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Às Cegas

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Às Cegas

Livro Ruim - 1 opinião

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Autor: Claudio Magris

Editora: Companhia das Letras

Assunto: Romance

Traduzido por: Mauricio Santana Dias

Páginas: 376

Ano de edição: 2009

Peso: 480 g

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Ruim
Marcio Mafra
14/12/2014 às 22:26
Brasília - DF
Embora muito bem escrito, “Às Cegas” é livro de uma doidice cruel.

Dá pra perceber que o autor é talentoso e domina a escrita. São mais de duzentos anos de história que emergem da fala esquizofrênica de um revolucionário comunista que participou das principais batalhas do século XX.

A história de Cipiko, o personagem central do livro, troca de nome e de personalidade assim como quem troca de camisa.
O revolucionário Cipiko é interno de um hospital psiquiátrico italiano e, ao atender o corpo médico e de enfermagem, vai rememorando suas muitas vidas.

Cipiko viaja no tempo, se confunde com outros personagens e a historia que narra não é nada confiável.

Em alguns momentos Cipiko é Jorgen Jorgensen, um aventureiro dinamarquês do século 19, que lutou com Napoleão.
Noutros momentos ele é o rei da Islândia que fundou a capital da Tasmânia.

Mas, suas histórias não são apenas bem aventuranças.

Cipiko conheceu e sofreu as durezas de diversas prisões e torturas, foi humilhado, viveu histórias de amor infeliz, passou por muitas depressões e perdeu todas as esperanças. Sua loucura o faz delirar quando vive em mundos desconhecidos, como o argonauta grego que partiu em busca do velocino de ouro.

Claro tem passagens de um campo de concentração nazista e um gulag stalinista

O livro pode ser lido como o relato de um louco, de um infeliz torturado ao extremo.

Por vezes a leitura fica monótona e até cansativa, como se fora um ensaio de literatura.

Na história de Cipíko (ou qualquer dos personagens que ele incorpora) sobra erudição e, por vezes, falta emoção.

Resta a sensação de um livro pretensioso (nem sei se isso é possível), confuso e intelectualmente esnobe. O autor narra sua história com muita erudição, coisa meio pedante, sobretudo pela complexidade de tramas difíceis de serem compreendidas.

Marcio Mafra
14/12/2014 às 00:00
Brasília - DF

Às Cegas  conta a historia de Cipiko. Um ex-revolucionário que é interno de um hospital psiquiátrico italiano. Diagnosticado portador de distúrbio de personalidade múltipla, doença onde várias identidades convivem na mente da mesma pessoa. Nos encontros com o médico e o pessoal da enfermagem, as personagens de Cipiko vão assumindo tipos diferentes de nomes, nacionalidades, profissões e situações sociais ou políticas completamente diferentes umas das outras. É engraçado e dramático. Cipiko é apaixonado por Mariza e se apresenta em muitas historias como um militante comunista.

Marcio Mafra
14/12/2014 às 00:00
Brasília - DF

Caro Cogoi, para dizer a verdade, mesmo se fui eu que escrevi, não estou certo de que alguém possa contar a vida de um homem melhor do que ele mesmo. Claro, aquela frase tem um ponto interrogativo; aliás, se me lembro bem-tantos anos se passaram, um século, o mundo aqui ao redor era jovem, uma alba úmida e verde, mas já era uma prisão-, a primeira coisa que escrevi foi justamente aquele ponto de interrogação, que arrasta tudo atrás de si. Quando o doutor Ross me incentivou a redigir aquelas páginas para o anuário, eu gostaria-e isso teria sido mais honesto-de ter lhe enviado muitas laudas com apenas um belo ponto de interrogação, mas não queria ser indelicado com ele, tão benevolente e gentil, ao contrário dos outros, e além disso não era o caso de contrariar alguém que podia tirá-lo de um bom cantinho como a redação do almanaque da colônia penal e mandá-lo para o inferno de Port Arthur, onde basta sentar no chão por um segundo, esgotado por aquelas pedras e a água fria, para cair na chibata.

Então pus diante daquele ponto interrogativo apenas a primeira frase, e não toda a minha vida, a minha, a sua, a de quem for. A vida-dizia Pistorius, nosso professor de gramática, acompanhando com gestos redondos e pacatos as citações latinas naquela sala atapetada de um vermelho que à tarde escurecia e se apagava, brasas da infância que ardiam no escuro-não é uma proposição ou uma asserção, mas uma interjeição, uma pontuação, uma conjunção, no máximo um advérbio. Seja como for, jamais uma das chamadas partes principais do discurso-"Tem certeza de que ele dizia assim mesmo?"-Ah... sim, doutor, pode ser, talvez não fosse ele que usasse esta última expressão, talvez fosse a professora Perich, depois Perini, em Fiume, porém mais tarde, bem mais tarde.

De resto, aquela pergunta inicial não pode ser levada a sério, porque já contém a resposta evidente, como as perguntas que são feitas aos fiéis num sermão, elevando o tom da voz. "Quem pode narrar a vida de um homem melhor do que ele mesmo?" Ninguém, é óbvio, parece espalhar-se o murmúrio das pessoas respondendo ao pregador. Se há uma coisa a que me habituei foi às perguntas retóricas, desde que passei a escrever, nas prisões de Newgate, os sermões para o reverendo Blunt, que me pagava meio xelim por cada um e enquanto isso jogava palitinho com os guardas, esperando que eu também fosse jogar, assim frequentemente recuperava aquele meio xelim-nada de estranho, eu também estava ali dentro porque tinha perdido tudo no jogo.

Mas pelo menos lá, naquela cela, enquanto escrevia entre aqueles muros imundos, era eu que inventava aquelas perguntas fajutas, ainda que depois fosse o reverendo que as esbravejasse do púlpito, enquanto fora, em todo lugar, antes e depois, por anos e anos e saecula saeculorum elas tenham sido gritadas nos meus ouvidos, "Então foi você quem armou sozinho aquele pandemônio na Islândia, assim, por puro amor àquela pobre gente raquítica e tinhosa, sem que ninguém lhe desse uma mão para pôr de cabeça para baixo a ordem dos mares de Sua Majestade, sei, então você cuspiu com desprezo sem pensar que estava lá na fila com os outros, ouvindo o discurso do novo comandante da penitenciária", e tome-lhe chibatada, "então não reconhece aquela cara de comunista, nunca a viu, e aqueles panfletinhos foram parar no seu bolso por milagre", e tome-lhe chute e cassetete, "quer dizer que você não é um espião, um traidor que veio para sabotar, fingindo- se de companheiro, a livre Iugoslávia socialista dos trabalhadores, quem sabe não é um porco fascista italiano que quer retomar a Ístria e Fiume", e direto com a cabeça no buraco da latrina ou correndo o mais rápido possível entre as filas dos prisioneiros, e enquanto você passa eles devem chutá-lo o mais forte que podem e gritar "Tito Partija, Tito Partija!"-mas de onde vêm estes gritos, que barulho, não ouço mais nada, de quem é este ouvido surdo, atordoado, posto de lado, deve ter sido uma porrada, e se alguém a deu alguém com certeza a recebeu, eu ou um outro.

Pronto, passou, o estrondo se abranda. Aquela também foi uma pergunta retórica; é meu ouvido, este, visto que o senhor, doutor Ulcigrai, se inclina para o outro, o esquerdo, quando me questiona "Então seu verdadeiro nome seria Jorgen e isto teria sido escrito por você", mostrando-me o velho caderno que eu encontrara naquela livraria de Salamanca Place. Pelo menos o senhor não ergue as mãos, ao contrário, é gentil, não se ofende nem mesmo quando o chamo de Cogoi nem insiste com as perguntas. Se fico calado, não se incomoda, mas enquanto isso me pergunta e é inútil, porque o senhor já conhece a verdade, ou crê que conhece, o que dá no mesmo, de qualquer modo já conhece minha resposta quando lhe respondo- ou então a sugere, coloca-a em minha boca.

Uma resposta firme e segura, no essencial; às vezes, admito, um tanto confusa nos detalhes. Mas o que fazer com todo esse vaivém, com tantas coisas que se amontoam, anos e países e mares e prisões e rostos e fatos e pensamentos e mais prisões e rasgados céus da noite de onde o sangue escorre em fluxos e feridas e fugas e quedas... E a vida, tantas vidas, não é possível mantê-las juntas. Além de tudo, esgotado por interrogatórios sem trégua, é ainda mais difícil pôr as coisas em ordem, muitas vezes não se reconhece a própria voz e o coração. Por que, de vez em quando, indo para a frente e para trás com essa fita, o senhor me faz repetir suas perguntas? Talvez para que eu as registre melhor, compreendo, é verdade que às vezes me perco, mas assim me perco ainda mais, quando ouço o senhor falando com minha voz. Seja como for, quanto mais se é interrogado, menos se sabe a resposta-se você cai em contradição, dizem, espremem-no mais ainda, de leve ou com força, segundo a competência de cada um.

Não sei bem o que quer dizer contradição, mas com certeza caímos nela, não há dúvida. E desaparecemos, fiapos tragados por redemoinhos de água na pia-aqui no hemisfério austral a água da banheira gira ao redor do buraco em sentido anti-horário, já entre nós do Norte é o inverso, em sentido horário. Pelo que li, é uma lei da física chamada força de Coriolis-admiráveis simetrias da natureza, quadrilha em que um casal avança enquanto outro recua, ambos se inclinam quando é sua vez, e a dança não sai do ritmo. Um nasce e outro morre, uma linha de infantaria é abatida a canhonaços numa colina, outras divisões e bandeiras estão logo depois na crista da colina, e uma nova descarga as abate, por sua vez. "Então as contas batem..." Sim, dar e receber, vitória e derrota, o banho nos cárceres de Goli Otok e depois os banhos de mar naquelas mesmas praias maravilhosas da ilha adriática, o comunismo que nos libertou do Lager e nos meteu num gulag onde resistimos em nome do companheiro Stálin, que enquanto isso mandava outros companheiros nossos para os gulagui.

"As contas batem e, se o sangue mancha os livros contábeis, não apaga as cifras nem o zero final, a equivalência entre ativo e passivo." Se há alguém que pode dizer isso sou eu, que passei muitos anos na prisão e nesta mesma cidade que tinha fundado, com suas casas e sua igreja e até uma cadeia, muitos anos antes, quando neste imenso estuário do Derwent, onde não se entende em que ponto termina o rio e o mar começa, neste grande vazio em que não há nada até o nada das Antártidas e do Polo Sul, havia apenas cisnes negros e baleias que nunca haviam experimentado um arpão fincar-se em seu dorso e fazer o sangue esguichar alto como a água soprada pelas narinas. A primeira baleia quem feriu fui eu, Jorgen Jorgensen, rei da Islândia e condenado, construtor de cidades e de prisões, da minha prisão, Rômulo que termina escravo em Roma. Mas todos esses moinhos de vento que dispersam a poeira dos mortos e dos vivos não têm muita importância. O decisivo, doutor Ulcigrai, é que eu possa responder nitidamente às suas perguntas pleonásticas no que diz respeito ao essencial, porque sei quem sou, quem era, quem somos.

Mas o que isto quer dizer-"Eu sei mais."-, isto é, o senhor? Sim, compreendo, está convencido disso. Toda a verdade naquele prontuário enfiado no arquivo-não foi difícil surrupiá- lo sem dar na vista, bem debaixo do seu nariz. Uma brincadeira de criança para quem passou a vida sendo espionado, perseguido, fichado, registrado na polícia, no Lager, no hospital, ovra, Guarda Civil, Gestapo, udba, penitenciária, Centro de Saúde Mental, e sempre é preciso sumir com os papéis. Até engoli-los, se for o caso; seja como for, embaralhá-los antes que o descubram. Agora o prontuário está de novo lá, preso e posto no lugar sem que ninguém tenha notado. De qualquer forma, os senhores não conservam mais esses papéis desde que se modernizaram e basta apertar uma tecla para saberem tudo. O fato é que o prontuário está no arquivo e na minha cabeça, embora o senhor ache que possa conter e explicar minha cabeça. Centro de Saúde Mental de Barcola, resumo do prontuário clínico de Cippico-também Cipiko, ., Salvatore, entrada em 27/3/1992, depois de uma precedente internação de urgência um mês antes. Deve ser. Passou tanto tempo... Repatriado da Austrália, domiciliado provisoriamente em casa de Antonio Miletti-Miletich, Trieste, via Molino a Vapore 2. Magnífico, enganei vocês. A primeira coisa é mudar de nome e dar um falso endereço. Eles têm a mania de fi chá-lo de uma vez por todas, de metê-lo imediatamente num vistoso escaninho, nome, sobrenome e endereço esculpidos para sempre por pompas fúnebres, e você no entanto embaralha os nomes, as datas, os números-alguns continuam do mesmo jeito, corretos, outros são meio misturados, assim eles não entendem mais nada e não sabem onde procurá-lo. Acho ótimo que me imaginem lá em Barcola, de cabeça para o alto, contemplando a Ístria além do golfo de Trieste, a catedral de Pirano e Punta Salvore, porque assim, aqui nos antípodas, ninguém pensará em me buscar entre os de cabeça para baixo.

Nascido em Hobart Town, na Tasmânia, em 10/4/1910. Se vocês dizem, deve ser. Viúvo-erro crasso. Casado. O matrimônio é indissolúvel, não está nem aí para a morte, seja a sua ou a minha. Profi ssão, nenhuma-para ser franco, uma sim, a de detido. E interrogado. No passado desempenhou várias atividades. Verificou-se que na Austrália trabalhou como torneiro e depois tipógrafo na tipografia do Partido Comunista de Annandale, Sydney, e jornalista do Risveglio e da Riscossa na mesma cidade. Inscrito na Liga Antifascista de Sydney desde 1928 e no Círculo Matteotti de Melbourne, ativista militante, implicado nos confrontos de Russell Street em Melbourne, 1929, e em Townsville, 1931. Expulso da Austrália em 32 e repatriado à Itália, onde já havia vivido com o pai durante a infância, entre o fim da Primeira Guerra Mundial e o advento do fascismo. Com que ar satisfeito o senhor está lendo, doutor, até parece que são dados seus, nem se dá conta das partes apagadas e retocadas.

Mérito seu, mais do que meu; sou meio desajeitado quando uso aquele troço cheio de teclas; e se não tivessem me dito que se chama PC, como o outro, eu nem teria tentado. Psicoterapia informática, novos tratamentos tecnológicos para os distúrbios psíquicos. Assim é bem mais fácil forjar um formulário. Bastam alguns toques no teclado, sem ter de recorrer àqueles giros para distrair o dragão e roubar o tesouro, e é você que entra dentro da fi cha, em sua própria vida, e a remaneja e inventa como bem quiser. Bem, somente alguns deslocamentos de data e de lugar e alguns nomes camuflados, retoques modestos, não me parecia o caso de exagerar e além disso eu nem seria capaz. De qualquer modo, não tenho muitas objeções quanto àquela minha fi cha. Portanto...

Trabalhei algum tempo como empregado nos canteiros na vais de Monfalcone e na sociedade marítima Sidarma. Demitido depois de detenção por propaganda e atividade antifascista. Militante do Partido Comunista clandestino. Várias vezes detido. Confi rmo. Participou da Guerra de Espanha. Militar na Iugoslávia; depois do 8 de setembro, membro da Resistência. Deportado a Dachau. Em 47, emigra para a Iugoslávia com dois mil "monfalconenses" para construir o socialismo. Trabalhou nas construções de Fiume.

Depois do rompimento entre Tito e Stálin, é preso pelos iugoslavos como membro do Cominform e deportado em 49 para o gulag de Goli Otok, a ilha Nua ou Calva, no Quarnero. Submetido, como os demais, a trabalho inumano e massacrante, sevícias e torturas. Provavelmente remontam a esse período seus distúrbios delirantes e suas acentuadas manias de perseguição. Queria ver o senhor, doutor Ulcigrai, depois de um tratamento como aquele, Dachau e Goli Otok, terapia intensiva, dose dupla. Pessoas a informar, nenhuma. Exato, ninguém. De resto, seria perigoso se houvesse alguém informado sobre mim-mais cedo ou mais tarde qualquer um pode dedurar, talvez até convencido de fazer o bem, porque lhe disseram que você é um inimigo do povo, um traidor.


  • As Cegas - novo livro de Caludio Magris

    Autor: Da Redação de Valor Economico

    Veículo: Jornal Valor Economico, caderno Eu & Fim de Semana, 6 de novembro 2009

    Fonte:

    Valor Economico 6 de novembro 2009. Classificação AAA.

    O mito de Jasão, argonauta que partiu em busca de ouro viveu trágica paixão com Medeia, conduz a intrincada trama deste belo romance do triestino Cláudio Magris. A principio, trata-se de reminiscências narradas a um médico pelo revolucionário do Partido Comunista Italiano, Salvatore Cippico, octogenário internado num hospital psiquiátrico que participou de combates importantes do século XX. Mas a elas se enredam a outras, de Jorgen Jorgensen, aventureiro dinamarques do século XIX que lutou nas guerras napoleônicas, foi rei das Islândia e fundou a capital da Tasmânia. Tais memórias e reflexões podem ser tanto de um maluco como de um sobrevivente de guerras e prisões. Magris deixa para o leitor a definição de quem é o personagem. (LMF)
     

Marcio Mafra
14/12/2014 às 00:00
Brasília - DF

Desde novembro de 2009 que anotei para comprar o livro de Claudio Magris, um festejado autor italiano, sempre lembrado para o Prêmio Nobel. Na ocasião vi uma recomendação de livro AAA no jornal Valor Economico. Só comprei o livro em abril de 2014.


 

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