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Autor: Heloisa Seixas

Editora: Companhia das Letras

Assunto: Turismo

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 212

Ano de edição: 2011

Peso: 295 g

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Ótimo
Marcio Mafra
15/11/2013 às 20:10
Brasília - DF
Heloisa Seixas e Ruy Castro escrevem sobre suas viagens por terra, por mar e pelo ar. Coisa aparentemente comum em livro sobre roteiros turísticos. Neste “terramarear” os autores não são meros turistas. Eles buscam o espírito, a alma dos lugares. Procuram ler, ouvir e saber tudo dos costumes, das tradições e das lendas antes da viagem. Para isso eles assistem filmes, ouvem músicas, leem histórias, reviram jornais antigos. Quando chegam ao lugar são como romanos em Roma. Sentem-se parte. Vivem o lugar. São dois excelentes jornalistas que sabem escrever muito bem sobre lugares espetaculares: Moscou, Paris, Veneza, Roma, Pompeia, Londres, Lisboa entre tantos.

Marcio Mafra
15/11/2013 às 00:00
Brasília - DF

As historias das viagens pelo ar, pela terra e pelo mar de Heloisa Seixas e Ruy Castro. Jornalistas profissionais que correram o mundo levados pelo trabalho e também pelo prazer. Suas crônicas deste livro são exatamente das viagens de prazer, ou, as peripécias de dois turistas culturais.

Marcio Mafra
15/11/2013 às 00:00
Brasília - DF

Heloisa Seixas

Terror e êxtase sob as cúpulas de ouro de Moscou - As vésperas da glasnost

O problema não era só o avião. Era aquele avião - quase uma relíquia da Segunda Guerra. Apertei o cinto com as mãos trêmulas e espiei pela janelinha. A pista do aeroporto - chão, terra, segurança - me pareceu o lugar mais adorável do mundo, e do qual eu não deveria me despregar.

Mas, impossível. Ali estava eu, atada à poltrona, na última fileira de um avião Tupolev, da Aeroflot, rumo a Moscou. Como partíamos de Buenos Aires, íamos atravessar meio planeta naquela geringonça cheirando a mofo, com um aspecto decadente que fazia pensar na situação da própria União Soviética.

O ano era 1985 e, embora Mikhail Gorbachev tivesse assumido o país pouco antes, já havia no ar sintomas de que o mundo comunista estava a ponto de sofrer uma transformação. Mas não era isso que ocupava meus pensamentos naqueles instantes pré-decolagem - e sim a desagradável perspectiva de passar 24 horas dentro de um avião caduco.

Quando ele começou a subir, a trepidação foi imensa, talvez pelo fato de eu estar sentada lá atrás, perto da cauda, mas, depois que se estabilizou, consegui relaxar um pouco. Tinha de fazer isso. Em viagem tão longa, é preciso inventar uma distração. E, por sorte, distração ali dentro não iria faltar.

Estávamos - eu e mais 120 brasileiros - a caminho do Festival Mundial da Juventude, que se realizaria na capital soviética. Como o voo era especial, fretado, iam conosco as delegações da Argentina, do Chile e do Uruguai. Com isso, o ambiente era o de uma gigantesca excursão escolar: mesmo antes da decolagem, ouviam-se conversas em voz alta, gritinhos, gargalhadas e até cantorias. Via-se gente de todas as idades nas delegações, mas, sendo o festival" da Juventude", a predominância era mesmo de jovens, o que contribuía para tanto barulho e animação.

Entre as quatro delegações, a mais barulhenta era, disparado, a do Chile. Os chilenos levavam instrumentos musicais, inclusive tambores, e, movidos pela sensação momentânea de
liberdade (o Chile ainda estava sob ditadura), passaram quase toda a viagem cantando músicas ufanistas, entre as quais uma dizendo, "Se va acabar, se va acabar/ La ditadura militar", e cuja melodia era parecida com a de um comercial do Danoninho.

Em termos de decibéis, a delegação brasileira não ficava tão atrás. Éramos jornalistas (no meu caso, subeditora dos Jornais de Bairros, do Globo), políticos (como os muito jovens Aé­
cio Neves, Zeca Sarney e Sérgio Cabral Filho) e artistas, como o grupo Blitz (ainda a bordo de seu sucesso "Você não soube me amar"), a cantora Joyce, os cantores e compositores Fagner, Gonzaguinha e Martinho da Vila, a atriz Debora Bloch e o cineasta Silvio Tendler.

Mas quem fazia mais barulho eram as juventudes dos partidos políticos (todos representados, inclusive os "de direita") e de outras organizações (do MR-8 e da Convergência Socialista até as Pastorais da Juventude da Igreja Católica, numa grande miscelânea democrática).

Fosse qual fosse a tinta ideológica, era uma garotada deslumbrada, e com razão, pela perspectiva de conhecer Moscou. Muitos nunca tinham saído sequer de sua cidade, quanto mais do Brasil.

A viagem fora financiada pela própria União Soviética - ou seja, éramos todos convidados -, e como, na época, a Aeroflot não operava no Brasil, o voo teve de sair da Argentina. Os deslocamentos do Brasil até Buenos Aires ficaram por conta dos partidos e organizações.

Mas, por algum motivo, houve gente que acabou tendo de pagar do próprio bolso e, como ir de avião para o país vizinho era caro, muitos foram de ônibus mesmo.

Só que, depois de decolar do aeroporto de Ezeiza, ficamos sabendo que, logo nas primeiras horas de viagem, nosso avião faria uma escala em ... Recife. A Aeroflot conseguira licença especial e desceria na capital pemambucana para abastecer.

Era preciso fazer isso antes de cruzar o Atlântico rumo à África, porque o Tupolev tinha pouca autonomia. Com isso, criou-se uma situação estranha: muitas pessoas da delegação brasileira tinham saído dali mesmo de Recife, ou de outras cidades do Nordeste, viajado milhares de quilômetros de ônibus até a Argentina e tomado um avião, para acabar voltando ao mesmo ponto de onde tinham partido.

A estranheza aumentou quando o Tupolev, ao pousar no aeroporto dos Guararapes, foi cercado por tropas do Exército brasileiro. Afinal, sendo uma aeronave russa, podia estar repleta de perigosos espiões (lembrar que, em 1985, o Brasil mal saíra dos 21 anos de ditadura militar). Com isso, tivemos de ficar trancados dentro da aeronave enquanto ela permaneceu
na pista, com o ar-condicionado desligado e sob forte calor.

A revolta foi geral. Alguns tentavam se comunicar por mímica através das janelinhas do avião, procurando alertar as tropas de que éramos brasileiros. Os militares, muito sérios e fortemente armados, nem nos olhavam. O compositor e violonista Geraldo Azevedo, que é de Recife e cuja mulher estava esperando bebê, quis sair do avião e dar um telefonema para saber se estava tudo bem, mas foi impedido. A escala quase terminou em incidente diplomático. Mas não houve jeito.

Depois de horas de espera, o Tupolev, finalmente livre de suspeita e cheio de combustível, decolou para a longa noite sobre o Atlântico.

Devo ter dormido. Às vezes, nos aviões, obrigo-me a adormecer por puro medo. E, quando acordei, já nos aproximávamos de Dacar, no Senegal. Seria a primeira de duas escalas na África, mas tanto nessa quanto na outra, em Argel, mal teríamos oportunidade de esticar as pernas no aeroporto.

Seria o tempo de abastecer o monstruoso Tupolev e seguir viagem. A essa altura, as aeromoças da Aeroflot já estavam num estado de dar pena.

Aquele bando de jovens agitados, mais os chilenos cantando aos gritos a noite toda, deixara as pobres mulheres descabeladas, com olheiras profundas e as golas amassadas. Talvez por
vingança, o menu que elas nos serviram como café da manhã consistia de carne de porco boiando em gordura, acompanhada de batata frita. "Batata frita!" - um verso da Blitz -, deve ter gritado, de sua poltrona, Evandro Mesquita. Mas, não, era só o nosso primeiro contato com a culinária russa.

Para compensar a comida horrível, tivemos um momento de pura beleza entre Dacar e Argel. Voamos durante quase duas horas sobre as dunas do deserto do Saara, que pareciam
um mar de espuma, ou um leito de nuvens ondulantes. Depois da escala na Argélia, um pouco mais longa que a de Dacar, seguimos direto para - enfim - Moscou. Com 24 horas de voo
e quase metade disso de diferença de fuso horário, eu já não tinha ideia das horas. Sei apenas que estava escuro quando chegamos à capital soviética, significando alguma coisa entre uma e três horas da manhã, porque era julho e sabíamos que, no verão, o sol russo se põe à meia-noite e renasce dali a pouco.

Assim que saímos do avião, fomos levados aos ônibus que nos esperavam na porta do aeroporto e informados de que não precisaríamos nos preocupar com as malas, pois elas viriam depois.

As delegações do Chile, da Argentina e do Uruguai foram para outro setor. Nós, brasileiros, tínhamos entrado de forma aleatória nos diversos ônibus, sentando muitas vezes ao lado
de pessoas desconhecidas. Agora queríamos apenas chegar e descansar. Dali a alguns minutos, porém, entrou no meu ônibus uma loura sinistra, de óculos, parecida com a Frau Blücher
do filme Jovem Frankenstein (1974), do Mel Brooks.

Colocou-se lá na frente e começou a falar conosco em perfeito português - com sotaque lusitano. Mais engraçado ainda foi quando ela anunciou que seríamos levados para o hotel e que, para facilitar a organização, deveríamos estar sentados no ônibus ao lado daquelas pessoas com quem quiséssemos "morar". O erro ao escolher o verbo foi fatal: o ônibus inteiro explodiu na gargalhada. Piadas não faltaram. E a moça nos olhando sem entender.

Mas ela não desanimou. Quando as gargalhadas acalmaram, recomeçou seu discurso. Toda empertigada, avisou que deveríamos, dali em diante, entrar sempre no mesmo ônibus
em todos os deslocamentos e que, para isso, precisávamos decorar o número dele. "Repitam comigo, por favor", disse. "0 número do ônibus de vocês é 143." A reação foi imediata: o
coro de "143, 143, 143", entremeado por uma batucada infernal, mostrou que a jovem ia ter muito trabalho com aqueles brasileiros malucos. E não sabíamos ainda, mas a lourinha gelada seria nossa guia - e vigia - pelo resto da viagem.

Seguimos de ônibus para o hotel. Será possível descrever o estado físico em que estávamos? Todos no último bagaço. Mas, na União Soviética, o cansaço devia ser visto como um desvio
pequeno-burguês porque, quando chegamos ao hotel - um gigantesco complexo chamado Ismailov, construído para a Olimpíada de Moscou, cinco anos antes -, fomos levados a uma sala de cinema. Lá, soubemos que assistiríamos a alguns desenhos animados russos, enquanto esperávamos a chegada das malas! Quando percebemos o que estava acontecendo, a gritaria foi geral. E, cedendo aos nossos protestos, os russos nos levaram de volta ao saguão do hotel, para esperar lá.

Dali a pouco, as malas chegaram. Mas a burocracia russa parecia se infiltrar em tudo, e o processo de registro e entrega das chaves dos quartos era muito lento, quase parando - doloroso para quem, como nós, viajava havia tantas horas e já nem sabia se era dia ou noite. Foi quando Geraldo Azevedo - ele mesmo -, sentado numa poltrona do saguão, esticou as pernas e, brasileiramente, apoiou-as sobre a própria mala, para relaxar um pouco. Uma das jovens russas que falavam português (eram muitas, como já tínhamos constatado) aproximou-se e mandou-o tirar os pés de cima da mala.

Geraldinho se espantou:

"Mas a mala é minha!"

A jovem amarrou a cara e insistiu: que ele tirasse os pés de cima da mala e se sentasse direito, porque aquela postura não era permitida no saguão. A coisa ameaçava acabar mal, até que alguém intercedeu e convenceu o músico a obedecer. Mas ali tivemos uma ideia bem clara da interferência do Estado na vida das pessoas - era proibido relaxar em saguões de hotel.

o primeiro dia em Moscou a gente nunca esquece. Mas nosso próprio aniversário, sim. Foi tamanho o impacto da chegada à capital soviética - a viagem louca, o fuso horário, o
amanhecer, a agitação, a beleza quase indescritível da cidade de cúpulas de ouro, o calor do verão, o sol da meia-noite - que me esqueci de um detalhe: aquele primeiro dia em solo russo era meu aniversário. Só me dei conta disso no dia seguinte, quando já era 27 de julho. Fiquei com uma sensação de perda.

Mas, paciência.

Assim que acordamos naquele primeiro dia, todos tivemos, pelo visto, a mesma ideia: pegar o célebre metrô de Moscou e ir para a praça Vermelha. Não sei se foi algo combinado no café
da manhã, ou no saguão do hotel. Só sei que, de repente, eu e outros tantos brasileiros estávamos saindo de um vagão e subindo uma escada rolante em direção à superfície. Lembro do momento exato em que, à medida que os degraus me levavam para cima, as cúpulas coloridas da catedral de São Basílio iam surgindo, primeiro a mais alta, dourada, depois as coloridas, com seus diversos padrões, como cones de sorvete num castelo de conto de fadas.

Quem se defronta com um prédio, paisagem ou obra de arte depois de tê-la visto muitas vezes estampada em livros tem um estremecimento. Senti isso quando pela primeira vez me vi frente a frente com a Mona Lisa, no Louvre, ou com o Davi de Michelangelo, em Florença. Mas a visão da praça Vermelha foi um soco no peito.


Lentamente, demos os primeiros passos pela esplanada, com seu chão de pedras, olhando tudo aquilo em estado de êxtase. Uma beleza difícil de adjetivar. Não era só a catedral, era toda a praça. O gigantismo da praça Vermelha - de um lado, São Basílio, do outro, as muralhas e torres do Kremlin e, no meio, a esplanada imensa - faz o ser humano se sentir
diminuto, quase ao ponto da opressão.

Aliás, toda a cidade de Moscou fez que me sentisse assim. A Rússia czarista e a União Soviética comunista tinham isto em comum: a capacidade de apequenar o homem.

Diz a lenda que o czar Ivan, o Terrível, ao ver a catedral de São Basílio pronta, em 1561, mandou cegar o arquiteto Postnik Yakovlev para que ele nunca mais fizesse algo tão belo.
Alguém contou isso em voz alta enquanto caminhávamos, e a frase provocou um silêncio naqueles brasileiros tão falantes. A Rússia é assim, uma nação feita com tanto sangue e drarnaticidade que nos deixa mudos.

Em contra posição aos cones coloridos e multiformes da catedral, mais adiante, por trás das muralhas do Kremlin, cúpulas e mais cúpulas de ouro cintilavam contra o céu azul, inclusive
a torre Spasskaya, com o famoso relógio. O rio Moscou, com suas pontes, me fez lembrar o Sena. E as avenidas larguíssimas chamavam a atenção por seu chão lustroso, tudo sempre muito limpo, nem uma folha, nem uma guimba de cigarro, nem um palito de fósforo.

Ainda na praça Vermelha, outra construção atraiu nossos olhares e ficamos sabendo que era o GUM, o mercado público de Moscou. A sigla referia-se ao Gosudarstvenny Universalny
Magazin, que, com seus três andares e mais de cem lojas, era a maior loja de departamentos da Rússia. Construído na última década do século XIX (e reconstruído em 1953), o mercado, com estrutura de metal e teto abobadado, de vidro, faz lembrar a Galeria Vittorio Emanuele, de Milão, só que em tamanho menor. É lindíssimo, com chão de mármore colorido, arcadas, va­
randas e passagens internas em metal trabalhado.

 

Texto de  Ruy Castro

Acordar numa cidade que não a nossa é sempre uma experiência e, não importa de onde você venha, acordar em Veneza é uma experiência difícil de superar. Principalmente se você também passou ali a noite e a madrugada anteriores — o que significa que, ao contrário de 99% dos turistas, você chegou a Veneza para ficar por alguns dias e, se não se cuidar, seu coração pode escapar pela boca no alto da ponte dos Suspiros e rolar para dentro do canal.

Mas, enfim, você acabou de acordar em Veneza, já se maravilhou com o cenário visto pela janela do hotel e saiu para dar uma volta. O histórico Caffè Quadri, na Piazza San Marco, com o aglomerado de mesas na calçada, parece ideal para se tomar, com toda a calma do mundo, o primeiro espresso da temporada. São dez horas da manhã, o céu é de um azul alucinante e, milagre, a praça está quase vazia. Entre bocejos, meia dúzia de turistas alimenta outra meia dúzia de pombos. Os pombos também estão bocejando. O silêncio cobre a praça, envolve a basílica de novecentos anos e conforta as poucas almas ao seu lado no café.

Ali, naquele próprio Caffè Quadri, há 150 anos, Balzac e Stendhal costumavam sentar-se às mesas ao ar livre, talvez buscando ideias para seus livros. Quem sabe se capítulos inteiros de Pai Goriot, de Balzac, ou de A cartuxa de Parma, de Stendhal, não foram bolados na mesma mesa em que você se sentou, entre goles de uma delícia introduzida pelo Quadri em fins do século XVIII: o caffè alla turca, precursor do espresso. No tempo de Balzac e Stendhal, a dose ainda era tão forte quanto generosa — o café vinha em canecas e levava o dia todo para ser tomado. Claro que, no fim do dia e da caneca, devia estar intragável, de tão frio e amargo, o que pode explicar o pessimismo que os dois escritores às vezes punham em seus romances. Com o tempo, o Quadri foi apurando e concentrando o espresso de tal forma que a dose diminuiu, passando a ser servida em xícaras — até chegarmos ao atual corto, com menos de uma unha de altura e outro tanto de espessura. Na verdade, o espresso é hoje um café tão curto que não se sabe por que não o servem em dedais.

Mas, enfim, ali está você, na sala de visitas de Veneza, e o sossego impera. Mas não por muito tempo. Dez da manhã é quando os vaporetti começam a desovar as levas de turistas na praça. E, de repente, eles surgem, em batalhões — 150, duzentos, trezentos de cada vez, por minuto! É o estouro da boiada. Japoneses, americanos, alemães, o que você quiser, brotam do cais em bandos, como soldadinhos de chumbo, olham para cima e para os lados e, respectivamente, exclamam coros de “Ohnnn!”, “Wow!” e “Putzig!”. À frente de cada pelotão, a oitenta quilômetros por hora, segue marcialmente uma guia, de braço levantado e empunhando uma bandeirinha, para que ninguém do grupo se perca e se junte sem querer a outro grupo de turistas paraguaios ou afegãos. E com razão, porque são 70 mil turistas por dia em Veneza, para engrossar uma população residente de apenas 270 mil.

Eles vêm de toda parte, e só o comportamento é igual. Chegam, espalham-se como formigas pelos canaletos, pontes e vielas, cruzam os canais nos vaporetos, gôndolas e motoscafos, galopam pelos museus, igrejas e edifícios históricos, infestam as lojinhas de suvenires e disputam camisetas de gondoleiros nos camelôs como se, embora esteja ali há 1500 anos, Veneza fosse acabar no dia seguinte. Bem, essa hipótese não está descartada — sob o peso desses exércitos que marcham de tênis e botas sobre ela, não admira que a cidade esteja afundando.

E o pior é que a grande concentração é na Piazza San Marco. Do seu, até há pouco, delicioso posto de observação no Caffè Quadri, não há mais o que observar. Não só todas as mesas ao redor foram tomadas, como a praça ganhou uma plateia de comício. Ao meio-dia há mais turistas do que pombos, e eles já estão jogando milho uns para os outros — os turistas, quero dizer. E, então, seis horas depois, como que obedecendo a um invisível relógio de ponto, todos os turistas se enfiam nos barcos e vão-se embora também em massa.

Mas, já? — dirá você. Sim, a média de permanência dos turistas em Veneza é de seis horas — tempo em que eles precisam ver tudo. Mas, o que é ver tudo em Veneza e, mais ainda, em seis ou oito horas? É uma façanha, considerando que escritores como Goethe, Mark Twain, Proust, Hemingway, Ezra Pound e Mary McCarthy passaram um bocado de tempo nela, nos séculos XVIII, XIX e XX, e não viram tudo. Charles Dickens definiu-a como “a única cidade que tinha medo de descrever” — medo de não lhe fazer justiça —, e ele também não viu tudo. Lord Byron morou anos em Veneza, Henry James visitou-a quatorze vezes — e nem eles chegaram a ver tudo. Mas não vamos subestimar o turista contemporâneo.

Eu, por exemplo. Quando concluí que a única variedade em torno da Piazza San Marco estava na cor das bandeirinhas das guias de excursão, peguei o motoscafo (uma simpática lancha para cinco ou seis passageiros) e cruzei o canal Grande rumo ao Dorsoduro — que, como o nome indica, oferece reduzidas possibilidades de o turista molhar os pés. É a zona comparativamente seca da cidade, e que, por isso, atrai muito menos gente. Os poucos turistas que se aventuram pelo Dorsoduro o fazem por conta própria — não em manadas, o que o torna deliciosamente passeável.

A exemplo do poeta Robert Browning, em 1885, e do compositor Cole Porter, em 1921, desci perto do Ca’ Rezzonico e fui direto para o próprio. O Rezzonico é um palazzo do século XVIII, defronte ao canal. A diferença é que Robert Browning e Cole Porter o adentraram para morar nele, enquanto eu tive de me contentar em visitá-lo, já que é hoje um museu. Os dois imprimiram sua marca no Rezzonico: Browning, para não deixar dúvidas, morreu nele, em 1889, ao passo que Cole, trinta anos depois, agitou-o pelas festas que dava ali — festas para as quais convidava seus oitocentos amigos mais íntimos, e os salões continuavam vazios, o que dá uma ideia do tamanho dos ambientes. E não só o tamanho: alguma coisa, nos tetos e paredes do Rezzonico, faz com que, ao passar por aqueles espelhos e se ver refletido de tênis, jeans e camiseta, você se pergunte, como eu fiz, se não estará mais bem vestido para um rodeio em Barretos do que para um bordejo por Veneza.

Flanando pelo Dorsoduro, perdendo-se naquele dédalo de ruelas, você refaz os caminhos de escritores como George Sand em Abril em Veneza, Charles Dickens em Um sonho italiano e Thomas Mann em Morte em Veneza. Se tiver uma cabeça mais de cinema (por que não?), pode refazer também os românticos caminhos de Katharine Hepburn e Rossano Brazzi em Quando o coração floresce (Summertime, 1955), de Florinda Bolkan em Anônimo veneziano (1970), de Woody Allen e Julia Roberts em Todos dizem eu te amo (1998) e até mesmo os de Julie Christie no assustador Um inverno de sangue em Veneza (Don’t look now, 1973) — todos esses clássicos foram rodados ali.

Veneza exige olhos bem abertos, e como foi que não pensei nisso antes? Fazer expedições literárias ou cinematográficas pode ser a melhor maneira de explorar uma cidade sem ter de disputar espaço a cotoveladas com 515 turistas por metro quadrado. Por algum motivo, eles não se interessam por esses lugares que, no passado remoto ou recente, atraíram tanta gente criativa e/ou louca. É verdade que, por não querer se misturar a eles, você correrá o risco de ser chamado de esnobe e de metido a sebo.

E daí? Você está em Veneza, onde a piedade matou minhas ninfas (um verso de Ezra Pound, que morreu lá) e, um dia, haverá um preço a pagar por tanta beleza
 


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Marcio Mafra
15/11/2013 às 00:00
Brasília - DF

Ari Mafra Filho, irmão querido, me presenteou este livro escrito por dois grandes jornalistas: Ruy Castro e Heloisa Seixas. Coisa de estilo. 


 

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