biografia de Javé.
    O panteão de Ugarit é bem grandinho, mas algumas figuras se destacam. Há o pai dos deuses e dos homens, o idoso, bondoso e barbudo El; sua esposa, Asherah, deusa da vegetação e da fertilidade; a filha dos dois, Anat, feroz deusa do amor; e o filho adotivo do casal, Baal, deus da guerra e da tempestade que morre, ressuscita e derrota as divindades malignas Yamm (o Mar) e Mot (a Morte).
    Muitos estudiosos especulam que as tribos issraelitas originalmente tinham El como seu deus supremo. Afinal, o nome do povo bíblico também termina com o elemento -el. "Esse tipo de nome próprio, conhecido como teofórico ('portador de um deus', em grego), costuma dar pistas sobre o ente divino que o dono do nome venera", diz Airton José da Silva, professor de Antigo Testamento da Arquidiocese de Ribeirão Preto. Mas os indícios a respeito de El vão além da nomenclatura. O deus cananeu também tem uma relação especial com os chefes de clãs, prometendo-lhes uma vasta descendência - exatamente o que Deus faria depois na Bíblia ao selar uma aliança com os ancestrais dos israelitas, Abraão, Isaac e Jacó. "El é o deus desses patriarcas", diz Christine Hayes, professora de estudos judaicos de Yale.
    Uma ameaça pairava sobre os deuses de Canaã. Era a ambição de Javé. O novo deus começou a buscar seu lugar entre as antigas divindades cananeias. E teve sucesso. Com sua personalidade forte, foi ganhando espaço dentro da mitologia israelita, tomando o terreno dos deuses criados pelos povos cananeus. A maior prova disso está em outro texto poético dos mais antigos da Bíblia, o Salmo 82. Ele nos apresenta o chamado" conselho divino": uma espécie de Câmara dos Deputados dos deuses, na qual eles se reúnem para discutir assuntos importantes - um indício de que o Salmo foi escrito antes do próprio início da Bíblia, que já começa apresentando Javé como Deus único.
    A ideia, ali, é que El preside o conselho e seus filhos ou subordinados discursam. Lá, Javé aparentemente perde a paciência: "Deus se levanta no conselho divino, /em meio aos deuses ele julga: /"Até quando vocês julgarão injustamente, /sustentando a causa dos injustos? ( ... ) "Eu declaro: embora vocês sejam deuses, /e todos filhos do Altíssimo, /morrerão como qualquer homem". Trocando em miúdos dos menos rebuscados: "Quem manda aqui sou eu". É difícil dizer a que período da história israelita corresponde esse momento em que, na imaginação religiosa das pessoas, Javé começou a impor sua vontade perante os deuses cananeus.
    Talvez o fenômeno tenha a ver com a consolidação de Israel como povo distinto dos demais cananeus: a adoração a uma divindade unicamente israelita pode ter emergido como um elemennto-chave nessa consciência "nacionalista" dos ancestrais dos judeus. Para completar essa nova fase na vida do Senhor, que poderíamos chamar de começo da vida adulta, falta ainda um elemento crucia!. Lembre-se do impetuoso deus guerreiro Baal.
    O que parece ocorrer, segundo Mark Smith e outros especialistas, é que Javé se "baaliza", virando uma mistura de El e Baal, com ligeira predominância do segundo. As evidências: Javé e Baal estão associados a tempestades, vulcões, fogo e terremoto; ambos são guerreiros invencíveis que habitam o alto de montanhas (Baal vive no lendário monte Zafon, Javé, no Sinai). E a semelhança fica ainda mais detalhada.
    Na tradição mitológica de Canaã, quem tinha triunfado contra Yamm, o deus caótico do mar, era Baal, mas os textos da Bíblia atribuem essa vitória - adivinhe só - a Javé. Mais sugestivo ainda: alguns Salmos parecem ter sido originalmente hinos a Baal que acabaram adaptados para o culto ao Senhor dos israelitas. Só que Javé vai muito além das intervenções típicas de Baal no mundo. Na mitologia israelita, sua grande vitória não é contra o mar, mas, sim, usando o mar como arma contra o faraó que tinha escravizado o povo hebreu no Egito. Escolhendo o profeta Moisés como seu emissário, conforme conta o livro blblico do Êxodo, o novo deus guerreiro puniu os egípcios com uma sucessão de pragas e, como grand finale, destruiu "carros de guerra e cavaleiros" do faraó afundando-os no mar. A diferença em relação a Baal é que o Senhor seria capaz de agir não só num passado mítico mas na própria história dos israelitas. Ele é literalmente "o Senhor dos Exércitos de Israel", aquele que promete a vitória em batalha em troca da fidelidade religiosa do povo.
    Daí em diante, Deus nunca deixa de ser, em grande medida, um guerreiro. Além de herdar o trono de El na mitologia israelita, Javé também pode ter levado Asherah, a mulher do velho deus. Eis aí uma possibilidade para a qual a Bíblia não prepara seus leitores. Os profetas bíblicos vivem chiando contra o fato de que os israelitas estariam se "prostituindo" (metaforicamente, e talvez literalmente também, via orgias rituais) nos altares de Asherah. Mas inscrições achadas ao longo do século 20, como as de Kuntillet Ajrud, um pit stop de caravanas no deserto do Sinai, poderiam indicar que o deus e a deusa não eram inimigos, e sim um casal. As inscrições, datadas em torno do ano 800 a.c., dizem coisas como "a bênção para ti por Javé de Teiman e sua Asherah".
    Seja como for, mesmo se o casamento ainda existisse, Javé logo optaria por um divórcio - daqueles litigiosos, barra-pesada, nos quais o pai joga os filhos contra a mãe. Seu grande momento estava chegando. Era a hora da virada para Javé. Ele deixaria de ser mais um deus. E viraria o Único. No mundo real, esse momento teve data: foi a reforma religiosa introduzida por Josias (649 - 609 a.C.), rei de Judá. Antes, porém, um interlúdio político. Àquela altura, a nação das tribos israelitas de Canaã tinha sido dividida em dois reinos. Um ao norte, o de Israel, e um ao sul, o de Judá.
    E o de cima havia sido derrotado e conquistado pelo Império Assírio. Josias não queria o mesmo destino. E parte de seus esforços para fortalecer a unidade interna de Judá e resistir aos invasores foi uma maior centralização da vida religiosa do reino. Para isso, ele começou a transformar Javé no único deus adorado por seus súditos. n Por decreto: destruindo altares a outras divindades, como El, Baal... E Asherah. Esse foi o divórcio.
    Também é possível que date do reinado de Josias o ataque final dos fiéis de Javé ao culto a Baal, muito criticado pelos profetas dessa época. Para a maior parte dos israelitas, não era problema adorar a Javé e a Baal ao mesmo tempo. É que outra especialidade do antigo deus cananeu era a agricultura - ele mandava chuva para regar as colheitas. Até então, embora Javé tivesse tomado conta das funções guerreiras de Baal, nada indicava que ele também pudesse bancar o regador de plantas. Mas os profetas israelitas passsam, então, a afirmar que o mandachuva era ele.
    Essa expulsão definitiva de Baal do panteão explica o episódio do bezerro de ouro durante a passagem dos israelitas pelo deserto. Para quem não se lembra: o povo de Deus, cansado de esperar que Moisés volte do monte Sinai, constrói uma estátua de ouro de um bezerro (emblema de Baal). Tanto Moisés quanto Javé ficam enfurecidos, e milhares de israelitas morrem como punição pela infidelidade do povo. As ideias de Josias marcariam para sempre a visão que temos de Deus. E mais ainda depois que esse rei acabou morto.
    Na geração dos filhos do monarca reformista, o reino de Judá seria riscado do mapa e Jerusalém, a capital, acabaria conquistada pela Babilônia. Mas a adversidade do povo teve o efeito oposto em sua fé. No mundo mitológico, Javé se fortalecia como nunca. Com a nação agora indefesa militarmente, era a hora de reafirmar que o deus da nação, ao menos, era todo-poderoso. Nisso os profetas israelistas diziam que só Javé tinha existência, vida e poder; os outros deuses eram meras imagens de pedra, metal ou madeira.
    Era nada menos que a inauguração do monoteísmo: um momento tão importante na história da espiritualidade quanto a adoção do cristianismo como religião oficial do Império Romano seria bem mais tarde. E era esse Javé único que iria para a Bíblia. E se tornaria a imagem de Deus no mundo ocidental. Um Deus, agora, não só dos israelitas. Mas da humanidade inteira. O Deus que criou o mundo, que fez o homem à sua imagem e semelhança. E que, de certa forma, era a imagem e semelhança do Javé pré-Biblia: o Deus guerreiro, militar, que pune com rigidez os erros de seus adoradores.
    O Velho Testamento está recheado de castigos divinos: dos mais leves, como transformar o fiel Jó, um milionário, em um mendigo, como um teste para sua fé, até o dilúvio universal praticamente um restart no mundo depois de ter concluído que a humanidade não tinha mais jeito. A justificativa para tal comportamento está na própria historia de Israel. A ideia era acreditar que os maus bocados pelos quais a nação passou nas mãos de assírios e babilônios eram provações divinas, que, se o povo mantivesse sua fé, tudo acabaria bem. Mas Deus surge na Bíblia como algo mais complexo que um mero feitor. Usando os paralelos deste texto, seria como se Ele tivesse amadurecido depois que Josias e os profetas o aclamam Deus único. Javé fica menos humano, menos falível. Passa a ser uma entidade transcendental de fato. Começa a afirmar aos seres humanos que "os meus caminhos não são os seus caminhos" - a ideia hoje familiar de que Deus escreve certo por linhas tortas.
    Mas o caráter divino só se completaria mesmo no século 1. O primeiro século depois de seu filho, quando o Novo Testamento foi escrito. É a metamorfose mais radical do guerreiro Javé. Encarnado na figura de Jesus, Deus apresenta uma nova soluuão para a humanidade. Em vez de castigar ou destruir os homens mais uma vez, decide purgar os pecados dos mortais com outro sacrifício: o Dele próprio. Morre o corpo do Deus encarnado, não o espírito divino. Este, agora mais sereno, continuou zelando por nós. E assim será. Até o fim dos tempos.
    E acaba assim a nossa história, certo? Claro que não. A saga de Javé é só um dos reflexos de uma epopeia maior: a da humanidade buscando um sentido para a existência. Nesse aspecto, continuamos tão perdidos quanto os antigos que não sabiam por que o trovão trovejava ou o que as estrelas faziam pregadas no céu. Ainda não sabemos por que estamos aqui. E a única certeza é que vamos continuar buscando respostas. Seja o que Deus quiser.

  • A Invenção de Deus

    Autor: Eduardo Szklarz - Revista Saiba Mais - Fevereiro 2013

    Veículo: Mais da metade dos seres humanos acredita em um deus único, o Deus com máscula dos cristãos, judeus e islâmicos. Mas ele tem uma origem e uma história.

    Fonte: Livro: The Origins of Biblical, Monotheism, Mark S. Smith, Oxford University Press, 2003

    A Invenção de Deus

    Eduardo Szklarz - Revista Saiba Mais - Fevereiro 2013
    Livro: The Origins of Biblical, Monotheism, Mark S. Smith, Oxford University Press, 2003

    Mais da metade dos seres humanos acredita em um deus único, o Deus com máscula dos cristãos, judeus e islâmicos.

    Mas ele tem uma origem e uma história.


    "Shemá Israel.Adonai Eloheinu,Adonai Echad."
    "Ouve, Israel. O Senhor é nosso Deus.O Senhor é um."

    Assim começa o Shemá, a reza mais importante do judaísmo. Ao repeti-Ia duas vezes ao
    dia, os judeus professam sua fé exclusiva em Yahweh, deus único, onipotente, onisciente.
    Esse é o deus mais popular do mundo: entre cristãos, judeus e islâmicos, 3,6 bilhões de
    pessoas professam uma das versões do culto a Yahweh, mais de metade de todos os seres
    humanos. Qual é a origem desse Deus com maiúscula, que dominou meio mundo? E de
    onde surgiu essa idéia que há apenas um Deus, ao contrário do que quase todos os povos
    acreditaram durante a história?

    Segundo a Bíblia (e também o Alcorão), é simples: Deus existe, e só ele. Yahweh reinou
    desde sempre, tendo contato direto com os primeiros homens, de Adão até Noé, quando
    o dilúvio matou toda a humanidade menos sua família. Depois de Noé, seus filhos se dividiram
    para repovoar o mundo e os povos passaram a cultuar outros deuses, erroneamente. Há cerca
    de 4 mil anos, Deus se revelou a Abrão, um sumério da cidade de Ur (no atual Iraque) que mudou o nome para Abraão.
    Após milênios de desventuras, incluindo um longo período de escravidão no Egito, que
    terminou com as sete pragas de Moisés contra os egípcios, os descendentes de Abraão
    conquistaram um pedaço de Canaã e fizeram dele sua pátria. Desde Abraão até hoje, os hebreus seguem o mesmo deus.

    Fenícios e hebreus

    Canaã era uma região que cor respondia às terras de Israel.
    Palestina, Líbano, Jordânia e Síria. Os cananeus se dividiam em pequenos reinos, como Moab,
    Amon e Edom, e cidades-estado, como Tiro, Sidon e Biblos - os habitantes destas últimas
    ganharam dos gregos o apelido de "fenícios" e fundaram um império comercial. Cananeus
    falavam línguas semíticas muito próximas, dividiam o alfabeto e cultuavam mais ou menos os mesmos deuses. Cercados por todos os lados de pagãos cananeus, falando uma língua semelhante e usando o mesmo alfabeto, mesmas roupas e mesmos utensílios, viviam os hebreus, no Reino de Israel - que, no entanto, não se consideravam cananeus. Ou ao menos não se consideravam na época em que a Tanakh (o Velho Testamento) foi escrita, entre os séculos 6 e 5 a.C., explicando como sua origem era estrangeira.

    Essa migração não foi confirmada pela arqueologia. Não há evidências de uma grande colonização estrangeira na região. Não há menção egípcia ao cativeiro dos hebreus. As campanhas militares do final da Era do Bronze tinham outros protagonistas: os egípcios,
    que tratavam a região como seu quintal, e os povos do mar, que a invadiram pelo norte. Em 1400 a.C., quando Josué teria conquistado Jericó, a cidade estava deserta havia 150 anos.

    Na Bíblia, um Deus em mutação.

    A Bíblia é como uma biblioteca: é formada por livros escritos por diferentes autores ao longo de séculos, reunidos fora de ordem cronológica. Os especialistas distinguem quatro grupos de
    autores principais, cada um deles Identificado por uma letra. Os primeiros a escrever, provavelmente na primeira fase da monarquia Israelita (922-722 a.C.), foram do grupo "J" (do reino de Judá, que chamava seu deus de Yahweh) e "E” (de Israel, que preferiam o titulo divino mais formal Elohlm). J deu a Yahweh caracterlstlcas bastante humanas. No Gênesls, por exemplo, Deus se arrepende, fica zangado e grita com Noé.  Já a visão de E é mais transcendente: Elohlm quase não fala; prefere mandar um anjo como mensageiro. "Mas nem J nem E acreditavam que o deus Israelita era totalmente monoteísta", diz a historiadora das religiões Karen Armstrong no livro A Bíblia - Uma Biografia. Isso mudou com as duas escolas posteriores: "pupriests, "sacerdotes") e "D" (Deuteronomistas), que começaram a escrever após a destruição do reino de Israel pela Assíria (722 a.C) e continuaram durante o exílio na Babilônia (586-539 a.C).

    Em outras palavras, os hebreus não eram inimigos dos cananeus. Eles eram cananeus.
    “O crescente consenso entre os arqueólogos é que, no início, a maioria dos israelitas era cananeu", diz Robert Gnuse, professor de Velho Testamento na Universidade de Loyola, EUA.
    "Aos poucos, as pessoas que desenvolveram uma identidade israelita tenderam a viver no alto das colinas de Canaã. As que mantiveram a identidade canaanita habitavam as planícies."

    Deus e sua esposa

    A Bíblia narra a história dos hebreus como a imposição de um deus estrangeiro a pagãos canaanitas. "Graças ao relato bíblico, o monoteísmo da antiga Israel tem sido considerado
    uma revolução contra o pensamento religioso de seus vizinhos", diz Mark S. Smith, professor
    de Estudos Bíblicos na Universidade de Nova York, no livro The Origine of Biblical Monotbeism
    (As Origens do Monoteísmo Bíblico, inédito no Brasil).
    "Porém, estudos mais recentes têm buscado situar a história bíblica do monoteísmo
    em seu contexto cultural mais amplo", isto é, o contexto do politeísmo canaanita.


    Os antigos hebreus cultuavam o panteão de deuses cananeus entre os séculos lS e 12 a. C.


    Textos e artefatos encontrados em Ugarit (atual Ras Shamra, na Síria), datados dos séculos 15 a 12 a.C., indicam que os hebreus cultuavam o panteão de deuses cananeus. "As quatro camadas da sociedade humana - rei, nobres, camponeses e escravos - eram espelha das em quatro camadas de divindades", diz o historiador canadense K. L. Noll no artigo Canaanite Religion (Religião Cananita). O topo do panteão era ocupado por um deus-chefe, El, e por sua esposa, Asherah. Abaixo vinham os deuses cósmicos, como Baal e Anath, que controlavam a tempestade, a fertilidade e outros aspectos naturais. Na terceira camada vinham os deuses que auxiliavam na vida diária das pessoas, como Kothar-wa-Khasis, o deus da habilidade. Por fim os mensageiros, que não eram mencionados por nome.

    Essa hierarquia de deuses é chamada de henoteísmo (ou monolatria). "Há uma distância muito curta entre essa noção henoteísta e a ideia monoteísta, ou seja, a de que um deus é realmente Deus e quaisquer outros seres sobrenaturais são criaturas insignificantes sob seu comando", diz Noll. "A religião da Bíblia deu esse passo." Entre os hebreus, os deuses das duas camadas intermediárias foram eliminados, restando apenas o deus-chefe e os mensageiros. A palavra "anjo" vem do grego angelos, tradução para o hebraico malak, que significa mensageiro.

    El, o deus-chefe cananeu, é um dos nomes de Deus na Bíblia, geralmente acompanhado
    de um adjetivo, como El Shaddai, "deus todo poderoso" ou Elohim, "deus dos deuses". O
    nome Yahweh, por sua vez, não aparece em textos de outros cananeus. A primeira menção
    a Yahweh é em inscrições egípcias do século 14 a.C., que se referem aos "nômades de Yahweh" e o associam com pessoas que viviam em Edom - não nas terras dos hebreus, mas
    um pouco mais ao sul.

    O Velho Testamento parece sugerir uma origem politeísta, principalmente em seus livros
    mais antigos (veja ao lado). Existem várias passagens como "Senhor, quem é como Tu entre os
    deuses?" (Êxodo 15:11). Ou: "Terrível é Deus na assembléia dos santos, maior e mais tremendo que todos os que o cercam" (Salmos 89:7), que parece falar em algum tipo de panteão.

    Quando o culto a Yahweh se expandiu ao norte, a religião dos hebreus começou a mudar. "Primeiro, houve uma fusão de várias divindades na figura de Yahweh, entre elas El, Asherah e Baal", diz Mark Smith. Basta ler os poemas bíblicos mais antigos para perceber essa fusão de deuses. Na Bíblia, Yahweh assume os atributos de Baal como senhor da tempestade ("A voz do Senhor despede relâmpagos", Salmos 29:7). Achados arqueológicos mostram sua fusão com El, ao assumir a esposa dele: em um templo hebreu do século 9 a.C., está escrito: "Yahweh de Samaria e sua Asherah", Em uma tumba do século 8 a.C. do reino de judá, alguém deixou registrado:  "Yahweh e sua Asherah". Pois é, os antigos hebreus achavam que Deus era casado.


    No exílio babilônico, rabinos reverenciaram r Yahweh e condenaram os outros deuses

    Culto exclusivo

    Ao longo dos séculos, sacerdotes, profetas e monarcas reforçaram o culto exc1usivista a
    Yahweh. Por volta de 700 a.C., definitivamente havia uma religião separada daquela praticada pelos vizinhos, com um grande foco nesse deus. Mas não era universal. "Se você entrasse numa máquina do tempo e voltasse à Palestina daquela época, veria que a maioria das pessoas era politeísta. Outras eram henoteístas. Mas elas não se definiam assim. Não se preocupavam com isso", diz Gnuse.

    No entanto um acontecimento mudaria essa história para sempre. Em 586 a.C., as muralhas
    de Jerusalém vieram abaixo. O rei babilônio Nabucodonosor invadiu a cidade, queimou o
    mítico templo dedicado a Yahweh e mandou boa parte dos judeus para o exílio na Babilônia. "O exílio durou apenas meio século, mas teve uma força criadora impressionante", diz o historiador britânico Paul Johnson no livro História dos Judeus. "Assim como os períodos
    de Abraão e Moisés haviam produzido a religião de Yahweh, os anos durante e pós-exílio desenvolveram e refinaram o judaísmo."

    Durante o exílio, rabinos e escribas compilaram e editaram as tradições orais e os pergaminhos trazidos do templo destruído, agregando textos novos para reverenciar Yahweh e condenar o culto a outros deuses, dando e origem ao Tanakh, o livro sagrado do judaísmo, a o que deu forma definitiva à religião. Em 539, o rei persa Ciro derrotou os babilônios e permitiu a volta dos judeus para Canaã, o que foi  visto como uma intervenção direta de Yahweh. Nos anos que se seguiram, os editores deram os últimos retoques no seu novo a projeto de fé. O primeiro dos Dez Mandamentos  afirma: Não terás outros deuses diante de mim" (Êxodo 20:3). O que era a preferência por um deus transformou-se em uma lei vinda do céu, escrita na pedra e punível com a morte .
     

  • A Invenção de Deus

    Autor: Eduardo Szklarz - Revista Saiba Mais - Fevereiro 2013

    Veículo: Revista S+ Saiba Mais

    Fonte: Livro: The Origins of Biblical, Monotheism, Mark S. Smith, Oxford University Press, 2003

     

    A Invenção de Deus

    Eduardo Szklarz - Revista Saiba Mais - Fevereiro 2013

    Livro: The Origins of Biblical, Monotheism, Mark S. Smith, Oxford University Press, 2003

     

     

    Mais da metade dos seres humanos acredita em um deus único, o Deus com máscula dos cristãos, judeus e islâmicos.

    Mas ele tem uma origem e uma história.


    "Shemá Israel.Adonai Eloheinu,Adonai Echad."
    "Ouve, Israel. O Senhor é nosso Deus.O Senhor é um."

    Assim começa o Shemá, a reza mais importante do judaísmo. Ao repeti-Ia duas vezes ao dia, os judeus professam sua fé exclusiva em Yahweh, deus único, onipotente, onisciente.
    Esse é o deus mais popular do mundo: entre cristãos, judeus e islâmicos, 3,6 bilhões de pessoas professam uma das versões do culto a Yahweh, mais de metade de todos os seres
    humanos. Qual é a origem desse Deus com maiúscula, que dominou meio mundo? E de onde surgiu essa idéia que há apenas um Deus, ao contrário do que quase todos os povos
    acreditaram durante a história?

    Segundo a Bíblia (e também o Alcorão), é simples: Deus existe, e só ele. Yahweh reinou desde sempre, tendo contato direto com os primeiros homens, de Adão até Noé, quando
    o dilúvio matou toda a humanidade menos sua família. Depois de Noé, seus filhos se dividiram para repovoar o mundo e os povos passaram a cultuar outros deuses, erroneamente. Há cerca de 4 mil anos, Deus se revelou a Abrão, um sumério da cidade de Ur (no atual Iraque) que mudou o nome para Abraão.

    Após milênios de desventuras, incluindo um longo período de escravidão no Egito, que terminou com as sete pragas de Moisés contra os egípcios, os descendentes de Abraão
    conquistaram um pedaço de Canaã e fizeram dele sua pátria. Desde Abraão até hoje, os hebreus seguem o mesmo deus.

     

    Fenícios e hebreus

    Canaã era uma região que cor respondia às terras de Israel.
    Palestina, Líbano, Jordânia e Síria. Os cananeus se dividiam em pequenos reinos, como Moab, Amon e Edom, e cidades-estado, como Tiro, Sidon e Biblos - os habitantes destas últimas
    ganharam dos gregos o apelido de "fenícios" e fundaram um império comercial. Cananeus falavam línguas semíticas muito próximas, dividiam o alfabeto e cultuavam mais ou menos os mesmos deuses. Cercados por todos os lados de pagãos cananeus, falando uma língua semelhante e usando o mesmo alfabeto, mesmas roupas e mesmos utensílios, viviam os hebreus, no Reino de Israel - que, no entanto, não se consideravam cananeus. Ou ao menos não se consideravam na época em que a Tanakh (o Velho Testamento) foi escrita, entre os séculos 6 e 5 a.C., explicando como sua origem era estrangeira.

    Essa migração não foi confirmada pela arqueologia. Não há evidências de uma grande colonização estrangeira na região. Não há menção egípcia ao cativeiro dos hebreus. As campanhas militares do final da Era do Bronze tinham outros protagonistas: os egípcios, que tratavam a região como seu quintal, e os povos do mar, que a invadiram pelo norte. Em 1400 a.C., quando Josué teria conquistado Jericó, a cidade estava deserta havia 150 anos.

     

    Na Bíblia, um Deus em mutação.

    A Bíblia é como uma biblioteca: é formada por livros escritos por diferentes autores ao longo de séculos, reunidos fora de ordem cronológica. Os especialistas distinguem quatro grupos de
    autores principais, cada um deles Identificado por uma letra. Os primeiros a escrever, provavelmente na primeira fase da monarquia Israelita (922-722 a.C.), foram do grupo "J" (do reino de Judá, que chamava seu deus de Yahweh) e "E” (de Israel, que preferiam o titulo divino mais formal Elohlm). J deu a Yahweh caracterlstlcas bastante humanas. No Gênesls, por exemplo, Deus se arrepende, fica zangado e grita com Noé.  Já a visão de E é mais transcendente: Elohlm quase não fala; prefere mandar um anjo como mensageiro. "Mas nem J nem E acreditavam que o deus Israelita era totalmente monoteísta", diz a historiadora das religiões Karen Armstrong no livro A Bíblia - Uma Biografia. Isso mudou com as duas escolas posteriores: "pupriests, "sacerdotes") e "D" (Deuteronomistas), que começaram a escrever após a destruição do reino de Israel pela Assíria (722 a.C) e continuaram durante o exílio na Babilônia (586-539 a.C).

    Em outras palavras, os hebreus não eram inimigos dos cananeus. Eles eram cananeus.
    “O crescente consenso entre os arqueólogos é que, no início, a maioria dos israelitas era cananeu", diz Robert Gnuse, professor de Velho Testamento na Universidade de Loyola, EUA.
    "Aos poucos, as pessoas que desenvolveram uma identidade israelita tenderam a viver no alto das colinas de Canaã. As que mantiveram a identidade canaanita habitavam as planícies."

     

    Deus e sua esposa

    A Bíblia narra a história dos hebreus como a imposição de um deus estrangeiro a pagãos canaanitas. "Graças ao relato bíblico, o monoteísmo da antiga Israel tem sido considerado
    uma revolução contra o pensamento religioso de seus vizinhos", diz Mark S. Smith, professor de Estudos Bíblicos na Universidade de Nova York, no livro The Origine of Biblical Monotbeism
    (As Origens do Monoteísmo Bíblico, inédito no Brasil).
    "Porém, estudos mais recentes têm buscado situar a história bíblica do monoteísmo em seu contexto cultural mais amplo", isto é, o contexto do politeísmo canaanita.


    Os antigos hebreus cultuavam o panteão de deuses cananeus entre os séculos lS e 12 a. C.


    Textos e artefatos encontrados em Ugarit (atual Ras Shamra, na Síria), datados dos séculos 15 a 12 a.C., indicam que os hebreus cultuavam o panteão de deuses cananeus. "As quatro camadas da sociedade humana - rei, nobres, camponeses e escravos - eram espelha das em quatro camadas de divindades", diz o historiador canadense K. L. Noll no artigo Canaanite Religion (Religião Cananita). O topo do panteão era ocupado por um deus-chefe, El, e por sua esposa, Asherah. Abaixo vinham os deuses cósmicos, como Baal e Anath, que controlavam a tempestade, a fertilidade e outros aspectos naturais. Na terceira camada vinham os deuses que auxiliavam na vida diária das pessoas, como Kothar-wa-Khasis, o deus da habilidade. Por fim os mensageiros, que não eram mencionados por nome.

    Essa hierarquia de deuses é chamada de henoteísmo (ou monolatria). "Há uma distância muito curta entre essa noção henoteísta e a ideia monoteísta, ou seja, a de que um deus é realmente Deus e quaisquer outros seres sobrenaturais são criaturas insignificantes sob seu comando", diz Noll. "A religião da Bíblia deu esse passo." Entre os hebreus, os deuses das duas camadas intermediárias foram eliminados, restando apenas o deus-chefe e os mensageiros. A palavra "anjo" vem do grego angelos, tradução para o hebraico malak, que significa mensageiro.

    El, o deus-chefe cananeu, é um dos nomes de Deus na Bíblia, geralmente acompanhado de um adjetivo, como El Shaddai, "deus todo poderoso" ou Elohim, "deus dos deuses". O
    nome Yahweh, por sua vez, não aparece em textos de outros cananeus. A primeira menção a Yahweh é em inscrições egípcias do século 14 a.C., que se referem aos "nômades de Yahweh" e o associam com pessoas que viviam em Edom - não nas terras dos hebreus, mas um pouco mais ao sul.

    O Velho Testamento parece sugerir uma origem politeísta, principalmente em seus livros mais antigos. Existem várias passagens como "Senhor, quem é como Tu entre os
    deuses?" (Êxodo 15:11). Ou: "Terrível é Deus na assembléia dos santos, maior e mais tremendo que todos os que o cercam" (Salmos 89:7), que parece falar em algum tipo de panteão.

    Quando o culto a Yahweh se expandiu ao norte, a religião dos hebreus começou a mudar. "Primeiro, houve uma fusão de várias divindades na figura de Yahweh, entre elas El, Asherah e Baal", diz Mark Smith. Basta ler os poemas bíblicos mais antigos para perceber essa fusão de deuses. Na Bíblia, Yahweh assume os atributos de Baal como senhor da tempestade ("A voz do Senhor despede relâmpagos", Salmos 29:7). Achados arqueológicos mostram sua fusão com El, ao assumir a esposa dele: em um templo hebreu do século 9 a.C., está escrito: "Yahweh de Samaria e sua Asherah", Em uma tumba do século 8 a.C. do reino de judá, alguém deixou registrado:  "Yahweh e sua Asherah". Pois é, os antigos hebreus achavam que Deus era casado.


    No exílio babilônico, rabinos reverenciaram r Yahweh e condenaram os outros deuses

     

    Culto exclusivo

    Ao longo dos séculos, sacerdotes, profetas e monarcas reforçaram o culto exclusivista a Yahweh. Por volta de 700 a.C., definitivamente havia uma religião separada daquela praticada pelos vizinhos, com um grande foco nesse deus. Mas não era universal. "Se você entrasse numa máquina do tempo e voltasse à Palestina daquela época, veria que a maioria das pessoas era politeísta. Outras eram henoteístas. Mas elas não se definiam assim. Não se preocupavam com isso", diz Gnuse.

    No entanto um acontecimento mudaria essa história para sempre. Em 586 a.C., as muralhas de Jerusalém vieram abaixo. O rei babilônio Nabucodonosor invadiu a cidade, queimou o
    mítico templo dedicado a Yahweh e mandou boa parte dos judeus para o exílio na Babilônia. "O exílio durou apenas meio século, mas teve uma força criadora impressionante", diz o historiador britânico Paul Johnson no livro História dos Judeus. "Assim como os períodos de Abraão e Moisés haviam produzido a religião de Yahweh, os anos durante e pós-exílio desenvolveram e refinaram o judaísmo."

    Durante o exílio, rabinos e escribas compilaram e editaram as tradições orais e os pergaminhos trazidos do templo destruído, agregando textos novos para reverenciar Yahweh e condenar o culto a outros deuses, dando e origem ao Tanakh, o livro sagrado do judaísmo, a o que deu forma definitiva à religião. Em 539, o rei persa Ciro derrotou os babilônios e permitiu a volta dos judeus para Canaã, o que foi  visto como uma intervenção direta de Yahweh.

    Nos anos que se seguiram, os editores deram os últimos retoques no seu novo a projeto de fé. O primeiro dos Dez Mandamentos  afirma: Não terás outros deuses diante de mim" (Êxodo 20:3). O que era a preferência por um deus transformou-se em uma lei vinda do céu, escrita na pedra e punível com a morte .

     

  • A Invenção de Deus

    Autor: Eduardo Szklarz - Revista Saiba Mais - Fevereiro 2013

    Veículo: Revista S+ Mais

    Fonte: Livro: The Origins of Biblical, Monotheism, Mark S. Smith, Oxford University Press, 2003

    A Invenção de Deus
    Eduardo Szklarz - Revista Saiba Mais - Fevereiro 2013
    Livro: The Origins of Biblical, Monotheism, Mark S. Smith, Oxford University Press, 2003


    Mais da metade dos seres humanos acredita em um deus único, o Deus com máscula dos cristãos, judeus e islâmicos.
    Mas ele tem uma origem e uma história.

    "Shemá Israel.Adonai Eloheinu,Adonai Echad."
    "Ouve, Israel. O Senhor é nosso Deus.O Senhor é um."

    Assim começa o Shemá, a reza mais importante do judaísmo. Ao repeti-Ia duas vezes ao dia, os judeus professam sua fé exclusiva em Yahweh, deus único, onipotente, onisciente.
    Esse é o deus mais popular do mundo: entre cristãos, judeus e islâmicos, 3,6 bilhões de pessoas professam uma das versões do culto a Yahweh, mais de metade de todos os seres
    humanos. Qual é a origem desse Deus com maiúscula, que dominou meio mundo? E de onde surgiu essa idéia que há apenas um Deus, ao contrário do que quase todos os povos
    acreditaram durante a história?

    Segundo a Bíblia (e também o Alcorão), é simples: Deus existe, e só ele. Yahweh reinou desde sempre, tendo contato direto com os primeiros homens, de Adão até Noé, quando
    o dilúvio matou toda a humanidade menos sua família. Depois de Noé, seus filhos se dividiram para repovoar o mundo e os povos passaram a cultuar outros deuses, erroneamente. Há cerca de 4 mil anos, Deus se revelou a Abrão, um sumério da cidade de Ur (no atual Iraque) que mudou o nome para Abraão.
    Após milênios de desventuras, incluindo um longo período de escravidão no Egito, que terminou com as sete pragas de Moisés contra os egípcios, os descendentes de Abraão
    conquistaram um pedaço de Canaã e fizeram dele sua pátria. Desde Abraão até hoje, os hebreus seguem o mesmo deus.

    Fenícios e hebreus
     

    Canaã era uma região que cor respondia às terras de Israel.
    Palestina, Líbano, Jordânia e Síria. Os cananeus se dividiam em pequenos reinos, como Moab, Amon e Edom, e cidades-estado, como Tiro, Sidon e Biblos - os habitantes destas últimas
    ganharam dos gregos o apelido de "fenícios" e fundaram um império comercial. Cananeus falavam línguas semíticas muito próximas, dividiam o alfabeto e cultuavam mais ou menos os mesmos deuses. Cercados por todos os lados de pagãos cananeus, falando uma língua semelhante e usando o mesmo alfabeto, mesmas roupas e mesmos utensílios, viviam os hebreus, no Reino de Israel - que, no entanto, não se consideravam cananeus. Ou ao menos não se consideravam na época em que a Tanakh (o Velho Testamento) foi escrita, entre os séculos 6 e 5 a.C., explicando como sua origem era estrangeira.

    Essa migração não foi confirmada pela arqueologia. Não há evidências de uma grande colonização estrangeira na região. Não há menção egípcia ao cativeiro dos hebreus. As campanhas militares do final da Era do Bronze tinham outros protagonistas: os egípcios, que tratavam a região como seu quintal, e os povos do mar, que a invadiram pelo norte. Em 1400 a.C., quando Josué teria conquistado Jericó, a cidade estava deserta havia 150 anos.


    Na Bíblia, um Deus em mutação.

    A Bíblia é como uma biblioteca: é formada por livros escritos por diferentes autores ao longo de séculos, reunidos fora de ordem cronológica. Os especialistas distinguem quatro grupos de
    autores principais, cada um deles Identificado por uma letra. Os primeiros a escrever, provavelmente na primeira fase da monarquia Israelita (922-722 a.C.), foram do grupo "J" (do reino de Judá, que chamava seu deus de Yahweh) e "E” (de Israel, que preferiam o titulo divino mais formal Elohlm). J deu a Yahweh caracterlstlcas bastante humanas. No Gênesls, por exemplo, Deus se arrepende, fica zangado e grita com Noé.  Já a visão de E é mais transcendente: Elohlm quase não fala; prefere mandar um anjo como mensageiro. "Mas nem J nem E acreditavam que o deus Israelita era totalmente monoteísta", diz a historiadora das religiões Karen Armstrong no livro A Bíblia - Uma Biografia. Isso mudou com as duas escolas posteriores: "pupriests, "sacerdotes") e "D" (Deuteronomistas), que começaram a escrever após a destruição do reino de Israel pela Assíria (722 a.C) e continuaram durante o exílio na Babilônia (586-539 a.C).

    Em outras palavras, os hebreus não eram inimigos dos cananeus. Eles eram cananeus.
    “O crescente consenso entre os arqueólogos é que, no início, a maioria dos israelitas era cananeu", diz Robert Gnuse, professor de Velho Testamento na Universidade de Loyola, EUA.
    "Aos poucos, as pessoas que desenvolveram uma identidade israelita tenderam a viver no alto das colinas de Canaã. As que mantiveram a identidade canaanita habitavam as planícies."

     

    Deus e sua esposa

    A Bíblia narra a história dos hebreus como a imposição de um deus estrangeiro a pagãos canaanitas. "Graças ao relato bíblico, o monoteísmo da antiga Israel tem sido considerado
    uma revolução contra o pensamento religioso de seus vizinhos", diz Mark S. Smith, professor de Estudos Bíblicos na Universidade de Nova York, no livro The Origine of Biblical Monotbeism
    (As Origens do Monoteísmo Bíblico, inédito no Brasil).

    "Porém, estudos mais recentes têm buscado situar a história bíblica do monoteísmo em seu contexto cultural mais amplo", isto é, o contexto do politeísmo canaanita.

    Os antigos hebreus cultuavam o panteão de deuses cananeus entre os séculos lS e 12 a. C.

    Textos e artefatos encontrados em Ugarit (atual Ras Shamra, na Síria), datados dos séculos 15 a 12 a.C., indicam que os hebreus cultuavam o panteão de deuses cananeus. "As quatro camadas da sociedade humana - rei, nobres, camponeses e escravos - eram espelha das em quatro camadas de divindades", diz o historiador canadense K. L. Noll no artigo Canaanite Religion (Religião Cananita). O topo do panteão era ocupado por um deus-chefe, El, e por sua esposa, Asherah. Abaixo vinham os deuses cósmicos, como Baal e Anath, que controlavam a tempestade, a fertilidade e outros aspectos naturais. Na terceira camada vinham os deuses que auxiliavam na vida diária das pessoas, como Kothar-wa-Khasis, o deus da habilidade. Por fim os mensageiros, que não eram mencionados por nome.

    Essa hierarquia de deuses é chamada de henoteísmo (ou monolatria). "Há uma distância muito curta entre essa noção henoteísta e a ideia monoteísta, ou seja, a de que um deus é realmente Deus e quaisquer outros seres sobrenaturais são criaturas insignificantes sob seu comando", diz Noll. "A religião da Bíblia deu esse passo." Entre os hebreus, os deuses das duas camadas intermediárias foram eliminados, restando apenas o deus-chefe e os mensageiros. A palavra "anjo" vem do grego angelos, tradução para o hebraico malak, que significa mensageiro.

    El, o deus-chefe cananeu, é um dos nomes de Deus na Bíblia, geralmente acompanhado de um adjetivo, como El Shaddai, "deus todo poderoso" ou Elohim, "deus dos deuses". O
    nome Yahweh, por sua vez, não aparece em textos de outros cananeus. A primeira menção a Yahweh é em inscrições egípcias do século 14 a.C., que se referem aos "nômades de Yahweh" e o associam com pessoas que viviam em Edom - não nas terras dos hebreus, mas um pouco mais ao sul.

    O Velho Testamento parece sugerir uma origem politeísta, principalmente em seus livros mais antigos. Existem várias passagens como "Senhor, quem é como Tu entre os
    deuses?" (Êxodo 15:11). Ou: "Terrível é Deus na assembléia dos santos, maior e mais tremendo que todos os que o cercam" (Salmos 89:7), que parece falar em algum tipo de panteão.
    Quando o culto a Yahweh se expandiu ao norte, a religião dos hebreus começou a mudar. "Primeiro, houve uma fusão de várias divindades na figura de Yahweh, entre elas El, Asherah e Baal", diz Mark Smith. Basta ler os poemas bíblicos mais antigos para perceber essa fusão de deuses. Na Bíblia, Yahweh assume os atributos de Baal como senhor da tempestade ("A voz do Senhor despede relâmpagos", Salmos 29:7). Achados arqueológicos mostram sua fusão com El, ao assumir a esposa dele: em um templo hebreu do século 9 a.C., está escrito: "Yahweh de Samaria e sua Asherah", Em uma tumba do século 8 a.C. do reino de judá, alguém deixou registrado:  "Yahweh e sua Asherah". Pois é, os antigos hebreus achavam que Deus era casado.


    No exílio babilônico, rabinos reverenciaram r Yahweh e condenaram os outros deuses

     

    Culto exclusivo

    Ao longo dos séculos, sacerdotes, profetas e monarcas reforçaram o culto exclusivista a Yahweh. Por volta de 700 a.C., definitivamente havia uma religião separada daquela praticada pelos vizinhos, com um grande foco nesse deus. Mas não era universal. "Se você entrasse numa máquina do tempo e voltasse à Palestina daquela época, veria que a maioria das pessoas era politeísta. Outras eram henoteístas. Mas elas não se definiam assim. Não se preocupavam com isso", diz Gnuse.
    No entanto um acontecimento mudaria essa história para sempre. Em 586 a.C., as muralhas de Jerusalém vieram abaixo. O rei babilônio Nabucodonosor invadiu a cidade, queimou o
    mítico templo dedicado a Yahweh e mandou boa parte dos judeus para o exílio na Babilônia. "O exílio durou apenas meio século, mas teve uma força criadora impressionante", diz o historiador britânico Paul Johnson no livro História dos Judeus. "Assim como os períodos de Abraão e Moisés haviam produzido a religião de Yahweh, os anos durante e pós-exílio desenvolveram e refinaram o judaísmo."

    Durante o exílio, rabinos e escribas compilaram e editaram as tradições orais e os pergaminhos trazidos do templo destruído, agregando textos novos para reverenciar Yahweh e condenar o culto a outros deuses, dando e origem ao Tanakh, o livro sagrado do judaísmo, a o que deu forma definitiva à religião. Em 539, o rei persa Ciro derrotou os babilônios e permitiu a volta dos judeus para Canaã, o que foi  visto como uma intervenção direta de Yahweh.
    Nos anos que se seguiram, os editores deram os últimos retoques no seu novo a projeto de fé. O primeiro dos Dez Mandamentos  afirma: Não terás outros deuses diante de mim" (Êxodo 20:3). O que era a preferência por um deus transformou-se em uma lei vinda do céu, escrita na pedra e punível com a morte .
     

  • A Invenção de Deus

    Autor: Eduardo Szklarz - Revista Saiba Mais - Fevereiro 2013

    Veículo: Revista S+ Mais

    Fonte: Livro: The Origins of Biblical, Monotheism, Mark S. Smith, Oxford University Press, 2003

     

    A Invenção de Deus
    Eduardo Szklarz - Revista Saiba Mais - Fevereiro 2013
    Livro: The Origins of Biblical, Monotheism, Mark S. Smith, Oxford University Press, 2003


    Mais da metade dos seres humanos acredita em um deus único, o Deus com máscula dos cristãos, judeus e islâmicos.
    Mas ele tem uma origem e uma história.

    "Shemá Israel.Adonai Eloheinu,Adonai Echad."
    "Ouve, Israel. O Senhor é nosso Deus.O Senhor é um."

     

    Assim começa o Shemá, a reza mais importante do judaísmo. Ao repeti-Ia duas vezes ao dia, os judeus professam sua fé exclusiva em Yahweh, deus único, onipotente, onisciente.
    Esse é o deus mais popular do mundo: entre cristãos, judeus e islâmicos, 3,6 bilhões de pessoas professam uma das versões do culto a Yahweh, mais de metade de todos os seres
    humanos. Qual é a origem desse Deus com maiúscula, que dominou meio mundo? E de onde surgiu essa idéia que há apenas um Deus, ao contrário do que quase todos os povos
    acreditaram durante a história?

    Segundo a Bíblia (e também o Alcorão), é simples: Deus existe, e só ele. Yahweh reinou desde sempre, tendo contato direto com os primeiros homens, de Adão até Noé, quando
    o dilúvio matou toda a humanidade menos sua família. Depois de Noé, seus filhos se dividiram para repovoar o mundo e os povos passaram a cultuar outros deuses, erroneamente. Há cerca de 4 mil anos, Deus se revelou a Abrão, um sumério da cidade de Ur (no atual Iraque) que mudou o nome para Abraão.
    Após milênios de desventuras, incluindo um longo período de escravidão no Egito, que terminou com as sete pragas de Moisés contra os egípcios, os descendentes de Abraão
    conquistaram um pedaço de Canaã e fizeram dele sua pátria. Desde Abraão até hoje, os hebreus seguem o mesmo deus.

    Fenícios e hebreus
     

    Canaã era uma região que cor respondia às terras de Israel.
    Palestina, Líbano, Jordânia e Síria. Os cananeus se dividiam em pequenos reinos, como Moab, Amon e Edom, e cidades-estado, como Tiro, Sidon e Biblos - os habitantes destas últimas
    ganharam dos gregos o apelido de "fenícios" e fundaram um império comercial. Cananeus falavam línguas semíticas muito próximas, dividiam o alfabeto e cultuavam mais ou menos os mesmos deuses. Cercados por todos os lados de pagãos cananeus, falando uma língua semelhante e usando o mesmo alfabeto, mesmas roupas e mesmos utensílios, viviam os hebreus, no Reino de Israel - que, no entanto, não se consideravam cananeus. Ou ao menos não se consideravam na época em que a Tanakh (o Velho Testamento) foi escrita, entre os séculos 6 e 5 a.C., explicando como sua origem era estrangeira.

    Essa migração não foi confirmada pela arqueologia. Não há evidências de uma grande colonização estrangeira na região. Não há menção egípcia ao cativeiro dos hebreus. As campanhas militares do final da Era do Bronze tinham outros protagonistas: os egípcios, que tratavam a região como seu quintal, e os povos do mar, que a invadiram pelo norte. Em 1400 a.C., quando Josué teria conquistado Jericó, a cidade estava deserta havia 150 anos.


     

    Na Bíblia, um Deus em mutação.

    A Bíblia é como uma biblioteca: é formada por livros escritos por diferentes autores ao longo de séculos, reunidos fora de ordem cronológica. Os especialistas distinguem quatro grupos de
    autores principais, cada um deles Identificado por uma letra. Os primeiros a escrever, provavelmente na primeira fase da monarquia Israelita (922-722 a.C.), foram do grupo "J" (do reino de Judá, que chamava seu deus de Yahweh) e "E” (de Israel, que preferiam o titulo divino mais formal Elohlm). J deu a Yahweh caracterlstlcas bastante humanas. No Gênesls, por exemplo, Deus se arrepende, fica zangado e grita com Noé.  Já a visão de E é mais transcendente: Elohlm quase não fala; prefere mandar um anjo como mensageiro. "Mas nem J nem E acreditavam que o deus Israelita era totalmente monoteísta", diz a historiadora das religiões Karen Armstrong no livro A Bíblia - Uma Biografia. Isso mudou com as duas escolas posteriores: "pupriests, "sacerdotes") e "D" (Deuteronomistas), que começaram a escrever após a destruição do reino de Israel pela Assíria (722 a.C) e continuaram durante o exílio na Babilônia (586-539 a.C).

    Em outras palavras, os hebreus não eram inimigos dos cananeus. Eles eram cananeus.
    “O crescente consenso entre os arqueólogos é que, no início, a maioria dos israelitas era cananeu", diz Robert Gnuse, professor de Velho Testamento na Universidade de Loyola, EUA.
    "Aos poucos, as pessoas que desenvolveram uma identidade israelita tenderam a viver no alto das colinas de Canaã. As que mantiveram a identidade canaanita habitavam as planícies."

     

    Deus e sua esposa

    A Bíblia narra a história dos hebreus como a imposição de um deus estrangeiro a pagãos canaanitas. "Graças ao relato bíblico, o monoteísmo da antiga Israel tem sido considerado
    uma revolução contra o pensamento religioso de seus vizinhos", diz Mark S. Smith, professor de Estudos Bíblicos na Universidade de Nova York, no livro The Origine of Biblical Monotbeism
    (As Origens do Monoteísmo Bíblico, inédito no Brasil).

    "Porém, estudos mais recentes têm buscado situar a história bíblica do monoteísmo em seu contexto cultural mais amplo", isto é, o contexto do politeísmo canaanita.

    Os antigos hebreus cultuavam o panteão de deuses cananeus entre os séculos lS e 12 a. C.

    Textos e artefatos encontrados em Ugarit (atual Ras Shamra, na Síria), datados dos séculos 15 a 12 a.C., indicam que os hebreus cultuavam o panteão de deuses cananeus. "As quatro camadas da sociedade humana - rei, nobres, camponeses e escravos - eram espelha das em quatro camadas de divindades", diz o historiador canadense K. L. Noll no artigo Canaanite Religion (Religião Cananita). O topo do panteão era ocupado por um deus-chefe, El, e por sua esposa, Asherah. Abaixo vinham os deuses cósmicos, como Baal e Anath, que controlavam a tempestade, a fertilidade e outros aspectos naturais. Na terceira camada vinham os deuses que auxiliavam na vida diária das pessoas, como Kothar-wa-Khasis, o deus da habilidade. Por fim os mensageiros, que não eram mencionados por nome.

    Essa hierarquia de deuses é chamada de henoteísmo (ou monolatria). "Há uma distância muito curta entre essa noção henoteísta e a ideia monoteísta, ou seja, a de que um deus é realmente Deus e quaisquer outros seres sobrenaturais são criaturas insignificantes sob seu comando", diz Noll. "A religião da Bíblia deu esse passo." Entre os hebreus, os deuses das duas camadas intermediárias foram eliminados, restando apenas o deus-chefe e os mensageiros. A palavra "anjo" vem do grego angelos, tradução para o hebraico malak, que significa mensageiro.

    El, o deus-chefe cananeu, é um dos nomes de Deus na Bíblia, geralmente acompanhado de um adjetivo, como El Shaddai, "deus todo poderoso" ou Elohim, "deus dos deuses". O
    nome Yahweh, por sua vez, não aparece em textos de outros cananeus. A primeira menção a Yahweh é em inscrições egípcias do século 14 a.C., que se referem aos "nômades de Yahweh" e o associam com pessoas que viviam em Edom - não nas terras dos hebreus, mas um pouco mais ao sul.

    O Velho Testamento parece sugerir uma origem politeísta, principalmente em seus livros mais antigos. Existem várias passagens como "Senhor, quem é como Tu entre os
    deuses?" (Êxodo 15:11). Ou: "Terrível é Deus na assembléia dos santos, maior e mais tremendo que todos os que o cercam" (Salmos 89:7), que parece falar em algum tipo de panteão.
    Quando o culto a Yahweh se expandiu ao norte, a religião dos hebreus começou a mudar. "Primeiro, houve uma fusão de várias divindades na figura de Yahweh, entre elas El, Asherah e Baal", diz Mark Smith. Basta ler os poemas bíblicos mais antigos para perceber essa fusão de deuses. Na Bíblia, Yahweh assume os atributos de Baal como senhor da tempestade ("A voz do Senhor despede relâmpagos", Salmos 29:7). Achados arqueológicos mostram sua fusão com El, ao assumir a esposa dele: em um templo hebreu do século 9 a.C., está escrito: "Yahweh de Samaria e sua Asherah", Em uma tumba do século 8 a.C. do reino de judá, alguém deixou registrado:  "Yahweh e sua Asherah". Pois é, os antigos hebreus achavam que Deus era casado.


     

    No exílio babilônico, rabinos reverenciaram r Yahweh e condenaram os outros deuses

     

    Culto exclusivo

    Ao longo dos séculos, sacerdotes, profetas e monarcas reforçaram o culto exclusivista a Yahweh. Por volta de 700 a.C., definitivamente havia uma religião separada daquela praticada pelos vizinhos, com um grande foco nesse deus. Mas não era universal. "Se você entrasse numa máquina do tempo e voltasse à Palestina daquela época, veria que a maioria das pessoas era politeísta. Outras eram henoteístas. Mas elas não se definiam assim. Não se preocupavam com isso", diz Gnuse.
    No entanto um acontecimento mudaria essa história para sempre. Em 586 a.C., as muralhas de Jerusalém vieram abaixo. O rei babilônio Nabucodonosor invadiu a cidade, queimou o
    mítico templo dedicado a Yahweh e mandou boa parte dos judeus para o exílio na Babilônia. "O exílio durou apenas meio século, mas teve uma força criadora impressionante", diz o historiador britânico Paul Johnson no livro História dos Judeus. "Assim como os períodos de Abraão e Moisés haviam produzido a religião de Yahweh, os anos durante e pós-exílio desenvolveram e refinaram o judaísmo."

    Durante o exílio, rabinos e escribas compilaram e editaram as tradições orais e os pergaminhos trazidos do templo destruído, agregando textos novos para reverenciar Yahweh e condenar o culto a outros deuses, dando e origem ao Tanakh, o livro sagrado do judaísmo, a o que deu forma definitiva à religião. Em 539, o rei persa Ciro derrotou os babilônios e permitiu a volta dos judeus para Canaã, o que foi  visto como uma intervenção direta de Yahweh.
    Nos anos que se seguiram, os editores deram os últimos retoques no seu novo a projeto de fé. O primeiro dos Dez Mandamentos  afirma: Não terás outros deuses diante de mim" (Êxodo 20:3). O que era a preferência por um deus transformou-se em uma lei vinda do céu, escrita na pedra e punível com a morte .

     

  • A Invenção de Deus

    Autor: Eduardo Szklarz - Revista Saiba Mais - Fevereiro 2013

    Veículo: Revista S + Mais

    Fonte: Livro: The Origins of Biblical, Monotheism, Mark S. Smith, Oxford University Press, 2003

     

    A Invenção de Deus

    Eduardo Szklarz - Revista Saiba Mais - Fevereiro 2013

    Livro: The Origins of Biblical, Monotheism, Mark S. Smith, Oxford University Press, 2003

     

     

    Mais da metade dos seres humanos acredita em um deus único, o Deus com máscula dos cristãos, judeus e islâmicos.

    Mas ele tem uma origem e uma história.


    "Shemá Israel.Adonai Eloheinu,Adonai Echad."
    "Ouve, Israel. O Senhor é nosso Deus.O Senhor é um."

    Assim começa o Shemá, a reza mais importante do judaísmo. Ao repeti-Ia duas vezes ao dia, os judeus professam sua fé exclusiva em Yahweh, deus único, onipotente, onisciente.
    Esse é o deus mais popular do mundo: entre cristãos, judeus e islâmicos, 3,6 bilhões de pessoas professam uma das versões do culto a Yahweh, mais de metade de todos os seres
    humanos. Qual é a origem desse Deus com maiúscula, que dominou meio mundo? E de onde surgiu essa idéia que há apenas um Deus, ao contrário do que quase todos os povos
    acreditaram durante a história?

    Segundo a Bíblia (e também o Alcorão), é simples: Deus existe, e só ele. Yahweh reinou desde sempre, tendo contato direto com os primeiros homens, de Adão até Noé, quando
    o dilúvio matou toda a humanidade menos sua família. Depois de Noé, seus filhos se dividiram para repovoar o mundo e os povos passaram a cultuar outros deuses, erroneamente. Há cerca de 4 mil anos, Deus se revelou a Abrão, um sumério da cidade de Ur (no atual Iraque) que mudou o nome para Abraão.

    Após milênios de desventuras, incluindo um longo período de escravidão no Egito, que terminou com as sete pragas de Moisés contra os egípcios, os descendentes de Abraão
    conquistaram um pedaço de Canaã e fizeram dele sua pátria. Desde Abraão até hoje, os hebreus seguem o mesmo deus.

     

    Fenícios e hebreus

    Canaã era uma região que cor respondia às terras de Israel.
    Palestina, Líbano, Jordânia e Síria. Os cananeus se dividiam em pequenos reinos, como Moab, Amon e Edom, e cidades-estado, como Tiro, Sidon e Biblos - os habitantes destas últimas
    ganharam dos gregos o apelido de "fenícios" e fundaram um império comercial. Cananeus falavam línguas semíticas muito próximas, dividiam o alfabeto e cultuavam mais ou menos os mesmos deuses. Cercados por todos os lados de pagãos cananeus, falando uma língua semelhante e usando o mesmo alfabeto, mesmas roupas e mesmos utensílios, viviam os hebreus, no Reino de Israel - que, no entanto, não se consideravam cananeus. Ou ao menos não se consideravam na época em que a Tanakh (o Velho Testamento) foi escrita, entre os séculos 6 e 5 a.C., explicando como sua origem era estrangeira.

    Essa migração não foi confirmada pela arqueologia. Não há evidências de uma grande colonização estrangeira na região. Não há menção egípcia ao cativeiro dos hebreus. As campanhas militares do final da Era do Bronze tinham outros protagonistas: os egípcios, que tratavam a região como seu quintal, e os povos do mar, que a invadiram pelo norte. Em 1400 a.C., quando Josué teria conquistado Jericó, a cidade estava deserta havia 150 anos.

     

    Na Bíblia, um Deus em mutação.

    A Bíblia é como uma biblioteca: é formada por livros escritos por diferentes autores ao longo de séculos, reunidos fora de ordem cronológica. Os especialistas distinguem quatro grupos de
    autores principais, cada um deles Identificado por uma letra. Os primeiros a escrever, provavelmente na primeira fase da monarquia Israelita (922-722 a.C.), foram do grupo "J" (do reino de Judá, que chamava seu deus de Yahweh) e "E” (de Israel, que preferiam o titulo divino mais formal Elohlm). J deu a Yahweh caracterlstlcas bastante humanas. No Gênesls, por exemplo, Deus se arrepende, fica zangado e grita com Noé.  Já a visão de E é mais transcendente: Elohlm quase não fala; prefere mandar um anjo como mensageiro. "Mas nem J nem E acreditavam que o deus Israelita era totalmente monoteísta", diz a historiadora das religiões Karen Armstrong no livro A Bíblia - Uma Biografia. Isso mudou com as duas escolas posteriores: "pupriests, "sacerdotes") e "D" (Deuteronomistas), que começaram a escrever após a destruição do reino de Israel pela Assíria (722 a.C) e continuaram durante o exílio na Babilônia (586-539 a.C).

    Em outras palavras, os hebreus não eram inimigos dos cananeus. Eles eram cananeus.
    “O crescente consenso entre os arqueólogos é que, no início, a maioria dos israelitas era cananeu", diz Robert Gnuse, professor de Velho Testamento na Universidade de Loyola, EUA.
    "Aos poucos, as pessoas que desenvolveram uma identidade israelita tenderam a viver no alto das colinas de Canaã. As que mantiveram a identidade canaanita habitavam as planícies."

     

    Deus e sua esposa

    A Bíblia narra a história dos hebreus como a imposição de um deus estrangeiro a pagãos canaanitas. "Graças ao relato bíblico, o monoteísmo da antiga Israel tem sido considerado
    uma revolução contra o pensamento religioso de seus vizinhos", diz Mark S. Smith, professor de Estudos Bíblicos na Universidade de Nova York, no livro The Origine of Biblical Monotbeism
    (As Origens do Monoteísmo Bíblico, inédito no Brasil).
    "Porém, estudos mais recentes têm buscado situar a história bíblica do monoteísmo em seu contexto cultural mais amplo", isto é, o contexto do politeísmo canaanita.


    Os antigos hebreus cultuavam o panteão de deuses cananeus entre os séculos lS e 12 a. C.


    Textos e artefatos encontrados em Ugarit (atual Ras Shamra, na Síria), datados dos séculos 15 a 12 a.C., indicam que os hebreus cultuavam o panteão de deuses cananeus. "As quatro camadas da sociedade humana - rei, nobres, camponeses e escravos - eram espelha das em quatro camadas de divindades", diz o historiador canadense K. L. Noll no artigo Canaanite Religion (Religião Cananita). O topo do panteão era ocupado por um deus-chefe, El, e por sua esposa, Asherah. Abaixo vinham os deuses cósmicos, como Baal e Anath, que controlavam a tempestade, a fertilidade e outros aspectos naturais. Na terceira camada vinham os deuses que auxiliavam na vida diária das pessoas, como Kothar-wa-Khasis, o deus da habilidade. Por fim os mensageiros, que não eram mencionados por nome.

    Essa hierarquia de deuses é chamada de henoteísmo (ou monolatria). "Há uma distância muito curta entre essa noção henoteísta e a ideia monoteísta, ou seja, a de que um deus é realmente Deus e quaisquer outros seres sobrenaturais são criaturas insignificantes sob seu comando", diz Noll. "A religião da Bíblia deu esse passo." Entre os hebreus, os deuses das duas camadas intermediárias foram eliminados, restando apenas o deus-chefe e os mensageiros. A palavra "anjo" vem do grego angelos, tradução para o hebraico malak, que significa mensageiro.

    El, o deus-chefe cananeu, é um dos nomes de Deus na Bíblia, geralmente acompanhado de um adjetivo, como El Shaddai, "deus todo poderoso" ou Elohim, "deus dos deuses". O
    nome Yahweh, por sua vez, não aparece em textos de outros cananeus. A primeira menção a Yahweh é em inscrições egípcias do século 14 a.C., que se referem aos "nômades de Yahweh" e o associam com pessoas que viviam em Edom - não nas terras dos hebreus, mas um pouco mais ao sul.

    O Velho Testamento parece sugerir uma origem politeísta, principalmente em seus livros mais antigos. Existem várias passagens como "Senhor, quem é como Tu entre os
    deuses?" (Êxodo 15:11). Ou: "Terrível é Deus na assembléia dos santos, maior e mais tremendo que todos os que o cercam" (Salmos 89:7), que parece falar em algum tipo de panteão.

    Quando o culto a Yahweh se expandiu ao norte, a religião dos hebreus começou a mudar. "Primeiro, houve uma fusão de várias divindades na figura de Yahweh, entre elas El, Asherah e Baal", diz Mark Smith. Basta ler os poemas bíblicos mais antigos para perceber essa fusão de deuses. Na Bíblia, Yahweh assume os atributos de Baal como senhor da tempestade ("A voz do Senhor despede relâmpagos", Salmos 29:7). Achados arqueológicos mostram sua fusão com El, ao assumir a esposa dele: em um templo hebreu do século 9 a.C., está escrito: "Yahweh de Samaria e sua Asherah", Em uma tumba do século 8 a.C. do reino de judá, alguém deixou registrado:  "Yahweh e sua Asherah". Pois é, os antigos hebreus achavam que Deus era casado.


    No exílio babilônico, rabinos reverenciaram r Yahweh e condenaram os outros deuses 

     

    Culto exclusivo

    Ao longo dos séculos, sacerdotes, profetas e monarcas reforçaram o culto exclusivista a Yahweh. Por volta de 700 a.C., definitivamente havia uma religião separada daquela praticada pelos vizinhos, com um grande foco nesse deus. Mas não era universal. "Se você entrasse numa máquina do tempo e voltasse à Palestina daquela época, veria que a maioria das pessoas era politeísta. Outras eram henoteístas. Mas elas não se definiam assim. Não se preocupavam com isso", diz Gnuse.

    No entanto um acontecimento mudaria essa história para sempre. Em 586 a.C., as muralhas de Jerusalém vieram abaixo. O rei babilônio Nabucodonosor invadiu a cidade, queimou o
    mítico templo dedicado a Yahweh e mandou boa parte dos judeus para o exílio na Babilônia. "O exílio durou apenas meio século, mas teve uma força criadora impressionante", diz o historiador britânico Paul Johnson no livro História dos Judeus. "Assim como os períodos de Abraão e Moisés haviam produzido a religião de Yahweh, os anos durante e pós-exílio desenvolveram e refinaram o judaísmo."

    Durante o exílio, rabinos e escribas compilaram e editaram as tradições orais e os pergaminhos trazidos do templo destruído, agregando textos novos para reverenciar Yahweh e condenar o culto a outros deuses, dando e origem ao Tanakh, o livro sagrado do judaísmo, a o que deu forma definitiva à religião. Em 539, o rei persa Ciro derrotou os babilônios e permitiu a volta dos judeus para Canaã, o que foi  visto como uma intervenção direta de Yahweh. 

    Nos anos que se seguiram, os editores deram os últimos retoques no seu novo a projeto de fé. O primeiro dos Dez Mandamentos  afirma: Não terás outros deuses diante de mim" (Êxodo 20:3). O que era a preferência por um deus transformou-se em uma lei vinda do céu, escrita na pedra e punível com a morte .

     

Marcio Mafra
19/11/2016 às 00:00
Brasília - DF

В августе 2011 года я был в Санкт-Петербурге, посещение главной библиотеки города, где - сюрприз - я наткнулся на книги Пауло Коэльо, а также Жоржи Амаду. Я принес копию каждого, плюс копию православной Библии. 1

 

 Em agosto de 2011 estava em S.Petersburgo, Russia, visitando a principal livraria da cidade, onde - surpreso -  me deparei com livros de Paulo Coelho e também de Jorge Amado. Trouxe um exemplar de cada um, além de um exemplar de Biblia Ortodoxa.  

1

 


 

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