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O Quarteto de Alexandria - Mountolive

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O Quarteto de Alexandria - Mountolive

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Autor: Lawrence Durrell

Editora: Ediouro

Assunto: Romance

Traduzido por: Daniel Pellizzari

Páginas: 271

Ano de edição: 2006

Peso: 485 g

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Ótimo
Marcio Mafra
10/11/2013 às 19:34
Brasília - DF
Mountolive é o penúltimo livro do exuberante romance Quarteto de Alexandria. Exuberante pelo conteúdo, pelo talento do autor, pela história em si, e exuberante pelo volume de de quase 1.200 páginas, somados os quatro livros. A historia se passa em Alexandria, quando a cidade e toda a região já estavam vivendo sob o clima angustiante do inicio da 2ª Guerra Mundial. O personagem principal é David Mountolive, que volta ao Egito na qualidade de embaixador do Reino Unido. As intrigas e as relações amorosas entre Nessim, Melissa, Justine, Narouz, Pursewarden continuam complicadas. O Embaixador passa a maior parte do tempo recordando a sua paixão por Leila, que era mãe de Nessim. Mesmo com o ingresso de outros personagens a leitura fica monótona, parecendo se arrastar, como se o autor precisasse esticar tudo para chegar ao quarto e ultimo episódio do romance Quarteto de Alexandria. A passagem do suicídio de Pursewarden está mo trecho selecionado, coisa que qualquer leitor se o ler, vai querer buscar o livro inteiro. É quando, em mais uma entre muitas passagens salta o talento de Lawrence Durrel. Livro ótimo.

Marcio Mafra
10/11/2013 às 00:00
Brasília - DF

A historia de David Mountolive, que retorna ao Egito como embaixador do Reino Unido, fato que acrescenta mais glamour às intrigas e discussões, encontros e desencontros amorosos dos personagens principais Nessim, Melissa, Justine, Narouz, Pursewarden. Mas a proximidade da Segunda Guerra Mundial também os leva as inevitáveis digressões de ordem política.

Marcio Mafra
10/11/2013 às 00:00
Brasília - DF

Mountolive estava em visita oficial às processadoras de algodão no Delta quando Telford telefonou para dar a notícia. Dividido entre a incredulidade e o choque, não conseguia acreditar no que ouvia. Telford falava com um ar de importância, tornado estranho pela voz turva em razão de sua dentadura mal ajustada; a morte era um assunto importante em seu ofício. Mas a morte de um inimigo! Precisou esforçar-se por manter um tom grave, taciturno, compassivo, sem dar sinais de satisfação pessoal. Falava como um legista.


- Sir, como imaginei que gostaria de ser informado, tomei a liberdade de interromper sua visita. Nimrod Paxá telefonou-me no meio da noite e fui até lá.
Quando cheguei, a polícia já havia lacrado o quarto para a investigação; o dr. Balthazar estava lá. Conferi a cena enquanto ele preenchia o atestado de óbito. Recebi permissão de recolher documentos pessoais pertencentes ... ao falecido. Nada de muito interesse. O manuscrito de um romance. Foi uma grande surpresa. Receio que estivesse muito embriagado, como de costume. Sim.

- Mas ... - hesitou Mountolive enquanto o ódio e a incredulidade se misturavam em sua mente como óleo e água. - Por que cargas d'água ... - Suas pernas fraquejaram. Puxou uma cadeira e sentou -se, nervoso. - Sim, sim, Telford, prossiga.
Conte-me tudo o que sabe.

Telford pigarreou, consciente do interesse despertado pela notícia, e tentou organizar os fatos em sua mente confusa.
- Bem, sir, conseguimos reconstituir seus últimos passos. Ele veio até aqui, malvestido e com a barba por fazer (segundo Errol), e perguntou por Vossa Excelência, que acabara de partir. De acordo com a secretária de Vossa Excelência, ele sentou-se diante da mesa e escreveu alguma coisa, levou um bom tempo, que lhe deveria ser entregue pessoalmente. Insistiu em marcar o envelope com a palavra "Secreto" e lacrá-Io com cera. Está no cofre de Vossa Excelência. Depois disso, parece ter se dedicado a ... bem, à farra. Passou o dia inteiro numa taberna à beira-mar, perto de Montaza, onde costumava ir com alguma freqüência. É uma cabana simples na praia: paredes de madeira, teto de folhas de palmeira, pertencente a um grego. Passou o dia todo por lá, escrevendo e bebendo. De acordo com o proprietário, bebeu uma quantidade assombrosa de zibib. Pediu para que lhe colocassem uma mesa na praia, sobre a areia. Como ventava muito, o homem sugeriu que seria melhor ficar abrigado na cabana. Mas não. Queria sentar-se em frente ao mar. No final da tarde comeu um sanduíche e voltou de bonde para cidade. Então me telefonou.

- Sim, e?
Telford hesitou, engolindo em seco.
- Veio ao meu gabinete. Devo dizer que, apesar de não estar barbeado, parecia num humor excelente. Fez algumas piadas. Então pediu um comprimido de cianureto, Vossa Excelência sabe do que estou falando. Não direi mais nada. Esta linha não é segura. Espero que compreenda, sir.

- Sim, sim - gritou Mountolive. - Prossiga, homem.
Mais tranqüilo, Telford continuou falando, sem tomar fôlego:

- Disse que pretendia envenenar um cão doente. Como aquilo me pareceu razoável, dei a ele um comprimido. Segundo o dr. Balthazar, foi provavelmente isso o que ele ingeriu. Sir, espero que Vossa Excelência não pense que, de alguma forma, fui ...

Mountolive não pensava em coisa alguma, exceto na indignação crescente que sentia. Como um membro de sua Embaixada tinha sido capaz de criar um incômodo daqueles, um ato tão público? Não, era inacreditável. "Que tolice", comentou consigo mesmo. Mas não conseguia deixar de sentir que talvez Pursewarden tivesse alguma culpa. Ora, era muita falta de consideração, muita grosseria - além de misterioso demais. Enxergou o rosto de Kenilworth pairando sobre si por um instante. Sacudiu o receptor para melhorar a qualidade da ligação e gritou:

- Mas o que significa tudo isso?
- Não sei - admitiu Telford, impotente. - É um grande mistério.

Pálido, Mountolive voltou-se para o grupo de paxás que o aguardava perto do telefone e murmurou alguns pedidos de desculpas. Todos agitaram as mãos, como uma revoada de pombos, dando a entender que não se incomodavam. Não era problema algum. Um embaixador costumava estar envolvido com eventos grandiosos. Eles podiam esperar.

- Telford - disse Mountolive, impaciente e furioso.
- Sim, sir.
- Conte tudo o que sabe.
Telford pigarreou e continuou a falar com sua voz turva:
- Bem, em meu ponto de vista não há nada de importância excepcional. A última pessoa a vê-lo com vida foi o tal Darley, um professor. Creio que Vossa Excelência não o conhece. Bem, ele encontrou Darley quando voltava ao hotel e convidou-o para beber em seu quarto. Ficaram lá por um tempo considerável, conversando e bebendo gim. No quarto do hotel. O falecido não fez nenhum comentário digno de nota, e certamente não deu a entender que tinha a intenção de tirar a própria vida.

Pelo contrário. Afirmou que pegaria o trem noturno para Gaza, onde passaria as férias. Mostrou a Darley as provas de seu último romance, já revistas e prontas para serem remetidas ao editor, e um impermeável repleto de objetos que lhe seriam úteis na viagem: um pijama, creme dental.

Por que mudou de idéia? Não sei, sir. Mas a resposta pode estar no cofre de Vossa Excelência. Foi por isso que telefonei.
- Entendo - respondeu Mountolive. Era estranho, mas já começava a acostumar-se com a saída de cena de Pursewarden. O choque diminuía, abrandava: restava apenas o mistério. Telford seguia balbuciando na linha. - Sim - disse Mountolive, voltando a si. - Sim.

Em questão de instantes Mountolive recuperou sua pose oficial e conseguiu fingir um interesse afável nas engrenagens ruidosas. Esforçava-se arduamente por não parecer distante e fazia de conta que estava impressionado com o que via. Ao mesmo tempo, tentava analisar a raiva absurda que sentira de Pursewarden por ter cometido um ato que lhe parecia ... uma falha grotesca!

Era absurdo. Ainda assim era um ato característico, justamente por sua falta de consideração: talvez devesse tê-Io previsto. Uma depressão profunda alternava-se com seus acessos de raiva.

Depois entrou no carro e voltou às pressas, tomado por uma expectativa urgente, um desconforto. Era como se esperasse chegar e encontrar Pursewarden, exigir uma explicação e passar-lhe uma reprimenda merecida.

Quando chegou, a Chancelaria estava fechando suas portas, embora o dedicado Errol ainda estivesse ocupado com documentos oficiais em seu gabinete. Todos, incluindo os funcionários da Criptografia, pareciam afligidos pela atmosfera deprimente que a morte súbita lança sobre os vivos, colaborando para seu desconforto.

Forçou-se a caminhar devagar, falar devagar, não demonstrar pressa. Assim como a emoção, a pressa é sempre deplorável, pois sugere que os impulsos ou os sentimentos estão dominando quando somente a razão poderia estar no comando.

Sua secretária já havia ido embora, mas Mountolive obteve a chave do cofre nos Arquivos e, como se estivesse sob efeito de sedativos, subiu atônito os dois lances de escada que levavam ao seu gabinete. Felizmente as batidas de nosso próprio coração não podem ser ouvidas por outras pessoas.

Os "bens" do falecido (a poesia da causalidade!) estavam amontoados sobre a mesa, com um estranho ar fúnebre.

Uma pilha de papéis e manuscritos, um pacote endereçado a um editor, um impermeável e diversas miudezas reunidas pelo minucioso Telford em sua preocupação com a verdade (embora pouco valessem para Mountolive).

Levou um susto quando enxergou os traços lívidos de Pursewarden sobre o mata-borrão - uma máscara mortuária em gesso, acompanhada por um bilhete de Balthazar que dizia: "Tomei a liberdade de tirar uma impressão do rosto após a morte. Espero que lhe pareça uma atitude sensata:'

O rosto de Pursewarden! Vista de certos ângulos, a morte lembra um acesso de mau humor. Hesitante, Mountolive encostou na efígie com uma relutância supersticiosa, movendo-a de lá para cá. Uma sensação tênue de repugnância perpassou sua carne; percebeu de repente que tinha medo da morte.

Então foi até o cofre e retirou o envelope, cujo lacre feito às pressas rompeu com o polegar trêmulo antes de se sentar diante da mesa. Talvez encontrasse, enfim, alguma espécie de exegese racional para aquela grosseria, aquela falta de educação!

Respirou fundo.

"Meu caro David,
"Rasguei meia dúzia de outras tentativas de explicar tudo isso em detalhes. Percebi que tentava fazer literatura. E disso chega. Minha decisão está relacionada com a vida. Paradoxo! Mil desculpas, meu camarada.


"Por mero acaso, de forma inesperada, descobri que as teorias de Maskelyne acerca de Nessim estavam corretas, e as minhas, erradas. Não revelo minhas fontes, nem revelarei. Mas agora não tenho dúvidas de que Nessim está contrabandeando armas para a Palestina e tem feito isso há algum tempo. É ele a fonte desconhecida profundamente implicada nas operações descritas no Documento Sete - você lembrará. (Arquivo Secreto 341. Inteligência.)

"Simplesmente não sou capaz de enfrentar as implicações morais dessa descoberta, nem mesmo as menores. Sei que algo precisa ser feito. Mas esse homem é meu amigo. Portanto ... quietus. (Isso também solucionará outros problemas, ainda mais profundos.) Arre! Que mundo aborrecido criamos. Todo esse lodaçal de planos e contraplanos. Acabo de reconhecer que não pertenço a esse mundo de forma alguma. (Posso escutá-lo praguejando.)

"De certo modo, sinto-me um canalha por fugir de minhas responsabilidades dessa maneira, ainda que na verdade saiba que não são realmente minhas. Nunca foram. Mas são suas! E agora descobrirá quanto são amargas. Mas ... você é um diplomata de carreira ... e deve agir em meu lugar, pois não tenho forças para tanto.

"Consciente de que faltei com meu dever, fiz com que Nessim soubesse de forma indireta que sua operação foi descoberta, e as informações, passadas adiante. Claro, fiz isso de um modo tão impreciso que você pode até desconsiderar, esquecer que o fiz. Não invejo suas tentações, que contudo também eram minhas. Ainda que eu não saiba o porquê. Estou cansado, meu querido amigo; é um cansaço mortal, como dizem os vivos.

"E assim ...

"Poderia dizer à minha irmã que a amo e pensei nela em meus últimos momentos? Obrigado.

Com afeto,
L. P:'

Mountolive ficou horrorizado. Sentia o sangue escapando do rosto enquanto lia aquela carta.

Então ficou imóvel por um longo tempo, encarando o rosto na máscara mortuária - a impertinência solitária que o perfil de Pursewarden sempre demonstrava em repouso; mas sem parar de embater-se com a sensação absurda de ultraje diplomático que zanzava por sua mente, brilhando como relâmpagos dífusos.

"É loucura!", gritou, aflito, dando um tapa na mesa. "Pura loucura! Ninguém se mata por motivos oficiais!"

Amaldiçoou a estupidez daquelas palavras assim que terminou de pronunciá-Ias. Pela primeira vez, sua mente foi invadida pela mais completa confusão.

Para ficar mais calmo, forçou-se a ler o relatório datilografado de Telford lenta e cuidadosamente, pronunciando as palavras em voz alta, como se aquilo fosse um exercício. Era um relato dos passos de Pursewarden nas 24 horas anteriores à sua morte, com depoimentos das diversas pessoas que o haviam visto.

Alguns eram interessantes, especialmente o depoimento de Balthazar. Vira Pursewarden cedo, no Café AI Aktar, bebendo áraque e comendo um croissant. Ao que parecia, recebera naquela manhã uma carta da irmã, que lia com um ar de extrema preocupação.

Assim que Balthazar se aproximou, meteu a carta no bolso de forma abrupta. Estava desarrumado, com a barba por fazer. Sua conversa não teve muito de interessante, exceto por um único comentário (uma brincadeira, talvez?) que ficou na memória de Balthazar. Pursewarden tinha passado a noite anterior dançando com Melissa.

Comentou que ela era uma mulher com quem poderia se casar. ("Deve ter sido uma piada" acrescentou Balthazar).

Também contou ter começado outro romance, "inteiramente sobre o Amor': Mountolive suspirou ao passar seus olhos vagarosos pela página datilografada. Amor! Então, outra coisa estranha.

Pursewarden havia comprado um formulário de testamento, que preencheu determinando a irmã como executora literária e legando quinhentas libras para o professor Darley e sua amante.

Por algum motivo, ante datou o documento em alguns meses - talvez não lembrasse a data correta.

Pediu a dois funcionários da Criptografia que lhe servissem de testemunhas.

Telford tomara o cuidado de colocar a carta da irmã num envelope separado, fechado com lacre.

Mountolive leu-a atônito, sacudindo a cabeça, e então colocou-a no bolso, constrangido. Umedeceu os lábios, franziu o cenho e ficou olhando para a parede. Liza!

Errol, tímido, olhou para dentro da sala e ficou chocado ao perceber as lágrimas no rosto do chefe.

Retirou-se com delicadeza e voltou apressado ao seu gabinete, profundamente abalado por um sentimento de impropriedade diplomática semelhante ao que afligira o próprio Mountolive ao receber a ligação de Telford.

Errol sentou-se diante de sua mesa, nervoso, e pensou: "Um bom diplomata nunca deve demonstrar sentimentos:'

Com um ar soturno, acendeu um cigarro. Havia notado pela primeira vez os pés de barro de seu embaixador.

De alguma forma isso fortalecia seu senso de dignidade. No fim das contas, Mountolive era apenas um homem ... Mas ainda assim foi uma experiência devastadora.

No andar superior, Mountolive também acendera um cigarro para acalmar os nervos. O foco de sua apreensão transferia-se aos poucos do ato de Pursewarden - a inconveniência daquele mergulho no anonimato - para seu significado fundamental - às revelações que com ele surgiram.

Nessim!

Sentiu sua alma apertar-se, contrair-se, enquanto uma raiva ainda mais profunda começava a surgir.

Confiara em Nessim! ("Por quê?", quis saber a voz interior. "Não havia motivos para isso:')

Com seu perverso salto mortal, Pursewarden conseguira realmente transferir todo o peso daquela questão moral para os ombros de Mountolive.

Mexera no vespeiro: o velho conflito entre o dever, a razão e as afeições pessoais; a cruz de todos os homens envolvidos com política, o calcanhar-de-aquiles de suas vidas! "Que porco': pensou (quase com admiração).

Pursewarden tinha atirado aquilo em seus ombros com tanta facilidade - a facilidade tão sedutora de sua decisão: retirada! Triste, concluiu:

"Confiei em Nessim por causa de Leila!" Humilhação sobre humilhação.

Fumava imóvel, enxergando no rosto morto de gesso (moldados pelas mãos atenciosas de Clea a partir do negativo desajeitado de Balthazar) o rosto quente e vivo do filho de Leila: os traços morenos e abstratos de um afresco de Ravena! O rosto de seu amigo.

Seus pensamentos expressaram-se em murmúrios: "No fim das contas, é possível que Leila esteja por trás de tudo isso:'

("Diplomatas não têm amigos verdadeiros", desdenhara Grishkin, tentando magoá-Io, provocá-Io. "Usam as pessoas:'

Dava a entender que ele havia usado seu corpo, sua beleza: e agora estava grávida ... )

Exalava a fumaça profunda e vagarosamente, revigorado pelo oxigênio saturado de nicotina que dava tempo para seus nervos se acalmarem, para seu cérebro pensar com clareza.

Quando o nevoeiro se dissipou, descobriu uma nova paisagem diante de si; pois ali estava algo que fatalmente modificaria toda a estrutura do acaso e da amizade, todas as datas no calendário afetivo que sua mente havia compilado para sua estadia no Egito: o tênis, a natação, as cavalgadas.

Mesmo esses atos simples, de congraçamento com o mundo cotidiano dos prazeres sociais, com o alívio do taedium vitae de seu isolamento, haviam sido infectados por aquela revelação.

Além disso, o que faria com as informações que Pursewarden lhe havia atirado no colo sem nenhuma cerimônia? Aquilo precisaria ser relatado, sem dúvida.

Fez uma pausa. Precisaria mesmo ser relatado?

Nenhuma informação naquela carta tinha qualquer lastro de evidências concretas - exceto talvez pela evidência devastadora de uma morte ocorrida ...

Acendeu um cigarro e murmurou as palavras: "Enquanto não estava em pleno domínio de suas faculdades mentais:'

Aquilo, pelo menos, merecia um sorriso amargo! Afinal de contas, o suicídio de um adido político não era algo tão incomum; lembrou-se do caso do jovem Greaves, apaixonado por uma dançarina de cabaré na Rússia ...

Mas ainda se ressentia por sua amizade ter sido traída pelo escritor.


Muito bem. E se apenas queimasse a carta, livrando-se com isso da responsabilidade moral que acarretava? Não teria dificuldades em fazê-lo, bastava um fósforo e sua própria lareira.

Continuaria a agir como se a revelação nunca tivesse sido feita - mas Nessim sabia! Não, havia mesmo caído numa cilada.

Percebeu de repente. Até agora, suas relações pessoais haviam estado livres de qualquer atrito por conta do tato de Nessim - e da existência de Pursewarden.

Servindo de mediador para assuntos oficiais, O escritor deixava ambos livres em sua vida pessoal. Nunca haviam sido forçados a discutir assuntos sequer remotamente ligados a questões oficiais.

Agora não poderiam mais encontrar-se com tamanha serenidade. Pursewarden também arruinara essa liberdade. Quanto a Leila, talvez essa fosse a chave para seu silêncio enigmático, sua incapacidade de encontrá-lo frente a frente.

Suspirando, telefonou para Errol.

- Melhor dar uma olhada nisto - disse. O chefe da Chancelaria sentou-se e começou a ler o documento com avidez.

Vez ou outra, meneava a cabeça. Mountolive pigarreou: - Parece-me deveras incoerente - disse.

Na mesma hora, sentiu desprezo por si mesmo ao lançar dúvidas sobre palavras tão claras, por tentar influenciar Errol num juízo que, em seu íntimo, já havia sido feito.

Errol leu a carta duas vezes, bem devagar, e devolveu-a à mesa.

- Parece-me deveras extraordinário - comentou, num tom vacilante e respeitoso. Não cabia a ele fazer interpretações. Eram uma prerrogativa do chefe.

- Parece- me um tanto desproporcional - acrescentou, menos hesitante.

Mountolive comentou, soturno:

- Receio que se trate de mais uma atitude típica de Pursewarden.

Começo a lastimar não ter acatado suas recomendações originais a respeito dele. Parece que eu estava errado sobre sua adequação. Você estava certo.

Nos olhos de Errol cintilou um modesto triunfo, mas ele não disse nada. Continuou olhando para Mountolive, que disse:

- Naturalmente, como você bem sabe, suspeitamos de Hosnani por algum tempo.

- Sei disso, sir.

- Mas ele não oferece prova alguma para sustentar suas afirmações. - Tamborilou dois dedos sobre a carta. Errol empertigou-se na cadeira.

- Não sei - disse, sem muita certeza. - Parece-me deveras convincente.

- Não creio - disse Mountolive- que justifique um relatório. Londres será informada da situação, naturalmente. Mas estou inclinado a não dizer nada 'à polícia do Egito. O que acha?

Errol sacudiu os joelhos, Um sorriso malicioso desenhou-se aos poucos em sua boca.

- Parece a melhor maneira de fazer isso chegar aos egípcios - sugeriu em voz baixa -, e eles decidiriam sozinhos se é necessário tomar providência. Isso evitaria a pressão diplomática que talvez tenhamos de exercer se ... mais tarde, a situação tomará uma forma mais concreta. Sei que Hosnani era seu amigo, sir.

Mountolive sentiu-se enrubescer.

- Em questões profissionais, um diplomata não tem amigos - respondeu, severo, notando em sua voz um eco de Pôncio Pilatos.

- Sem dúvida, sir. - Errol encarou-o com admiração.

- Se a culpa de Hosnani for confirmada, teremos de agir. Mas, sem provas, nossa posição é pouco sustentável. Com Memlik Paxá ... você sabe que ele não é muito favorável aos britânicos ...

Penso que talvez ...

- Sim, sir?

Mountolive fez uma pausa, respirando fundo como um animal selvagem, farejando em Errol um início de aprovação.

Ficaram algum tempo sentados na penumbra, refletindo. Então, com um gesto histriônico, o embaixador ligou o abajur de sua mesa e declarou:

- Se você concordar, manteremos essa informação a salvo dos egípcios até que tenhamos uma confirmação mais substancial. Londres ficará sabendo de tudo.

De forma confidencial, naturalmente. Nenhum civil lerá esta carta, nem mesmo parentes. A propósito, pode se encarregar das cartas aos familiares? Deixarei com você a tarefa de inventar

alguma coisa. - Sentiu um aperto no peito ao enxergar na mente o rosto de Liza Pursewarden.

- Sim. Estou com o arquivo. Além da esposa, creio que só existe uma irmã, interna do Instituto Imperial para os Cegos. - Errol começou a folhear o conteúdo de uma pasta verde, mas Mountolive o interrompeu:

- Sim, sim. Conheço-a.

- Errol levantou-se.

Mountolive acrescentou:

- E creio que seria justo informar Maskelyne em Jerusalém, não concorda?

- Sem dúvida, sir.

- E guardar segredo por ora?

- Sim, sir.

- Muito obrigado - disse Mountolive com uma cordialidade pouco comum.

Sentiu-se de repente muito velho e frágil. Sentia-se tão fraco que chegou a duvidar de sua capacidade de descer as escadas até a Residência.

- Por enquanto é só.

- Errol despediu-se e fechou a porta ao sair, com a seriedade de um mudo.

Mountolive telefonou para a despensa e pediu uma taça de caldo de carne e bolachas. Comeu e bebeu com voracidade, sem tirar os olhos da máscara branca e do manuscrito.

Sentia ao mesmo tempo uma profunda repugnância e uma enorme sensação de luto - não sabia qual era mais forte. Sem saber, pensou Mountolive, Pursewarden também o havia

separado de Leila. Sim, isso também, e talvez para sempre.

Naquela noite, contudo, proferiu seu discurso incrivelmente espirituoso (redigido por Errol) na Câmara de Comércio de Alexandria, encantando os banqueiros ali reunidos com seu francês

fluente. As palmas ecoaram pelo augusto salão de banquetes do Clube Mohammed Ali.

Nessim, sentado na cabeceira oposta da longa mesa, falou em seguida, muito sério e calmo.

Durante o jantar, vez ou outra Mountolive sentia os olhos escuros do amigo a procurarem os seus, tentando ínterrogá-los, mas conseguiu evitá-los.

Entre os dois parecia ter surgido um abismo que nenhum deles sabia como cruzar.

Após o jantar, no saguão, encontrou Nessim por um breve momento enquanto vestia o casaco.

Na mesma hora sentiu um desejo quase irresistível de mencionar a morte de Pursewarden.

Nitidamente, o assunto pairava no ar que os separava.

Aquilo o envergonhava como uma deformidade física; como se o seu belo sorriso estivesse desfigurado pela falta de um incisivo.

Não disse nada, bem como Nessim.

Nada do que acontecia por sob a superfície manifestou-se na pose impassível daqueles dois homens que fumavam em frente à porta de entrada, esperando a chegada dos carros.

Entre eles, porém, erguia-se a barreira obstinada de uma revelação.

Como era estranho que algumas poucas palavras rabiscadas sobre um pedaço de papel tivessem o poder de torná-los inimigos!

Sentado confortavelmente em seu carro oficial, decorado com uma bandeira britânica, fumando vagarosamente um excelente charuto, Mountolive sentiu sua essência mais íntima tornar-se tão empoeirada e sufocante como uma tumba egípcia.

Também era estranho que ao lado dessas preocupações mais profundas coexistissem outras, mais superficiais; estava encantado com seu sucesso em cativar os banqueiros!

Fora inegavelmente brilhante. Sabia que cópias de seu discurso, distribuídas com discrição, seriam reproduzidas na íntegra nos jornais do dia seguinte, ilustradas por retratos seus.

Aquilo causaria inveja aos colegas, como semprs, Como nunca alguém havia pensado em fazer uma declaração pública sobre o padrão-ouro usando aquelas palavras?

Tentou manter essa efervescência mental, concentrando­ se naquela satisfação, mas era inútil. Logo a Embaixada voltaria à sede de inverno.

Não se encontrara com Leila. Será que algum dia a veria novamente?

Dentro de si uma barreira desabou, uma represa explodiu.

Envolveu-se num novo conflito íntimo que marcava seu rosto com uma tensão inédita e dava um ritmo mais decidido aos seus passos.

Naquela noite sofreu um acesso excruciante da dor de ouvido que costumava celebrar seu retorno ao lar.

Era a primeira vez que tinha um acesso longe da presença segura da mãe.

Ficou assustado.

Tentou, sem efeito, medicar-se com o remédio caseiro usado desde sempre pela mãe, mas esquentou demais o óleo de cozinha e queimou-se gravemente no processo.

Após o incidente, passou três dias inquietos na cama, lendo histórias policiais e fazendo longas pausas para encarar a parede branca.

Pelo menos aquilo serviria como desculpa para sua ausência na cremação de Pursewarden - onde certamente encontraria Nessim.

Em meio às diversas mensagens e presentes que começaram a chegar assim que a notícia de sua indisposição começou a circular pela sociedade estava um esplêndido buquê enviado por Nessim e Iustine, com votos de uma pronta recuperação.

Como alexandrinos e amigos, era o mínimo que podiam fazer!

Pensou muito sobre eles naqueles dias e noites longos e insones, e à luz daquelas revelações enxergou-os pela primeira vez como enigmas.

Agora eram quebra-cabeças, e mesmo suas relações particulares assombravam-no como algo que nunca compreendera inteiramente, nunca analisara com frieza.

De algum modo sua amizade tinha impedido que os visse como pessoas que, como ele, viviam em diversos níveis simultâneos.

Conspiradores, amantes - qual seria a chave do enigma? Não fazia idéia.

Talvez fosse necessário recuar ainda mais no tempo para encontrar as pistas que buscava - ir muito além do que ele ou Pursewarden tinham conseguido enxergar no momento presente.

Muitos fatos sobre [ustine e Nessim não eram de seu conhecimento - e alguns eram decisivos para uma compreensão do caso.

Para isso, contudo, é necessário regressar mais uma vez ao período imediatamente anterior ao seu casamento.

 


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Marcio Mafra
10/11/2013 às 00:00
Brasília - DF

Desde abril de 2008 Quarteto de Alexandria, de Lawrence Durrell, com seus quatro livros: Justine, Balthazar, Mountolive e Clea, aguardam oportunidade de leitura. Aguardam porque não é necessária pressa para a leitura de clássicos.  O calendário já rolou e estamos no início de novembro de 2013.


 

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