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Noventa Dias

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Noventa Dias

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Autor: Bill Clegg

Editora: Companhia das Letras

Assunto: Biografia

Traduzido por: Pedro Maia Soares

Páginas: 151

Ano de edição: 2013

Peso: 200 g

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Bom
Marcio Mafra
19/11/2016 às 16:42
Brasília - DF
Noventa Dias é o diário de uma luta feroz, rascante, insana, bruta, injusta e sacana que só um autor (e personagem) como Bill consegue viver e escrever. É um drama monstruoso. Tanto ele, como qualquer outro drogado não quer passar pelo sofrimento do pós droga, mas não consegue ficar feliz sem se drogar. A fissura pela droga é foda de controlar. Não é coisa poética, nem bonita. Livro bom. Leitura fácil.

Marcio Mafra
19/11/2016 às 00:00
Brasília - DF

O diário do próprio autor, sobre sua descida ao inferno pela dependência de drogas e as tentativas de recuperação em 90 dias.

Marcio Mafra
19/11/2016 às 00:00
Brasília - DF

Nuvem cor-de-rosa

É o Quatro de Julho e Elliot e eu vamos dar um passeio na Bear Mountain. Caminhamos por algumas horas e chegamos a um cume com vista para Manhattan. Parece Oz, Elliot diz quando a crista de edifícios aparece, flutuando no horizonte como uma coroa. Lembro

de pensar a mesma coisa no carro de Dave há três meses, quando vinha de White Plains. Aquela viagem de carro parece estar agora a uma vida inteira de distância.

 

Elliot e eu voltamos à cidade quando já está escurecendo. O ascen­sorista, o mais velho dos dois irmãos, está sorrindo quando entra­mos no saguão e perguntamos por quê. O telhado está aberto!, ele diz, entusiasmado, como se devêssemos saber por que isso é um motivo de comemoração. Para os fogos de artifício! Claro, os fogos de artifício, o Quatro de Julho. Subimos até o vigésimo andar e corremos para o telhado. O edifício é o último prédio alto da Sétima Avenida antes dos hectares de mansões e prédios baixos do West Village que se espalham ao sul da rua 14, portanto a vista do te­lhado é de tirar o fôlego. Vemos as longas margens fluviais iluminadas de Nova Jersey, os prédios amontoados que compõem o que resta do distrito financeiro, a torre do MetLife ao norte do Flatiron e o mais alto de todos, o Empire State Building, celebran­do com luzes vermelhas, brancas e azuis. A cidade nunca pareceu tão festiva, tão possível. Fogos de artifício começam a explodir acima e abaixo do rio Hudson, ao sul do Battery Park e por toda a cidade além do East River. Nunca vi tantos fogos de artifício juntos, e ficamos atordoados. Nós nos beijamos. Não pela primeira vez des­de nosso caso de vários anos atrás e não pela primeira vez naquele dia, mas de uma forma que deixava claro que algo estava come­çando, ou que já havia começado e agora estava sendo admitido.

É um dos maiores beijos da minha vida. Iack me advertiu contra envolvimentos românticos antes de completar os noventa dias, mas é uma orientação que não sigo. A preocupação é que se houver mágoa ou transtorno romântico nos noventa dias, poderá ha­ver uma recaída. Talvez porque meu coração já estivesse partido e Eliot tenha surgido como um amigo e acabou se tornando algo mais, era diferente. Não sei. Eu não recomendaria isso a ninguém, mas também não me arrependo.

 

Dois dias depois do Quatro de Julho, marco um encontro com Asa no Mary Ann's, um restaurante mexicano no Chelsea. Curio­samente, é o restaurante ao qual minha namorada Marie me le­vou em nossa primeira viagem juntos a Nova York, no verão de­pois que me formei na faculdade. Quando vou ao banheiro, me olho no espelho que pode muito bem ser o mesmo espelho em que me olhei há tanto tempo. Eu tinha vinte e um anos na época e tenho trinta e quatro agora; desempregado na época, desempre­gado agora, penso, e em seguida digo alto para o meu reflexo:

 

Nada mudou. Olho mais de perto e vejo o avanço das rugas ao redor dos olhos e ao longo da testa e mais-do-que-um-pouco de cabelos grisalhos acima. Algumas coisas mudaram sim, penso, e depois penso isso de novo quando volto para o salão e vejo dois copos de água sobre a mesa.

 

Convidei Asa para jantar a fim de lhe contar sobre Elliot. Estou nervoso porque sei que ele nutre sentimentos por mim. Sei disso porque ele me contou há algumas semanas - depois de um en­contro no meu apartamento - antes de me beijar. Retribuí o beijo, e por algum tempo nos beijamos. Foi um erro, eu sabia, mas foi bom, e como todos os outros erros que me faziam sentir bem, eu não tinha poder para impedi-lo antes que o estrago esti­vesse feito. Asa se tornara meu bote salva-vidas e eu me agarrara a ele com muita força. Ligava para ele o tempo todo, seguia-o de reunião em reunião, falava sem parar e só agora tinha começado a ouvir. Depois do beijo, eu disse que não tinha e nunca teria sen­timentos amorosos por ele e que lamentava muito se o levara a acreditar no contrário. E vamos encarar, enfatizei, tentando deixar o clima mais leve, mas também lembrando-o do óbvio, não sou um bom partido. Entre outras coisas, estou sóbrio há menos de três semanas e não consigo evitar recaídas.

 

O que eu disse não teve importância. Nossa relação nunca mais foi a mesma. Àquela altura, Luke, Polly, Annie e algumas outras pessoas das reuniões haviam entrado na minha vida. Durante se­manas, Jack, talvez esperando por isso, me incentivara a conviver e a telefonar para outras pessoas que não Asa. Distribua a carência, disse. Há bastante gente à sua volta. E eu fiz isso.

 

Depois que a comida chega, conto a Asa sobre Elliot. O passeio do Quatro de Julho, os fogos de artifício no telhado, o beijo, a coisa toda. Então você está saindo com ele? Ele é seu namorado? É para falar disso que estamos aqui?, ele pergunta, apontando para os burritos, os nachos, o restaurante. Quando digo que sim, Asa empurra a cadeira para trás, cruza o salão e sai do restaurante. Vou atrás, mas ele faz um gesto para eu me afastar, balança a cabeça e desaparece pela rua 16. A essa altura, já perdi muita gente ­ clientes, amigos, colegas, Noah -, mas ver Asa fugindo de mim pela rua é uma das perdas mais difíceis. Nunca tive - e ainda não tenho - nada que se comparasse a ele. Como você agradece a alguém por salvar sua vida? Como você se desculpa por precisar muito dele? Por não ser forte quando isso era importante? Se eu tivesse palavras para isso, as teria dito. Mas naquela noite tenho apenas seu nome, que grito inutilmente enquanto ele se apressa pela rua 16, o cabelo ruivo e a pele pálida desaparecendo na escuridão, como na noite em que nos conhecemos.

 

Não muito tempo depois, recebo um telefonema da marchande de Dave. Há uma oferta pela fotografia de Eggleston que ela está tentando vender para mim, e é pela quantia que ela havia pedido.

Melhor ainda, ela acha que tem um comprador para outras duas, e, embora elas valham um pouco menos, a perspectiva dessa ou­tra venda é como ganhar na loteria. Com menos de mil dólares na conta bancária e dezenas de milhares de dólares de dívidas em cartões de crédito, o telefonema dela não poderia ter vindo em hora melhor. Ela acaba vendendo as três fotografias e, com o di­nheiro, consigo ficar no apartamento da rua 15.

 

Annie e eu vamos a Coney Island. Nenhum de nós esteve lá antes, e é o dia da Parada Anual das Sereias. Tomamos o sorvete mais cremoso e delicioso que se possa imaginar e ficamos assistindo a caras travestidos e garotas parecidas com rapazes travestidos se pavoneando e rebolando em cima e ao lado de carros alegóricos feitos de tudo, desde macarrão até marshmallows. Na volta, nos sentamos ao lado de uma mulher que muda de lugar, toda dra­mática e soltando grandes suspiros, indo para o fundo do vagão do metrô. Quando ela não está olhando, Annie imita seus gestos, e esse pequeno improviso é a coisa mais engraçada que já vi. Ri­mos tão alto que a mulher deixa o vagão na estação seguinte e gargalhamos durante todo o trajeto de volta para a cidade. Mais tarde, à noite, me dou conta de que há semanas não penso em beber nem em usar drogas. Abro o diário que mantenho desde White Plains e escrevo: Coney Island com Annie hoje. Nenhuma fissura há semanas. Como isso aconteceu?

 

Antes do final do verão, quase dois meses depois daquele dia ter­rível no Dean & DeLuca, Poliy me telefona. É de manhã e ainda não fui para a academia. No início, acho que estou imaginando seu nome na tela do meu celular - fiz isso tantas vezes. Atendo.

Ela me pede que a encontre na área dos cães e digo que estou sain­do imediatamente. Corro pela rua 15, passo a Sexta Avenida, pas­so a Quinta, a caminho da Union Square. Consigo ligar para Jack enquanto sopro e bufo em direção à área dos cães e deixo uma mensagem entusiasmada. E, como na última vez em que vi Poliy e em algumas outras vezes desde então, rezo. Para as forças, quais­quer que sejam elas, que me mantiveram sóbrio durante todo es­se tempo, rezo para encontrar as palavras certas. DIGAM-ME O QUE DEVO FALAR PARA ELA!, grito enquanto corro. Por favor.

 

Chego à área dos cães e Poliy está sentada no nosso banco habitual. Essie bamboleia por ali. Não preciso de palavras, porque ela tem as que importam. Preciso de ajuda, diz, sem parecer particular­mente de ressaca ou drogada, apenas cansada. Você me levaria a uma reunião?, pergunta. Você está brincando?, respondo. Venho esperando por isso minha vida toda. E, embora sejam palavras indo­lentes e ditas de brincadeira, ao pronunciá-las sei que são verdadeiras. Percebo nesse instante que tudo o que aconteceu - cada segundo afortunado, solitário, destrutivo, delirante, egoísta, miserável, insano e desesperado desses últimos tempos - tornou pos­sível este momento no banco com Polly. Estou sóbrio o suficiente para aparecer e viciado o suficiente para que ela me peça. Sou al­guém da espécie dela e ela é alguém da minha, e não há ninguém no mundo capaz de nos ajudar exceto um ao outro. Conto-lhe sobre a noite na esquina da Houston com a Sexta Avenida, em frente ao apartamento de Mark, de como recuei e de como ela foi a razão disso. Que nada, craqueiro, seria preciso muito mais do que eu para afastá-la do cachimbo. Rimos, da maneira como os vicia­dos riem da agonia de seu vício, da única maneira que torna isso suportável: um com o outro.

 

Pouco depois daquela manhã, Polly e eu colocamos todos os seus pertences em um caminhão dirigido por um cara bonitinho e malvestido das reuniões, alguém que Polly e eu não conhecemos.

Polly conta em uma reunião que vai se mudar e que precisa de um caminhão, e esse cara se materializa e oferece não só seu cami­nhão e suas habilidades de motorista, mas também mãos e costas.

Eu e ele passamos horas enfiando caixas, cadeiras e estantes no pequeno apartamento de um quarto em Astoria que Polly encontra na Craigslist.

 

Heather aparece quando estamos fazendo a mudança de Polly e, sem uma palavra, entra e sai do apartamento, anda ao redor do caminhão e ao nosso lado enquanto transportamos sacos e mó­veis pelo corredor e até a rua. Temo que ela vá descarregar em mim antes de terminarmos, mas pouco antes de nós três subirmos no caminhão, ela se vira e me diz, sem olhar nos meus olhos: Obri­gada. Fechada a porta traseira, Polly enfiada no banco da frente entre mim e o motorista bonito, começamos a descer a St. Mark's

Place. Espere!, Polly grita. Esqueci uma coisa no apartamento. Antes de o caminhão parar, ela me cutuca para deixá-la sair. Hesito, com medo de que ela tenha mudado de ideia, e que depois de sair não volte mais. Deixa disso, só vai levar um minuto, ela diz, mais me­lancólica do que impaciente. Eu a deixo sair e a vejo abrir a porta do prédio e desaparecer lá dentro. Uma música desconhecida toca no rádio e o estranho ao meu lado tamborila no volante. Passam­-se alguns minutos, e meus olhos estão fechados quando Polly sobe ao meu lado. Está tremendo, os olhos vermelhos de choro, e em suas mãos não há nada trazido do apartamento. Vai, ela grasna mais do que fala. Antes que eu mude de ideia, vai. E assim fazemos.

A mudança de Polly para seu novo apartamento demora quase a tarde toda. Nunca mais vimos o cara bonito e generoso.

 

Na última noite do verão, no fim da semana do Dia do Trabalho, Elliot e eu jogamos tênis. É uma noite linda - fresca, clara, e o céu está cheio de nuvens parecidas com ondas enormes quebrando na praia. Depois de jogar, subimos a West Side Highway até o píer e caímos na grama. O céu fica cor-de-rosa acima de nós. O ar está frio e as luzes verdes e vermelhas de Nova Jersey piscam do outro lado do rio. À medida que o sol se põe, o rosa escurece contra o fundo das nuvens, e tudo - cidade, rio, as pessoas ao redor ­ parece encolher contra o céu magnífico. Ficamos em silêncio. Em poucos minutos vai ficar escuro. De manhã, o verão terá terminado.

Estou feliz, penso - pela primeira vez na vida, feliz. Estou sóbrio, cercado dia e noite por outras pessoas sóbrias, a ânsia de beber e de me drogar finalmente passou, tenho dinheiro suficiente no banco para pagar o aluguel e enviar cheques minúsculos para as muitas pessoas e lugares a quem devo, e estou com alguém de quem não escondo nada. Eu gostaria de poder parar o tempo, digo a Elliot. Se pudesse, eu o pararia bem agora, debaixo dessa grande nuvem cor-de-rosa.

 

Trememos em nossas roupas de tênis úmidas e nos aconchegamos um ao outro para nos aquecer. Eu sei, Elliot sussurra na noite escura. Não seria maravilhoso?


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Marcio Mafra
19/11/2016 às 00:00
Brasília - DF

Bill Clegg e Irvine Welsh estavam na mesa 6, “Na pior em Nova York e Edimburgo”, numa quinta feira as 9h30 da noite, em Paraty, durante a FLIP 2016. Plateia não arredava. Sucesso total. Por isso comprei o “Noventa Dias”.


 

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