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Autor: Daniel Kehlmann

Editora: Companhia das Letras

Assunto: Contos

Traduzido por: Sonali Bertuol

Páginas: 159

Ano de edição: 2011

Peso: 235 g

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Bom
Marcio Mafra
02/02/2015 às 16:37
Brasília - DF
Eu tenho birra com contista ou cronista porque escrever uma, três ou cinco páginas sobre um fato é moleza. Concentração de 20 minutos e trabalho de uma hora, fica pronto o conto. Contista é como ejaculação precoce. Ou coelho. Dá uma rapidinha e ponto final. Escritor, não... Escritor faz um livro com 200, 300, 500 paginas ou mais, como quem busca uma conquista amorosa. Pode levar anos para escrever e reescrever um livro. Escritor descreve cenários, locais, roupas, imaginações, cores, sabores, cheiros, sons, paisagens, doenças, vitórias, gentes, coisas, alegrias, tristezas, cidades, vilas, metrópoles, países, nações, animais, sentimentos, tempo, amor, raiva, desprezo, vingança, crimes, emoções... Ele descreve isso tudo como se fora uma planejada e demorada conquista. Pode levar quase uma vida inteira. Por isso, gosto muito dos livros dos romancistas, ficcionistas, biografistas ou historiadores e bem pouco dos livros de contistas. Mesmo assim, ao fim e ao cabo, gostei de Fama. Daniel Kehlmann, no seu livro também arruma um traço comum para os nove contos: a tecnologia, as comunicações, o celular, enfim, a mídia. Isso, de certa forma “dá liga”, entre uma e outra história e a leitura fica mais gostosa, formando um quadro em que quase todos os personagens e os fatos contados fiquem conectados. Mas o conto “Uma Contribuição ao Debate” é – de longe – o melhor do livro.

Marcio Mafra
02/02/2015 às 00:00
Brasília - DF

Fama tem nove contos. Um deles é sobre o telefone celular. Outro, sobre Rosalie que viaja para morrer. Depois vem o do “guru” de autoajuda, que entra em depressão. Outro, ainda trata da mentira. Sem contar com um que só fala a linguagem dos maníacos por computadores e redes sociais. Os contos mantem o telefone como um traço em comum. Todos os personagens principais de cada conto são obcecados por coisas ligadas à fama ou à mídia.

Marcio Mafra
02/02/2015 às 00:00
Brasília - DF

Antes de Ebling chegar em casa, seu celular tocou.

Durante anos, ele se recusara a comprar um, afinal ele era um técnico e não confiava naquela geringonça.

Como era possível que ninguém se importasse em manter junto à cabeça uma fonte de radiação nociva?

Mas Ebling tinha uma mulher, dois filhos e um bando de colegas de trabalho, e sempre havia alguém se queixando da sua inacessibilidade.

Assim, ele acabou cedendo, adquiriu um aparelho e pediu ao vendedor que o ativasse ainda na loja.

Um pouco a contragosto, Ebling estava impressionado; era um modelo realmente perfeito: bonito, simples e elegante. E agora, sem dúvida, estava tocando.

Hesitante, ele atendeu.

Uma mulher queria falar com um tal de Raff, Ralf ou Rauff, ele não entendeu bem o nome.

Foi engano, ele disse, número errado.

Ela pediu desculpas e desligou.

Depois, à noite, mais uma chamada.

“Ralf!”, exclamou um homem rouco.

“E aí, como vão as coisas, seu malandro?”

 “Engano!”

Ebling estava sentado na cama.

Já eram mais de dez horas e sua mulher lançou-lhe um olhar de reprovação.

O homem pediu desculpas, e Ebling desligou o aparelho.

Na manhã seguinte, três mensagens o esperavam.

Ele as ouviu no trem suburbano a caminho do trabalho.

Entre risadinhas, uma mulher pedia que retornasse a ligação.

Aos berros, um homem lhe dizia que viesse imediatamente, não esperariam mais por ele; ao fundo, ouvia-se o tilintar de copos e música.

E depois outra vez a mulher: “Ralf, onde você está?”.

Ebling suspirou e ligou para o serviço de atendimento ao cliente.

Estranho, disse uma mulher com voz de tédio.

Era impossível acontecer tal coisa.

Ninguém recebia um número que já era de outra pessoa.

Havia toda uma série de medidas de segurança.

“Mas aconteceu!”

Não, disse a mulher. Era impossível.

“E agora, o que a senhora vai fazer?”

Ela não tinha ideia, respondeu a atendente.

Aquilo era absolutamente impossível.

Ebling abriu a boca e fechou-a novamente.

Ele sabia que nesse momento qualquer outro teria se irritado, mas isso não era do seu feitio, e ele nem era bom nisso.

Pressionou a tecla “desligar”.

Segundos depois, o telefone tocou novamente.

“Ralf?”, perguntou um homem.

“Não.”

“O quê?”

“Este número está... Ele foi por engano... O senhor discou errado.”

“Este é o número do Ralf.”

Ebling desligou e pôs o telefone no bolso do casaco. O trem estava lotado de novo, ele teve que viajar de pé mais uma vez.

De um lado, uma mulher gorda se espremia contra ele, do outro, um homem de bigode encarava-o como a um inimigo jurado. Havia muitas coisas de que Ebling não gostava na própria vida.

Incomodava-o que sua mulher fosse sempre tão desatenta, que lesse livros tão bobos e que cozinhasse tão deploravelmente mal.

Incomodava-o que não tivesse um filho inteligente e que sua filha lhe parecesse tão estranha.

Incomodava-o sempre ter que ouvir o vizinho roncando através das paredes finas demais.

Mas o que mais o incomodava era ser obrigado a tomar o trem nos horários de pico. Era sempre muito apertado, sempre lotado, e aquele cheiro era tudo, menos bom.

Mas de seu trabalho ele gostava. Ele e dezenas de colegas ficavam sentados debaixo de lâmpadas muito claras e examinavam computadores defeituosos que eram enviados para lá por comerciantes de todo o país.

Ele sabia o quão frágeis eram aquelas pequenas placas pensantes, quão complicadas e enigmáticas. Ninguém as entendia por inteiro; ninguém podia realmente dizer por que de repente paravam de funcionar ou começavam a fazer coisas estranhas.

Já não se procuravam mais as causas, simplesmente iam se substituindo partes até que o todo voltasse a funcionar.

Às vezes ele pensava em quantas coisas no mundo dependiam daqueles aparelhos que, no entanto — como ele sabia muito bem —, faziam só de vez em quando e como que por milagre o que se esperava deles.

À noite, semiadormecido em sua cama, essa ideia o inquietava — todos os aviões, as armas guiadas eletronicamente, os computadores nos bancos —, às vezes tanto que chegava a sentir palpitações.

Então Elke perguntava irritada por que ele não podia ficar quieto, daquele jeito era o mesmo que dividir a cama com uma betoneira, e ele pedia desculpas e se lembrava que a mãe já lhe dizia que ele era sensível demais.

Quando Ebling saiu do trem, o telefone tocou.

Era Elke que lhe pedia para comprar pepinos no fim do dia, antes de voltar para casa. Eles estavam em promoção no supermercado da rua em que moravam. Ebling assentiu e despediu-se rapidamente.

O telefone tocou outra vez e uma voz feminina perguntou-lhe se ele havia pensado bem no que estava fazendo, só mesmo alguém muito idiota para dispensar uma mulher como ela. Ou ele pensava outra coisa?

Não, Ebling disse sem refletir, ele pensava exatamente isso.

“Ralf!”, ela riu.

O coração de Ebling palpitava, a garganta estava seca. Ele desligou. Quando chegou ao trabalho, ele ainda estava perturbado e nervoso.

Aparentemente, o proprietário original do número tinha uma voz parecida com a dele.

Ligou mais uma vez para o serviço de atendimento ao cliente. Não, disse uma mulher, eles não podiam simplesmente lhe dar um novo número, a não ser que ele pagasse por isso. “Mas este número é de uma outra pessoa!”

Impossível, ela respondeu. Para isso havia... “Medidas de segurança, eu sei! Mas estou recebendo a toda hora ligações para... Veja bem, eu sou técnico. Sei que a senhora vive atendendo ligações de pessoas que não têm a menor noção de nada. Mas eu sou do ramo. Eu sei como...”

Ela não podia fazer absolutamente nada, disse a mulher. A solicitação dele seria encaminhada.

“E depois? O que vai acontecer depois?”

Depois, ela disse, depois se veria. Só que dessa parte não era ela quem cuidava.

Naquela manhã, ele não conseguiu se concentrar no trabalho. Suas mãos estavam trêmulas e, na hora do almoço, ele não sentiu fome, embora tivesse bife à milanesa.

A cantina não servia bife à milanesa com muita frequência e ele costumava ficar com água na boca já no dia anterior. Dessa vez, porém, ele devolveu a bandeja com o prato pela metade, foi para um canto tranquilo do refeitório e ligou o celular.

Três mensagens. A filha pedia que ele a buscasse na aula de balé. Isso o surpreendeu, ele nem sabia que ela dançava.

Um homem que lhe pedia para retornar a ligação. Nada naquela mensagem revelava a quem era dirigida: se a ele ou ao outro.

E por fim uma mulher, perguntando por que ele dava tão pouco as caras. Aquela voz, grave e ronronante, ele nunca ouvira antes. Justamente quando ia desligar o aparelho, ele tocou novamente.

O número na tela começava com um sinal de mais e o prefixo vinte e dois.

Ebling não sabia de que país era.

Ele quase não conhecia ninguém no estrangeiro, somente sua prima na Suécia e uma senhora velha e gorda em Minneapolis, que todo ano no Natal mandava uma foto em que aparecia erguendo um copo, sorridente. Para os queridos Ebling, vinha escrito no verso, e nem ele, nem Elke sabiam qual dos dois afinal era parente dela. Ele atendeu.

“Nos vemos mês que vem?”, indagou um homem.

“Você estará no Festival de Locarno, não é? Eles não iriam adiante sem você, Ralf, não nessas circunstâncias, certo?”

“Estarei lá, sim”, disse Ebling.

“Esse Lohmann. Já era de se esperar. Você falou com o pessoal de Degetel?”

“Ainda não.”

“Já está na hora! Locarno pode nos ajudar muito, como Veneza há três anos.” O homem riu.

“E de resto? Clara?”

“Vamos indo”, disse Ebling.

“Seu velho canalha”, disse o homem.

“É incrível.”

“Também acho”, disse Ebling.

“Você está resfriado? Sua voz está estranha.”

“Agora eu preciso... fazer outra coisa. Ligo de volta.”

“Está bem. Você não muda nunca, não é?”

O homem desligou.

Ebling apoiou-se na parede e esfregou a testa. Ele precisou de um momento até voltar a si: ali era a cantina, à sua volta seus colegas comiam bife à milanesa. Rogler passou com uma bandeja.

“Oi, Ebling”, disse Rogler.

“Tudo bem?”

“Sim, claro.”

Ebling desligou o telefone. Ele passou a tarde inteira meio ausente. A questão sobre que parte de um computador estava com defeito e como poderiam ter ocorrido os problemas que os comerciantes descreviam em suas mensagens cifradas — cliente diz press. tecla reset pq desliga antes display exibe zero — hoje simplesmente não o interessava. Então era essa a sensação de ter algo pelo qual se espera ansiosamente.

Ele adiou o momento.

O telefone ficou desligado no trem enquanto voltava para casa, ficou desligado no supermercado enquanto comprava pepinos e, durante o jantar com Elke, enquanto as duas crianças trocavam chutes por baixo da mesa, o celular também ficou quieto em seu bolso, mas Ebling não conseguia parar de pensar nele.

Então ele foi para o porão.

O lugar cheirava a mofo, num canto havia uma pilha de caixas de cerveja, num outro as partes de um armário da ikea, temporariamente desmontado.

Ebling ligou o telefone. Duas mensagens.

Justamente quando ia ouvi-las, o aparelho vibrou em sua mão: alguém chamava.

“Pois não?”

“Ralf.”

“Pois não?”

“O que é isso agora?”, ela riu.

“Está brincando comigo?”

“Jamais faria isso.”

“Que pena!” Sua mão tremia.

“Tem razão. Na verdade, com você... eu gostaria de...”

“De...?”

“... brincar.”

“Quando?”

Ebling olhou ao seu redor. Ele conhecia aquele porão como a palma da mão. Cada objeto fora posto ali por ele próprio.

“Amanhã. Diga quando e onde. Estarei lá.”

“Está falando sério?”

“Descubra você mesma.”

Ele a ouviu respirar profundamente.

“No Pantagruel. Às nove. Você faz a reserva.”

“Está bem.”

“Você sabe que isso não é sensato?”

“E quem está preocupado com isso?”, perguntou Ebling.

Ela riu, e então desligou.

Nessa noite, ele encostou na mulher pela primeira vez depois de muito tempo. No começo, ela ficou surpresa, perguntou o que havia dado nele e se ele tinha bebido, depois cedeu. Não foi demorado, e enquanto a sentia sob seu corpo, pareceu-lhe que estavam fazendo algo indecoroso. A mão dela bateu em seu ombro: ela não estava conseguindo respirar. Ele se desculpou, mas ainda levou alguns minutos até se separar dela e rolar para o lado.

Elke acendeu a luz, lançou-lhe um olhar de reprovação e recolheu-se no banheiro. Claro que ele não foi ao Pantagruel. O telefone ficou desligado o dia inteiro, e à noite, às nove horas, ele estava sentado diante da televisão assistindo a um jogo de futebol da segunda divisão com seu filho.

Ele sentiu um formigamento elétrico, era como se naquele momento um sósia, um representante dele num outro universo, entrasse num restaurante caro e encontrasse uma mulher alta e bela, que escutava suas palavras com atenção, que ria quando ele dizia algo espirituoso e cuja mão de vez em quando roçava na dele como que sem querer.


  • Em "Fama", Kehlmann cria jogo de máscaras sem magia

    Autor: MARCELO BACKES

    Veículo: Folha de São Paulo - Ilustrada, sábado, 16 de julho de 2011

    Fonte: Folha de São Paulo

    Depois do best-seller "A Medida do Mundo", Daniel Kehlmann chega mais uma vez ao Brasil.
    "Fama: Um Romance em Nove Histórias" é um palácio de espelhos, um jogo com identidades estranhas na era do mundo mediado.
    Uma mulher que tem medo de aparecer nas histórias do marido, um blogueiro cujo maior desejo é se tornar personagem de romance, uma doente que decide viajar à Suíça em busca de uma organização que oferece assistência ao suicídio, uma escritora que se perde, incomunicável, nos confins da Ásia.
    As nove histórias compõem um painel romanesco de personagens que querem viver mais de uma vida paralelamente com a ajuda do celular, da web, dos jogos de computador que prometem a volta ao arquétipo mítico.
    Alguns deles são escritores e se enrolam nas histórias que eles mesmos criam, devorados pelas próprias teias.
    A pergunta que resta ao final é: quem é o último narrador, o ser mais elevado que vigia suas criaturas, apascenta suas ovelhas e sempre se comporta como um "Deus de segunda categoria"?
    É a questão teológica da escrita num mundo chamado literatura, no qual a fronteira entre verdade e mentira não existe mais. 

    PRESTIDIGITADOR
    Kehlmann é inteligente, um prestidigitador dos mais hábeis. Seu humor tem alta voltagem, sua linguagem é apurada, seus diálogos são bem construídos.
    Nos melhores momentos, o reflexo abre portas para a reflexão, abordando temas como o acaso e o destino, o amor e a morte, a guerra que impera lá fora.
    Tudo começa e tudo termina com um toque de celular.
    No princípio trata-se de um engano, no final o telefone não é atendido.
    Quando ouvido, é sempre um índice de confusão. Outro autor alemão, bem antes, já vira no celular a cifra da contemporaneidade: Ingo Schulze em "Celular".
    Nos momentos de maior fraqueza, ele parece um Nabokov menos poético, um Borges menos abrangente, um Pynchon menos virtuoso.
    Em "short cuts", "Fama" mostra pequenos incidentes causando grandes consequências, borboletas que batem asas na Alemanha e fazem chover no Brasil.
    As "Nove Estórias" de Salinger são invocadas no subtítulo, Kehlmann quer fintar como Friedrich Dürrenmatt, mas às vezes seu jogo de máscaras é tão elaborado que acaba sucumbindo à falta de mistério e de magia.
    Como era mesmo a traição num mundo sem aparelhos?
    Falta o visceralismo de um Sherwood Anderson, que, em "Winesburg, Ohio" (de 1919!), já fazia um romance de narrativas esparsas sobre personagens telúricos.
    Em Kehlmann, a inteligência da prestidigitação é grande demais e o arquiteto primoroso constrói um prédio só com estrutura, com moradores de plástico dentro.


    MARCELO BACKES é tradutor e escritor, autor de "Estilhaços" e "Três Traidores e uns Outros", entre outros livros.

  • Fama Um Romance em Nove Historia

    Autor: Marcelo Lyra

    Veículo: Valor econômico 15,16 e 17 de abril de 2011

    Fonte: Valor econômico

    O alemão Daniel Kehlman entrelaça personagens em romance com nove historias Por Marcelo Lyra, jornalista, de São Paulo. "Fama - Um Romance em Nove Histórias". Daniel Kehlmann. Trad.: Sonali Bertuol. Companhia das Letras, 160 págs., R$ 39,50 AA+ Daniel Kehlmann, um dos mais instigantes escritores da atual geração alemã, sucesso em mais de 30 páises, chega a seu sétimo livro de ficção (em 12 anos de carreira) com um trabalho envolvente e original. Anunciado como um romance em nove histórias, cada capítulo tem uma estrutura fechada com começo, meio e fim, como um livro de contos. A peculiaridade é que os novos personagens de cada conto se entrelaçam às histórias anteriores das formas mais criativas possíveis. O conto "Vozes", que abre o livro, mostra a história de Ebling, burocrata que leva uma vida medíocre até comprar um telefone celular. O número era de outra pessoa e ele passa a receber as ligações dela. Como a operadora não resolve o problema, ele se cansa e resolve atender as ligações como se fosse o outro. Chega a marcar encontros com a mulher que assedia o outro homem. O contraponto entre a vida entediante que Ebling leva no trabalho e as emoções que vivencia ao celular provocam uma perturbadora reflexão sobre os rumos que damos à vida. Para surpresa do leitor, no quarto conto, intitulado "A Saída", Kehlmann inverte a situação e mostra a vida do ator famoso Ralf Tanner, antigo dono da linha, cuja vida passa a ser tumultuada pelos telefonemas que Ebling atende. Ao mesmo tempo, Tanner está cansado da rotina de celebridade e passa a frequentar shows de imitadores de gente famosa, fingindo que é um imitador de Ralf Tanner. Assim, pode desfrutar algumas horas como se fosse uma pessoa comum, um reles artista de segunda. Nos dois contos se completa uma interessante discussão a respeito da identidade. A vida de ambos muda quando deixam de ser eles mesmos, tomando-os mais felizes. No segundo, Kellann aprofunda ainda mais a questão, pois a imitação de si mesmo levada ao palco por Tanner não é considerada boa pelo público e no show seguinte aparece um segundo imitador do ator, esse sim elogiado por todos. Tanner reconhece nele as entonações e o gestual característicos da imagem que sempre vendeu ao público em entrevistas e aparições públicas. As duas tramas voltam a se entrelaçar no oitavo conto, quando o funcionário da operadora de celular a certa altura é responsabilizado pela falha na qual vários números de celulares ativos são transferidos para novo assinante. O sexto conto, "Resposta à Abadessa", é a história de Miguel Auristos Blanco, um escritor brasileiro de livros de autoajuda de enorme sucesso internacional; escancaradamente inspirado em Paulo Coelho. No segundo conto, os personagens eram suas fãs e seu livro estava nas bancas. Agora ele está deprimido, hospedado em um hotel, às vésperas do suicídio. O conto seguinte mostra um fã seu, que está no mesmo hotel para uma convenção burocrática e fica extasiado diante do ídolo. Os contos são tão bons que podemos perdoar o nome hispânico dado ao brasileiro, erro comum a muitos estrangeiros que pensam que na América do Sul só se fala espanhol. Mais original ainda é "Rosalie Viaja para Morrer", no qual escritor e personagem dialogam o tempo todo, com o personagem fugindo ao controle e tendo atitudes próprias, forma encontrada pelo autor para mostrar que às vezes os livros parecem ter vida própria enquanto são escritos. Kehlmann é tão hábil em envolver rapidamente o leitor e criar personagens densos em tramas movimentadas que chega a ser triste que elas terminem da maneira abrupta característica dos contos. Um autor que merece ser conhecido por quem aprecia a boa literatura.
Marcio Mafra
02/02/2015 às 00:00
Brasília - DF

Desde abril de 2011, eu tinha recomendação para comprar FAMA, um romance em nove histórias. Marcelo Lira, um dos bons comentaristas de livros do jornal Valor Economico, na edição de 17 de abril, recomendava o livro como categoria AA+. Anotei e só o comprei em dezembro de 2013, quando li.


 

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