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O Capital no Seculo XXI

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O Capital no Seculo XXI

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Autor: Thomas Piketty

Editora: Intrínseca

Assunto: Economia

Traduzido por: Monica Baumgarten de Bolle

Páginas: 700

Ano de edição: 2014

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Excelente
Rafael Mafra
23/08/2015 às 22:51
Brasília - DF
Nenhum livro de economia fez o sucesso de O Capital no século XXI nas décadas recentes. A publicação em francês já causava comentários em toda rede de jornalistas econômicos e economistas e a versão inglês popularizou ainda mais o livro. No Brasil, a chegada da tradução para o português permitiu a muitos brasileiros conhecer as razões do fenômeno.


Piketty e seu livro fizeram muito sucesso em todo mundo por um motivo simples: trouxe a questão da desigualdade de volta às discussões, mas com um elemento que não é nem novo, tampouco inovador, mas que nunca havia sido apresentado dessa forma: dados e informações de 200 anos pra cá.

Com isso, no Brasil, Piketty conseguiu escapar da oposição entre ortodoxos e heterodoxos, que rotula a todos e muitas vezes, impossibilita a discussão dos temas propriamente ditos.

A tese central do livro é a de que o capitalismo em alguns dos países mais desenvolvidos do mundo tende a uma crescente desigualdade. A preocupação de trazer informações que datam da Revolução Francesa para embasar sua afirmação é que no período posterior à Segunda Guerra Mundial até os anos 70, havia uma corrente que defendia que o capitalismo estava produzindo um equilíbrio em que havia uma redução na desigualdade. O que PIketty mostra é que essa suposta tendência ao equilíbrio menos desigual era passageiro e causado não pelo sistema capitalista vigente, mas pela destruição de capital e grandes taxas de inflação que sucederam as duas grandes guerras.

E o que causaria esse desequilíbrio e a tendência à desigualdade? Segundo o autor, as taxas de retorno do capital (investimentos financeiros e imobiliários) teriam taxas de retorno mais altas que a taxa de retorno do trabalho. Assim, quem possui ou herda um patrimônio grande, deve ver seu patrimônio crescer a uma taxa mais rápida que a própria economia do país. E quem depende do trabalho, mas tem patrimônio nulo ou negativo e não obtém uma taxa de retorno tão alta.

Os efeitos dessas taxas distintas para capital e trabalho são, portanto, a explicação para a desigualdade presente hoje em países como EUA, França e Inglaterra. Nos EUA, os 10% mais ricos, detém 48% de toda renda nacional. Nos anos 70, esses mesmos 10% detinham apenas 35% da renda. Considerando apenas o 1% mais rico do país, esta parcela recebe o equivalente a 20% da renda nacional. Entre os anos 70 e 80, esse valor chegou a estar abaixo de 10%.

Adicionalmente, PIketty ainda usa clássicos da literatura como registros históricos da desigualdade no Séc. XVIII e faz comparações entre EUA, França e outros países também desenvolvidos, mas muito menos desiguais, como os países nórdicos.

Piketty se precavê contra possíveis afirmativas de que essa desigualdade ocorreria por mérito dos mais ricos, demonstrando a baixa mobilidade social dos países, a baixa participação de superexecutivos e, ainda no caso desses executivos muito bem remunerados, mostra que é impossível haver uma relação entre produtividade e salário nesses casos.

Ao contrário do que pode parecer, não é um livro voltado para economistas. É um livro de linguagem simples e que exige apenas compreensão de razões matemáticas simples e interpretação de gráficos.

Ao final, o autor apresenta ideias para combater o avanço da desigualdade, mas são sugestões que exigem concertação internacional e disposição política.

Trata-se de leitura recomendada para quem tem interesse em debater a questão da desigualdade, compreender processos históricos e sua relação com a economia e verificar como decisões políticas afetam a questão da distribuição de renda.

Marcio Mafra
22/08/2015 às 00:00
Brasília - DF

Análise do economista francês Thomas Piketty  sobre o capitalismo, que no século XXI possui forte tendência de concentração da riqueza nas mãos de poucos. O crescimento econômico  ao longo do século XX impediu que se realizasse o cenário apocalíptico difundido por Karl Marx, mas, a estrutura do capital e da desigualdade permaneceu inalterada. Piketty constata, com absoluta clareza, que a taxa de rendimento do capital supera o crescimento econômico — e isso se traduz numa concentração cada vez maior da riqueza, sem contar um círculo vicioso de desigualdade que pode levar a uma desorganização geral e inclusive ameaçar a democracia. Ressalta que "tendências econômicas não são forças da natureza: a intervenção política já foi capaz de reverter tal quadro no passado e poderá voltar a fazê-lo."

Marcio Mafra
22/08/2015 às 00:00
Brasília - DF

De Marx a Kuznets: do apocalipse ao conto de fadas

Passando das análises de Ricardo e Marx no século XIX para os estudos de Simon Kuznets no século XX, pode-se dizer que o gosto excessivo dos economistas pelas previsões catastróficas deu lugar a uma atração não menos excessiva pelos contos de fadas, ou ao menos pelos happy endings.

Segundo a teoria de Kuznets, a desigualdade de renda deveria diminuir de modo automático nos estágios mais avançados do desenvolvimento capitalista de um país, a despeito das políticas adotadas ou das diferenças entre países, até que se estabilizasse num nível aceitável.

Elaborada em 1955, trata-se de uma teoria sobre os anos mágicos do período pós-guerra que na França ficaram conhecidos como os “Trinta Gloriosos”, o intervalo compreendido entre 1945 e 1975.

Para Kuznets, bastava ter paciência e esperar que o crescimento começasse a beneficiar a todos. A filosofia da época podia ser resumida em apenas uma frase: “Growth is a rising tide that lifts all boats” (“O crescimento é como a maré alta: levanta todos os barcos”).

Otimismo semelhante foi proposto por Robert Solow em 1956, quando analisou as condições que levariam uma economia a alcançar a “trajetória de crescimento equilibrado”, isto é, um crescimento em que todas as variáveis macroeconômicas — produção, renda, lucros, salários, capital, cotações de bolsa de valores e de mercado imobiliário etc. — se expandem no mesmo ritmo, de modo que cada grupo social se beneficia do crescimento nas mesmas proporções, sem grandes discrepâncias.

Tal visão é a antítese da espiral de desigualdade identificada por Ricardo ou Marx, bem como o oposto das análises apocalípticas do século XIX. Para transmitir ao leitor a influência considerável da teoria de Kuznets no pensamento dos anos 1980 e 1990 e, em certa medida, também no pensamento atual, é preciso salientar que se trata da primeira teoria sobre crescimento e desigualdade fundamentada num extenso trabalho estatístico.

Foi preciso chegar a meados do século XX para que as primeiras séries históricas sobre a distribuição de riqueza estivessem disponíveis, com a publicação em 1953 da obra monumental de Kuznets, Shares of Upper Income Groups in Income and Savings [Participação dos grupos de renda alta na renda nacional e na poupança]. As séries compiladas por Kuznets se referem a um único país, os Estados Unidos, e compreendem um período de 35 anos (1913-1948).

Trata-se, contudo, de uma contribuição fundamental, que mobilizou duas fontes de dados totalmente inacessíveis aos autores do século XIX: as declarações do imposto federal sobre a renda instituído em 1913; e as estimativas da renda nacional dos Estados Unidos, elaboradas pelo próprio Kuznets alguns anos antes.

Foi a primeira tentativa de medir a desigualdade social em escala tão ambiciosa.

É importante compreender que, sem essas duas fontes indispensáveis e complementares, seria simplesmente impossível medir a desigualdade da distribuição de riqueza e a sua evolução.

As primeiras tentativas de estimar a renda nacional datam do fim do século XVII e do início do século XVIII, tanto no Reino Unido como na França. Houve outras ao longo do século XIX, mas foram esforços isolados.

Seria preciso esperar o século XX e o período entreguerras para que se desenvolvessem — por iniciativa de pesquisadores como Kuznets e John W. Kendrick nos Estados Unidos, Arthur Bowley e Colin Clark no Reino Unido ou L. Dugé de Bernonville na França — as primeiras séries anuais da renda nacional. Esse tipo de série permite mensurar a renda total de um país. Para medir a participação do grupo de renda mais alta na renda nacional, é preciso dispor das declarações de renda.

Essa segunda fonte de informação se tornou disponível quando todos os países passaram a adotar a tributação progressiva sobre a renda, por volta da Primeira Guerra Mundial (1913 nos Estados Unidos, 1914 na França, 1909 no Reino Unido, 1922 na Índia e 1932 na Argentina).

 

É preciso reconhecer que, ainda que não exista um imposto sobre a renda, há outras estatísticas relacionadas a ela para qualquer que seja o regime tributário em vigor num determinado momento (há, por exemplo, impostos sobre o número de portas e janelas de um imóvel para cada departamento na França do século XIX, o que é bastante curioso).

Esses dados, entretanto, nada nos revelam diretamente sobre a evolução e a distribuição da renda. Aliás, antes que a obrigação de declarar renda e impostos às autoridades fosse estabelecida por lei, as pessoas muitas vezes não sabiam qual era a renda que de fato recebiam.

O mesmo se deu com o imposto de renda de pessoas jurídicas e com o imposto sobre o patrimônio.

A tributação não é somente uma maneira de fazer com que os indivíduos contribuam para o financiamento dos gastos públicos e de dividir o ônus disso da forma mais justa possível; ela é útil, também, para identificar categorias e promover o conhecimento e a transparência democrática.

Em todo caso, os dados que Kuznets coletou permitiram que ele calculasse a evolução da participação, na renda nacional americana, de cada décimo e centésimo mais alto da hierarquia da distribuição de renda.

Eis o resultado: Kuznets constatou que uma forte redução da desigualdade de renda havia ocorrido nos Estados Unidos entre 1913 e 1948. Mais especificamente, na década de 1910, o décimo superior da distribuição, isto é, os 10% mais ricos entre os americanos, recebiam 45-50% da renda nacional anual.

No final dos anos 1940, a participação na renda nacional dos 10% mais ricos havia caído para cerca de 30-35%. Essa queda de mais de dez pontos percentuais da renda nacional era considerável: equivalia, por exemplo, à metade do que recebiam os 50% mais pobres do país.

A redução da desigualdade era, portanto, nítida e incontestável, e essa revelação teve uma importância tremenda, com enorme repercussão nos debates econômicos do pós-guerra, tanto nas universidades quanto nas organizações internacionais.

Havia décadas que Malthus, Ricardo, Marx e tantos outros falavam de desigualdade, mas sem citar fontes, sem apresentar metodologias que permitissem comparar com precisão as diferentes épocas ou mesmo definir o debate a favor de uma ou outra tese concorrente.

Pela primeira vez, dados concretos estavam disponíveis para consulta e estudo e, embora não fossem perfeitos, ao menos tinham o mérito de existir. Além disso, o trabalho de compilação das estatísticas foi muito bem documentado: o volumoso compêndio publicado por Kuznets em 1953 expunha da forma mais transparente possível todos os detalhes sobre suas fontes e seus métodos, de maneira que cada cálculo pudesse ser reproduzido.

E Kuznets foi, além de tudo, o portador de notícias auspiciosas: a desigualdade estava diminuindo. 


  • A crise grega reflete a escolha européia da "penitência eterna", em vez da organização política necessária, diz o economista francês. Por Anne-Sylvaine Chassany, do Financial Times

    Autor: Anna Sylvaine Chassany

    Veículo: Eu e Fim de Semana, 3/7/2015, nº 654 Ano 16

    Fonte: Jornal Valor Econômico

    A crise grega reflete a escolha européia da "penitência eterna", em vez da organização política necessária, diz o economista francês. Por Anne-Sylvaine Chassany, do Financial Times

    A Europa está na rota errada

    Tradução Sergio Blum

    Um piquenique ao sol no gramado da Escola de Economia-de Paris teria sido melhor, mas é tarde. Ficamos, então, no Les Jardins, de Paul Ha, padaria convertida em delicatessen no 14º arrondissement

    Thomas Piketty já está mordendo um ovo cozido. São cinco minutos do escritório do economista "rock star", corno a mídia o chama, mas é difícil encontrar glamour aqui ou em sua vida nos últimos tempos.

    O sucesso de "O Capital no Século XXI", de Piketty, best-seller de 700 páginas, lançou-o num turbilhão de exposição por um ano. Mas agora ele anseia por normalidade. E estamos em um salão deserto, fazendo nossa refeição de comida servida em recipientes de plástico sobre bandejas azul-escuro. Na parede a nosso lado, um desbotado cartaz de uma praia nas Ilhas Seychelles. "Tive períodos promocionais e de conferências, do que gosto bastante, mas preciso voltar à vida normal", diz Piketty, cruzando as pernas e apoiando-se na cadeira vazia a seu lado. "Vida normal é estar sentado à minha mesa das 9h às 7 h sem ninguém me incomodando. As pessoas não percebem que pesquisa requer tempo e sossego."

    Tive um vislumbre do habitat natural de Piketty quando apanhei o economista de 44 anos em seu abafado escritório de 12m² em um edifício cinza do pós-guerra que é a sede de uma instituição de pesquisas que ele ajudou a criar em 2006.

    Ao afirmar que o capitalismo, por sua natureza, agrava a desigualdade, "O Capital no Século XXI" (publicado primeiro em francês, em 2013, e em inglês, oito meses depois) causou furor transatlântico, opondo defensores de intervenção estatal aos crentes no livre mercado. Embora a extensa compilação, no livro, de dados sobre a distribuição de renda e de riqueza tenha sido amplamente elogiada, as teorias e conclusões de Piketty-de que a proporção de renda e riqueza apropriada pelo segmento 1% mais rico atingiu um pico histórico; que o retomo sobre o capital geralmente supera o crescimento econômico, resultando em um aumento automático da desigualdade - também foram atacadas. Ao defender impostos mais elevados e mais regulamentação, ele foi louvado pela esquerda e tomou-se um inimigo da direita.

    Enquanto espero que minha "pasta bolognese" saída do microondas esfrie, pergunto como é sentir-se uma celebridade. Piketty, que veste uma camisa azul-claro justa no corpo e com as duas primeiros casas desabotoadas, diz que estará "tudo bem", se ajudar a vender mais livros. Dois milhões de cópias foram compradas até agora, diz, com evidente prazer. "O sucesso do meu livro mostra que há muita gente, que não é economista, cansada de ouvir dizer que essas questões são complicadas demais para elas", comenta, pescando uma fatia de pepino embebida em maionese.

    Piketty fala rápido e gesticula bastante. Mostra-se curioso sobre minha idade: "Você é mais jovem do que minha irmã". E pergunta sobre minha carreira. Ele exala autoconfiança.

    "Muitas vezes, os economistas constroem modelos matemáticos complexos para dar a impressão de profundidade científica e impressionar as pessoas. Não tenho nada contra a matemática - minha formação inicial foi em matemática -, mas geralmente é usada  para ocultar a falta de ideias. O que me agrada é que esse livro atinge as pessoas 'normais', um público muito amplo. Minha mãe é um exemplo", diz. Acrescenta que ela raramente lê livros acadêmicos grandes, mas compreendeu tudo no livro dele.

    Quando pergunto se as tendências esquerdistas da família tiveram algo a ver com seu interesse inicial pelo tema da desigualdade, ele descarta a ligação. Política não era discutida em casa. Quando jovens, seus pais eram militantes trotskistas no Lutte Ouvriêre, mas deixaram o partido de extrema-esquerda antes de ele nascer. Como muitos jovens radicais vivendo no pós-maio de 1968 na França, sentiram-se seduzidos pela vida no campo e mudaram-se para fora da capital em meados da década de 1970. Durante três anos, criaram cabras e vendiam queijo nos mercados em Castelnau-d’Aude, aldeia perto de Narbonne, no sul da França. Embora nenhum dos pais tenha bacharelado, o diploma escolar nacional do curso secundário, a mãe de Piketty fez um curso noturno para ser professora primária. Seu pai tomou-se um pesquisador no Institut National de La Recherche Agronomique.

    Ambos comemoraram quando o socialista François Mitterrand foi eleito presidente, em 1981. "Esperaram muito até que a esquerda chegasse ao poder", diz Piketty. Mas seu avô por parte de pai, "de formação burguesa", votou a favor do candidato de centro-direita, Valéry Giscard d'Estaing. "Como em qualquer outra família, alguns votam na esquerda, alguns votam na direita. Amo todos."

    Seus pais nunca o pressionaram. Ao contrário. Pouco tiveram a ver com o fato de ter entrado na Escola Normal Superior, uma das mais competitivas "grandes êcoles" francesas, com apenas 18 anos ou por ter sido professor no Massachusetts.Institute of Technology após receber um Ph.D. aos 22. Mas lhe ensinaram "autonomia, em confiar em mim mesmo" - a mesma orientação que procura passar a suas três filhas, Juliette, 18, Deborah, 15, e Hêlêne, 12.

    Estou determinada a dar à "pasta bolognese" uma chance, mas o fusilli molengo, cozido em demasia, traz-me lembranças da minha cantina escolar. Tendo em vista a história de controvérsia entre Pikaetty e o "Financial Times", me pergunto se o lugar escolhido para o almoço pode ser uma forma de retaliação. Piketty referiu-se ao controvertido artigo que identificou discrepâncias em sua pesquisa logo que entramos na deli, dizendo que não queria custar muito ao "Fl", considerando toda a "publicidade gratuita" que o jornal lhe proporcionou.

    A análise do "Fl" questionou a conclusão de Piketty, de que a desigualdade de riqueza havia aumentado no Reino Unido. Ele respondeu em detalhes e defendeu sua metodologia. Argumentou que, mesmo se as criticas fossem corretas, as inconsistências não mudariam suas conclusões. "O FI? Nunca o leio.

    Desculpe, não deveria ter dito isso. Acho que é um pouco previsível. Sabe, quando leio as duas primeiras frases, sinto que já sei o que vem depois. Tudo bem, nem sempre. E então veio o prêmio. Tudo pareceu um pouco confuso", diz, referindo-se ao fato de que "O Capital no Século XXI" ganhou o prêmio Ff & McKinsey Business Book of the Year 2014.

    Seria um erro, continua, o "Fl" negar a ampliação das desigualdades no Reino Unido "para defender o interesse de seus leitores". Ao objetar, ocorre-me que Piketty pensa que estou aqui para representar os interesses do 1% mais rico.

    Quando combinamos de nos encontrar, ele disse que iria caminhando até "um bar simples que sirva salada e sanduíche", enfatizando que "a despesa poderia interessar aos leitores do 'FI"".

    Piketty diz que seu interesse por desigualdade cristalizou-se após a queda do Muro de Berlim e a primeira guerra do Golfo. Lembra-se de ter visitado Moscou em 1991 e de seu espanto com "as filas à frente das lojas".

    Voltou vacinado contra o comunismo. ''Acredito no capitalismo, na propriedade privada, no mercado." Mas também trouxe uma questão central para seu trabalho: "Como é que essas pessoas tinham ficado com tanto medo da desigualdade e do capitalismo nos séculos XIX e XX a ponto de criarem tal monstruosidade? Como podemos enfrentar a desigualdade sem repetir esse desastre"?

    Para ele, a guerra do Golfo demonstrou o cinismo do Ocidente: "Dizem-nos o tempo todo que os Estados não podem fazer nada, que é impossível regulamentar as Ilhas Cayman e outros paraísos fiscais, porque são muito poderosos, e de repente mandamos ­ um milhão de soldados a 10 mil quilômetros de casa para permitir que o emir do Kuwait conserve seu petróleo."

    Já estou na metade da "bolognese", quando pergunto por que seu trabalho teve impacto tão grande nos EUA e não causou nenhum burburinho na França quando saiu a primeira edição.

    Piketty diz que chamou a atenção nos EUA, em 2003, quando, com Emmanuel Saez, economista francês que leciona na Universidade da Califórnia, compilou os primeiros dados históricos sobre as pessoas mais ricas no país. Em 2009, o recém-eleito presidente Obama usou um gráfico elaborado pelos economistas franceses para mostrar que a desigualdade estava de volta a seu pico de 1929. "Nos tornamos alvo de 'think-tanks' republicanos." A versão francesa do livro funcionou como chamariz para os críticos, acredita, ajudando a impulsioná-lo ao topo da lista dos mais vendidos na Amazon durante três semanas, ao ser lançado em inglês.

    "A ascensão dos que compõem o 1% mais rico é coisa americana. Não é por acaso que o movimento "Occupy Wall Street" aconteceu em Wall Street, e não em Bruxelas, Paris ou Tóquio", diz.

    "É diferente na Europa. Aqui, a desigualdade assume a forma de desemprego e dívida pública."

    Embora admita que o imposto global sobre a riqueza, que recomenda, seja um sonho "utópico", também diz que uma alíquota de tributação confiscatória superior a 80% sobre os lucros superiores a US$ 1 milhão produziria resultados.

    Essa taxa vigorou durante as cinco décadas que antecederam o governo Reagan, e coibiria os exuberantes salários dos executivos sem comprometer a produtividade. "[Esse nível de tributação não matou o capitalismo americano na época - a produtividade cresceu no seu ritmo mais rápido naquele período", observa, "A ideia de que ninguém vai aceitar trabalhar duro por menos de US$ 10 milhões por ano...Tudo bem com pagar a alguém 10 ou 20 vezes o salário do trabalhador médio, mas precisamos pagar 100 ou 200 vezes para toparem trabalhar?"

    Piketty aplaudiu François Hollande quando o presidente introduziu imposto de 75% sobre as rendas superiores a €1 milhão? "Ele só estava fazendo jogo de cena. Em primeiro lugar, porque não há tantas pessoas que ganham esse dinheiro na França. E por que, como você certamente sabe, a França é um país menor do que os EUA. As sedes [das empresas] podem ser transferidas para Amsterdã. É preciso ter cuidado."

    Consciente de que o tema de riqueza pessoal é território complicado, mesmo assim decido testar o recém-adquirido status milionário de Piketty. Ele, portanto, deve ter sido submetido à alíquota de 75.%? Para minha surpresa, responde de boa-vontade e detalhadamente: o Estado vai cobrar entre 60% e 70% de seus lucros neste ano. "Um imposto de 90% não me incomodaria. Ainda sobraria bastante, estamos falando de vários milhões. Eu me beneficiei de um sistema educacional, de infraestrutura pública. E tive sorte, também. A ideia de que Bill Gates inventou o computador sozinho é piada. Sem pesquisadores em ciência da computação que não patentearam seu trabalho, quem o teria inventado?"

    Piketty - que se separou da mãe de suas filhas há alguns anos e casou-se com Julia Cage, economista francesa de 31 anos que conheceu na Escola de Economia de Paris - não está fascinado pelo dinheiro. ''Tenho a sorte de ter um trabalho fabuloso, viver na cidade mais bonita do mundo, ter três filhas maravilhosas, uma mulher maravilhosa."

    Espetamos os garfos de plâstico em nossos pedaços de abacaxi, já cortados em quadradinhos, e eles acabam por ser o ápice culinário do almoço.

    Hollande "não tem conserto", diz Piketty, que rejeitou o prêmio Légion d'Honneur porque, disse na ocasião, o Estado não tem "o direito de decidir quem é honrado". O presidente descumpriu sua promessa de campanha de mudar a postura de austeridade predominante na Europa, prossegue. Isso o torna tão responsável quanto a chanceler alemã Angela Merkel pelos problemas da zona do euro.

    "Substituímos Merkozy por Merkollande", diz. "A Europa está escolhendo a rota errada, o caminho da penitência eterna. Seria uma catástrofe forçar a Grécia a sair da zona euro". É irônico, acrescenta, que a austeridade esteja sendo imposta à endividada Grécia por dois países, Alemanha e França, que se beneficiaram do perdão da dívida após a Segunda Guerra - decisão que permitiu 30 anos de crescimento no continente. "Há algum tipo de amnésia coletiva. Esse cancelamento permitiu que os dois países investissem em educação, inovação e infraestrutura pública. Agora, esses mesmos países dizem à Grécia que terá de pagar 4% de seu PIB durante 30 anos. Quem pode acreditar nisso ?" O papel do FMI nas negociações gregas é uma "catástrofe".

    A crise da zona do euro, de acordo com Piketty, reflete uma governança profundamente falha, em que apenas dois líderes decidem quem pode pedir "uma reforma democrática das instituições europeias. É simplesmente porque não somos capazes de nos organizar politicamente que estamos na m, .. até o pescoço", afirma. "De um ponto de vista macroeconômico, a Grécia é insignificante."

    A zona do euro segue o exemplo do Reino Unido, diz, que passou o século XIX pagando sua enorme pilha de dívidas herdadas das guerras napoleônicas com excedentes orçamentários. Funcionou mas levou 100 anos, durante os quais o Reino Unido negligenciou seu sistema educacional.

    Piketty torce para que o Reino Unido permaneça na União Europeia, e não opte por "tornar-se apenas um paraíso fiscal com um grande centro financeiro". Adverte, porém, que Londres precisa perceber que a Europa "não é sinônimo de lucrar com a livre circulação de mercadorias de seus vizinhos enquanto suga a base fiscal deles". Ele entende que melhor teria feito Tony Blair se tivesse aderido ao euro, em vez de enviar tropas ao Iraque. "Mas posso compreender porque a zona do euro não é atraente atualmente. Talvez em 2040. Quem sabe?”

    Nos informam que cafés e crepes estão a caminho, mas Piketty está ansioso para voltar a seu escritório. Enquanto mordisco um "crêpe au sucre" aparentemente feito de borracha, segurando com os dedos, na ausência de talheres, negocio mais alguns minutos para saber dos planos da Piketty. "A pesquisa continua", diz. Ele está trabalhando para estender seu banco de dados de riqueza à América Latina e à África. Também concordou em dar aulas quatro dias por ano na London School of Economics. Mas, primeiro, vai levar "as meninas" numa viagem ao Marrocos no mês que vem. Antes de sairmos, peço a Piketty um autógrafo na conta. Ele é um "astro do rock", é claro, e aceita bem-humorado. "Sou muito jovem", diz, enquanto caminhamos sob o sol. ''Tenho mais livros para escrever." 

    (Tradução de Sergio Blum) 

  • OS POBRES CONTRA PIKETTY

    Autor: Hernando de Soto – Tradução Clara Allain

    Veículo: Jornal Folha de São Paulo

    Fonte: Folha de São Paulo, domingo 7 de junho de 2015, Ilustríssima pag. 5

    Folha de São Paulo, domingo 7 de junho de 2015, Ilustríssima pag. 5 OS POBRES CONTRA PIKETTY Dados não apoiam teses do autor Economista peruano, fundador do Instituto pela Liberdade e Democracia, contesta teses de “ O Capital no Século XXI”, de Thomas Piketty. Neste texto, ele sublinha os limites das estatísticas usadas pelo autor francês e diz que “as pessoas não rejeitam o capital e não o combatem – elas o procuram” Hernando de Soto – Tradução Clara Allain Com seu best-seller “O Capital no Seculo XXI”, Thomas Piketty chamou a atenção mundial: não porque ele combata a desigualdade -muitos o fazemos-, mas em razão de sua tese central, baseada em uma leitura dos séculos 19 e 20 que ele projeta sobre o século 21: o capital "acarreta mecanicamente desigualdades arbitrárias e insustentáveis que levam o mundo à miséria, à violência e às guerras. Essa tese é falsa, como demonstram as pesquisas que realizei com minhas equipes. Nós fizemos algo que nem Thomas Piketty nem ninguém tinha realizado: estudar a miséria, a violência e as guerras do século 21. O que descobrimos contradiz "O Capital no Século 21": as pessoas não rejeitam o capital e não o combatem - elas o procuram. PRAÇA TAHRIR Na ausência de estatísticas mundiais confiáveis, o trabalho de Piketty é baseado nos dados oficiais dos países ricos; esses dados ignoram que 90% da população mundial vive em países em desenvolvimento ou em antigos Estados soviéticos, cujos habitantes em grande medida desenvolvem suas atividades econômicas e seu capital no setor informal, ou seja, fora das estatísticas oficiais. O grande erro de análise de "O Capital no Século 21" consiste em extrapolar categorias sociais e indicadores estatísticos europeus, em aplicá-los aos países não ocidentais e em tirar deles conclusões mundiais e leis universais. Portanto, suas cifras não refletem o que acontece realmente no mundo. Essa falha tem consequências que ultrapassam de longe os aspectos meramente contáveis: a violência que explodiu na praça Tahrir, no Egito, em 2011, aconteceu em um país sobre o qual Piketty não dispunha de dados diretos. Um estudo em campo mostra que o capital exerce papel oculto mas determinante nos fatos, papel que a análise eurocêntrica não é capaz de perceber. A pedido do Ministério do Tesouro egípcio, minha instituição, o Instituto pela Liberdade e Democracia, fez uma pesquisa: 120 pesquisadores, em sua maioria egípcios, exploraram a documentação oficial e recolheram informações para um trabalho de observação em campo, de porta em porta, para confrontar as estatísticas oficiais -cuja confiabilidade era questionável- com a realidade. Descobrimos que 47% da receita anual do "trabalho" no Egito provem do capital: os trabalhadores egípcios ganham US$ 20 bilhões em salários, mas também US$ 18 bilhões adicionais graças aos rendimentos de seu capital informal. Nossas pesquisas mostraram que eles possuem perto de US$ 360 bilhões em bens imóveis; isso é oito vezes mais que o conjunto dos investimentos estrangeiros diretos no Egito desde a invasão napoleônica. Thomas Piketty não poderia ter descoberto isso unicamente pela análise dos dados oficiais. REVOLUÇÕES Piketty se preocupa com o risco de guerras futuras e sugere que elas vão assumir a forma de uma rebelião contra as desigualdades de capital. Talvez ele não tenha observado que as guerras do capital já começaram muito perto da Europa, no Oriente Médio e no norte da África. Se não tivesse deixado de tomar nota desses fatos, ele teria percebido que essas não foram rebeliões contra o capital, como ele afirma, mas pelo capital. A Primavera Arabe foi desencadeada pela imolação de Mohamed Bouazizi na ex-colônia francesa da Tunísia, em dezembro de 2010. Como as estatísticas oficiais e eurocêntricas classificam como "desempregadas" todas as pessoas que não trabalham para empresas formalmente reconhecidas não surpreende que a maior parte dos observadores tenha se apressado a descrever Bouazizi como "trabalhador desempregado". Mas essa classificação ignorou o fato de que Bouazízi não era trabalhador, e sim empreendedor, desde os 12 anos, que aspirava sobretudo a ter mais capital ("ras el-mel", em árabe). Nosso sistema eurocêntrico de classificação nos impediu de ver que, na realidade, Bouazizi liderou uma espécie de "revolução industrial árabe". E não era apenas ele. Descobrimos depois que 63 outros empreendedores da região tentaram suicidar-se publicamente nos dois meses seguintes, inspirados pelo exemplo de Bouazizi. Eles levaram milhões de árabes às ruas, derrubando quatro governos. Em dois anos, entrevistamos cerca de metade das 37 pessoas que se imolaram e sobreviveram às queimaduras, assim como suas famílias. Todas foram levadas à tentativa de suicídio pela desapropriação do pouco capital que possuíam. Cerca de 300 milhões de árabes vivem nas mesmas circunstâncias que os empreendedores que se imolaram. É preciso tirar quatro lições dessas pesquisas. Primeiramente, não é o capital que está na raiz da miséria e da violência, mas a ausência de capital. Em segundo lugar, para a maior parte do mundo não ocidental do século 21, o capital e a mão de obra não são inimigos: são facetas indissociáveis da geração de valor. Em terceiro lugar, as principais barreiras ao desenvolvimento das populações mais pobres têm sua origem na incapacidade delas de acumular e proteger seu capital. Em quarto lugar, o respeito pelo indivíduo e a coragem de exprimi-lo em alto e bom som não se limitam ao Ocidente. Bouazizi e aqueles que o imitaram são todos Charlie. CAPITAL FICTÍCIO Piketty tem razão quando escreve que a ausência de transparência está no cerne da crise que se arrasta desde 2008, mas se engana ao propor um "cadastro financeiro" que incluiria todos os capitais. Os bancos e mercados europeus estão abarrotados daquilo que Marx e Iefferson chamavam de capital "fictício", ou seja, papéis que não refletem mais nenhum valor real. Hoje, essa ilusão abrange bilhões de euros encaminhados de maneira obscura para produtos derivados, baseados em capitais não rastreáveis ou mal documentados que giram incansavelmente pelos mercados. Se o crescimento europeu está inanimado, é sobretudo porque ninguém mais sente confiança em todos esses papéis! Um "cadastro financeiro" não teria outra utilidade senão registrar as cifras destituídas de sentido do capital fictício. Para responder aos problemas identificados por Piketty, é preciso, pelo contrário, definir soluções que estejam ligadas aos fatos econômicos, que possam ser ligadas à sua realidade e que permitam separar o trigo capitalista do joio fictício. Para isso, é preciso que o vínculo que une capital a proprietário seja estabelecido em documento formal. É para isso que servem os títulos de propriedade, que conferem realidade prática a um conceito econômico. Ao contrário dos títulos financeiros, eles são concedidos com rigor, em registros regulamentados, acessíveis ao público, e contêm todas as informações disponíveis sobre a situação econômica de seus detentores e os bens aos quais remetem. Ninguém pode se permitir ser impreciso em relação ao montante de capital que possui. Como, então, materializar todo o capital a fim de localizá-lo, estabilizá-lo e controlá-lo? Os franceses forneceram a resposta mais apropriada com seu sistema de registro de títulos de propriedade, desenvolvido na época da Revolução Francesa para cobrir as lacunas das práticas anteriores. Sem conseguir acompanhar a expansão rápida dos mercados, essas práticas anteriores tinham enfraquecido a confiança dos cidadãos, que saíram às ruas para expressar sua frustração. Os reformadores tiveram então uma ideia de gênio, não procurando reformar o cadastro de um sistema ilegível e confuso, mas criando um sistema radicalmente novo de coleta de dados, certificando-se de que eles refletissem a realidade econômica. É esse caminho que precisa ser seguido novamente. Nas palavras do reformador francês Charles Coquelin (1802- 52), a França conseguiu se modernizar quando, ao longo do século 19, aprendeu a registrar os títulos de propriedade de todos os ativos, de modo a "entender os milhares de elos que as empresas criaram entre elas e, desse modo, socializar e reconfigurar a produção de maneira móvel". Thomas Piketty tem o coração no lugar certo, mas seus papéis estão nos arquivos errados. O problema do Ocidente no século 21 é o dos papéis sem ativos; em todo o resto do mundo, é o dos ativos sem papéis. Como lidar com a miséria, as guerras e a violência numa época em que a maior parte dos registros do mundo deixou de representar aspectos cruciais da realidade? A história francesa é um bom ponto de partida.
  • Na imprensa, é possível encontrar bons resumos e a repercussão de O Capital no Século XXI.

    Autor: Roda Viva - Roda Viva é um talk show brasileiro produzido e transmitido pela TV Cultura

    Veículo: https://www.youtube.com/watch?v=6pcGuqxyVJs

    Fonte: programa de entrevistas Roda Viva - TV Cultura

    Na imprensa, é possível encontrar bons resumos e a repercussão de O Capital no Século XXI. Para brasileiros, vale a pena o programa de entrevistas Roda Viva que aconteceu com o autor https://www.youtube.com/watch?v=6pcGuqxyVJs Autor: Roda Vida Veículo: YouTube Fonte: TV Cultura
  • Estudante que supostamente encontrou uma falha na teoria de O Capital no Seculo XXI

    Autor: Matthew Yglesias

    Veículo: Vox WebSite, 1º de abril de 2015

    Fonte: http://www.vox.com

    Na imprensa internacional, há destaque para um estudante que supostamente encontrou uma falha na teoria http://www.vox.com/2015/4/1/8320937/this-26-year-old-grad-student-didnt-really-debunk-piketty-but-what-he Autor: Matthew Yglesias Veículo: Vox WebSite, 1º de abril de 2015 Fonte: Vox Policy and Politics http://www.economist.com/blogs/freeexchange/2015/03/wealth-inequality?fsrc=scn/tw/te/bl/ed/nimbysinthetwentyfirstcentury Autor: The Economist Veículo: Free exchange Economics Fonte: The Economist
  • Paul Krugman, faz um resumo das ideias de Piketty

    Autor: Autor: Paul Krugman Veículo The New York Review of Books Fonte: The New York Review of Books

    Veículo: http://www.nybooks.com/articles/archives/2014/may/08/thomas-piketty-new-gilded-age/

    Fonte: The New York Review of Books

    Ainda na imprensa internacional, o prêmio nobel da economia Paul Krugman, faz um resumo das ideias de Piketty http://www.nybooks.com/articles/archives/2014/may/08/thomas-piketty-new-gilded-age/ Autor: Paul Krugman Veículo The New York Review of Books Fonte: The New York Review of Books O livro de PIketty Teve reflexos também nas instituições brasileiras. Pela primeira vez, em 2015, a Receita Federal liberou os dados da declaração de imposto de renda para análise. Como resultado, observou-se que 0,00035% (sim, são três zeros depois da vírgulas) da população detém 22% da riqueza nacional.
  • Também na academia brasileira, já há estudos que utilizam a metodologia proposta por PIketty para analisar os dados disponíveis até 2012.

    Autor: Autor: Darlan Alvarenga

    Veículo: Portal G.1 TV Globo - Economia

    Fonte:

    http://g1.globo.com/economia/noticia/2015/08/71-mil-brasileiros-concentram-22-de-toda-riqueza-veja-dados-da-receita.html Autor: Darlan Alvarenga Veículo: Economia Fonte: Portal G1 Também na academia brasileira, já há estudos que utilizam a metodologia proposta por PIketty para analisar os dados disponíveis até 2012. O estudo de Marcelo Medeiros, Pedro Souza e Fábio Castro chegou a ser citado no Programa Roda Viva por PIketty
  • Que o capitalismo é injusto já foi dito antes.

    Autor: Paul Mason,

    Veículo: O artigo abaixo foi publicado no site unisinos

    Fonte: Site Unisinos

    O artigo abaixo foi publicado no site unisinos. O autor é Paul Mason, editor cultural e digital do Channel 4 News, do Reino Unido. Que o capitalismo é injusto já foi dito antes. Mas é a forma como Thomas Piketty o diz – sutilmente mas com uma lógica implacável – o que levou os economistas da direita a um frenezi, tanto aqui [na Inglaterra] quanto nos Estados Unidos. O seu livro – intitulado “Capital in the Twenty-First Century” [O capital no século XXI] – disparou na lista entre os mais vendidos no site Amazon. Tê-lo consigo, em alguns ambientes de Manhattan, se tornou a mais nova ferramenta para se conectar socialmente com jovens progressistas. Ao mesmo tempo, seu autor vem sendo condenado como neomarxista por comentaristas de direita. Afinal, qual a causa de tudo isso? O argumento de Piketty é que, numa economia onde a taxa de rendimento sobre o capital supera a taxa de crescimento, a riqueza herdada sempre crescerá mais rapidamente do que a riqueza conquistada. Assim, o fato de que filhos ricos podem passar de um ano sabático sem rumo a um emprego no banco, na rede de televisão, etc., do pai – enquanto os filhos pobres continuam transpirando dentro de seus uniformes – não é acidental: é o sistema funcionando normalmente. Se se tem um crescimento lento junto de rendimentos financeiros melhores, então a riqueza herdada irá, na média, “superar a riqueza acumulada de uma vida toda de trabalho por uma ampla margem”, diz Piketty. A riqueza irá se concentrar em níveis incompatíveis com a democracia, irá abandonar a justiça social. Em suma, o capitalismo cria automaticamente níveis de desigualdade que são insustentáveis. A crescente riqueza daquele 1% não é um episódio isolado nem mera retórica. Para entender por que o sistema dominante acha esta proposição um tanto desagradável, é preciso compreender que se pensava ser o assunto “distribuição” – termo bonito para se referir à desigualdade – um tema acabado. Simon Kuznets, o bielorrusso emigrado que se tornou uma figura importante da economia americana, fez uso das informações disponíveis à época para mostrar que, embora as sociedades se tornassem mais desiguais nos primeiros estágios da industrialização, esta desigualdade diminuiria na medida em que elas alcançassem a maturidade. Tal “curva de Kuznets” fora aceita pela maioria dos profissionais de economia até Piketty e seus colaboradores produzirem as provas para mostrar que isso era falso. Na verdade, a curva vai exatamente na direção oposta: o capitalismo começou desigual, achatou a desigualdade durante grande parte do século XX, mas atualmente está voltando em direção aos níveis dickensianos de desigualdade no mundo. Piketty aceita a ideia de que os frutos da maturidade econômica – aptidões, formação e educação da força de trabalho – promovem, de fato, uma maior igualdade. Mas eles podem ser neutralizados por uma tendência mais fundamental no sentido da desigualdade, que é desencadeada onde quer que a demografia, a baixa taxação ou a fraca organização trabalhista permita. Grande parte das 700 páginas do livro são gastas mobilizando as provas de que o capitalismo do século XXI percorre um trajeto só de ida em direção à desigualdade – a menos que façamos alguma coisa. Se Piketty estiver certo, haverá enormes implicações políticas, e a beleza do livro é que ele nunca se abstém de apontá-las. O pedido feito por Piketty de um imposto global “confiscatório” sobre a riqueza herdada faz outros economistas, em princípio radicais, parecerem familiares. Ele propõe um imposto de 80% sobre os rendimentos acima de 500 mil dólares ao ano nos EUA, assegurando a seus leitores que não haveria nem uma fuga de grandes executivos para o Canadá tampouco uma desaceleração do crescimento, uma vez que o resultado seria simplesmente suprimir tais rendimentos. Embora supere a agenda macroeconômica, os golpes colaterais do livro contra a moda microeconômica, muitas vezes trazidas em notas de rodapé, parecem uma piada interna contra a geração para a qual todos os problemas pareciam resolvidos, com exceção dos preços da cocaína vendida nas ruas de Georgetown. Além disso, o livro hipnotizou os profissionais da economia por causa da forma como Piketty cria teoricamente o seu próprio mundo. Ele define as duas categorias básicas, riqueza e renda, de forma ampla e assertiva como ninguém antes tinha se preocupado em fazer. Os termos e as explicações da obra são extremamente simples; com uma infinidade de dados históricos, Piketty reduz a história do capitalismo a um claro arco narrativo. Para se desafiar a sua argumentação, é preciso rejeitar suas premissas e não sua elaboração. Desde a primeira página ele, ilustra com observações viscerais, o mundo injusto no qual vivemos: começa com o massacre de Marikana e não esmorece. Ele apresenta não só os índices de juros do século XVIII como provas, mas também as obras de Jane Austen e Honoré de Balzac. Usa estes dois escritores para ilustrar como, no início do século XIX, era lógico desdenhar o trabalho a favor do casamento pela riqueza. Isso se tornou tão presente que fortaleceu o mito central do capitalismo e sua justificativa moral: aquela de que a riqueza é gerada pelo esforço, pela criatividade, pelo trabalho, pelo investimento correto, pelo risco assumido, etc. Para Piketty, o período de meados do século XX marcado pelo aumento da igualdade foi um pontinho produzido pelas exigências da guerra, do poder do trabalho organizado, da necessidade de uma tributação alta, por fatores demográficos e pela inovação técnica. Dito de forma direta, se o crescimento for alto e o rendimento do capital for suprimido, poder-se-á ter um capitalismo mais igualitário. Mas, diz Piketty, uma repetição da era keynesiana é improvável: o trabalho está enfraquecido, a inovação tecnológica está demasiado lenta, o poder global do capital está demasiado forte. Além disso, a legitimidade deste sistema desigual é alta, isso porque ele encontrou formas de estender a riqueza à classe empresarial de uma forma que não se conseguiu fazer no século XIX. Se o autor estiver certo, as implicações para o capitalismo são bastante negativas: estamos diante de um capitalismo com baixo crescimento, combinado com altos níveis de desigualdade e baixos níveis de mobilidade social. Se o sujeito não nascer na riqueza, será bastante difícil enriquecer. Seria Piketty o novo Karl Marx? Qualquer um que tenha lido este último saberá que ele não o é. A crítica de Marx ao capitalismo não era sobre a distribuição, mas sobre a produção: para Marx não seria o aumento da desigualdade, mas sim uma ruptura no mecanismo de lucro o que levaria o sistema a seu fim. Onde Marx via relações sociais – entre trabalhadores e gerentes, proprietários de fábricas e a aristocracia rural –, Piketty vê apenas categorias sociais: riqueza e renda. A economia marxista vive num mundo onde as tendências interiores do capitalismo são contrariadas por sua experiência de superfície. O mundo de Piketty é feito somente de dados históricos concretos. Então, as acusações de um marxismo suave estão completamente equivocadas. Mais precisamente, Piketty colocou uma bomba não detonada dentro da economia clássica, dominante. Se a causa subjacente da catástrofe bancária de 2008 foi a queda na renda ao lado de uma crescente riqueza financeira, então – diz Piketty – estas coisas não foram por acaso: não foram produtos de uma regulação frouxa ou de uma ganância simples. A crise é o produto do sistema funcionando normalmente, e devemos esperar mais. Um dos capítulos mais interessantes é o debate proposto por Piketty do aumento quase universal daquilo que ele chama de “Estado social”. O crescimento contínuo na proporção da renda nacional consumida pelo Estado, gasto nos serviços universais, em pensões e benefícios, sustenta o autor, é uma característica irreversível do capitalismo moderno. Ele observa que tal distribuição se tornou uma questão de “direito” às coisas – de saúde e pensões – em lugar de simplesmente ser um problema dos índices de tributação. A sua solução é uma taxa específica, progressiva, sobre a riqueza privada: um imposto excepcional sobre o capital, possivelmente combinado com o utilização ostensiva da inflação. A lógica política para a esquerda está clara. Durante grande parte do século XX a redistribuição fora feita através de imposto sobre os rendimentos. No século XXI, qualquer partido que queira redistribuir precisará confiscar a riqueza, e não somente a renda. O poder da obra de Piketty é que ela também desafia a narrativa de centro-esquerda da globalização, que acreditava que a requalificação da força de trabalho, combinada com uma redistribuição amena, iria promover a justiça social. Isso, demonstra Piketty, é um engano. Tudo o que a social-democracia e o liberalismo podem produzir, com suas atuais políticas, é o iate do oligarca coexistindo com o banco de alimentos para todo o sempre. A obra de Piketty, “Capital in the Twenty-First Century” (diferentemente de “O Capital”, de Marx) contém soluções no próprio terreno do capitalismo: os 15% de impostos sobre o capital, os 80% de impostos sobre os altos rendimentos, uma transparência obrigatória em todas as transações bancárias, uma utilização ostensiva da inflação para a redistribuição da riqueza. Ele considera algumas destas soluções “utópicas”, e está certo nisso. É mais fácil imaginar um colapso do capitalismo do que uma elite consentir com estas ideias.
  • Thomas Piketty, O Fenômeno

    Autor: Fernando Nogueira da Costa

    Veículo: Charles Platiau/Reuters http://www55.zippyshare.com/v/89834754/file.html

    Fonte: Capital in the Twenty-First Century – Thomas Piketty (tradução de Arthur Goldhammer)(2014):

    Thomas Piketty, O Fenômeno Posted on 23/05/2014 by Fernando Nogueira da Costa Charles Platiau/Reuters Dani Rodrik, professor de Ciências Sociais no Instituto de Estudos Avançados, em Princeton, Nova Jersey, é autor de “The Globalization Paradox: Democracy and the Future of the World Economy” (O paradoxo globalização: democracia e o futuro da economia mundial). Publicou resenha (Valor, 15/05/14) sobre o livro da moda: “Capital in the Twenty-First Century“. Reproduzo-a abaixo, seguida de uma entrevista realizada por Eleonora Lucena com o autor. “Onde quer que eu vá e seja lá com quem me encontre, atualmente, perguntam-me a mesma coisa: O que você acha de Thomas Piketty? São, na realidade, duas perguntas numa só: o que você acha de Piketty (seu livro), e o que acha de Piketty (o fenômeno)? A primeira indagação é muito mais fácil de responder. Por pura sorte, fui um dos primeiros leitores da versão em inglês de “Capital in the Twenty-First Century” (O capital no Século XXI). A editora de Piketty, Harvard University Press, enviou-me as provas finais, na esperança de que eu contribuiria com uma sinopse para a contra-capa. Eu o fiz com satisfação, pois considerei notáveis a abrangência, profundidade e ambição do livro. Eu tinha, certamente, familiaridade com o trabalho empírico de Piketty sobre distribuição de renda, empreendido com Emmanuel Saez, Anthony Atkinson e outros. Essa pesquisa já havia produzido novas descobertas alarmantes sobre o aumento das rendas dos super-ricos. A pesquisa havia mostrado que a desigualdade em muitas economias avançadas atingiu níveis não vistos desde o início do século XX. A investigação, em si mesma, foi um feito brilhante. Mas o livro é muitíssimo mais do que trabalho empírico, e constitui uma interessantíssima narrativa acauteladora sobre a dinâmica da riqueza sob o capitalismo. Piketty nos adverte para que não nos deixemos iludir pela aparente estabilidade e prosperidade que foi a experiência comum das economias avançadas durante umas poucas décadas na segunda metade do Século XX. Segundo a narrativa de Piketty, são as forças promotoras de desigualdade e desestabilizadoras que podem ser as dominantes no capitalismo. Talvez mais do que o argumento propriamente dito, o que torna “Capital in the Twenty-First Century” uma ótima leitura é a sensação de assistirmos um embate de uma mente soberba com as grandes questões de nosso tempo. A ênfase de Piketty na natureza política da distribuição de renda; seu sutil vai-e-vem entre as leis gerais do capitalismo e o papel desempenhado pelo acaso; e seu empenho em oferecer ousados (ainda que, para muitos, impraticáveis) remédios para salvar o capitalismo de si mesmo, são tão novos quanto raros para um economista. Por isso, eu teria gostado de dizer que pude prever o enorme sucesso acadêmico e popular que o livro teria ao ser publicado. Na realidade, a recepção ao livro foi uma grande surpresa. Por um lado, a obra dificilmente pode ser considerada de leitura fácil. Tem quase 700 páginas (incluindo as notas) e, embora Piketty não dedique muito espaço a formalizações teóricas, ele não se abstém de incluir uma equação ocasional ou letras gregas ao longo do texto. Os críticos deram muito realce às referências de Piketty a Honoré de Balzac e Jane Austen; entretanto, o fato é que o leitor encontrará principalmente a prosa seca e estatísticas de um economista, ao passo que as referências literárias são poucas e esparsas. A reação dos economistas não foi uniformemente positiva. O argumento do livro gira em torno de uma série de identidades contábeis que relacionam poupança, crescimento e retorno do capital à distribuição da riqueza em uma sociedade. Piketty é exímio em trazer essas relações abstratas à vida ao associar números reais a elas e ao identificar sua evolução ao longo da história. Mas essas relações são bem conhecidas dos economistas. O prognóstico pessimista de Piketty repousa sobre uma pequena extensão desse arcabouço contabilístico. Com base em pressupostos plausíveis – a saber, que os ricos poupem o suficiente – a proporção entre riqueza herdada e renda (ou salários) continua a crescer, desde que r , a taxa média de retorno do capital, exceda g, a taxa de crescimento da economia como um todo. Piketty argumenta que essa tem sido a norma histórica, exceto durante a tumultuada primeira metade do Século XX. Se é assim que se nos apresenta o futuro, estamos diante de uma distopia na qual a desigualdade crescerá a níveis nunca antes vividos. Mas, em economia é perigoso extrapolar e as evidências que Piketty apresenta para sustentar seu argumento são pouco conclusivas. Como muitos têm argumentado, o retorno do capital, r, pode muito bem começar a declinar: se a economia tornar-se muito rica em capital em relação ao trabalho e a outros fatores, e se a taxa de inovação diminuir. Alternativamente, como outros já apontaram, a economia mundial pode ganhar velocidade, impulsionada pela evolução do mundo emergente e em desenvolvimento. A visão de Piketty precisa ser levada a sério, mas não pode ser considerada lei absoluta. Talvez a fonte do sucesso do livro deva ser buscada no “zeitgeist“. É difícil acreditar que a obra tivesse produzido o mesmo impacto há dez ou mesmo cinco anos, na esteira imediata da crise financeira mundial, apesar de argumentos e provas idênticas pudessem ter sido arrolados naquele momento. Uma inquietação sobre a crescente desigualdade vem se acumulando há algum tempo nos EUA. A renda da classe média continua estagnada ou em queda, apesar da recuperação da economia. Parece agora aceitável falar da desigualdade nos EUA como a questão central com que se defronta o país. Isso poderia explicar por que o livro de Piketty tem recebido maior atenção nos EUA do que em sua França natal. “Capital in the Twenty-First Century” reacendeu o interesse dos economistas na dinâmica da riqueza e em sua distribuição– um tema que preocupou economistas clássicos como Adam Smith, David Ricardo e Karl Marx. O livro colocou em debate público detalhes empíricos cruciais e um arcabouço analítico simples, porém útil. Quaisquer que sejam as razões de seu sucesso, já deu uma contribuição inegável, tanto para a Ciência Econômica como para a discussão pública.” Autor do best-seller “Capital in the Twenty-First Century” [Capital no século 21, que sairá em português até o final do ano pela Intrínseca], Thomas Piketty virou celebridade ao esmiuçar o avanço na desigualdade provocada por um modelo capitalista que reduz crescimento, beneficia herdeiros de fortunas e prejudica a ascensão social. Aos 43 anos (completados em 2014), esse francês professor da Escola de Economia de Paris coloca o dedo na ferida e gera debate: a desigualdade aguda mina as ideias de meritocracia que sustentam princípios democráticos. Existe uma “ameaça verdadeira” à democracia, diz Piketty em entrevista à Folha, por telefone, de Paris. No extenso trabalho que fez analisando a evolução da distribuição de riqueza pelo mundo desde a Revolução Francesa (seu foco são 20 países, especialmente os EUA e a Europa), Piketty lamenta não ter conseguido observar o Brasil: faltam dados e transparência. Eleonora Lucena (FSP, 14/05/14) o entrevistou. Folha – Seu livro conta como o capitalismo nos países centrais concentra renda, promove desigualdade e está enredado no baixo crescimento _que beneficia os mais ricos, os herdeiros. Com essa dinâmica patrimonial, o capitalismo está cavando sua própria cova? Sobreviverá? Thomas Piketty – Acho que pode sobreviver certamente, mas precisa responder aos seus desafios sobre desigualdade, pobreza. Há instituições democráticas para tratar disso. O debate sobre a taxação mais progressiva da riqueza [proposto no livro] é parte disso. Eu sou otimista. Há poucos dias, se viu que bancos suíços estão tendo que enfrentar sanções nos EUA [por conta de acusações sobre evasão de divisas e lavagem de dinheiro]. As coisas podem mudar. A história da desigualdade é cheia de surpresas. O senhor escreve que a desigualdade é uma ameaça à democracia. Vivemos numa democracia de plutocratas? É uma ameaça verdadeira. O capitalismo do século 21 traz extrema desigualdade. A certo ponto, essa extrema desigualdade pode trazer riscos para as instituições democráticas. Outra ameaça é a resposta nacionalista. Sempre quando não conseguimos resolver os problemas sociais é tentador achar alguém para culpar: trabalhadores estrangeiros, outros países, a Alemanha, a China. É preciso discutir uma taxação adequada para assegurar benefícios gerais. Senão, correremos sérios riscos. A batalha política é muito complicada. As pessoas precisam entender as opções que existem e é importante discuti-las, discutir sobre taxação. O sr. defende a ideia de uma taxa progressiva global para o capital. No passado, como mostra o seu livro, guerras e revolução foram cruciais para que governos decidissem taxar os ricos e melhorar a distribuição de riqueza. Somente guerras e revoluções podem mudar a situação atual? Sou muito mais otimista. Penso que as instituições democráticas podem responder ao avanço da desigualdade e fazer instituições educacionais e fiscais mais inclusivas e progressivas. Mas para isso acontecer precisamos de mais transparência sobre renda e riqueza. Essas são questões que dizem respeito a todos, não apenas a economistas. O Brasil é tido como um dos países mais desiguais do mundo, mas ele não é objeto de seu trabalho. Por quê? Não tivemos condições de apurar dados precisos sobre o Brasil. Tentamos obter muitas vezes, mas não conseguimos dados apropriados para a nossa pesquisa. O problema é a falta de transparência em dados referentes a imposto de renda, por exemplo. Queríamos dados do mundo todo e certamente o Brasil é um país muito importante. Mas, infelizmente, por causa dessa falta de informações, o Brasil não pode ser incluído na base dados mundial sobre as maiores receitas [World Top Incomes Database, WTID]. Espero que possamos incluir o Brasil no futuro. Conseguimos dados sobre a Argentina. O que essa falta de informação o que revela sobre o país? Há razões políticas e econômicas para que esses dados não sejam claros? Não sei. É importante entender que a taxação, especialmente a sobre a riqueza, no caso do Brasil, precisa caminhar junto com a transparência de informação. Taxação sempre não é simplesmente taxação. É uma forma de produzir informação. É problemático que alguns países, inclusive o Brasil, não produzam esse tipo de informação. Qual é sua visão do Brasil? Não sei muito sobre o Brasil. Sei que uma força importante que pode atuar na direção da redução da desigualdade é a educação. Se houver um melhor acesso à educação, instituições educacionais mais inclusivas haverá avanços contra a desigualdade. Cada país precisa ter instituições para se preparar no sentido de que haja acesso à riqueza, criação de empregos. Apesar de não tratar do Brasil (que é citado ligeiramente apenas uma vez no livro), que lições os brasileiros devem aprender com sua pesquisa? Penso que as lições da história da desigualdade de riqueza nos países que hoje são ricos são de interesse do Brasil e de todos os países. Em algum momento, o crescimento vai se reduzir nos países emergentes. E então a lógica em que a taxa de o retorno sobre o capital é maior do que o ritmo de crescimento econômico vai valer da mesma forma como vale nos países ricos. O sr. afirma que o investimento estrangeiro não foi determinante na história dos países desenvolvidos; que os países precisam se autofinanciar. O Brasil, com altas taxas de juros, que é muito preocupado em atrair capitais estrangeiros. Está errado? Cada país tem que encontrar o seu caminho, definir o quanto precisa poupar etc. Pode ser um problema [aceitar muito capital externo]. Precisa haver discussão [como hoje na França, no caso da venda da Alstom para o capital estrangeiro]. O que é melhor para um país: taxar os ricos ou fazer dívida? Taxar é sempre melhor, é mais eficiente, mas governos preferem fazer diferente. Taxar é decisão política, definir quem vai ser taxado ou não. Governos preferem escapar dessa discussão. O sr. defende que a intervenção estatal não prejudicou as sociedades. Precisamos de mais intervenção estatal? Depende do tipo de intervenção, do país. Se olharmos os países europeus e os EUA, isso não foi problema no século 20. Na educação, na saúde, na construção o papel da intervenção estatal foi essencial. O senhor afirma que a privatização foi um fator que atuou no sentido da aceleração da desigualdade nas últimas décadas. Privatizar foi um erro? A privatização não é necessariamente ruim, depende do setor, do preço. O problema é que geralmente a transferência de propriedade tem feito fortunas. Basta lembrar o caso da Rússia. Em muitos casos, teria havido venda de propriedades públicas e aumento da dívida, com um resultado líquido ruim. Houve casos positivos. No livro, o sr. diz que o futuro pode trazer o pior de dois mundos: desigualdade de riqueza, por conta do maior peso das heranças entre os ricos, e desigualdade salarial, em razão dos megasalários de executivos. O que podem fazer partidos, sindicatos e organizações para enfrentar isso? Sindicatos tiveram um papel importante no século 20, mas hoje não ocupam o mesmo espaço. Agora há a discussão do salário mínimo [na Europa], que é importante e que precisa vir junto com outras políticas, como educação. Os sindicatos precisam se adaptar à nova situação. Qual é o futuro da classe média no mundo? A ascensão da classe média patrimonial foi muito importante no século 20. A redução do crescimento econômico e o aumento da desigualdade trouxeram o risco de seu encolhimento gradual. Isso é ruim para a economia e para a democracia. Leia mais: O Capital no Século XXI de Thomas Piketty Medição da Riqueza Financeira Link para download: Capital in the Twenty-First Century – Thomas Piketty (tradução de Arthur Goldhammer)(2014): http://www55.zippyshare.com/v/89834754/file.html
  • Occupy estava certo: o capitalismo levou o mundo ao fracasso

    Autor: A reportagem é de Andrew Hussey, . A tradução é de Isaque GomesCorrea.

    Veículo: Jornal The Observer, 13-04-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

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    Occupy estava certo: o capitalismo levou o mundo ao fracasso Um dos lemas dos protestos de 2011 do Occupy foi que o “capitalismo não está mais funcionando”. Agora, num livro épico e inovador, o economista francês Thomas Piketty explica por que eles estavam certos. A reportagem é de Andrew Hussey, publicada pelo jornal The Observer, 13-04-2014. A tradução é de Isaque GomesCorrea. A École d’Économie de Paris está atualmente situada na parte menos parisiense da cidade. Encontra-se no bulevard Jourdan, na extremidade mais baixa da 14ª arrondissement, limitada de um lado pelo Parc Montsouris. Diferentemente da maioria dos parques franceses, há uma clara falta ordem gaulesa aqui; na verdade, com lagos, espaços abertos e seus patos gananciosos e curiosos, poder-se-ia facilmente se sentir num parque de qualquer cidade da Inglaterra. O campus desta faculdade, no entanto, se parece, de modo inequívoco e tranquilizador, com quase todos os campi das universidades francesas. Quer dizer, é cinza, sem graça e derrubado, com corredores cheirando vagamente a repolho. É aí onde arranjei uma entrevista com o professor Thomas Piketty, francês jovem e modesto (está na casa dos 40), que passou a maior parte de sua carreira nos arquivos e na coleta de dados, mas que está prestes a emergir como um dos mais importantes pensadores de sua geração – tal como colocou o acadêmico de Yale Jacob Hacker: um livre pensador e um democrata que não é outra coisa senão um “Alexis de Tocqueville do século XXI”. Isso se deve ao seu último livro, chamado “Capital in the Twenty-First Century” [O capital no século XXI]. Trata-se de uma obra enorme, com mais de 700 páginas, densa e repleta de notas, gráficos e fórmulas matemáticas. À primeira vista é descaradamente um tomo acadêmico e parece tanto assustador como incompreensível. No entanto, nas últimas semanas e meses o livro desencadeou firmes debates nos Estados Unidos sobre a dinâmica do capitalismo, e especificamente sobre o aumento aparentemente imparável da minúscula elite que controla, mais e mais, a riqueza mundial. Em blogs e websites não especializados em todo os EUA, a obra aqueceu discussões sobre o poder e o dinheiro, questionando o mito presente exatamente no centro da vida americana – o de que o capitalismo melhora a qualidade de vida para todos. Isso simplesmente não é o caso, diz Piketty, sustentando esta afirmativa de forma clara e rigorosa que desmascara tudo o que os capitalistas acreditam sobre o status ético do fazer dinheiro. O status inovador do livro foi reconhecido por um recente e extenso ensaio publicano na revista The New Yorker em que Branko Milanovic, ex-economista do Banco Mundial, foi citado descrevendo a publicação de Piketty como “um dos livros divisores de águas no pensamento econômico”. Nesse mesmo sentido, um colunista da revista The Economist disse que a obra de Piketty reescreveu, de forma fundamental, 200 anos de pensamento econômico sobre a desigualdade. Em suma, as discussões têm se centrado em dois polos: o primeiro é o da tradição que se inicia comKarl Marx, que acreditava que o capitalismo destruiria a si próprio na busca interminável de rendimentos decrescentes de lucro. Na extremidade oposta do espectro está a obra de Simon Kuznets, que venceu um prêmio Nobel em 1971 e que sustentou a afirmação segundo a qual a lacuna da desigualdade inevitavelmente encolhe na medida em que as economias se desenvolvem e se tornam sofisticadas. Piketty diz que nenhum destes argumentos enfrentam as provas que ele acumulou. Mais precisamente, o autor demonstra que não há motivo para se acreditar que o capitalismo pode, algum dia, resolver o problema da desigualdade, que, insiste ele, está piorando em vez de melhorar. Da crise bancária de 2008 ao movimento de 2011Occupy, muito disso foi intuído pelas pessoas comuns. A significação singular de seu livro é a de que ele prova “cientificamente” que esta intuição está correta. É por isso que seu livro fez sucesso: ele diz o que muitos já vêm pensando. “Eu deliberadamente almejei o leitor em geral com este livro”, diz Piketty assim que começamos nossa conversa, “e, embora ele seja obviamente um livro que pode ser lido por especialistas também, eu quis que a informação aqui estivesse clara para qualquer um que queira ler”. De fato, é preciso dizer que “Capital in the Twenty-First Century” é, surpreendentemente, legível. É repleto de anedotas e referências literárias que iluminam a narrativa. Outro fato que também ajuda é que a obra foi traduzida [para o inglês] fluentemente por Arthur Goldhammer, um estilista literário que abordou a obra de autores como Albert Camus. Mas, mesmo assim, na medida em que vejo que o livro de Piketty se encontra alinhado nas estantes de títulos de quebrar a cabeça – tais como “The Principles of Microeconomics” [Os princípios da microeconomia] e “The Political Influence of Keynesianism” [A influência política do keynesianismo] –, pessoas simples como eu ainda precisarão de alguma ajuda. Então, perguntei a ele as perguntas mais óbvias que poderia fazer: Qual é a grande ideia por trás do livro? “Comecei com um simples problema de pesquisa”, diz ele em inglês com um elegante sotaque francês. “Comecei a me perguntar, há alguns anos, onde estavam os dados concretos por trás de todas as teorias a respeito da desigualdade, desde Marx até David Ricardo (o economista inglês do século XIX e defensor do livre comércio), incluindo pensadores mais contemporâneos. Comecei na Inglaterra e nos Estados Unidos e descobri que, na verdade, não havia muita coisa. Então, descobri que os dados que realmente existiam contradiziam quase todas as teorias, incluindo Marx eRicardo. Em seguida, comecei a olhar para outros países e percebi um padrão que começava a surgir, qual seja, o de que o capital, e o dinheiro que ele produz, acumula-se mais rapidamente do que o crescimento nas sociedades de capital. E este padrão, que vimos pela última vez no século XIX, tem se tornado ainda mais predominante desde a década de 1980, quando os controles sobre o capital foram suspensos em muitos países ricos”. Portanto, a tese de Piketty, sustentada por sua extensa pesquisa, é a de que a desigualdade financeira no século XXI está em ascensão e acelerando num ritmo muito perigoso. Por um lado, isso muda a forma como olhamos para o passado. Já sabíamos que o fim do capitalismo previsto por Marx nunca aconteceu – e que mesmo na época daRevolução Russa, de 1917, os salários em toda a Europa já se encontravam em ascensão. Já sabíamos também que a Rússia era, de qualquer modo, o país menos desenvolvido do continente e que foi por isso que o comunismo criou raízes aí. Piketty passa a apontar, no entanto, que somente as crises diversas do século XX – principalmente as duas guerras mundiais – impediram o crescimento constante da riqueza ao nivelar, temporária e artificialmente, a desigualdade. De forma contrária à nossa percepção do século XX como uma era em que a desigualdade fora apagada, em termos reais esta sempre esteve em ascensão. No século XXI, este não só é o caso nos assim-chamados países “ricos” – EUA, Reino Unido e Europa ocidental –, mas também na Rússia, na China e em outros países que estão numa fase de desenvolvimento. O verdadeiro perigo é que, se este processo não for detido, a pobreza irá aumentar no mesmo ritmo e, argumenta Piketty, que podemos muito bem constatar que o século XXI será um século de maior desigualdade, e portanto de uma maior discórdia social, do que o século XIX. Embora ele explique suas ideias para mim com fórmulas e teoremas, tudo isso ainda soa demasiado técnico. (Fui alguém que teve problemas com a Matemática.) Mas ao escutar cuidadosamente o que diz Piketty (ele claramente é um bom e paciente professor) e analisar pormenorizadamente, o que se presenta começa a fazer sentido. Para este iniciante aqui, ele explica que renda é um fluxo: move-se e pode crescer e se modificar segundo o rendimento. Capitalé um estoque: sua riqueza vem do que se acumula “em todos os anos anteriores juntos”. É um pouco como a diferença entre saque a descoberto e hipoteca, e se a gente nunca se tornar dono de nossa própria casa, nunca teremos estoque algum e sempre seremos pobres. Em outras palavras, o que ele está dizendo em termos globais é que os que têm capital e ativos que geram riqueza (tal como um príncipe saudita) sempre serão mais ricos do que os empresários que estão tentando fazer capital. A tendência do capitalismo neste modelo é de concentrar mais e mais riqueza nas mãos de cada vez menos pessoas. Mas já não sabíamos disso? Já não sabíamos que o rico enriquece e o pobre empobrece? E a banda The Clash e outras não cantavam isso em suas letras durante os anos 1970? “Bem, na verdade não sabíamos disso, embora poderíamos ter imaginado”, diz Piketty, preparando-se para entrar no assunto. “Em primeiro lugar, esta é a primeira vez que acumulamos as informações que provam que este é o caso. Em segundo lugar, embora eu não seja um político, é óbvio que este movimento, que está se acelerando, terá implicações políticas: todos nós estaremos mais pobres no futuro em todos os sentidos e isso estabelece uma crise. Provo que, sob as atuais circunstâncias, o capitalismo simplesmente não pode funcionar”. Piketty diz, curiosamente, que ele é um anglófilo e, de fato, começou sua carreira de pesquisador com um estudo a respeito do sistema inglês de imposto de renda (“um dos dispositivos políticos mais importantes da história”). Mas também diz que os ingleses têm uma fé cega demasiada nos mercados que nem sempre eles compreendem. Debatemos a atual crise nas universidades inglesas, as quais, agora impondo mensalidades, descobrem que estão sem dinheiro porque o governo calculou erroneamente o que os alunos teriam de pagar e agora não tem condições de garantir que os empréstimos concedidos para cobrir tais despesas serão algum dia reembolsados. Em outras palavras, o governo pensou que faria dinheiro certo ao introduzir mensalidades; na verdade, porque que ele não pôde controlar todas as variáveis do mercado, jogou com o dinheiro do país e agora se mostra prestes a perder de modo espetacular.Piketty dá uma risada: “Este é um exemplo perfeito de como infligir dívida no setor público. Algo bastante extraordinário e completamente impossível de se imaginar na França”. Por mais que seja um conhecedor rigoroso de assuntos econômicos relacionados à Inglaterra e aos Estados Unidos,Piketty diz que apenas se sente à vontade quando se trata da França. O livro “Capital in the Twenty-First Century” é construído partir de uma infinidade de referências francesas (o historiador François Furet é central), e Piketty declara melhor conhecer o cenário político francês. Foi criado em Clichy, num bairro em grande parte formado pela classe trabalhadora; seus pais foram militantes da “Lutte Ouvrière” (Luta dos trabalhadores), partido essencialmente trotskista que ainda conta com número significativo de seguidores na França. Como muitos de sua geração, desapontados pelo fracasso da quase-revolução de maio de 68, abandonaram tudo para criar cabras em Aude – uma trajetória clássica para muitos dos babacools (hippies esquerdistas daquela geração). No entanto, o jovem Piketty deu duro na escola; estudou em Paris e concluiu o doutorado na Faculdade de Economia de Londres com 22 anos. Ele então foi para o Massachusetts Institute of Technology, onde era um prodígio válido de nota, antes de voltar a Parispara finalmente se tornar diretor da faculdade onde estamos neste momento sentados. O seu itinerário político começou, diz ele, com a queda do Muro de Berlim, em 1989. Ele se pôs a viajar por toda aEuropa oriental e ficou fascinado pelos escombros do comunismo. Foi este fascínio inicial que o levou em direção a uma carreira de economista. A Guerra do Golfo, em 1991, também o influenciou. “Pude ver então que tantas decisões erradas foram tomadas por políticos porque eles não entendiam de economia. Mas não sou político. Este não é o meu trabalho. Mas eu ficaria feliz se os políticos pudessem ler minha obra e tirassem algumas conclusões a partir dela”. Piketty está sendo um pouco desonesto aqui, pois de fato trabalhou como assessor para Ségolène Royal em 2007, quando esta foi a candidata socialista nas eleições presidenciais. Estes tempos não constituíram um período feliz para ele: o seu caso amoroso com a política e romancista Aurélie Filipetti, outra acólita de Ségolène Royal, terminou na mesma época com acusações amargas de ambos os lados. É justo que, depois desta empresa obscura, Piketty queira se distanciar da confusão da política real. Mas não importa. O que aprendemos? O capitalismo é mau. Viva! E qual a alternativa? O socialismo? Espero que sim. “Não é bem assim”, diz ele, frustrando este aqui a ouvir, que fora marxista na adolescência. “O que defendo é umimposto progressivo, um imposto global, com base na taxação da propriedade privada. Esta é a única solução civilizada. As outras soluções são, penso eu, muito mais bárbaras, com isso quero dizer: o sistema oligárquico daRússia, no qual não acredito, e a inflação, que é verdadeiramente um imposto sobre os pobres”. Piketty explica que a oligarquia, em particular no atual modelo russo, é simplesmente a regra dos demasiadamente ricos sobre a maioria. Isso é tirania e nada mais do que uma forma de banditismo. Acrescenta que os muito ricos normalmente não são afetados negativamente pela inflação – de alguma forma a riqueza deles aumenta –, mas que os pobres sofrem com o aumento do custo de vida. Um imposto progressivo sobre a riqueza é a única solução sensata. Embora ele esteja sendo razoável em tudo isso, grande parte do que fala é do senso comum, digo-lhe que nenhum partido político na Inglaterra ou nos Estados Unidos, de direita ou esquerda, se atreveria ir às urnas com tais ideias idealistas. O atual governo de François Hollande é amplamente desprezado não por causa dos pecadilhos sexuais do presidente (pelo contrário, estes são em grande parte admirados), mas por causa do regime de imposto punitivo que ele vem buscando impor. “Isso é verdade”, diz ele. “É claro que é verdade. Mas é verdade também, como eu e meus colegas mostramos neste livro, que a situação atual não pode se sustentar por muito tempo. Não se trata necessariamente de uma visão apocalíptica. Fiz um diagnóstico das situações do passado e do presente, e realmente acho que há soluções. Mas antes de chegarmos a elas, devemos entender a situação. Quando comecei, simplesmente coletando dados, fiquei realmente surpreso pelo que encontrei: que a desigualdade está crescendo tão rapidamente e que o capitalismo não pode, aparentemente, resolvê-la. Muitos economistas começam pela maneira inversa, fazendo perguntas sobre a pobreza, mas eu quis entender como a riqueza, ou a extrema riqueza, está contribuindo para aumentar a lacuna da desigualdade. E o que percebi é que, com dito antes, a velocidade na qual a lacuna da desigualdade cresce está ficando mais e mais rápida. É preciso perguntar o que isso significa para as pessoas comuns, que não são bilionárias e que jamais irão ser bilionárias. Ora, eu acho que isso significa uma deterioração na primeira instância do bem-estar econômico do coletivo, em outras palavras: a degradação do setor público. Basta apenas ver o que o governo Obamaquer fazer – que é minar a desigualdade na assistência à saúde e assim por diante – e quão difícil está sendo para se compreender a importância que isso representa. Há uma crença fundamentalista por parte dos capitalistas de que o capital salvará o mundo, e isso simplesmente não é o caso. Não por causa do que Marx disse sobre as contradições do capitalismo, pois, como descobri, o capital é um fim em si e nada mais”. Piketty profere este discurso, erudito e poderoso, com uma paixão silenciosa. Ele é, poder-se-ia imaginar, um tipo relativamente modesto e discreto, mas ama o que faz e é, realmente, um prazer encontrar-se em meio de um seminário privado sobre dinheiro e como ele funciona. De fato, o seu livro é extenso e complicado, mas qualquer um que viva no mundo capitalista, quero dizer todos nós, pode compreender os debates que ele faz sobre a forma como as coisas funcionam. Uma dos elementos mais penetrantes disso tudo é o que ele tem a dizer sobre a ascensão dos administradores, ou “superadministradores”, que não produzem riqueza, mas que desviam um salário daí. Isso, sustenta Piketty, é efetivamente uma forma de roubo, porém não é o pior crime dos superadministradores. O que é mais prejudicial é a forma como eles se fixaram na competição com os bilionários cuja riqueza, acelerando para além da economia, sempre ficará fora de alcance. Isso cria um jogo permanente cujas vítimas são os “perdedores”, isto é, as pessoas comuns que não aspiram a tais status ou riquezas, mas que devem ser desprezadas não obstante pelos executivos-chefe, vice-presidentes e outros lobos de Wall Street. Neste momento, Piketty desfaz uma das grandes mentiras do século XXI: a de que os superadministradores merecem o dinheiro que têm porque, como os jogadores de futebol, possuem habilidades especializadas que pertencem a uma elite quase sobre-humana. “Uma das grandes forças divisionistas a trabalho hoje”, diz ele, “é o que chamo extremismo meritocrático. Este é o conflito entre bilionários cuja renda vem de imóveis e ativos, tais como um príncipe saudita, e de administradores. Nenhuma destas categorias faz ou produz coisa alguma senão sua riqueza, que é realmente uma super-riqueza que se distanciou da realidade concreta do mercado, o qual determina como a maioria das pessoas comuns vivem. Pior ainda, elas competem entre si para aumentar suas riquezas, e o pior de todos os cenários é a forma como os superadministradores, cuja renda se baseia efetivamente na ganância, continuam aumentando seus salários, independentemente da realidade do mercado. É isso o que aconteceu com os bancos em 2008, por exemplo”. É este tipo de pensamento que torna a obra de Piketty tão atraente e convincente. Diferentemente de muitos economistas, ele insiste que o pensamento econômico não pode se separar da história ou da política; é isso o que dá a seu livro o alcance que o americano Paul Krugman, prêmio Nobel, descreveu como “épico” e de uma “visão abrangente”. A influência de Piketty, aliás, está crescendo muito além da fechada microssociedade dos economistas acadêmicos. Na França, ele está se tornando amplamente conhecido como comentador sobre questões públicas, escrevendo principalmente para os jornais Le Monde e Libération, e suas ideias são frequentemente discutidas por políticos de todos os matizes em programas de assuntos atuais, como o Soir 3 [programa televisivo francês]. Talvez o mais importante, e curioso, seja a sua influência crescente no mundo da política dominante anglo-americana (aparentemente, o livro é o favorito nos círculo interno de Miliband) –, lugar tradicionalmente indiferente para com professores franceses de economia. Na medida em que a pobreza aumenta em todo o mundo, as pessoas estão sendo forçadas a ouvir o que Piketty tem a dizer com grande atenção. Mas, embora o seu diagnóstico seja preciso e convincente, é difícil, quase impossível, imaginar que a cura que ele propõe – impostos e mais impostos – algum dia seja implementada num mundo onde, desde Pequim, passando por Moscou até Washington, o dinheiro e aqueles que mais o têm do que qualquer outro ainda estão no controle ...
Marcio Mafra
22/08/2015 às 00:00
Brasília - DF

Em novembro de 2014 comprei O Capital no Seculo XXI de tanto ler referencias sobre o autor e sua obra,

(1) “Piketty transformou nosso discurso econômico; jamais voltaremos a falar sobre renda e desigualdade da mesma maneira.” Paul Krugman (Prêmio Nobel de Economia), The New York Times.

(2) “Piketty escreve com a elegância com que a atriz Gwyneth Paltrow se veste.

(3) O capital no século XXI é um monumento de pesquisa e elegância.” Elio Gaspari, Folha de S.Paulo e O Globo.

(4) Concordo com as principais conclusões de Piketty. Espero que seu trabalho estimule mais pessoas competentes a estudar a desigualdade de riqueza e de renda. Quanto mais entendermos das causas e curas, melhor.” Bill Gates,

(5) “O rock star da economia. O capital no século XXI é uma sensação editorial.” The Guardian

(6) “Maior do que Marx. Nenhum outro trabalho sólido sobre economia chegou tão perto de ganhar a condição de ícone pop.” The Economist. 

Longe de ser uma unanimidade, há depoimentos contraditórios na aba - mídia


 

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