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Macho Não Ganha Flor.

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Macho Não Ganha Flor.

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Autor: Dalton Trevisan

Editora: Record

Assunto: Crônica

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 126

Ano de edição: 2011

Peso: 195 g

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Excelente
Marcio Mafra
21/12/2014 às 23:44
Brasília - DF
Tenho embirração com cronista ou contista. Gosto é de escritor romancista, ficcionista ou não, porque montar uma história com diversos personagens, passada em diversos lugares, em tempos também diversificados não é simples nem fácil.

Encantar o leitor com uma história que tem começo, meio e fim é muito mais “trabalhoso” que escrever meia página sobre as coisas do dia a dia, que terminam com uma frase de efeito.

Trevisan não é diferente. Seus contos são curtinhos como os de qualquer contista. Mas têm talento, como os melhores escritores. Dalton constrói uma verdadeira colcha de retalhos, só com monstros morais. São sádicos, maníacos, doidos de atirar pedra, estupradores e assaltantes de carteirinha.

“Macho Não Ganha Flor” é o primeiro dos 22 contos do livro. Uma jovem noiva é assaltada. Um homem violento, que ao tentar estupra-la acaba fracassando. Então nervoso, fala de outras mulheres que violentou sem cerimônia. Algumas gostaram da sacanagem e quiseram lhe pagar com flores, mas “macho não ganha flor”, responde. Leitura mais que boa.

Marcio Mafra
21/12/2014 às 00:00
Brasília - DF

Vinte e dois contos irônicos, sádicos, brutos, agressivos beirando o irracional, mas, bem alinhados ao talento do curitibano Dalton Trevisan. São textos enxutos que retratam a agressividade social dos dias atuais.

Marcio Mafra
21/12/2014 às 00:00
Brasília - DF

Macho Não Ganha Flor
Olha que tarde gloriosa de sol. O vento belisca de leve a cortina do quarto. Lá fora uma corruíra canta alegrinha. No teu peito essa outra acorda e já responde.

Minha irmã e a mãe faziam compras. Afinal sozinha, a casa inteira para mim. De roupão, antes de entrar no banho, dava os últimos retoques diante do espelho.

De repente, com susto, senti que não estava só. Um cheiro no ar? Um estalido no soalho? Uma sombra no canto do olho?

Pronto! Aquela mão suada me tapou a boca. E a outra afogava o pescoço.

Não grite! Nem um pio. Que eu te mato!

Me empurrou contra a parede. Abriu com violência o roupão.

Oba!

Ai de mim, apenas calcinha e sutiã. Daí ele começou a fazer coisas.

Me beijou o rosto, o pescoço, um seio e outro. Ui, que nojo. Gemendo, se esfregava no meu corpo.

Todo vestido. Só abriu o zíper da calça.

Faça tudo o que eu mandar. Bem quietinha.

Sem aliviar a mão esquerda no meu pescoço.

Já matei uma. Não me custa apagar outra!

E arrancou o meu roupão. Tentei correr para a porta. Me sacudiu pelo cabelo e esfregou a cara na parede.

Quer morrer, sua vadia?

Era o bafo podre da morte. O corpo não parava quieto, tanto que eu tremia. O coração me batia aos saltos no joelho.

Em desespero, chorava e soluçava baixinho. Tão assustada, nem me defendia. Sem força de erguer os braços.

Daí percebi que ele tentava, mas não conseguia. Acho que eu estava muito nervosa e chorando sem parar. Ele beijava e chupava ora um seio, ora outro. Me corria a mão boba pelo corpo.

Não sabe que deve lutar? Por que não se defende como as outras?

Ele que não sabia: essa carne, com fúria manuseada, já não era a minha. Para não enlouquecer, de tamanho horror, me desligara do próprio corpo. Aquele pobre objeto seminu pertencia a outra.

A minha querida boneca, ela sim a melhor amiga, chorando com olhinho de vidro ao meu lado  e não eu, não eu , que era desfrutada pelo monstro.

Me xingava de piranha e cadela. Mandava eu calar a boca, assim ele não conseguia.

Abra o olho. Não pisque. Feche o olho. Que porra. É o mesmo olho azul de minha mãe.

Daí eu pedi e supliquei. Em nome da santa mãezinha dele. Não me fizesse mal.

Ela está me olhando com a tua cara!

Podia levar tudo de valor na casa. Pelo amor de Deus, me deixasse em paz. Era noiva e ia casar em três meses.

Ao falar que estava noiva ele assanhado começou tudo de novo.

Aposto que é muito safadinha, né? Não transa com teu noivo? O que você faz com ele? Fala, sua vadia!

Ah, não fala? Que ficasse de joelho. Outra vez, de pé. Sentada. Deitada. De costas. Pernas fechadas. E abertas. Bem abertas.

E nada.

Cada vez mais irritado. E mais gago. A culpada era eu. Que só chorava. E só sabia tremer. Que porra.

Não aprendeu nada? Não trepa com teu noivo? É boiola, por acaso?

Esse viadão, ele bem podia avisá-lo: eu era imprestável. Mais fria que uma puta velha. Se, ao menos, estivesse vestida. Gostava mesmo era de arrancar a tua roupa. Rebentar. Rasgar. Assim, quase nua, calcinha muito sem graça, não lhe agradava.

Disse que todas choram. Mas eu era a pior. Se a mulher soubesse a bruxa que fica, nunca mais chorava. Grande merda.

Chegou a mandar que botasse uma saia e blusa. Sapato de salto alto. Ou, melhor, um vestido. Vermelho, se tivesse.

Então olhou o relógio. E desistiu. Porra. E mais porra.

Que tanto chora e treme e se desespera? O que tem de mais? Pensa que é a primeira? E a única? Nem é tão ruim assim. Algumas bem que gostam. Uma ruiva, quando eu saía, pediu que voltasse. E quis me dar uma rosa ou cravo, sei lá.

Ofendido e gaguejando.

Mas eu avisei: "Macho não ganha flor."

Me olhou de soslaio.

O que eu quero...

Enxugava a cara molhada de suor e sem tirar o óculo escuro.

...vou lá e me sirvo.

Jogou a toalha num canto.

Ah, se eu tivesse tempo. Porra. Já te ensinava o que é bom. Porra.

Uma hora tinha se passado. Uma hora que, no relógio parado da memória, se repetiria em mil horas inteiras de tortura e terror. E pelo resto da vida quantas vezes seria eu, indefesa no sonho, o pasto de tal bicho espumante de raiva?

Afinal ele parava de tentar. E fechou o zíper da calça.

Já não me olhava de frente. Acho que com vergonha, já pensou? Porque nada tinha conseguido.

Agora te deixo aqui pelada.

Chutando o roupão debaixo da cama.

Você desta vez se livrou.

Ressentido e com ódio.

Só porque é uma vadia de olho azul. Como aquela outra.

Recolheu no chão a sua velha mochila.

Senta aí na cama. Não se mexa daí. Até eu bater a porta. Senão eu volto. E será pior pra você. Ouviu, sua puta?

Foi catando na penteadeira o meu relógio de pulso, o celular, o cartão do banco. E, no estojinho azul de porcelana ai, não, até umas pobres jóias que a avó deixou.

Antes de sair, espiou em volta.

Me dá a calcinha.

Que desgracido.

Colheu a última peça. Macho não ganha flor. Se olhou demorado no espelho. Ainda surpreso e incrédulo, gaguejante.

Que porra. Isso nunca me aconteceu!

Ajeitou o óculo escuro e o boné vermelho. Gostou do que viu. O que eu quero, vou lá e me sirvo.

E lá se foi.

Tremendo e chorando, me vesti todinha. Mas não deixei o quarto. Ali sentada, chorando e tremendo, até a volta de minha mãe.

Nunca mais ela esqueceu de fechar a porta. Com dois giros na chave.

Cada dia a gente notava a falta de algum objeto. Mas isso era o de menos.

Mudamos de bairro. Fiz tratamento com uma terapeuta. Tomei tranqüilizante e antidepressivo. Dois a três comprimidos por dia, mas pouco adiantou.

Uma vez engoli um punhado deles. Não foi o bastante. Só dormi uma noite e um dia inteiro.

Na mesma cama, do olhinho de vidro escorrendo uma lágrima azul, essa boneca toda em cacos.

O noivo, que me adora, apoiou sem reserva. Ao meu lado no desespero e no horror. Não perdeu a esperança. E me salvou de mim mesma.

Seis meses depois, casamos.

Deve ser problema meu, sei lá. O nosso relacionamento não está dando certo
 


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Marcio Mafra
21/12/2014 às 00:00
Brasília - DF

Desde setembro de 2007 que "Macho Não Ganha Flor" estava anotado para compra. Só o fiz em dezembro de 2014.


 

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