carregando

Aguarde por gentileza.
Isso pode levar alguns segundos...

 

Você está aqui Principal / Livros / Cidade Livre

Cidade Livre

Para usar as funcionalidades você precisa estar logado(a). Clique aqui para logar
Erro ao processar sua requisição, tente novamente em alguns minutos.
Cidade Livre

Livro Ótimo - 1 opinião

  • Leram
    1
  • Lendo
    0
  • Vão ler
    3
  • Relendo
    0
  • Recomendam
    0

Autor: João Almino

Editora: Record

Assunto: História

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 238

Ano de edição: 2010

Peso: 295 g

comentar
  • lido
  • lendo
  • vou-ler
  • re-lendo
  • recomendar
tenho
trocar
empresto
doar
aceito-doação
favorido
comprar
quero-ganhar

 

Ótimo
Marcio Mafra
14/12/2014 às 18:27
Brasília - DF
Brasília nasceu de um ato de ousadia do então Presidente Juscelino Kubitscheck de Oliveira.

A Cidade Livre, junto com a Candangolândia, é uma das mais antigas ocupações da época da construção de Brasília.

As primeiras avenidas foram abertas em 1956, pela Novacap, Companhia Urbanizadora da Nova Capital. A ideia era que a região abrigasse o comércio e serviços, por isso ficou livre dos impostos. Daí o apelido pelo qual ainda é conhecida,

O autor João Almino criou um personagem, também chamado João. Ele relata os diálogos durante sete noites de conversas que teve com o pai adotivo, à beira da morte, “entre quatro paredes de um branco sujo”.

O personagem João mistura memórias da Cidade Livre com o relacionamento amoroso do pai adotivo, Moacyr, as tias Francisca e Matilde e, finalmente, o enigmático Valdivino. Muitos casos, histórias e imaginações foram retiradas dos cadernos de anotações de seu pai, que vivia anotando as frases das personalidades que visitavam a cidade, entre eles Fidel Castro, André Malroux, Presidente Eisenhower, Aldous Huxley e a poeta norte-americana Elizabeth Bishop.

Livro ótimo, bem escrito, que desperta imagens e saudades de qualquer pioneiro candango.

Candango era o nome que os africanos davam aos portugueses que invadiram suas terras e significava “pessoa destituída de bom gosto”, "grosseiro".

Candango também era a designação dos operários que trabalharam nas construções de Brasília até a sua inauguração. A maioria destes trabalhadores vinham da região do nordeste do Brasil, o que - de certa forma - era um disfarçado preconceito articulado pela mídia e a oposição política de então, liderada pelo Deputado Federal Carlos Lacerda (UDN)

Leitura fácil, gostosa e despida de literatice.



Marcio Mafra
14/12/2014 às 00:00
Brasília - DF

Uma história (romanceada) sobre a construção de Brasília. A história começa em 1956, na cidade de Ceres, Goiás, e se desenvolve, principalmente, na Cidade Livre (antigo nome do Núcleo Bandeirante), terminando no dia 21 de abril, durante a festa da inauguração da nova Capital da República. O autor mistura a memória histórica com muita elegancia e simpatia, toques de bom humor e romantismo, numa excelente articulação entre os personagens reais e ficcionais.  

Marcio Mafra
14/12/2014 às 00:00
Brasília - DF

SETE NOITES E UM ENTERRO

Num ponto pensei em me desfazer do que pesquisei e escrevi, deixar minhas lembranças, medos e inquietações para um livro de memórias em que contaria não apenas minha infância na Cidade Livre, a cidade que viera romper o silêncio que por milênios dominara aquele planalto, mas também meu interesse pelo jornalismo, meu encontro com minha atual mulher e o nascimento de meus três filhos, relegar minha pesquisa para as reportagens e me concentrar nas palavras de papai, palavras que ainda vim a corrigir depois de uma conversa com tia Francisca durante seu enterro.

Mas não, meu relato manteve misturadas minhas memórias, as de papai, minhas pesquisas e as observações de tia Francisca, e cometi o erro de entregá-lo a um escritor que o esvaziou de vírgulas e pontos, o encheu de gírias e cenas de violência, me alertou ser preciso acrescentar-lhe uma dimensão moral e filosófica e ainda me perguntou se continha algum ensinamento, o que achei um absurdo e por isso decidi enviá-lo à editora mesmo sem a moral, a filosofia e o ensinamento, me chateando depois com a resposta polida de que não se enquadrava na sua linha editorial.

Pensei em vender meu carro para bancar a edição, cortei os floreios e restabeleci meus pontos e vírgulas, pois não tinha tempo a perder com filigranas estilísticas e acho mesmo uma vantagem ser jornalista: de Lucrécia, que vê um pássaro, nunca direi que o vento suspirava docemente sobre sua fronte, nem que sua beleza esmaltou-se de ternos sorrisos, nem que seus olhos se estendiam pela imensidão do Cerrado ou adejavam com o pássaro pelos campos vermelhos. Quando eu estava a meio caminho andado, um crítico que se dizia meu amigo me censurou não apenas o estilo, mas também o conteúdo, Esse seu experimento vai ser um desastre, anunciou, e atribuí o vaticínio a uma divergência política, pois estávamos em lados contrários, ele me via como retrógrado e ainda agora passa por mim sem me cumprimentar, mas devo a ele a sugestão de criar este blog e ir publicando a história aqui, como folhetim do século dezenove — com o que salvei meu carro.

Não tenho a presunção de saber tudo o que aconteceu naqueles tempos, posso ter errado, escrito demais ou de menos, vocês sabem que memórias e pesquisas são falhas e incompletas, melhor então confessar já de cara que muitos fatos esqueci e, dos que me lembro, nem sempre me lembro com certeza ou precisão, por isso este é um texto para ser modificado pelos leitores, como se eu tivesse criado uma wikipédia desta história, com apenas as regras de que nas minhas memórias, de papai e de tia Francisca somente eu posso mexer, e o resto – a descrição dos fatos que nos dão a impressão de sermos parte do espírito de um tempo –, vocês leitores do blog podem corrigir à vontade, e, se tiverem algum caso a contar ou comentário a fazer, que não se intimidem.

Ao longo do processo, ainda acrescentei uma ou outra opinião pessoal e corrigi o que sabia a partir do que foi publicado sobre Brasília até este ano de 2010, acumulando assim uma dívida profunda para com Isaías P. Ferreira da Silva Junior, cuja obra analisa minuciosamente a flora e a fauna, os primeiros habitantes e acompanha os detalhes da construção, um trabalho que é ao mesmo tempo de historiador, antropólogo e sociólogo. Uma dívida ainda maior ele tem com muitos e muitos outros que, através de relatos históricos, análises sociológicas ou antropológicas, memórias, testemunhos, depoimentos em jornais, reportagens, crônicas, poemas, contos e até mesmo romances, procuraram desenhar um painel sobre a Cidade Livre, também conhecida como Núcleo Bandeirante, na época da construção de Brasília.

É ainda em papai que encontro a inspiração para publicar este livro, pois, quando ele tentava conciliar seu interesse crescente pela construção civil com a atividade jornalística, me dizia que também na escrita havia construção, e a gente ia pondo tijolo sobre tijolo, e com esse ensinamento presente há muitos anos levei adiante seu bastão de jornalista e é a partir desse mesmo ensinamento que rearrumo os tijolos para compor este relato na sua forma atual.

Finalmente agradeço a revisão de João Almino, que eu conheci em 1970 quando pela primeira vez pôs os pés em Brasília, e foi dele o incentivo para que eu começasse a escrever esta história. Até aqui este é o único parágrafo que vocês, leitores do blog, comentaram, querem porque querem saber meu nome ou pelo menos se sou ou não sou João Almino, como se a história mudasse de sentido dependendo de quem seja seu autor, mas paciência, mantenho meu anonimato pela simples razão de que me dá mais liberdade, sobretudo liberdade para ser sincero.

 

PRIMEIRA NOITE: DE A A Z

“Brasília é um romance digno de ser contado”, a frase que retirei de um dos vários cadernos enterrados por Moacyr Ribeiro, meu pai, dentro de uma caixa no dia seguinte à inauguração da cidade, foi pronunciada numa época em que papai colecionava frases dos visitantes estrangeiros da cidade em construção.

A capa do caderno trazia uma paisagem em verde, amarelo e azul, cortada em vermelho pela palavra “Avante”, com belas palmeiras e cinco garotos em disparada explorando o território e sabendo para onde iam, todos de chapéu de massa e lencinho vermelho, meias três-quartos, camisa de mangas compridas enroladas acima dos cotovelos, cinto largo, cada um com seu cantil de água, e o do meio empunhando uma bandeira do Brasil de haste pontiaguda pronta para ser fincada no futuro, dois riscos finos embaixo e outro, grosso, abaixo daqueles, no canto direito, onde papai escrevera “construção de Brasília 1956-1960″, e nas duas linhas finais “comentários de personalidades mundiais”.

Eu tinha de obter o depoimento de papai antes que ele morresse, uma forma também de me reconciliar com ele no momento delicado que ele atravessava e de reparar meu erro de ter-me afastado dele por tanto tempo, na verdade desde que o deixara, seis anos após o incidente de Valdivino, em meio a uma briga que ainda tento entender e que começou quando contei a tia Francisca o que me haviam dito sobre papai, e ainda assim ela não quis desistir de se casar com ele, É tudo mentira, ela dizia, Pois me conte a versão verdadeira, Não, não tenho nada para lhe contar, ela me respondeu. Foi então que, usando como estopim uma desavença em torno de um artigo que eu escrevera, saí de casa esbravejando contra papai e me mudei para o apartamento de tia Matilde, mas vivi na dúvida e precisava, antes que ele morresse, de uma confirmação sobre o que de fato aconteceu.

Agora, tantos meses depois das sete noites que passei com ele e da sétima noite, a de sua morte, me pergunto se não fui eu mesmo seu assassino. Talvez seja para me redimir que misturo frases de seus papéis enterrados com histórias que li e ouvi, especialmente as que ouvi dele desde que notei nos seus olhos a alegria de me ver a seu lado, pois a alegria às vezes se exprime com lágrimas, como quando nos deparamos com a beleza, a justiça e a bondade em estado puro. O cansaço deste mundo e a resignação com a proximidade da hora de partir foram pouco a pouco transformados pela satisfação com meu gesto reconciliador. Eu não podia acreditar em tudo o que me dizia, e aquele “tudo” me parecia insuficiente, mas reconheço que, com sua voz trêmula, falou muito, como se precisasse de alguém em quem descarregar histórias guardadas desde sempre. De dia ficava calado, e às vezes eu saía, vinha almoçar com minha mulher e meus filhos em nossa casa do Lago Sul, me encontrava com os amigos do jornal e ia à biblioteca da UnB fazer pesquisa, mas de noite eu lia para ele em voz alta e ele consertava uma frase aqui, outra acolá, e me contava, às vezes até de madrugada, muitas histórias sobre Valdivino e o crime que possivelmente não teria ocorrido.

Em seu estado e já com oitenta e dois anos, papai, quando esquecia de um detalhe, inventava outros e até fabricava datas precisas, mas eu mesmo também fui testemunha de muita coisa quando morei na Cidade Livre dos seis aos dez anos de idade, antes de me mudar com tia Francisca para uma das casinhas da W-3 Sul no Plano Piloto, e podia, portanto, completar e corrigir a memória de papai com a minha, bastando, para começar a construir a história, preencher as frases secas que ouvia dele com sol, poeira, lágrimas e medo, e também com tudo o mais com que se devia fazer uma história da Cidade Livre: com máquinas e tratores, com betoneiras, escavadeiras, motoniveladoras, rolos Tander, usinas volumétricas, guindastes, com estacas Franki perfurando o chão, com simples tábuas de madeira e também com noites, bares e prostitutas. Uma história que eu podia contar como epopeia de homens e máquinas criando uma nova cidade, candangos, muitos candangos, sobretudo homens que chegavam sem suas mulheres com a esperança de serem fichados nas empresas construtoras, trazendo malas de madeira ou trouxas, um caneco de alumínio e uma faca presos no cinturão, como era o hábito de Valdivino.

Faz seis meses que papai morreu e que decidi concluir o livro, meses que às vezes têm coberto de luto estas palavras, e outras vezes me ajudado a escavar do esquecimento alguns brilhos de vida, enquanto cato frases no deserto, a ponto de meus amigos do jornal terem notado minha indiferença para com as discussões políticas do momento — logo eu, que já fui tão inconformado e combativo.

Minha vida se passa em dois planos distintos: levo os meninos para a escola, chamo o encanador para consertar a torneira da pia, limpo a piscina e, ao mesmo tempo, é como se estivesse vivendo num mundo outro, de história única e eterna, que ainda não conheço completa e que eu mesmo vou procurando compor.

Com este capítulo quase escrito e outros a caminho, cheios de notas e partes já escritas, fico sentado à mesa da varanda, apoiando meus cotovelos em seu tampo de vidro, fumando meu cachimbo, bebendo café ou tomando Campari, a ouvir sapos no começo da noite, lembrando-me de outros sapos, e de repente uma mortalha cobre tudo, até mesmo a bela paisagem à minha frente, e esta história começa a azedar. Paro, respiro o ar lá fora, vejo as luzes da cidade a brilhar sobre o lago, vasculho noutro canto das memórias e sigo noite adentro, desbastando caminhos de inquietação, às vezes por horas e horas sem avançar uma linha. Noutras tento conter as torrentes de palavras que descem desorganizadas de uma lembrança forte, como quando me contaram detalhes da possível morte de Valdivino, me senti traído por tia Francisca e saí de casa brigado com papai. O pior é que até agora o blog não serviu para nada, nenhum seguidor, nenhum comentário útil, talvez porque eu queira esconder a verdadeira razão para estar aqui escrevendo, razão só minha, de quem procura disfarçar nas palavras o sofrimento e o martírio humano, de quem foi abandonado por todos os deuses e ainda assim espera pelo renascimento e a descoberta, de quem se sente culpado pela morte de seu pai. Mas não quero falar de mim, não sou tão louco quanto os médicos dizem, não sou paranoico nem estou fantasiando nada, minha loucura foi apenas temporária, e disso já se vão muitos anos.

Houve uma época em que eu tinha oito anos e em que papai era meu modelo de grande homem, severo e justo nas decisões; uma época em que ele era culto, inteligente, sabia de tudo e me tratava como um filho de verdade, sua autoridade se exprimindo nos gestos enérgicos e nas frases curtas. As desgraças que haviam se abatido sobre ele antes de vir para a Cidade Livre não o haviam tornado amargo. Mas não o conheci de uma vez só, a imagem que fiz dele foi sendo composta ao longo dos anos e, mesmo agora, depois de sua morte, ainda não está completa. De um romance se esperaria que não houvesse dúvidas sobre os contornos morais dos personagens principais ou sobre fatos decisivos de suas vidas, e por isso ainda bem que nada romanceio e devo me contentar com o que sei.

Para que tentar corrigir no papel o que na vida esteve errado? Para que forjar uma resposta para o que se apresenta apenas e sempre como incógnita?

Se eu pudesse continuava a conversa com papai. Sinto a falta dele, e meu coração mistura sentimentos que não deveriam estar misturados, de ternura e ódio, enquanto fico remoendo suas palavras, e um vento forte bate nas palmeiras, segredando suposições e me ajudando a martelar o teclado do computador.

Olho para o fundo do jardim, onde, no escuro, árvores baixas, que plantei há um ano, agitam-se nervosas. Vejo um vulto. Papai!, chamo. Silêncio. Ainda ouço sua voz, como eco, lá no fundo de meu medo. O que ele diz? Repete a versão de Íris: Valdivino nunca morreu. Já não protesto, a raiva de antigamente, revisitada, é só lembrança de raiva, aceito o que ele diz, com sua voz frágil e doente, carregada pelo vento. Papai!, chamo novamente e me caem lágrimas dos olhos, enquanto rodopia em minha cabeça um turbilhão de imagens, de ideias e de sentimentos contraditórios, e então me vejo criança, o menino chorão de quem tia Francisca reclamava, antes de acariciar em seu colo.

Logo depois que se apagavam as luzes do gerador, eu fechava os olhos, nunca conseguia ver o bicho do sono que tia Francisca me dizia que vinha me pôr para dormir e temia que Valdivino me aparecesse e me culpasse por sua morte. Criança tem dessas coisas, ele aparecia no meu medo com seu jeito tímido e supersticioso, fazendo suas perguntas sem sentido, chorando por qualquer coisa, chorando tanto num dos meus sonhos que ao meu redor se formava uma piscina de lágrimas, e ainda assim eu não me emocionava. Mas estaria ele morto?

Minha insônia de hoje é o prolongamento daquelas horas quando, na escuridão da noite, eu ouvia barulhos de bêbados pela rua, os latidos de meu cachorro Tufão, as araras que moravam no fundo da casa ou alguma coruja solitária, e abria os olhos para o caleidoscópio de cinzas e negros que desenhavam monstros nas paredes.

Para dar vida à história, bastava eu me transpor para um dia de minha infância, me imaginar no meio de uma avenida da Cidade Livre, e então veria minhas tias desfilando suas formas e trejeitos, Valdivino sentado em frente a uma mesinha transcrevendo cartas, papai conversando na porta de um bar, uma menina de tranças e olhos negros andando de bicicleta, Tufão me seguindo, e veria o colorido das lojas, dos prédios de madeira, carros gordinhos e pretos estacionados na lateral com seus pneus exibindo círculos brancos, e então subiria um cheiro de gasolina, de óleo, de monturos e bostas de cavalo, e apareceriam em tela grande e colorida histórias de crimes, pecados, desesperos e grandes futuros.

Olho para um dia de minha infância e vejo três personagens masculinos conversando em frente a nossa casa, para onde tia Francisca acaba de trazer algumas cadeiras, e nem preciso descrever para vocês a casa de madeira e sem calçada igual a tantas outras que se veem nas fotografias daquele tempo, em frente à qual, eu dizia, os três personagens conversam conversas silenciosas, gesticulam frases, enunciam palavras que não ouço ou, se ouço, não entendo e, se entendo, não me interessam, um deles de rosto oval, branco e bem barbeado, com alguma marca de desgosto, olhar agudo e jocoso, expressão de homem bem-sucedido, que acumulou experiências pela vida. Tufão está sentado a seu lado, ouvindo suas conversas de orelha em pé. É papai.

O segundo, com mãos para trás das quais desce o chapéu, tem um corpo musculoso e bem moldado, ar firme e franco em seu rosto queimado de sol, bigodes bem aparados, e quem o olhasse sentiria inveja de sua aparência feliz. É Roberto, quando ainda não se sabia se seria namorado de tia Francisca ou de tia Matilde.

O terceiro, de uma simplicidade tosca, com um chapéu grande demais para sua cabeça pequena, é conversador, parece inteligente e é o único com esporas nas botas, tendo chegado montado num burro, mas, se atrai minha atenção, é por sua fragilidade. Quando tira as mãos dos bolsos, gesticula sem parar, balança-se para a frente e para trás sobre suas pernas de cambito e dá a impressão de que sairá voando se soprado pelo vento. Os outros dois, quando passam por ele, o olham de cima para baixo. Pela descrição vocês já terão adivinhado: é Valdivino.

Que saudades são essas que sentimos de uma felicidade inventada pela lembrança? Não, não é de hoje minha desconfiança nem minha dúvida, que já estavam lá nos meus tempos de menino, mas tive de esperar vários anos para percebê-las. Meus desejos mudaram, minhas aspirações são outras, já fui bem-sucedido antes de perder quase tudo, mas as horas passam da mesma forma em outros relógios, e o sol, diante das construções que encheram a paisagem, pinta com as mesmas cores a manhã e as esconde igualmente no crepúsculo. Você, meu único e fiel seguidor do blog, tem razão, por que remexer no que está quieto e esquecido?

Naquela primeira noite em que reencontrei papai para tirar minhas dúvidas, ele negou o assassinato de Valdivino, era delicado para mim ressuscitar a velha suspeita, e era melhor, ele me disse, acreditarmos na versão da profetisa do Jardim da Salvação, Íris Quelemém, de que Valdivino não havia morrido e talvez nunca viesse a morrer, sempre fora um insone e um sonâmbulo, ainda andava solto, caminhando dia e noite pela floresta, em busca de Z, a cidade perdida. Deixa isso pra lá, João, são águas passadas.

Às vezes, quando eu ficava recolhido a meus devaneios, me invadia a memória nossa vida na Cidade Livre, feita de lugares e cenas, bem como de histórias de papai, de minhas tias e de outros personagens à nossa volta — entre eles, principalmente Valdivino —, as coisas, fatos e pessoas de minha infância dispostos como numa enorme fotografia de família ou como num tabuleiro distante onde a variedade já se havia desfeito na uniformidade imposta pelo tempo. Somente papai podia, pela primeira vez, reorganizar as peças daquele tabuleiro e retirar da imobilidade a minha memória. É que ele não está morto, ninguém o matou, papai me respondia, está viajando ou apenas dormindo, como Íris disse.

Haviam-se passado alguns anos do incidente quando papai voltou ao Jardim da Salvação, entrou lá anonimamente, o Jardim crescido, e viu Íris envolta em sua veste branca, larga e comprida, de mangas bufantes, cabelos esvoaçantes, fitas azuis descendo de seus ombros, miçangas nos braços e pescoço, grandes argolas nas orelhas e esmalte encarnado nas unhas compridas, fazendo sua pregação no alto do Morro da Batalha, ela já com o ar da profetisa Íris Quelemém que se tornaria famosa em todo o Planalto Central e ainda com uma idade indefinida no seu rosto redondo e sem rugas e nos seus olhos grandes e de um brilho perspicaz, com o ar pensativo e a voz pausada de quem estivesse naquele instante buscando a inspiração para cada uma de suas palavras: De vosso veneno sairá o bálsamo de vossa cura; a maldade já não crescerá em vós, a menos que seja a maldade que cresça a partir do conflito de vossas virtudes, mas se tiverdes sorte, então tereis uma só virtude; que ela seja a tolerância ou a paciência ou o amor — palavras em que papai identificou ecos de palavras já lidas ou ouvidas. Depois de tudo o que acontecera entre Íris e papai, era de se esperar que no mínimo se sentisse incomodada com a presença dele, olhou-o seguidamente e parou de falar, fazendo-se, então, um silêncio longo e constrangedor.

Naquela primeira noite, entre quatro paredes de um branco sujo, papai me contou o diálogo que tivera com ela. Vim para falar de Valdivino, O que aconteceu estava escrito, e Valdivino não morreu, ainda sobrevive, ela respondeu, Então onde posso encontrá-lo? Ele é Karaí, senhor amo santo e bendito, mas Taú e Keraná tiveram sete filhos, as sete desgraças que vão se abater sobre o mundo, e a errância de Valdivino é só o começo de uma delas; ele está na selva, à procura de Z.

No dia do incidente, 22 de abril de 1960, o dia seguinte ao da inauguração de Brasília, papai fora chamado de emergência ao Jardim da Salvação, eu me lembrava bem, pois minhas memórias daquele dia estavam muito presentes, não apenas por algo que antes acontecera entre mim e tia Matilde, mas também porque papai havia trocado seu jipe Willys azul por uma Barata Ford 46 preta, na qual saíra naquela manhã em disparada.

Desconfiei do que papai me contou naquela primeira noite fechado entre quatro paredes, que Valdivino não queria a presença de médico, tinha de ser ele, papai, só confiava nele e em mais ninguém e que, quando chegou ao quarto de um barraco de madeira do Jardim da Salvação, Valdivino estava deitado sobre o chão de barro vermelho, vestia uma calça de brim, trazia braceletes, estava nu da cintura para cima, tinha marcas na cabeça talvez produzidas por pauladas ou algo mais pesado, delirava e balbuciou várias palavras que papai tentou interpretar, sobre a mesa a fotografia de uma adolescente que papai julgou conhecer e um cartão-postal da cidade de Salvador, e num canto uma garrafa de cachaça — estranhamente, pois Valdivino não bebia. Ninguém viu nem ouviu nada, Ele veio para o Vale fugindo de credores, disse um desconhecido. Papai notou que o chamavam Abel, Ele mesmo caiu e se machucou, doutor, bebeu o líquido da cerimônia mais do que devia, não sei se de propósito, falou outro desconhecido, enfiando a cabeça na janela, e logo partiu sem que papai jamais voltasse a vê-lo. Parece que aqui vocês vivem se machucando sozinhos, papai comentou com uma dose de ironia, lembrando-se que recentemente, a pedido de Valdivino, tentara socorrer Íris ali no Jardim da Salvação e a encontrara numa situação semelhante.

Papai desconfiava que o agressor estivesse ali na sala, correu os olhos pelo que pudesse servir de prova ou pelo menos de indício, encontrou apenas um resto de cigarro Continental no chão, aproximou-se de Valdivino quando ele tentava enunciar mais algumas palavras, envolveu delicadamente seu pescoço com as mãos, procurou levantar sua cabeça, pareceu-lhe então que Valdivino havia expirado, sentiu seu pulso e não teve mais dúvida. É o primeiro pecado praticado no Jardim da Salvação, disse um senhor a papai, O senhor quer dizer o primeiro crime?

Papai ainda ficou algum tempo no Jardim da Salvação esperando ser recebido por Íris Quelemém, até que vieram lhe contar que Valdivino continuava estendido no chão, Uns dizem que está morto e outros que está vivo, e então papai procurou voltar ao barraco de Valdivino, mas recebeu um recado de que a profetisa pedia que ele fosse embora, o chamaria se fosse preciso.

Quando papai voltou ao Jardim da Salvação dois dias depois, Íris lhe disse, Ele é um santo, para explicar por que o corpo de Valdivino não apodrecia. Nunca vai apodrecer, vaticinou, e mais tarde espalhou que Valdivino ressuscitara, estava vivo, embora papai nem ninguém lá em casa nunca mais o tivesse visto.

Menino, não temia ficar em casa sozinho com a porta e as janelas abertas, nem andar pelos arredores, indicando hotéis, lojas, bares e restaurantes a quem chegava. Levava meu fiel cachorro vira-latas Tufão — branco com manchas pretas e alegria da meninada — pelas avenidas de chão batido, enlameadas pelas chuvas, ouvindo a música dura e ritmada dos geradores, que garantiam a iluminação enquanto as obras da Usina Hidroelétrica de Saia Velha não fossem concluídas. Aqui um gerador potente, ali outro fraco, mais adiante uma casa iluminada com lamparina, outra com lâmpada de gás e assim as cores das luzes pintavam as sombras ora de azuis, ora de diferentes tons de amarelo, branco ou cinza.

Sobretudo nos primeiros anos, como havia poucos prédios e, portanto, poucas luzes, que somente se iluminavam com os geradores durante algumas horas, em geral os donos desligando-os antes das dez da noite, e como nem todos os prédios possuíam gerador, o céu era um chão de estrelas quando chegava a lua nova. Não aponte com o dedo que pode criar verrugas, avisava tia Francisca e então me mostrava as Três Marias e o Cruzeiro do Sul.

Lembro-me das vezes em que caminhava pelas avenidas tarde da noite, quando a Cidade Livre deixava de dormir, ficando suas lojas abertas para fornecer mercadorias de madrugada à medida que Brasília era construída em ritmo frenético, e eu presenciava, então, tocadores de viola ou batucadas nos bares ou ainda serenatas em frente às casas em noite de luar.
Às vezes Tufão traçava o caminho, e eu seguia-o pela feira e avenidas, ouvindo pelos alto-falantes os anúncios de filmes e de oportunidades de trabalho, baiões, xaxados e sermões. Quando novinho,

Tufão gostava de visitar o sapateiro, Seu Albuquerque de Pinho, porque farejava a sola, a cola, a tinta e a graxa, e bem mais tarde, no início de 1959, invariavelmente queria entrar no Açougue Progresso, do Seu George Reisman, ou no Açougue do Bom Jesus para tentar roubar algum pedaço de carne.

A maior atração da cidade, motivo de orgulho para mim, era sua feição de faroeste, uma cidade de cinema americano, que, como dizia papai, inexistia em outros recantos do Brasil. Como era para ser provisória e seria destruída quando Brasília fosse inaugurada, todas as casas e barracos, em geral cobertos com telhas de amianto, zinco, chapas de alumínio ou com palha, tinham de ser de madeira.

Por isso os incêndios, que se alastravam rapidamente e que eu presenciava também no campo, onde todos os anos, e de veneta, a vegetação pegava fogo e depois brotava envergonhada, com medo de crescer.

Ainda em 1957 papai me matriculou numa turma de trinta e três alunos no Instituto Batista, um prédio com tábuas de madeira laterais, telhado de duas quedas e uma única sala de aula, a primeira escola particular da Cidade Livre, mas logo me transferiu para uma escola pública e muito maior, o Grupo Escolar Número Um, ou GE-1, no núcleo habitacional e administrativo que, por ter sido a primeira localização da Novacap, veio a ser chamado de Velhacap, onde também se localizavam o restaurante do SAPS, do qual tia Francisca passou a ser fornecedora, e o presídio da GP, Guarda Policial da Novacap, depois GEB, a temida Guarda Especial de Brasília, que, segundo uma das versões, podia ter sido a responsável pela morte de Valdivino, se era que de fato Valdivino estava morto.

Papai envaidecia-se por ser a escola um projeto do arquiteto Oscar Niemeyer executado em apenas vinte dias, uma caixa de sapatos comprida suspensa por pilotis inaugurada em 21 de setembro de 1957 pelo próprio JK, que um mês depois plantou no quintal a Cabralia Cangerana, ainda raquítica, que eu venerava como a um deus de uma religião indígena. Na época eu não notava a pobreza daquele quintal onde organizávamos nossas festas, talvez porque o sol frequentemente avivasse suas cores e alegrasse sua parca ramagem. Eu acordava às seis e meia da manhã para ir à escola, levava comigo meu sono e ignorância e, quando não era despertado pelas estripulias que fabricávamos, fazendo voar aviões de papel ou passando desenhos e bilhetinhos de um a outro, chegava a dormir sobre a carteira do fundo da sala, até voltar às duas horas para casa.

Como nos acampamentos da Velhacap havia mais famílias, eu via mais mulheres e meninas na rua do que na Cidade Livre. Por causa da menina de tranças pretas que passava numa bicicleta de homem, desenvolvi meu sonho de possuir uma bicicleta. Se pedalasse ao lado dela na Avenida Central da Cidade Livre, ela me olharia com seus olhos negros e sorriria para mim, eu a abraçaria, tão linda que ela era, seria minha primeira namorada. Pedi, então, uma bicicleta de presente a papai; viria sozinho à escola de bicicleta e encontraria a menina de tranças, tinha ouvido falar que as mulheres gozavam roçando seus prazeres nas selas das bicicletas, e eu estaria ao lado dela, pedalando, pedalando, ela sorriria novamente para mim, desceríamos de nossas bicicletas e nos beijaríamos apaixonadamente como nos filmes que tia Francisca me proibia de ver.

Quando eu tirava boas notas, voltava a pedir a papai uma bicicleta de presente, presente que nunca chegava, mas em compensação papai me premiava levando-me aos domingos aos programas de calouros na Rádio Nacional, onde, no auditório repleto, assistíamos a apresentações de palco, ou então íamos ao jogo de futebol e torcíamos pelo Guará, time que disputava campeonatos com vários outros que traziam o nome de firmas construtoras, e depois do jogo, assistíamos a um filme no Cine Brasília, localizado no bloco do meio, ou ainda no Cine da Condessa ou no Cine Bandeirante, depois do mercado e perto de um dos extremos da cidade.

No exato extremo oposto, já um pouco despegado da cidade, ficava um lugar que eu apenas imaginava, pois aproximar-me dele era a maior das proibições que tia Francisca erguera para mim. Eu sabia que papai às vezes frequentava aquela zona de prostituição, conhecida como Placa da Mercedes, e tornou-se sócio de um homem corpulento e de bigodes que tinha negócios por lá. Como é que você se mete com um sujeito desses? um dia lhe cobrou tia Francisca, Há muito ele abandonou o bordel, Francisca, o negócio dele é construção, Sei não, não me cheira bem. Eu pressentia que tia Francisca estava certa e mais tarde também achei que aquele sujeito, numa das versões possíveis, tivera algum envolvimento com o assassinato de Valdivino, se é que assassinato houve.


  • CIDADE LIVRE JOÃO ALMINO

    Autor: Da redação do jornal Valor Econômico

    Veículo: "Cidade Livre" - Valor Economico, Caderno Eu & Final de Semana, 21/05/2010

    Fonte: Jornal Valor Economico

    AAA Excepcional / AA+ Alta qualidade / BBB Acima da média / BB+ Moderado / CCC Baixa qualidade / C Alto risco

    João Almino Record 240 págs., R$ 39,90 / AA+

    "Lembro-me do dia da inauguração de Brasília, eu ainda criança, toda a minha família ao pé do rádio, lá em Mossoró [RN], como milhões de outras famílias", conta o escritor e diplomata João Almino no seu site. Autor de uma trilogia sobre a capital, que virou tetralogia, com "O Livro das Emoções" (2008), ele junta novo volume à série com este "Cidade Livre", realizando uma "pentalogia" do tema. Aqui Almino se volta para a fundação da cidade, por meio de um personagem que a viu nascer e nela cresceu. Assim, empreiteiros, políticos, candangos, aproveitadores, místicos, celebridades se entrecruzam na trama e compõem uma história na qual Brasília resulta em "microcosmo e metáfora do país, do universo, da existência", como diz a crítica Walnice Nogueira Galvão. (LMF)

    Romance de João Almino, quinto de uma série ora focalizando o período fundador, vem confirmá-lo a contragosto na posição de “romancista de Brasília”. Mas caveat lector, o leitor que se cuide. A pletora de anotações históricas e até estatísticas escamoteia o terreno minado pela natureza da ficção. A farândola social é orquestrada: candangos, empreiteiros, aproveitadores das negociatas (o pai do narrador é um deles), idealistas, políticos, místicos da seita salvacionista. Obs. O texto acima foi retirado do site da editora.

     

Marcio Mafra
14/12/2014 às 00:00
Brasília - DF

Maio de 2010 o jornal Valor Econômico, no caderno “Eu & Fim de Semana” trazia um comentário bastante positivo sobre o livro de João Almino, “Cidade Livre”. O articulista, de quem não lembro o nome, atribuía o conceito “AA+” que significa “alta qualidade”. Anotei para comprar o livro. Em inúmeras ocasiões procurei pelo livro nas livrarias da cidade, sem encontra-lo. Somente em abril de 2014 consegui compra-lo.


 

Para baixar ou visualizar o E-BOOK é necessário logar no site.
Clique aqui! para efetutar seu login.

 

Não tem uma conta?
Clique aqui e crie a sua agora!