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Trilogia Suja de Havana

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Trilogia Suja de Havana

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Autor: Pedro Juan Gutiérrez

Editora: Alfaguara

Assunto: Contos

Traduzido por: Ari Roitman e Paulina Wacht

Páginas: 348

Ano de edição: 2008

Peso: 360 g

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Ótimo
Marcio Mafra
09/10/2013 às 22:51
Brasília - DF
Nos anos 90 começou a ruir a União das Republicas Socialistas Soviéticas URSS. Politica e economicamente o comunismo foi perdendo para o capitalismo. Talvez o maior vilão da queda tenha sido o imensurável custo da corrida armamentista, durante a Guerra Fria. A verdade é que União Soviética esgotou a capacidade de sustentar os seus países membros: Lituânia, Letônia, Estônia, Bielo-Rússia, Ucrânia, Geórgia, Azerbaijão, Armênia, Rússia, Cazaquistão, Turcomenistão, Uzbequistão. Os países satélites também foram por água abaixo: Alemanha Oriental, Polônia, Tchecoslováquia, Romênia, Hungria, Bulgária. Outros países aliados, como os africanos Angola e Moçambique sofreram muito. No continente americano Cuba era a cereja do bolo comunista. O mundo comunista se deteriorou. Como sempre, sobrou para os mais pobres. Nessa época os cubanos sofreram sua maior crise. Foi quando surgiu Pedro Juan Gutiérrez com suas crônicas e contos vividos numa Havana depauperada. É a visão crua e nua das mazelas de seu povo, que apesar disso, não se rendia e tocava a vida aos trancos e barrancos. No livro só restam os pobres e os miseráveis. Falta tudo. Faltam alimentos, moradia, roupas, calçados, transporte, sabão, artigos de higiene e até água. O que não falta é lixo, desemprego, suor, fedor, mendigos, bebida, vagabundagem, prostitutas, prostitutos, cafetões, cafetinas, maconha e muito sexo. De todas as páginas do livro escorrem – sem qualquer pudor – muito esperma e sucos vaginais. Os contos são divididos em três partes distintas. As três são brutas, rascantes, agressivas e até nojentas. Pedro Juan Gutiérrez conduz tudo sem muito estilo nem muita forma. Corre o mito que parte do livro é autobiográfico. Parece impossível. Os personagens entram e saem dos contos sem nenhuma razão lógica e, por vezes, voltam ao livro com menos razão ainda. Um livro completamente diferente do lugar comum. Leitura fácil. Autor excelente. Livro ótimo.

Marcio Mafra
09/10/2013 às 00:00
Brasília - DF

O cenário é Havana, Cuba. A narrativa acontece durante a maior crise econômica, financeira e social dos anos 1993/1995 quando a URSS quebrou, e interrompeu o fluxo de dinheiro que injetava na incipiente economia do ditador comunista Fidel Castro. São 60 contos e crônicas expondo as mazelas dos cubanos, que apesar disso, não se rendem.  No livro sobram os pobres, mendigos, vagabundos e os absolutamente miseráveis. Falta tudo. Alimentos de qualquer espécie, medicamentos, roupas, calçados, sabão, artigos de higiene e até água. O que não falta é lixo, desemprego, fome, suor, fedor, rum ordinário, desnutrição, vadiagem, desocupados, prostituição, maconha e muito sexo.   O livro é dividido em três partes distintas. As três são brutas, rascantes, agressivas e às vezes nojentas.  

Marcio Mafra
09/10/2013 às 00:00
Brasília - DF

Ratos de esgoto

Eu tinha um trabalho horroroso, mas não estava mal. Andava por Centro Havana com uma chave inglesa, desentupindo os encanamentos de gás.

Naquela manhã, cedinho, entrei num porão sujo, como todos os porões do bairro. Havia tábuas podres, poças de água pestilenta e fedor de merda. Um velho sujo me dizia que ele era
"o responsável pelo edifício". Não tínhamos lanterna nem havia luz elétrica. O velho acendia fósforos ao meu lado.

- Temos que conseguir uma lanterna porque se continuar acendendo fósforos isso vai explodir.

- Não, não. Não tem problema.

- Como não tem problema, meu senhor?! Este é o meu trabalho e sei o que estou dizendo.

- Não, rapaz, não é isso, o problema é desentupir os encanamentos.

- Você é um velho babaca. Vou dar o fora.

Estávamos no fundo do porão. Eu me virei para sair tateando até a porta. Pisei numas tábuas meio podres e dali pulou o rato. Quando achou que ia ser esmagado me atacou com rapidez e raiva. Senti as garras se aferrando no meu corpo e o bicho mordendo com fúria. Cravou os dentes na minha barriga, no peito, no pescoço, cravou as garras no meu rosto e desapareceu.

Não tive tempo de fazer nada. Nunca tinha sentido uma coisa tão asquerosa em cima de mim. As mordidas e os arranhões doíamo E fiquei apavorado. Corri até a porta. Na escuridão. O
velho não sabia o que tinha acontecido e ficou para trás.

Cheguei até a porta. Subi uns degraus e afinal saí para a luz. O rato também tinha me mordido no braço esquerdo, que sangrava e doía, e me sujou de lodo fedorento do esgoto.

Acabou com o meu dia. Fui à policlínica. Estava cheia de velhos e velhas melancólicos esperando, sentados nos bancos. Eu estava num aperto. Expliquei aos velhos que não podia
esperar aquela fila toda. Meu problema era urgente. Os velhos passaram da melancolia à agressividade. Recusaram. Diziam que o problema deles também era urgente e que eu tinha que
esperar a minha vez. Havia uma única enfermeira trabalhando lenta e desinteressadamente. Não me deu boa impressão.
Um corpo lindo, magra, jovem, boa bunda, mas a cara era um desastre: rosto de homem, com a pele marcada de varíola, nariz de moringa, oleoso, espinhas cheias de pus, o cabelo ralo,
sujo, embaraçado. Senti horror. Uma cabeça de homem horroroso naquele corpo perfeito e belo. Fez uns curativos e me deu uma injeção contra o tétano. Trabalhava de má vontade.
Reclamava da fome e de que não tinha tomado café-da-manhã.
Perguntei:

- E contra a raiva?

- Não tem.

- E se o rato estava com raiva e me passou?

- Traz o animal para fazer o exame. Mas, de qualquer maneira, não tem vacina.

- Deu-me as costas asperamente e gritou para a porta: - O próximo.

Ah, porra. Saí da enfermaria. Dei dois passos. Voltei.

Passei a cabeça pela porta e perguntei de novo:

- Será que tem em algum hospital?

- O quê?

- Vacina para raiva, filhinha.

- Já disse que não.

Uma velha me empurrou para entrar, resmungando contra as pessoas que não respeitam a fila. A enfermeira ficou encolerizada:

- Minha senhora, espere lá fora até ser chamada. Não sejam impertinentes porque senão fecho isto aqui e me mando.

E bateu a porta com força.

Não gostei daquilo. Em algum hospital devia haver uma reserva de vacina anti-rábica. Fiquei parado na porta da policlínica. Não sabia o que fazer. Um sujeito pára na minha frente e
me diz:

- Quanto está pedindo?

- O quê?

- A chave, meu irmão.

Não me lembrava da ferramenta. Em dois segundos pensei que não ia continuar me enfiando em todos os porões fedorentos de Havana para desentupir o asfalto e as crostas de merda desses encanamentos.

- Cem pesos, compadre.

- Porra, está caro!

- Não, não está. É uma chave de extensão inglesa, legítima. Faz anos que não se vê isso nem no centro espírita.

- Deixa por oitenta.

- Não. Cem redondos, compadre. Não tenho pressa pra vender.

O cara pegou os cem pesos, pagou e foi embora com sua chave.

Nesse momento a enfermeira feia estava saindo. Quando me viu contando o dinheiro seu rosto se alegrou:

- Ora, o doentinho está forrado!

Olhei bem para ela. Era feia de doer. Mas tinha que resolver o meu problema:

- Quer uma pizza?

- Ai, quero sim, papito, por que não?

Fomos até uma barraquinha próxima e lanchamos: pizza e vitamina de mamey. Quando fui pagar ela olhou bem para as notas. E o meu caminho se iluminou. Sempre me acontece. Eu
não preciso nem pensar. Xangô e Abaluaiê abrem meus caminhos por onde eu menos imagino.

- Titi, quer tomar um gole de rum?

- Não, agora estou trabalhando, papito.

- Olha, isto aqui é pra gastar com você.

- Vem cá, garotão, e a sua vacina anti-rábica? Se vai tomar não pode beber rum.

- Eu não, mas você sim. Como é que fica?

- O diretor da policlínica tem algumas escondidas para uma emergência.

- E quanto custa isso?

- Ah, não sei, quer que eu veja?

- Claro.

Voltamos para a policlínica. Ela trouxe a vacina. Quarenta pesos. Injetou. Fez cara feia para os velhos melancólico-agressivos.

Disse que ia fechar e não atendia ninguém até uma da tarde. Fomos embora.

E agora o que vou fazer com a Cara de Crime? Puta merda, como essa vacina vai me custar caro! Saímos da policlínica.

- Papi, por aqui não tem rum. Vamos para a casa de Pompilio.

O cara tinha uma cisterna de rum. Trinta pesos a garrafa.

- Me dá uma garrafa - pedi ao cara.

- Leva duas. Não temos pressa.

Comprei duas garrafas.

- Vamos para a minha casa, quero tirar o uniforme. Morava perto dali. Era um edifício quase caindo, na rua Campanario, esquina com o Malecón. Na porta estava sentada uma velha vendendo cigarros, escovas de dentes e outras quinquilharias.

- Clotilde, me dá um maço fechado.

- Fechado? Você hoje está por cima. Tomara que a sorte dure.

Paguei o maço, mas não gosto daquele cigarro.

- Tem charuto?

- Não, hoje não.

Fomos para o segundo andar. Ela morava num quarto escorado com umas vigas de madeira. O prédio inteiro estava em ruínas e reforçado. Se tirassem um pedaço de madeira, desmoronava.
Baratas passeando pelas paredes úmidas. Entramos no quarto. Ela jogou a primeira dose de rum no chão. Para o santo.

Bebeu um gole longo e me disse:

- Senta aí.

Não havia cadeiras. Eu me sentei numa caminha de solteiro toda escangalhada.

- Hoje acordei atravessada, sem a menor vontade de trabalhar. Você chegou na hora certa.

Não respondi nada. Queria tomar uns goles para poder enfrentar aquela situação com a Cara de Crime. Mas não podia cair nessa tentação. Ela bebeu outro gole e ligou o rádio. Salsa.
Abriu uma janela e a luz do Malecón entrou naquela penumbra úmida. O cheiro de salitre, a brisa do mar e uma luz suave.

- Isto é pra você, papi, que caiu do céu como um anjo.


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Marcio Mafra
09/10/2013 às 00:00
Brasília - DF

: Meu amigo José Eustaquio Correa, dono da Livraria Leitura é diretor do Sindicato das Empresas Varejistas. Eu havia reclamado para ele que fazia tempo procurava “Trilogia Suja de Havana” e não o encontrava, nem na livraria dele. No dia 29 de setembro 2013 ele passou no Sindicato e me presenteou o livro. Fiquei meio sem graça, mas achei melhor receber o presente porque, afinal, não encontrava o raio do livro em nenhuma outra livraria da cidade.


 

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