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Eles Eram Muitos Cavalos

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Eles Eram Muitos Cavalos

Livro Excelente - 2 opiniões

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Autor: Luiz Ruffato

Editora: Companhia das Letras

Assunto: Romance

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 131

Ano de edição: 2013

Peso: 200 g

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Excelente
Fernando Leles de Oliveira
30/03/2016 às 10:29
Luziânia - GO
Livro instigante. Figuras cotidianas apresentadas entre os dramas e glórias de se viver na metrópole.
Excepcional. Linguagem rica, formas modernas, absurdas e apaixonantes.

Excelente
Marcio Mafra
28/01/2016 às 22:48
Brasília - DF
Eles eram muitos cavalos, mas ninguém sabe seus nomes, sua pelagem, sua origem.... Esta frase consta do “Romance da Inconfidência” livro de Cecília Meireles. Foi daí que Luiz Ruffato pinçou o titulo de sua obra.
Sacada genial.

O titulo do livro espelha exatamente os personagens. Eles são numerosos e se assemelham aos cavalos da Cecilia Meireles: não têm origem, não têm “pedigree”, não têm eira nem beira, são despossuídos, são desimportantes. Embora alguns tenham nomes, os personagens de Ruffato são pessoas sem nenhum destaque social, politico, artístico, militar, religioso, cultural ou econômico.

O narrador conta coisas, fatos, manias, emoções e maluquices de ou sobre taxistas, esmoleres, religiosos, ambulantes, idosos, assaltantes, prostitutas, vagabundos, “craqueiros” e outros desocupados, que embora vivendo numa mesma cidade, não têm nada em comum, e suas histórias não possuem qualquer fio condutor.

Também não é um livro de contos ou crônicas. É um romance maravilhoso, muitíssimo bem escrito, elegante e inteligente.

Curioso é que toda a narrativa ocorre apenas na cidade de São Paulo e durante o decorrer de terça feira, dia 9 de março de 2000.

Não sendo um livro de crônicas, também não é uma “colcha de retalhos”.

Mais parece retrato – ou flashback - de cidadãos da maior metrópole da América latina marcados por profundas desigualdades sociais, que vivem um drama a cada instante.

Admirável é o talento do autor que pinta com leveza e muito estilo até as mais terríveis agruras dos seus personagens.

Eles Eram Muitos Cavalos é o melhor livro que li neste inicio do ano de 2016.

Marcio Mafra
28/01/2016 às 00:00
Brasília - DF

A história de pessoas simples, personagens simplórios, gente sem importância social, econômica ou política que vive na cidade de São Paulo, num determinado dia de maio do ano 2000. São 68 pequenos e variados textos, sobre a vida, coisas e atos de taxistas, esmoleres, religiosos, ambulantes, idosos, assaltantes, prostitutas, vagabundos e desocupados que, embora vivendo numa mesma cidade, não tem nada em comum, e suas histórias não possuem nem mesmo um fio condutor. Quase todos os personagens têm nomes próprios ou simples apelidos.

Marcio Mafra
28/01/2016 às 00:00
Brasília - DF

41. Táxi

 

O doutor tem algum itinerário de preferência? Não? Então vamos pelo caminho mais rápido. Que não é o mais curto, o senhor sabe.

Aqui em São Paulo nem sempre o caminho mais curto é o mais rápido.

A essa hora ... cinco e quinze ... a essa hora a cidade já está parando ... as marginais, as ruas paralelas, as transversais, as avenidas, as alamedas, as ruas, as vielas, tudo, tudo entupido de carros e buzinas.

Sabe que uma vez sonhei que a cidade parou? Parou mesmo, totalmente. Um engarrafamento imenso, um congestionamento-monstro, como nunca antes visto, e ninguém conseguia andar um centímetro que fosse ...

Parece coisa de cinema, não é não? Pois eu gosto. Gosto muito de assistir filme. Mas prefiro os antigos. De vez em quando reprisa um na televisão. Tinha uns atores danados de bons, Tyrone Power, Burt Lancaster ... O meu preferido é o Victor Mature, conhece? Ele fazia o papel de Maciste, lembra? Era bom mesmo ... Tem um retrato dele na parede da sala lá de casa. Bom, não é retrato, é uma fotografia de revista que a patroa recortou e mandou emoldurar. O senhor entende como é mulher ... Ela sabia que eu era fã do Victor Mature e então pensou em me agradar ... Me deu no aniversário ... bastantes anos já. Pendurou na parede da sala ... E eu lá tenho coragem de tirar? Tenho nada. O senhor teria? Uma vez, inclusive, eu estava sozinho em casa, joguei o retrato no chão, o vidro espatifou, falei que tinha sido ventania, ela acreditou, pensei que tinha livrado dele. Mas não é que na semana seguinte lá estava ele pendurado na parede, novinho em folha, o doutor acredita?

Ela acha que me agrada, fazer o quê? As minhas filhas quando eram adolescentes - agora estão todas casadas, e bem casadas, graças a deus - morriam de vergonha do retrato, Pai, que coisa mais brega!, elas falavam. As amigas perguntavam se era algum parente, Quem é o gato?, indagavam. Acabei concordando, uma coisa ridícula! Falei com a patroa, ela disse, Quê isso, Claudionor, Claudionor sou eu. Quê isso, Claudionor, daqui a pouco elas vão embora de casa, ficamos só nós dois, velhos, você gosta do retrato, ele vai ficar lá ... Bom, resultado: se o senhor um dia der o ar da graça lá em casa, vai ver o Victor Mature pendurado na parede da sala!

E olha que a gente teve um cachorro, um fox terrier, que o filho-da-mãe não deixava pedra sobre pedra, entrava correndo pela porta da sala e saía voando pela porta da cozinha, o rabo estabanado derrubando tudo, vaso de flor, xaxim de samambaia, criança remelenta, até uma lata de biscoito dinamarquês vazia, que ficava em cima do armário, o diabo conseguiu deitar ao chão, amassar. A velha amofinou, porque aquilo servia de cofre...

Consertadeira de roupa, escondia lá o dinheirinho proveniente do alinhavo de uma barra-italiana, da pregação de botão numa camisa, do pence de uma calça, do cerzido de um rasgo ... Mas, o doutor acredita?, o raio do retrato ele nunca derrubou! Quê que se vai fazer?

Mas, voltando, cinema pra mim é o antigo. Filme de hoje é uma sangreira desatada ... É só pescoção ... Cada cena, com licença da palavra, tem alguém trepando! É impressionante! O senhor vai na locadora de vídeo e tem uma prateleira lá só de filme de sacanagem.

Cada um de arrepiar! Mulher com mulher, mulher com cavalo, com cavalo sim senhor, mulher com cachorro, mulher com um monte de homem, cruz credo!

Eu sei porque, cá entre nós, todo mundo é cristão e uma vez que a patroa foi pro litoral, na casa do meu genro, eu aluguei um desses ... Nem consegui chegar no final, tanta esculhambação. Aquilo é coisa de doente, não é não? Pode alguém sentir alguma coisa com aquela nojeira? O sujeito tem que ter algum desvio, pelo amor de deus! Foi a primeira e única vez que peguei  um troço daqueles. Agora, quando a velha desce pro litoral, acompanho ela.

A casa que o meu genro fez lá na Praia Grande é boa, espaçosa, colada na praia. E saber que ele construiu ela praticamente sozinho!

Ele trabalha de operador de offset no Estadão e ainda quando era solteiro comprou o terreno. Na época, havia galinha na rua, o senhor acredita? Galinha! Como não tinha dinheiro, ele murou a posse e foi aos pouquinhos chumbando a base, levantando as paredes ...

Quando ficou noivo da Maria Lúcia, acelerou. Descia todo fim de semana. Cada detalhe lá tem o gosto dele: dos cacos de vidro no alto do muro ao telhado-colonial, do piso de ardósia à cor dos azulejos do banheiro.

Um capricho que só vendo! E, ô rapaz decente sô! Não é porque está bem de vida que esqueceu dos outros. A casa não é dele, é dos parentes: concunhados, cunhados, sogros, amigos, pais, irmãos ... Todo fim de semana tem gente lá queimando uma carninha na churrasqueira.

Tudo na mais santa paz. Não tem erro: pode descer qualquer sábado, que tem gente lá. As famílias são muito unidas. O que foi até bom, porque as famílias minha e da minha patroa já não são assim.

Saí de casa muito cedo, menino ainda. Desci do norte de pau-de-arara. Se o senhor soubesse o que era aquilo ... Um caminhão velho, lonado, umas tábuas atravessadas na carroceria servindo de assento, a matula no bornal, rapadura e farinha, dias e dias de viagem, meu deus do céu! Mas posso reclamar não. São Paulo, uma mãe pra mim. Logo que cheguei arrumei serviço, fui trabalhar de faxineiro numa autopeças em Santo André. Depois fui subindo de vida, porque aqui antigamente era assim, quem gostasse de trabalhar tinha tudo, ao contrário de hoje, que até dá pena, não tem emprego pra ninguém.

Eu mesmo, que tenho uns restos de idade pra gastar ainda, já aposentei, ainda tenho que pegar o bico à unha, porque ninguém valoriza velho. Nem jovem que não tiver carteira-assinada, experiência. E ninguém dá chance! Como é que esses meninos podem ter experiência se não conseguem nunca o raio do primeiro emprego? Naquela época estavam tão precisados de braços pra trabalhar que a gente mal descia do pau-de-arara e já garantia serviço. Eles mesmo ensinavam o ofício. Eu cheguei a ter dinheiro.

Mais de uma vez levei a patroa pra conhecer meu chão, Nossa Senhora das Dores, interior do Sergipe, o senhor não deve de ter ouvido falar. Uma vez carreguei a família inteira, seis enfiados no fuscão zerinho que tinha acabado de comprar. Pegamos o estradão, a Rio- Bahia, fomos embora, as meninas já grandinhas, a patroa passando mal, verde, sempre foi assim, é só entrar no carro que já começa.

Agora aprendeu um truque, vai cheirando limão-galego, daqui no litoral aguenta bem, mas naquela época, um pandemônio, eta viagem empesteada! As meninas nunca mais voltaram lá ... Eu fico triste, não vou mentir pro senhor não.

Afinal, é a terra da gente. Mas eu entendo. Não sou ignorante não. Elas não têm nada a ver com aquele buraco lá. Pra falar a verdade, nem eu tenho mais a ver com aquilo. A maioria dos meus colegas de infância, do pessoal que eu conhecia, não mora mais lá. Os velhos morreram todos. A única coisa que resta é a memória da gente, mas o quê que é a memória da gente? Voltamos naquela viagem pela BR-I01, as meninas, claro, adoraram, porque viemos costeando o mar, paramos em Guarapari, lá tem uma areia preta muito boa pra reumatismo, a patroa tinha umas dores nas juntas, que não passavam nem com infiltração, aí ela se cobria de areia, só a cara pra fora ... E como eu não tinha nada pra fazer, zarpava prum botequim.

A Maria Perpétua, a mais velha, já tinha idade pra tomar conta dos irmãos, aí eu sentava na beira da praia, feito lorde, uma garrafa de cerveja, um pratinho de peixe frito no fubá, e ficava bestando o mulherio de biquíni que cruzava a minha frente.

Naquela época eu era meio sem-vergonha. Bode novo, bonitão, conversador ... Não tinha semana que eu não saísse com mulher diferente.

E não estou falando de zinha paga não, porque disso eu nunca gostei. Mulher que quiser sair comigo, até hoje, tem que ser desinteressada, se não, vou confessar uma coisa, eu não consigo. Com licença da palavra, eu brocho. Naquela época eu conseguia tirar férias de trinta dias, estava estabelecido, já tinha casa na Vila Nova Cachoeirinha, os filhos por criar mas encaminhados, a mais velha, a Maria Perpétua, fazendo curso de professora .... Aí eu caí na besteira ... na tentação

... Fui despedido da firma onde trabalhava e resolvi usar o dinheiro do fundo-de-garantia pra abrir uma lojinha de jogos eletrônicos na garagem ... O senhor não vai acreditar... Penso que essas coisas não são abençoadas, não adianta ... Pra transformar a garagem na loja tive que deixar o carro na rua. Não tinha seguro, uma trava de ferro soldava o volante na aflição ... E não é que a lojinha virou ponto de tráfico de droga, me roubaram o carro e fui à falência! Em dois tempos, eu tive de me virar, começar tudo de novo ...

Fui ser motorista de ônibus, juntei uns trocados, os genros me ajudaram, comprei uma licença de táxi, não era essa não, era outra, de um ponto lá no Belém, depois consegui um lugar na Lapa, um ponto muito bom ... Mas lá em casa tem duas gerações, uma, a das duas meninas mais velhas, a Maria Perpétua e a Maria do Carmo, que pegaram a fase mais boa, estudaram, se formaram, a Maria do Carmo é até doutora-advogada, tem escritório, junto com um sócio, lá no Horto, é solteira, está bem de vida, tem um ótimo apartamento lá por perto mesmo, já foi até pro estrangeiro, o senhor acredita? Ela é viajadeira, conhece até navio, acho que me puxou, essa coisa de ser atirada ... Ela me deu uma fotografia dela na neve, na Bolívia, eu só acho ela meio triste, nunca quis casar, acho que foi alguma decepção amorosa, sei não ... A minha patroa tem uma prima que quando descobriu que o marido tinha outra família, mulher e três filhos, parou de comer, de beber, de andar, de tudo, virou folhagem, morreu à míngua.

O caso da Maria do Carmo é outro, ela sempre foi muito fechada, muito reservada, de tal maneira que nunca ficamos sabendo por que que ela escolheu esse caminho ... A Maria Perpétua formou pra professora, casou, mora no Campo Limpo, dá aula numa escola municipal, está bem de vida, graças a deus, o marido é negociante, gente boa, meio malandrão, mas nesse meio de berganha quem não é vivo não tem futuro, o senhor não concorda?, tem que ser. Mas os outros dois filhos pegaram a fase ruim, a Maria Lúcia e o Pedro já não foram tão longe assim nos estudos ... Mas graças a deus isso não obstaculou que ficassem bem. A Maria Lúcia é a mulher do meu genro que tem casa em Praia Grande, ela é do lar, estudou só até o ginasial, mas está até melhor de vida do que as irmãs. O Pedro tem uma barraquinha de feira, vende banana o senhor sabe que isso de vender banana em feira é até um bom negócio? O Pedro está bem, tem uma casinha boa, dá aos filhos do bom e do melhor, apesar de exigir, o mais velho tem treze anos e nos fins de semana acorda de madrugada pra ajudar o pai. Esse menino é danado de inteligente, outro dia ... Ah, chegou ... Outro dia ganhou um concurso na escola

... Não, não, é o que está no taxímetro, nem um centavo a mais ... Comigo é assim. Tem colega na praça que cobra taxa, cinquenta por cento a mais se o passageiro for gringo, vinte por cento a mais se desconfia que o passageiro não é da cidade ... Isso pra mim tem nome: desonestidade. Eu não, cobro o que está no taxímetro ... Mas, só pra concluir, esse menino, meu neto, o João Paulo, ganhou outro dia uma olimpíada de matemática, o senhor acredita? Olha, vou deixar um cartão pro senhor, esse aqui é o número do celular, se precisar, é só chamar:

Claudionor, a seu dispor. Muito obrigado e boa viagem. Até a volta! 


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Marcio Mafra
28/01/2016 às 00:00
Brasília - DF

Coisa mais curiosa: eu nunca tinha ouvido falar de Luiz Ruffato, muito menos em seus livros, ainda que “Eles Eram Muitos Cavalos” seja um verdadeiro best-seller, já em sua 11ª edição e que foi publicado na França, Itália, Portugal, Alemanha, Colômbia e Argentina. No mês de dezembro de 2015 me deparei com o livro na prateleira virtual da Amazon. Nesta ocasião liguei o nome do autor, ao escritor que na Feira do Livro de Frankfurt em 2013 ou 2014, quando o Brasil era um dos destaques da feira, fez um discurso que causou uma bruta confusão, porque ele, como intelectual “falou mal” do Brasil Comprei na hora, por impulso, mas não me arrependi.


 

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