carregando

Aguarde por gentileza.
Isso pode levar alguns segundos...

 

Você está aqui Principal / Livros / História do Cerco de Lisboa

História do Cerco de Lisboa

Para usar as funcionalidades você precisa estar logado(a). Clique aqui para logar
Erro ao processar sua requisição, tente novamente em alguns minutos.
História do Cerco de Lisboa

Livro Ótimo - 1 opinião

  • Leram
    1
  • Lendo
    0
  • Vão ler
    4
  • Relendo
    0
  • Recomendam
    0

Autor: José Saramago

Editora: Companhia de Bolso

Assunto: Romance

Traduzido por: Livro Editado em Português (de Portugal)

Páginas: 311

Ano de edição: 2011

Peso: 255 g

comentar
  • lido
  • lendo
  • vou-ler
  • re-lendo
  • recomendar
tenho
trocar
empresto
doar
aceito-doação
favorido
comprar
quero-ganhar

 

Ótimo
Marcio Mafra
16/10/2016 às 18:37
Brasília - DF
Leitor quando encara livro de Saramago já sabe que o inusitado começa pela forma de escrever. Sem ponto, nem vírgula, nem parágrafo.
O genial escritor português escreve como fala, ou fala como escreve.
É preciso mergulhar na historia. Então se acerta o ritmo da leitura sem nenhuma dificuldade.

Livro de Saramago é mais ou menos como entrar numa pista de dança. Entra na pista, afina o ouvido, acerta o ritmo. Depois só para de dançar quando a musica termina.

No Cerco de Lisboa Raimundo Benvindo, de propósito acrescenta um “não” ao revisar um livro antes de ser impresso. Ao dizer que os cruzados “não” apoiaram os portugueses quando houve o cerco da cidade de Lisboa pelos Mouros, a história ficou completamente alterada, ou invertida.

Descoberto o erro, Maria Sara, Diretora dos Revisores determina uma “errata” o que resolve o problema da Editora. Mas não o demite da função. Porque? Ela estava apaixonada pelo revisor.

Então negocia com Raimundo Benvindo de forma que este se comprometeu a reescrever o livro – agora de forma ficcional – com a negativa propositadamente inserida na história. Autor genialíssimo. Não espere o leitor qualquer lógica ao final da história. Livro ótimo.

Marcio Mafra
16/10/2016 às 00:00
Brasília - DF

Raimundo Benvindo era revisor de importante editora. Ao entregar seu trabalho para a Diretora dos Revisores, esta enviou imediatamente o livro para a gráfica rodá-lo. Ocorre que Raimundo Benvindo, cometeu um erro proposital, que consistiu na substituição de um “sim”, pelo “não”. Na opinião do revisor esta inversão altera o fato histórico do apoio dos cruzados aos portugueses, o que teria acarretado a queda de Lisboa. Descoberto o erro, Raimundo é convocado, o livro é impresso novamente. A Diretora dos revisores lhe desafia reescrever a história da tomada de Lisboa, sem a participação dos cruzados.

 
Marcio Mafra
16/10/2016 às 00:00
Brasília - DF

Tenho aí dentro um livro, um alfarrábio velho, coisa do século
dezoito, onde se contam todos os milagres, incluindo esse, Diga, O melhor seria que o lesse, Fica para outra vez, Quando
Não sei, amanhã, depois, um dia. Raimundo Silva respirou fun­do, era impossível fazer de conta que não percebia estas pala­vras, e a si mesmo fez jura de recordá-las, inapelável, a Maria
Sara como a promessa definitiva que imperativamente reclama
o seu cumprimento próprio. De tão alegre que ficou, de tão
solto e livre, pôs-lhe sem pensar a mão no ombro, e disse, Não.
eu é que vou ler-lhe a história da mula, venha para dentro, É
comprida, É como tudo, pode ser dita em dez palavras, ou em cem, ou em mil, ou não acabar nunca.

Raimundo Silva fechou a janela e foi ao escritório. Maria Sara ouviu-o murmurar, Não está aqui, onde diabo o meti eu, e depois entrou na sala de estar, abria e fechava as portas da estante, finalmente, Cá está. Reapareceu com um in-quarto enca­dernado em pele, vetusto de aspecto, com certeza de origem, e vinha contente como quem procurou e achou, mas não o livro, Sente-se, disse, ela sentou-se na cadeira junto da mesa, tinha a mão sobre a folha de papel onde estavam os nomes de Ouroana e Mogueime, ele ficou de pé, parecia muito mais novo, feliz, Agora ouça com atenção, que vale a pena, começo pelo título, aí vai, Sol Nascido ao Ocidente e Posto ao Nascer do Sol, Santo António Português Luminar Maior no Céu da Igreja Entre os Astros Menores na Esfera de Francisco, Epítome Histórico e
Panegírico da Sua Admirável Vida e Prodigiosas Acções, Que Escreve e Oferece à Sereníssima, Augusta, Excelsa, Soberana Família da Casa Real de Portugal, Cujos Ínclitos Nomes e Cog­nomes se Felicitam e Esmaltam Com as Sagradas Denominações de Franciscos e Antónios, Por Mão do Reverendíssimo António Teixeira Álveres, do Conselho de Sua Majestade, Que Deus Guarde, Seu Desembargador do Paço, do Conselho Geral do Santo Ofício, Cónego Doutoral na Sé de Coimbra, e Lente de Prima Jubilado nas Duas Faculdades de Cânones e Leis, et coetera. Brás Luís de Abreu. Cistazano. Familiar do Santo Ofício, uff. Maria Sara riu-se, Espero ter compreendido que o autor da mirífica obra é esse Brás Luís de Abreu, final e cistagano, Compreendeu muito bem, e felicito-a, agora ouça, pági­na cento e vinte e três, atenção, vou começar, Com a notícia de que algumas Províncias daquele Reino, o reino de que se fala é a França, se achavam inficcionadas deste contágio, o da heréti­ca pravidade, como se explica umas linhas acima, partiu Antó­nio de Lemonges para Tolosa, Cidade nesse tempo tão abundante de comércios como enriquecida de vícios, e o que mais é,
pestilente seminário dos Hereges Sacramentados que negam a real presença de Cristo na Hóstia Consagrada. Apenas se viu o Santo posto na palestra dos erros quando logo começou a descer para a área dos conflitos, só para que viesse a subir para o carro dos triunfos. Picado do ardente zelo da glória de Deus e das verdades infalíveis da sua Fé, arvorou nos pendões da caridade as bandeiras da doutrina, nos quartéis da penitência as armas da Cruz, e feito trombeta Evangélica da Divina palavra tocou a marchar vozes, a degolar vícios. Era o ódio que tinha aos Heréticos tão implacável como incansável a actividade fo­gosa do seu zelo. Sacrificou-se todo nas aras da Fé por vítima da sua crueldade, como quem com tantas veras tinha ensaiado a vida para a morte, os afectos para o martírio. Não se descui­davam aqueles Pássaros de mau agouro, que vivendo na funesta noute dos seus erros só rendem sua altivez obstinada às armas da luz, de maquinar contra a sua vida venenos disfarçados, con­tra a sua honra diabólicos artifícios, contra a sua reputação in­fernais inventos, solicitando, quanto o podiam alcançar as for­ças da sua malícia, desacreditar e obscurecer as luzes de tanta doutrina, os troféus de tamanha Santidade. Começou a pregar António com aplauso e admiração de todos os Católicos, e ainda mais porque, reconhecendo-o Estrangeiro, o viam falar na própria língua com tanta elegância, afluência e expedição que parece que se naturalizara no Idioma, que, como ele, se tinha
legitimado nos afectos. Voou a Fama dos maravilhosos produ­tos que fazia nas Almas a eficácia da sua palavra, e os Hereges Predicantes, que começaram a reconhecer o grande dano, assim o entendiam eles, que se lhes seguia do novo pregador, porque em muitos, que se convertiam dos seus erros, iam perdendo o crédito, com a soberba e a presunção, vícios tão familiares nesta canalha, determinaram entrar com António em Mercurial disputa, fiando de suas sofísticas cavilações uma campal vitória.
 

 


Por enquanto não há sinais da mula, disse Maria Sara, Naquele tempo os caminhos do mundo não eram cómodos e os da escrita ainda menos, observou Raimundo Silva, e continuou, Fiaram-se e confiaram-se para este efeito de um insigne Dog­matizante Tolosano, entre eles o mais célebre e o de maior no­me, chamado Guialdo, homem audaz, prosuntivo e cervicoso, mui versado nas Sagradas Escrituras, inteligentíssimo da língua Hebrea, no engenho acre, fogoso no génio, e em tudo aparelha­
do sempre para as maiores disputas. Não rejeitou o Santo o quartel de desafio por satisfazer a o duelo da Fé, pondo toda a confiança em Deus como único Agente da sua causa. Assinou­-se o dia e o sítio para a contenda. Foi inumerável o concurso, igualmente de Católicos que de Sectários. Começou o Herege primeiro que António, que sempre no teatro do Mundo fez primeiro papel a Malícia, a orar com vaidosa ostentação de seus mal empregados estudos e a introduzir alinhadas parlandas com uma farta verbosidade de alguns cavilosos Silogismos. Deixou passar a modéstia do Santo aquela trovoada de palavras, cheias
de artifício, vazias de verdade, e entrou logo a refutar seus

depravados erros, com tanta cópia de lugares da Sagrada Escritu­ra, exornados com tão vivas razões, com tão legítimos sentidos, e com discursos tão apropriados, que já a obstinação do Herege se dava por vencida, quanto aos fatigados discursos do entendi­mento, se ainda não se mantivera firme, quanto aos diabólicos caprichos da vontade. Não individuo os agudos dilemas com que António enobreceu este combate, porque superiores à nar­ração se entreguem ao silêncio da história como mistérios da fama, baste dizer que procedeu tão dou ta mente ilustre que, ex­cedendo-se a si mesmo, fez mais glorioso o sucesso com a vitó­ria de um impossível. Atenção agora, Maria Sara, já se ouve o
bater dos cascos da mula. Entre corrido e confuso se achava o perverso Dogmatizante por se ver concluído na presença dos mesmos que com tanto orgulho esperavam ver triunfantes os seus enganos. E vendo totalmente desfeitas as artificiosas redes de suas fraudulentas sofisterias, começou a tentar a modéstia e humildade do Santo com este mal intencionado discurso, En­fim, Padre António, deixemo-nos das vozes, conceitos e dispu­tas, só nos resta que vamos às obras, e já que tão prezado de Católico e filho da Igreja Romana confias nos milagres, que em confirmação dos Artigos da Fé foram nos primitivos tempos os motivos mais poderosos da prudente credulidade, eu me darei
por ultimamente concluído como a favor deste artigo da pre­sença Real do corpo de Cristo no Sacramento obre Deus algum milagre. António, que para colher nos conflitos a palma, tinha sempre a Deus da sua mão, esperançado nele, respondeu, Sou contente, e confio na misericórdia de meu Senhor Jesus Cristo,que, por adquirir a tua alma e as de tantos, como seguem com abominável cegueira os ímpios Dogmas dos teus erros, há-de fazer ostentação do seu poder infinito, a favor e em crédito desta verdade Católica. A esta varonil e Santa resolução tornou o Herege, Pois eu sou o que hei-de escolher o milagre. Eu sustento em minha casa uma Mula. Se esta, depois de três dias em
que não tenha comido, bebido, à vista da Hóstia Sagrada não apetecer nem olhar para o sustento por mais que lho ofereçam, crerei firmemente ser verdade infalível que está Cristo no Sacramento.


 

Movido do Divino instinto veio prontamente o San­to no partido ponderado com um contentamento pressago do triunfo, que no seu grande coração só se admitia o desassossego introduzido pelo alvoroço. E em confiança de que era tanto de Deus aquela causa, se prometeu seguramente a vitória, preve­nindo-se para o combate com as armas da Humildade, com os aproches da Oração.
 


Estou toda arrepiada, disse Maria Sara, com a solenidade do momento, e com o vernáculo, mas esses aproches parecem­-me um escandaloso galicismo, Assim é, para que não esqueça­mos que até nos piores panos caem as nódoas, continuemos, Chegou o dia determinado, ajuntou-se numeroso concurso de uma e outra parte, a dos Católicos, confiada mas humilde, a dos Hereges, sobre incrédula, presunçosa. Celebrou António o tre­mendo Sacrifício da Missa no mais vizinho Templo, e receben­do em suas mãos, com toda a reverência, a Hóstia Consagra­da, saiu aonde o faminto Bruto estava prevenido. Puseram-lhe diante dos olhos e bem junto à boca uma crescida ração de ce­vada, e ao mesmo tempo com imperiosa voz lhe disse o Santo, Em virtude e em nome de Jesus Cristo, que tenho em minhas indignas mãos, te mando, ó Criatura irracional, que, despreza­do esse sustento, chegues a dar a devida adoração a teu Criador, para que convencida a proterva obstinação dos homens confesse as verdades da Fé Católica Romana, obrigada do instinto menos obstinado dos Brutos. Ainda bem António não tinha acabado de proferir semelhantes palavras, quando o Bruto torpe, nisto não mostrou que o era, rejeitando a comida, que já tinha principiado
a devorar, e vencendo em si as poderosas instâncias de seu na­tural apetite, se chegou ao Santo e prostrado de joelhos adorou a Cristo Sacramentado, com pasmo e admiração de todos os circunstantes. Atendiam todos este maravilhoso espectáculo com lágrimas nos olhos, e sendo em todos um efeito, eram os afectos vários, porque as que nos Católicos eram lágrimas de devoção e ternura, nos Hereges eram de compunção e arrependimento.
 

 

Celebraram os Católicos os triunfos da Fé e detestavam os mais
Hereges os erros da Seita. Somente alguns rebeldes à mesma evidência, ainda namorados dos absurdos, parecem que galan­teavam os opróbrios. Não puderam porém negar-se confundi­dos de estáticos, de sorte que os mesmos que antes da batalha se prometiam nos movimentos do seu orgulho os aplausos do triun­fo, foram ao depois, pela imobilidade das acções, as primeiras estátuas oferecidas à vitória.

Raimundo Silva fez uma pausa para dizer, Segue-se um parágrafo que descreve a conversão de Guialdo e de seus paren­tes e amigos, poupo-a à leitura, mas o que não se pode perder é a peroração, Ó sempre admirável virtude a de António. Ela faz que os Brutos se ponham humanos para confusão dos Homens, ela faz que os Homens deixem de ser feras com a lição dos Brutos. Queixava-se David que os irracionais domésticos só conhe­ciam o estábulo, onde achavam o sustento, sem atenderem à mão do Senhor, que lhe fazia o benefício, porém nesta ocasião a impérios de António, esquecida a ingratidão da sua natureza, desprezou este vivente agradecido o sustento e o estábulo por adorar ao verdadeiro Senhor que lhe deu o ser e o sustento. Ó
venturoso Animal. Agora se conhece em ti que há Brutos dis­cretos, pois deixas a tantos Homens brutos, avisados. Uma vez em Belém deixaste de comer a palha para agasalhar a Deus nascido, agora em Tolosa deixas de comer a cevada por adorar a Deus Sacramentado. Esqueceste a palha no Presépio por ado­rar o Menino manifesto na casa do pão, esqueceste a cevada na Palestra por venerar a Cristo oculto nas espécies do trigo. As­ sim tu foras capaz de razão, como és digno de aplauso. O teu instinto sim será fantasia, mas parece discurso, a tua noção não será raciocínio, mas parece entendimento. Sem teres memória, parece que tens advertência no que veneras, sem teres vontade, parece que mostras afectos no que adoras, sem teres entendi­
mento, parece que descobres juízo no que conheces. Dois mi­lagres obrou em ti António em um só prodígio para ser muitas vezes prodigioso neste só portento. Fez que o teu instinto bruto parecesse ideia racional porque adoraste, fez que a tua boçal voracidade parecesse abstinência penitente porque não comeste. Não foram só dois os assombros, porque eram mais naquele passo os brutos. Era Guialdo cego na crença daquele mistério, manco na Fé daquela presença, mas a fé que António lhe deu a vista à vista daquela maravilha nunca rastreada, a fé que Guialdo logo se moveu com o pé de tamanha novidade, nunca jamais vista. Eis aqui como de uma só acção de António Soberano resultaram três milagres estupendos, porque três
vezes requintado na virtude fosse nele o único triplicidade, porque três vezes milagroso nas obras fosse nele o admirável superlativo. Amém.

Raimundo Silva fechou o formidando livro com um movi­mento de solenidade burlesca e repetiu, Amém


Nenhuma informação foi cadastrada até o momento.

Marcio Mafra
16/10/2016 às 00:00
Brasília - DF

Quando estive nos Açores,em outubro de 2015, entre outros livros trouxe o História do Cerco de Lisboa, do consagrado José Saramago.


 

Para baixar ou visualizar o E-BOOK é necessário logar no site.
Clique aqui! para efetutar seu login.

 

Não tem uma conta?
Clique aqui e crie a sua agora!