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O Quarteto de Alexandria - Clea

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O Quarteto de Alexandria - Clea

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Autor: Lawrence Durrell

Editora: Ediouro

Assunto: Romance

Traduzido por: Daniel Pellizzari

Páginas: 242

Ano de edição: 2006

Peso: 430 g

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Bom
Marcio Mafra
03/02/2015 às 10:51
Brasília - DF
No ultimo volume do Quarteto de Alexandria, a história de Clea se passa no final da 2ª guerra mundial e se estende um pouco, após o seu término. O extraordinário Lawrence Durrell, com o talento que lhe é peculiar, narra e complementa a sequência dos amores, paixões, traições e amizades da vida diplomática iniciada em Justine. E ainda proporciona ao leitor, um retrato macro da vida daquela grande e importante cidade egípcia, numa época específica, onde o próprio autor trabalhou como membro do corpo diplomático. A leitura flui. O livro é bom. O autor é excepcional.

Marcio Mafra
03/02/2015 às 00:00
Brasília - DF

A história de Clea - o quarto (e último) volume do Quarteto de Alexandria, do magistral autor Lawrence Durrel. Esta história é narrada pelo personagem Darley, diplomata, agente secreto inglês e escritor que escreve as suas memórias – e do seu circulo de amigos - de Alexandria.

Marcio Mafra
03/02/2015 às 00:00
Brasília - DF

Naquele ano as laranjas foram mais abundantes do que de costume. Brilhavam como lamparinas em meio às folhas verdes e lustrosas, tremeluzindo nas árvores ensolaradas.

Pareciam ávidas por celebrar nossa partida da pequena ilha — pois finalmente havia chegado a tão esperada mensagem de Nessim, como uma intimação ao Mundo Inferior.

Uma mensagem que me arrastaria de forma inelutável de volta à cidade que para mim pairava entre ilusão e realidade, entre sua essência e as imagens poéticas evocadas por seu nome.

Uma lembrança, refleti, falseada por desejos e intuições, ainda não inteiramente concretizada no papel. Alexandria, capital da memória!

Todas as linhas que escrevi sobre vivos e mortos, até eu mesmo me tornar uma espécie de adendo a uma carta jamais terminada, jamais remetida.

Por quanto tempo estive ausente? Era difícil calcular. O tempo do calendário, porém, não é de grande serventia para indicar os éons que separam um eu de outro, um dia de outro; e durante todo esse tempo segui vivendo na Alexandria de meu coração, meus sentimentos.

Página após página, pulsação após pulsação, fui-me entregando ao organismo grotesco que todos integramos, tanto vencedores quanto vencidos.

Uma cidade muito antiga, modificando-se sob as pinceladas de idéias que buscavam sentido, reclamavam uma identidade; ali, nas escarpas negras e farpadas da África, permanecia intacta a verdade aromática daquele lugar, a erva amarga e intragável do passado, a seiva da memória.

Eu já me dispusera a armazenar, codificar e comentar o passado antes que se perdesse em definitivo — ao menos fiz uma tentativa. Fracassei (talvez fosse mesmo impossível), pois assim que fixava em palavras algum de seus aspectos, surgiam novas informações que desordenavam minhas referências; tudo ruía para em seguida tomar uma nova forma em padrões inesperados, imprevisíveis.

"Reformular a realidade", escrevi anteriormente; palavras temerárias e presunçosas, sem dúvida — pois é a realidade que nos formula e reformula no decorrer de sua marcha lenta.

E ainda assim, se aprendi algo durante meu interlúdio nesta ilha, foi graças a esse absoluto fracasso em registrar a verdade íntima da cidade.

Precisei encarar a natureza do tempo, essa moléstia da psique humana.

Fui forçado a admitir minha derrota na literatura. De um modo curioso, porém, o ato de escrever rendeu outros frutos; o próprio fracasso das palavras, que uma a uma afundaram nas cavernas sem fundo da imaginação, perdidas para sempre.

Sim, um modo dispendioso de começar a viver; mas nós, artistas, somos impelidos a levar vidas que se nutrem dessas estranhas técnicas de exploração íntima.

Porém... se eu havia mudado, que dizer de meus amigos — Balthazar, Nessim, Justine, Clea? Que novos aspectos eu perceberia após esse intervalo de tempo, ao enredar-me no ambiente de uma nova cidade, uma cidade agora engolida por uma guerra? Eu não tinha resposta para essa incógnita.

Como a agulha de uma bússola, a apreensão estremecia dentro de mim. Era difícil renunciar ao território de meus sonhos, tão duramente conquistado, em favor de novas imagens, novas cidades, novas situações, novos amores. Como um monomaníaco, eu estava apegado aos meus sonhos de Alexandria... Não seria mais sensato permanecer onde estava?

Talvez. Mas eu precisava ir. De fato, partiria naquela mesma noite! Era uma idéia tão difícil de apreender que senti vontade de proferi-la em voz alta.

Passamos os dez dias seguintes ao surgimento do mensageiro num silêncio cheio de antecipação; o tempo parecia combinar com nosso estado de espírito, numa sucessão de dias perfeitamente azuis, de mar sereno.

Estávamos suspensos entre duas paisagens, indispostos a abandonar uma delas, mas ávidos por encontrarmo-nos com a outra, como gaivotas equilibradas à beira de um penhasco.

Imagens desiguais mesclavam-se em meus sonhos.

Esta casa na ilha, por exemplo, com suas oliveiras e amendoeiras cor-de-prata por onde vagam as patas vermelhas das perdizes... clareiras silenciosas prontas a saudar uma aparição de Pã e seu rosto de bode. Sua perfeição de formas e cores, simples e luminosa, não combinava com as outras premonições que nos assombravam. (Um céu repleto de estrelas cadentes, ondas cor de esmeralda lambendo as praias desertas, gaivotas guinchando nas estradas brancas ao sul.)

Este mundo grego começava a ser invadido pelos odores da cidade esquecida — escarpas onde marinheiros suados, após beber e comer até estourar os intestinos, liberavam toda a luxaria de seus corpos nos braços de escravas negras com olhos de cão. (Os espelhos, as melodias doces e comoventes dos canários cegos, o borbulhar da água-de-rosas nos narguilés, o cheiro de patchuli e incenso.)

Sonhos irreconciliáveis, devorando-se mutuamente. E revi meus amigos (não mais meros nomes) sob um novo ângulo, estimulado pela certeza da partida.

Não eram mais sombras criadas por minhas palavras, mas criaturas revigoradas — mesmo os mortos. À noite, eu voltava a caminhar pelo emaranhado de ruas ao lado de Melissa (agora livre de qualquer remorso, pois mesmo nos sonhos eu sabia que ela estava morta), de braços dados; suas pernas finas como tesouras ditavam o ritmo de seus passos oscilantes. Seu hábito de pressionar a coxa contra a minha a cada passo.

Agora era capaz de enxergar isso tudo com afeto — mesmo o surrado vestido de algodão e os sapatos baratos que ela usava nos feriados. Não conseguira disfarçar com pó a tênue marca de uma mordida no pescoço... Então, ela desapareceu e acordei com um grito angustiado.

A aurora rompia entre as oliveiras, cobrindo de prata as folhas inertes.

Durante esse processo, acabei recobrando a paz de espírito. Aquele punhado de dias azuis antes da despedida — aproveitei-os ao máximo, esbaldando-me em sua simplicidade: lenha de oliva queimando na velha lareira coroada pelo retrato de Justine — que só sairia dali no último instante — lançando reflexos bruxuleantes sobre a mesa e a cadeira de madeira rústica, sobre o vaso esmaltado que abrigava os primeiros ciclâmens.

Qual a relação da cidade com tudo aquilo — com a primavera do Egeu, oscilando entre o inverno e o primeiro florescer das amendoeiras? Era apenas uma palavra que pouco significava, rabiscada às margens de um sonho ou repetida na mente ao som da música coloquial do tempo, que não passa do desejo expresso em batimentos cardíacos.

Por mais que eu amasse o lugar, contudo, não conseguiria permanecer ali; a cidade que agora eu sabia odiar guardava algo diferente para mim — uma avaliação renovada da experiência que me marcara.

Era preciso regressar mais uma vez para ser capaz de abandoná-la para sempre, descartá-la.

Falei do tempo pois o escritor que eu começava a ser aprendia enfim a habitar os espaços vazios que o tempo ignora — começava a viver no intervalo do tiquetaque do relógio, por assim dizer.

O presente contínuo é a verdade por trás dessa anedota coletiva que chamamos de mente humana; se o passado está morto e o futuro promete apenas desejo e temor, que dizer desse momento fugidio, que não pode ser medido ou desconsiderado?

Para a maioria de nós, o suposto Presente é um suntuoso manjar levado embora por fadas — antes que possamos morder o primeiro bocado.

Como o falecido Pursewarden, eu esperava poder afirmar: "Não escrevo para quem nunca se perguntou em que ponto se inicia a vida real."

Pensamentos ociosos que cruzavam minha mente enquanto eu descansara sobre uma rocha junto ao mar, comendo uma laranja, perfeitamente envolto numa solidão que em breve seria tragada pela cidade, o sonho denso e azul-celeste de uma Alexandria deitada ao sol, como um enorme réptil, à luz faraônica do grande lago.

Os mestres sensualistas da História abandonando seus corpos a espelhos, poemas, a rebanhos passivos de rapazes e mulheres, à agulha nas veias, ao cachimbo de ópio, à morte em vida dos beijos sem apetite.

Percorrendo aquelas ruas com a imaginação, percebi mais uma vez que não abarcavam somente a História humana, mas toda a escala biológica dos afetos do coração — do êxtase de Cleópatra, imortalizado em imagens (estranho que a vinha tenha sido descoberta aqui, perto de Taposíris), ao fanatismo cego de Hipátia (murchas folhas de parreira, beijos de mártir).

E visitantes ainda mais estranhos: Rimbaud, estudante do Caminho Abrupto, caminhou por aqui carregando moedas de ouro no cinto. E tantos oniromantes de pele escura, políticos, eunucos, como uma revoada de pássaros de penas cintilantes.


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Marcio Mafra
03/02/2015 às 00:00
Brasília - DF

Desde abril de 2008 Quarteto de Alexandria, de Lawrence Durrell, com seus quatro livros: Justine, Balthazar, Mountolive e Clea, aguardam oportunidade de leitura. Aguardam porque não é necessária pressa para a leitura de clássicos.  O calendário já rolou e estamos no início de fevereiro de 2015.


 

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