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Até o Dia em Que O Cão Morreu

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Até o Dia em Que O Cão Morreu

Livro Ótimo - 1 opinião

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Autor: Daniel Galera

Editora: Companhia das Letras

Assunto: Romance

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 99

Ano de edição: 2007

Peso: 165 g

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Ótimo
Marcio Mafra
25/01/2015 às 20:10
Brasília - DF
O personagem central de “Até o dia em que o cão morreu” era um jovem recém-saído da faculdade, que resolve deixar a casa da mãe para viver sozinho, mas é bancado pelo pai.

Ele vive um conflito quando o cachorro Churras e uma linda mulher, a modelo Marcela, entram em sua vida e acabam lhe criando um grande impasse: continuar a rotina vazia de seu cotidiano ou viver intensamente as paixões que lhe chegaram sem aviso prévio.

Ele consegue viver as duas situações.

O livro fala sobre a incapacidade de ver o que há de bom nas surpresas do cotidiano.

Quanto mais conheço os livros de Daniel Galera, mais confiante fico para dizer que ele é, provavelmente, o melhor escritor brasileiro contemporâneo.

E nada melhor que um livro de Daniel Galera para iniciar o verão de 2014/2015.

Marcio Mafra
25/01/2015 às 00:00
Brasília - DF

A história de um jovem de 20 anos que sai de casa para morar sozinho, mas é bancado pelo pai.

A solidão e a falta de perspectiva de vida do narrador são as características do protagonista do primeiro livro, de Daniel Galera.

Ele conhece Marcela, que num belo dia pela manhã, o acordou assustada, porque “alguém” estava arranhando a porta.

Era o cão.

Toda a sua vida foi muito solitária, até que o cão entrou em sua rotina e passou a ser um grande e incomum companheiro.

Marcio Mafra
25/01/2015 às 00:00
Brasília - DF

Até o dia em que o cão morreu, eu nunca me lembrava dos meus sonhos.

Sonhava, é claro, mas as imagens do sonho não permaneciam na memória além daqueles poucos segundos após o despertar.

Sempre duvidei de gente que me narrava sonhos de uma noite anterior, pra mim eram mentirosos.

Desde aquele dia, contudo, tenho um sonho recorrente.

Há pequenas variações, mas é o seguinte: estou deitado no colchão de casal do meu quarto, pelado, lendo uma tralha qualquer.

Fecho o livro e me estico na cama, as pernas debaixo do cobertor, escutando apenas o zunido dos mosquitos.

Uma pessoa deveria chegar a qualquer momento, tenho essa sensação, mas ninguém chega.

A vista da janela é exatamente a mesma daquele apartamento - a água cinzenta do Guaíba, a chaminé da Usina, as ilhas e os prédios -, porém as cores são estranhas, muitos verdes e violetas, com raios piscando no horizonte.

Fico deitado no colchão com as pernas esticadas e abertas num ângulo confortável, as mãos por trás da cabeça, deixando o pescoço inclinado o suficiente pra enxergar o céu.

Sinto um tremor leve nos órgãos internos, o que imagino serem gases.

As contrações ficam cada vez mais intensas, os órgãos se movem, o estômago quer trocar de lugar com o pâncreas.

Minha pele esfria, e começo a transpirar um suor nojento. Entendo que algo fora do comum está acontecendo.

Meu sangue dispara pelas veias, os órgãos enfurecidos se espremem contra o esqueleto.

Uma protuberância começa a crescer perto das minhas costelas, do lado esquerdo, causando uma dor intensa que irradia por todo o tórax e o abdômen.

Grito por socorro, mas estou certo de que ninguém escuta.

Tenho plena consciência de que estou e permanecerei sozinho.

Enquanto o calombo cresce nas minhas costelas, como se o corpo tentasse expulsar um feto maligno, penso que é uma péssima idéia morar num apartamento tão alto, sem telefone, sem conhecer vizinhos.

Tento gritar o nome de amigos, minha família, mas os gritos já não saem, e me dou conta de que faz tempo demais que não falo com nenhum deles, ou simplesmente não tenho intimidade suficiente, não me sinto no direito de pedir ajuda a ninguém que me lembro de conhecer.

A dor aumenta, tenho receio de desmaiar, ou morrer, e aquele calombo vai crescendo até se tornar uma extensão do meu corpo, a pele esticada, a carne se mexendo por dentro.

A saliência assume formas complexas, e logo identifico nela um braço rudimentar, mãos, pernas atrofiadas que se desenvolvem com uma rapidez impossível.

Surge também uma cabeça, um toco que se agita e apresenta gradualmente as proporções de um crânio humano.

Não posso controlar meus movimentos, e quanto mais tento resistir ao processo, mais sofro.

Os membros e a cabeça adquirem um aspecto adulto, e pequenos pêlos escuros brotam daquela outra pele que surgiu da minha.

Então, o desespero vai dando lugar a uma espécie de resignação.

Entendo que, seja lá o que for que esteja acontecendo, não está sob meu controle.

Desejo apenas que acabe logo, que chegue às últimas conseqüências.

A própria dor já não me incomoda, entro num transe que não é de sofrimento, e sim um torpor que fica mais agradável a cada segundo.

Tremo, sinto as veias inchadas, e um formigamento agradável dá uma sensação de sono.

Do meu lado, no colchão, a massa de carne que sai de mim se assemelha muito a um ser humano, o cabelo crescendo, dedos se dobrando, testando as articulações, um outro corpo que cresce a partir do meu em poucos minutos, os dois ainda unidos por um istmo de carne, que vai diminuindo de espessura até se romper num estalo.

Finalmente, há dois indivíduos deitados sobre o colchão, desacordados e idênticos um ao outro.

O mais estranho é que, a essa altura, já observo isso de fora.

Dois sujeitos idênticos a mim, e nenhum dos dois sou eu.


  • O Amigo da Solidão

    Autor: Por Adriana Abujamra

    Veículo: Jornal Valor Economico, Caderno Eu & Fim de Semana

    Fonte: Jornal Valor Economico, Caderno Eu & Fim de Semana, edição 11/11/2016

    O amigo da solidão Por Adriana Abujamra Em 2004, o escritor Daniel Galera participou pela primeira vez da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), como integrante de uma mesa dedicada a novos autores. Caçula do festival, com 24 anos à época, tinha dois livros publicados por uma editora independente criada por ele e dois amigos gaúchos. O selo, cujo objetivo maior era viabilizar a produção do trio, não rendia lucro, e os sócios festejavam toda vez que conseguiam cobrir os custos. Galera circulava pelas ruas de pedras de Paraty com uma mochila pesada nas costas, vendendo seus livros para quem cruzasse seu caminho. Numa dessas andanças, topou com o editor Luiz Schwarcz, que voltava de uma corrida matinal. Suado e ainda um pouco ofegante do exercício, chamouo pelo nome: "Opa! Galera?". "Sim, sou eu", respondeu o escritor, sem demonstrar surpresa, como se fosse trivial cruzar com o dono da Companhia das Letras e ser por ele reconhecido. "Um funcionário meu comentou que seus livros são bons. Não consegui ler ainda, mas fiquei interessado." O escritor sacou da mochila um exemplar de "Até o Dia em que o Cão Morreu" (2003), seu primeiro romance, e entregou ao editor. Uma semana depois, Schwarcz ligou dizendo que estava interessado em incluir Galera no catálogo da editora e iniciar parceria com uma obra inédita. O escritor trabalhava em um novo romance e mandou os quatro primeiros capítulos que já estavam prontos. Três dias depois, Schwarcz voltou a procurálo para selar o negócio. Ofereceu um adiantamento e pediu uma estimativa de quanto tempo levaria para concluir a história. Fezse silêncio do outro lado da linha. "Cara, e agora?", pensava Galera. "Tem contrato, adiantamento, prazo. Bá! Em quanto tempo eu acabo? Se eu sugerir muito, ele vai achar que sou relaxado." Saiu do impasse assegurando, no chute, que em seis meses entregaria o romance. Schwarcz, mais realista e experiente, ofereceu um tempo bem mais largo. Galera deixou os videogames de lado o que para ele é um suplício e entregou "Mãos de Cavalo", lançado em 2006, exatamente na data combinada. "Nunca estourei um prazo na vida. Sou o louquinho do prazo." Ao meiodia em ponto, Daniel Galera chega ao restaurante Jesuíno Brilhante, pequeno restaurante em Pinheiros, em São Paulo, para este "À Mesa com o Valor". O nome é inspirado em um bandoleiro do sertão do Rio Grande do Norte, de onde vieram também o proprietário, as receitas e a trilha musical da casa. Chapéus de cangaceiro enfeitam as paredes. Com cabelo castanho curto e sobrancelhas grossas, Galera veste tênis, calça social e blazer sobre uma camisa rosa clara. Uma cicatriz próxima ao lábio superior é uma lembrança de um tombo de bicicleta na infância. Na adolescência, aprendeu a tocar violão e tentou compor canções, "fracassando miseravelmente". Deixou a pretensão de lado, mas mantém as unhas da mão direita compridas, para dedilhar uns acordes de vez em quando. O porte atlético é mantido pela natação. De Daniel Galera e o cineasta Beto Brant em 2007, em festa de lançamento do filme ‘Cão Sem Dono’, baseado em livro do escritor, no Espaço Cabaret, em São Paulo natureza introspectiva, nunca se deu bem em jogos coletivos. "Todos os esportes coletivos que arrisquei fazer resultaram em vergonha e arrependimento." É no fundo silencioso da água, na solidão das braçadas repetitivas, que ele atinge um "estado meditativo" e encontra soluções para suas histórias. "No meu vestiário ideal, haveria sempre um computador." Em 2007, ano seguinte à estreia de Galera na Companhia das Letras, o escritor desbravava outro território. Chegava às telas de cinema a adaptação do livro que o autor deu a Schwarcz naquele encontro inicial em Paraty. "Cão Sem Dono", com direção de Beto Brant e Renato Ciasca e com os atores Júlio Andrade e Tainá Müller, teve resenhas elogiosas e ganhou prêmios em festivais, como o de melhor filme segundo a crítica no Cine PE de 2007. O escritor foi se tornando, assim, uma das principais figuras da nova literatura brasileira. Atualmente com 37 anos, Daniel Galera foi apontado em 2012 como um dos melhores jovens escritores brasileiros pela cultuada revista literária britânica "Granta", ao lado de nomes como Michel Laub, João Paulo Cuenca e Tatiana Salem Levy, colunista do Valor. No mesmo ano, Galera publicou "Barba Ensopada de Sangue" (Companhia das Letras), que ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura, o terceiro lugar no Prêmio Jabuti e foi vendido para 12 países os direitos para uma adaptação cinematográfica foram adquiridos pela produtora RT Features. O jornal "New York Times" publicou resenha elogiosa do livro seu primeiro romance vertido para o inglês , citando Galera como "escritor talentoso" de um "romance sedutor", com uma "força de tração das marés" e "excelente conclusão". O escritor, que fazia traduções, passou a viver apenas de literatura. "MeiaNoite e Vinte" é o título de seu quinto romance, que chegou às livrarias neste ano. Três amigos que haviam trabalhado juntos em um projeto literário reencontramse 20 anos depois, quando o quarto integrante do grupo, o escritor Andrei, é morto na rua por um ladrão. Há um clima de desilusão, de catástrofe iminente, acentuado por uma onda de calor e uma greve de ônibus que paralisa a cidade. A trama é narrada por três vozes: a bióloga Aurora, o jornalista Emiliano e o publicitário Antero. "Foi meu livro mais difícil", afirma. Para Galera é custoso interagir com muita gente e, pior ainda, ser o foco das atenções. Noite de autógrafo, então, é um tormento. Nervoso, esquece o nome das pessoas e é incapaz de entabular conversa. "É um negócio muito eufórico pra mim, acaba com minha energia. Preciso de um tempo maior para me recuperar." Por isso, aboliu a clássica noite de autógrafo no lançamento de seu novo livro. Vai fazer eventos menores e participar da Feira do Livro de Porto Alegre, que começa hoje. "Querem uma entrada?", pergunta o dono do restaurante, o jornalista potiguar Rodrigo Levino. "Tu tem aquele bolinho de arroz vermelho?", pergunta o escritor, amigo de longa data do dono do restaurante. Galera é padrinho do filho de Levino e foi cobaia para as receitas que hoje estrelam o cardápio da casa. Daniel Galera é filho de gaúchos que sempre leram bastante. Por acaso, ele nasceu em São Paulo, onde seu pai trabalhou com informática. Passou a maior parte da vida em Porto Alegre; aos nove anos, Galera começou a imaginar histórias, como se passasse um filme em sua cabeça. Algumas dessas cenas foram parar no romance "Mãos de Cavalo" que se tornou o filme "Prova de Coragem" (2016), com direção de Roberto Gervitz e Mariana Ximenes no elenco. Até hoje, uma das peculiaridades de seu processo de criação é elaborar o texto em detalhes na imaginação e só depois digitálo. Antes de ser escritor, Galera tentou se expressar via desenho, pintura e música. "Não ficava satisfeito, continuava sem conseguir dizer o que eu queria", diz. Quis ser artista gráfico, estudou publicidade e trabalhou como diagramador. Cursou a conceituada oficina literária de Luiz Antonio de Assis Brasil, romancista e professor de literatura. Nos anos 90, uniuse a colegas da faculdade para criar o fanzine digital Cardoso Online, onde publicou contos. Foi com alguns deles que criou a editora independente Livros do Mal; nela, estreou com a reunião de contos "Dentes Guardados" (2001). Galera na Flip de 2013 Galera lembra com nostalgia dos primórdios da internet. Sua turma logo descobriu, com furor, como compartilhar textos e fotos via rede. "Era uma fase de experimentações, tinha mais personalidade. A internet hoje tem mais ferramentas, mas é mais pobre, perdeu o componente de expressão pessoal para além das fórmulas dadas." Ele usa Twitter e Tumblr com parcimônia e encerrou sua conta no Facebook. "Excesso de comunicação para uma pessoa como eu é difícil de lidar." O escritor anda com vontade de fazer experimentos na rede, como escrever um livro usando diferentes suportes e liberar pequenos trechos da história durante o processo. "Tenho vontade de ficar um ou dois anos em hiato, colocando essas ideias em prática. Talvez um site, um conto de ficção científica ou de terror. Estou sossegadamente aguardando novas ideias." Chegam os pratos: língua com quiabo, acompanhado de feijão de corda e macaxeira para Galera e a fotógrafa Ana Paula Paiva, e o carrochefe da casa, carne de sol, para Clara Dias, assessora de imprensa da Companhia das Letras, e a repórter. "Ele é que faz a carne", diz Galera, apresentando João Batista Rodrigues, pai do dono do restaurante, que veio do Rio Grande do Norte para ajudar o filho. O fanzine digital Orangotango, que aparece em seu novo romance, foi criado a partir de sua experiência com o Cardoso Online. "Mas o que tento é investigar como os valores e as expectativas gestados naquela época evoluíram até hoje, tendo minha experiência própria como ponto de partida. Nenhum dos personagens do livro é baseado completamente em uma pessoa real", diz. É comum as pessoas imaginarem como teriam sido suas vidas caso tivessem feito escolhas diferentes. É o famoso "e se". É justamente da vida que poderia ter sido e não foi que nascem os protagonistas de suas histórias. "Quase todos eles podem ser entendidos assim. São versões de mim mesmo com uma diferença importante: eles tomaram rumos e fizeram escolhas que não fiz." A bióloga Aurora foi a primeira personagem a se delinear em "MeiaNoite e Vinte". Galera sempre se interessou por biologia, lê sobre o tema e costuma imaginar como teria sido sua vida caso tivesse enveredado por aí. O autor compartilha as mesmas questões da personagem: ansiedade com as mudanças climáticas, a superpopulação, o esgotamento do solo e os rumos da ciência. A personagem resvala para um niilismo, duvidando da eficácia da ciência como forma de melhorar o futuro. "Às vezes eu detecto em mim essa tendência niilista, mas me seguro. Vou até aí, a Aurora não, ela continua. É nesse ponto que começa a ser interessante para mim mesmo o que escrevo. Aí é que entra o legal da ficção", diz, mais interessado no assunto do que na comida. Assim como Emiliano, o jornalista gay do livro, Galera já escreveu para jornais e revistas. "Ele é uma versão possível de mim, mesmo na questão sexual. Fico pensando, se eu fosse ter essa tendência, como seria?" O expansivo publicitário Antero, diz, é o único personagem que não é uma versão. Bemsucedido financeiramente e enquadrado nas regras do mercado, o personagem solapa sua veia contestatória da mocidade. Antero acabou como pararaios das críticas de Galera à publicidade, que remontam à época da universidade. Por isso, foi difícil desenvolver empatia por esse personagem, ingrediente vital ao ofício, diz. "É preciso ousadia e imaginação para criar detalhes da história, colocarse no lugar do outro, seja mulher, homossexual ou alguém de classe econômica diferente", diz. "Como escritor, adentro nesse exercício de empatia, mas sabendo que tem um limite, sem a arrogância de achar que estou ocupando o lugar do outro de fato. É mais uma postura que uma técnica." Personagem não ganha vida própria. "É uma construção que habita minha mente. Nunca entendi quem diz que o personagem dá ordens para o autor." Galera trata com ironia essa questão em seu romance "Cordilheira" (2008). Anita, a protagonista, uma jovem e promissora escritora, resolve passar um tempo em Buenos Aires. Engata namoro com um portenho que faz parte de uma comunidade de escritores fanáticos, que não diferenciam realidade de ficção e se comportam da mesma maneira que seus personagens. "Cordilheira" foi o primeiro título da coleção Amores Expressos, em que autores brasileiros escrevem histórias de amor ambientadas em diversas cidades do mundo. O destino estipulado pelos organizadores foi Buenos Aires. Mas a experiência não foi prazerosa. "Talvez a culpa nem seja da cidade, mas do meu estado de espírito. Foi um período ruim da minha vida, estavam rolando problemas pessoais." Já a temporada de um ano em Garopaba, Santa Catarina, cenário de "Barba Ensopada de Sangue", foi diferente. Galera acalentava há anos o sonho de passar um período sabático em uma cidade onde não conhecesse ninguém, que tivesse custo de vida baixo e onde pudesse nadar. Sem filhos, mulher ou emprego fixo, era o momento ideal. Vendeu pertences e, ao chegar, encontrou a cidade litorânea, fora de temporada, vazia e muito gelada. A proprietária do apartamento que ele alugou alertou: "Vem muita gente pra cá que nem tu. Mas chega o frio e eles deprimem. Um ou outro até se mata, sabia?". O prognóstico, no entanto, não se concretizou. "Foi um período muito rico. O livro sequer teria sido cogitado não fosse o tempo que passei por lá." Com problema neurológico raro, o protagonista de "Barba Ensopada" não memoriza rostos, inclusive o próprio. Após o suicídio do pai, ele sai de Porto Alegre em busca de pistas do avô, que desapareceu no balneário catarinense. Para a temporada na praia, onde espera também esquecer a namorada que o trocou pelo irmão, se muda com videogame, fotos e a cadela que herdou do pai. Com o romance já concluído, Galera ganhou do pai um cão da mesma raça que aparece no livro. O animal ganhou o nome de uma fruta típica do Sul, butiá, e vive com o escritor. Os cães aparecem em seus romances, mas agora que tem um cão, o animal não meteu o focinho. "É que Butiá não gosta de exposição. Achei melhor preserválo e não o coloquei em 'MeiaNoite e Vinte'." "Deus do céu!", diz, quando chegam os doces: cocada, caju ameixa, caju passa e burra um pão de melado de cana com cravo, gengibre e canela, embebido em café com nata fresca. Galera mora há três anos com Taís Cardoso, pesquisadora no Instituto de Artes da UFRGS. O casal vive em um apartamento de dois quartos no bairro de Santana, em Porto Alegre. A primeira atividade do dia do escritor é levar o cão para passear. Depois, senta para escrever. O texto costuma sair de primeira, "mais ou menos pronto", já que desenha a história com antecedência antes de digitála. Trabalha até o meiodia ou 1h da tarde, no máximo. À tarde lê, vai à academia e cuida dos afazeres domésticos faz supermercado, prepara a comida. Nos fins de semana sucumbe com gosto aos videogames. O vício não foi abolido, apenas está sob controle. Foise a época em que, jogando madrugada adentro, nada era capaz de arrancálo do jogo. Certa vez, depois de algumas horas, Galera fez uma pausa para pegar um refrigerante na cozinha e topou com a modelo Fernanda Lima. Cumprimentou a conterrânea, que era amiga de sua então namorada, "para praticar o chamado convívio social", mas em segundos deixou a beldade plantada e voltou correndo para o videogame. "'Beyond Good and Evil' não podia esperar

Marcio Mafra
25/01/2015 às 00:00
Brasília - DF

Não há nenhuma historia especial para a compra deste livro. Para mim basta ser um Daniel Galera, que eu compro logo.


 

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