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Morangos Mofados

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Morangos Mofados

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Autor: Caio Fernando Abreu

Editora: Record

Assunto: Contos

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 158

Ano de edição: 2005

Peso: 210 g

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Excelente
Marcio Mafra
17/07/2013 às 15:28
Brasília - DF
Neste excelente livro, Caio Fernando de Abreu passa nove contos narrando sobre mofo. Depois gasta mais dez outros contos para entrelaçar tudo com os morangos. No fim, num só conto, que ele intitulou de "Morangos Mofados" o livro acaba. Mesmo que o leitor não tenha este propósito ficará refletindo e examinando os contos de onde salta a inteligência e o grande talento do autor para tratar da natureza humana. Caio Fernando de Abreu trata da dor, do fracasso, da busca, do amor e da esperança de uma forma mágica, inesperada com irresistível encanto e atualidade. Leitura leve, simples e gostosa. Tem que ler. Livro excelente.

Marcio Mafra
17/07/2013 às 00:00
Brasília - DF

Morangos Mofados são contos separados em três partes bem distintas. A primeira, intitulada “O Mofo” se compõe de nove contos que se entrelaçam como se fossem um romance e refletem o medo e a insegurança. “Os Morangos” é a segunda parte e tem outros dez contos-romance que possuem a dor como elemento comum.  A última parte do livro, chamada “Morangos Mofados” tem apenas um conto, que sinaliza a esperança: os morangos estão mofados, mas ainda assim guardam o frescor em sua essência.

Marcio Mafra
17/07/2013 às 00:00
Brasília - DF
PÊRA, UVA OU MAÇÁ? 
 
Para Celso Curi 
 
Rói as unhas no momento em que abro a porta, a bolsa compri­mida contra os seios. Como sempre, penso, ao deixá-Ia passar, cabeça baixa, para sentar-se no mesmo lugar, segundas e quintas, dezessete horas: como sempre. Fecho a porta, caminho até a poltrona à sua frente, sento, cruzo as pernas, tendo an tes o cuidado de suspender as calças para que não se formem aquelas desagradáveis bolsas nos joelhos.
 
Espero algum tempo. Ela não diz nada. Parece olhar fixamente as minhas meias. Tiro devagar os cigarros do bolso esquerdo do paletó, apanho um com a ponta dos dedos, sem tirar o maço do bolso, e fico batendo o filtro no braço da poltrona enquanto procuro o isqueiro no bolso pequeno da calça. Antes de acendê-lo, penso mais uma vez que não deveria usar esses 
isqueiros plásticos descartáveis. Alguém me disse que não-são-degradá­veis-e-que-eu-deveria-ter-uma-atitude-um-pouco-mais-ecológica. 
 
Não consigo lembrar quem, quando, nem onde ou por quê. Rodo o isqueiro maligno entre os dedos, depois acendo o cigarro. Então ela diz: 
- Desculpe, mas acho que você está com as meias trocadas. 
Geralmente um cigarro dura entre cinco e dez minutos. Como eu, para tranqüilizá-Ia, tento gastar o máximo de tempo possível fazendo coisas como fechar a porta, puxar as calças, pensar em isqueiros e ecologias, quase sempre ela fala somente quando termino o primeiro cigarro. 
 
Quase sempre depois que pergunto, com extremo cuidado, no que está pensando. Só então ela suspira, ergue os olhos, me olha de frente. Desta vez, porém, não suspira ao falar nas meias. Penso em dizer que acordei um pouco tarde demais, razoavelmente atrasado, e que. Mas prefiro per­guntar lento: 
 
- E isso te incomoda? 
 
Ela contrai os ombros, de maneira que sobem até quase a altura das orelhas. Depois solta-os devagar, curvando-os para trás, convexos, como se fizesse uma massagem em si mesma: 
 
- Não é que incomode, só que. Olha, para falar a verdade eu não me importo nem um pouco com as suas meias. 
 
Solta a última frase rápido demais, como se estivesse querendo se ver logo livre dela, e fica à espera para ver o que digo. Mas eu não digo coisa alguma. Limito-me a dar outra tragada no cigarro, batendo a cinza no cinzeiro italiano trazido de Milão. Arrumo os óculos sobre o nariz, estes aros estilo nouvelle-vague precisam ser ajustados, sempre escorre­gando. Alguma cinza cai sobre minhas calças. Molho o indicador e o polegar para apanhá-Ia sem que se esfarele, jogo-a no cinzeiro. Ela espera. Olho fixamente para ela. Ela olha fixamente para mim, depois 
baixa os olhos enquanto seus ombros também tornam a subir e nova­mente a baixar. Quando chegam ao lugar normal, ela torna a erguer os olhos. Eu continuo esperando. Resolvo ajudá-Ia, pausado: 
 
- Quer dizer então que você não se importa nem um pouco com as minhas meias? 
 
Ela abre a boca sem falar. 
 
- Não foi o que você disse? 
 
Ela suspira. Estica as pernas, cruza os braços impaciente: 
 
- Foi, foi. Mas o que eu quero memo dizer é que hoje não estou dis­posta a gastar. Gastar não, passar. Não se sinta agredido, não é isso. O que acontece é que. Eu não estou disposta a passar. Eu, eu aposto nas ameixas. 
 
Sem entender, espero. Ela também tira um cigarro da bolsa. 
 
Remexe algum tempo, procurando fogo. Chego a estender meu isqueiro não degradável, mas ela já encontrou uma caixa de fósforos. Acende, sacode a chama no ar decidida: 
 
- Escuta, hoje eu não estou disposta a passar aq ui uma dessas suas horas de quarenta e cinco minutos discutindo as razões sub ou inconscientes de por que eu disse que você está com as meias trocadas, certo? 
 
Eu bato o cigarro no cinzeiro. 
 
- É que aconteceu uma coisa. 
 
Eu descruzo as pernas. 
 
- Uma coisa muito importante. 
 
Eu olho o relógio suíço, passaram-se quinze minutos. Volto a encará-Ia, esperando que continue a falar. Não continua, mas olha fixo para mim, as faces coradas, olhar brilhante como se tivesse um pouco de febre. Espero um pouco mais. Agora que estou com as pernas descruza­das, basta estendê-Ias para ver a cor das meias. Chego a ficar tão curioso que faço um pequeno movimento para a frente.
 
Talvez a bordô com friso branco, e a xadrez de preto e vermelho? A cinza do cigarro torna a cair sobre as calças, mas desta vez não é necessário molhar o indicador e o polegar para levá-Ia ao cinzeiro. Basta uma leve sacudidela para que caia sobre o tapete. Quando torno a olhar para ela seus olhos brilham tanto que, mais uma vez, tento ajudá-Ia. Calmo: 
 
- Mas que coisa tão importante assim foi essa que te aconteceu? 
 
Ela baixa a cabeça, murmura alguma coisa para si mesma em voz tão baixa que não consigo ouvir uma palavra. 
 
- Como foi que você disse? 
 
Ela apaga o cigarro, tensa: 
 
- Quando vinha vindo para cá tropecei num caixão de defunto. 
 
Se eu trouxesse muito lentamente uma das pernas até o lado direito da poltrona, dobrando um pouco o joelho, conseguiria ver a cor pelo menos de uma das meias. Mas ela continua: 
 
- Quando dobrei a rua, daquele sobrado amarelo da esquina ia saindo um enterro. - Tira outro cigarro da bolsa. - Não, não foi assim. 
 
Antes, eu tinha comprado um quilo de ameixas.
 
- Por um momento fica com dois cigarros nas mãos, um aceso, outro apagado. Depois acende um no outro.
 
- Também não foi assim. Antes, ontem, eu dormi até quase as três horas da tarde de hoje. Então minha mãe me chamou para vir aqui. 
 
Pára de falar, faz uma careta. Fico sem entender, até que ela apague o Clgarro. 
 
- Acendi o filtro, que merda. 
 
Ela nunca disse um palavrão antes, penso. 
 
-Escute. 
 
Talvez a verde-musgo com losangos cinzentos? E no outro pé a cinza com debruns vermelhos? 
 
- Eu vinha vindo para cá. Eu vinha vindo meio tonta, como sem­pre fico, assim meio tonta, meio aérea quando durmo tanto. E nem durmo, é mais uma coisa que parece assim. Que nem, sei lá. Foi numa des­sas barraquinhas de frutas que eu vi. Eu vinha de cabeça baixa, urnas ameixas tão vermelhas. Eu vinha pensando numa porção de coisas quando. 
 
- Que coisas? 
 
- Que coisas o quê? 
 
- As que você vinha pensando. 
 
-Ah. 
 
Ela acende outro cigarro. Do lado certo. E fala soltando a fumaça: 
 
- Sei lá, que eu ando. Muito triste. Uma merda, tudo isso. Mas não importa, não me interrompa agora. Deixa eu falar, por favor, deixa eu falar. Tem uma coisa dentro de mim que continua dormindo quando eu acordo, lá longe de mim. - Traga fundo. E solta a fumaça quase sem respirar. - Foi então que vi aquelas ameixas e achei tão boni­tas e tão vermelhas que pedi um quilo e era minha última grana certo porque meus pais não me dão nada e daí eu pensei assim se comprar essas ameixas agora vou ter que voltar a pé para casa mas que importa volto a pé mesmo pode ser até que acorde um pouco e aquela coisa lá longe volte pra perto de mim e então eu vinha caminhando devagari­nho as ameixas eu não conseguia parar de comer sabe já tinha comido acho que umas seis estava toda melada quando dobrei a esquina aqui da rua e ia saindo um caixão de defunto do sobrado amarelo na esquina certo acho que era um caixão cheio quer dizer com defunto dentro porque ia saindo e não entrando certo e foi bem na hora que eu dobrei não deu tempo de parar nem de desviar daí então eu tropecei no caixão e as 
ameixas todas caíram assim paf na calçada e foi aí que eu reparei naque­las pessoas todas de preto e óculos escuros e lenços no nariz e uma por­rada de coroas de flores devia ser um defunto muito rico certo e aquele carro fúnebre ali parado e só aí eu entendi que era um velório. Quer dizer, um enterro. O velório é antes, certo? 
 
- É - confirmo. - O velório é antes. 
 
- Ficou todo mundo parado, me olhando. Eu me abaixei e comecei a catar as ameixas na sarjeta. Eu não estava me importando que fosse um enterro e que tudo tivesse parado só por minha causa, certo? Apa­nhei uma por uma. Só depois que tinha guardado todas de volta no pacote é que as coisas começaram a se mexer de novo. Eu continuei vindo para cá, as pessoas continuaram carregando o caixão para o carro fúnebre.
 
Mas primeiro ficou assim um minuto tudo parado, como uma fotografia, como quando você congela a cena no vídeo. Eu juntando as ameixas e aquelas pessoas todas ali paradas me olhando. Você está prestando atenção? Aquelas pessoas todas paradas me olhando e eu ali juntando as ameixas. 
 
Ela pára de falar, fica olhando para mim. Depois repete: 
 
- Me olhando, as pessoas. Eu, juntando as ameixas. 
 
Ela apaga o cigarro. Olho o relógio, faltam quinze minutos. 
 
Acendo outro cigarro. Através da fumaça percebo que ela toca com cui­dado alguma coisa dentro da bolsa, sem abri-Ia, por sobre o couro. Ima­gino que vá tirar mais um cigarro, mas ela nem chega a abrir a bolsa. Ape­nas toca nesse objeto no interior, distraída, com as pontas dos dedos de unhas roídas. Tão distante que preciso trazê-Ia de volta, firme: 
 
- No que é que você está pensando? 
Ela ri. Ela nunca riu antes, penso. 
 
- Numa brincadeira besta que a gente tinha quando eu era mais guria. Aquela coisa de reunião dançante, cuba-libre, você sabe. - Tira o objeto de dentro da bolsa, mas permanece com ele fechado dentro da mão. - Faz tanto tempo que eu não bebo, tanto tempo que eu não danço....
 

  • Erotismo em Caio Fernando de Abreu

    Autor: Eliana Cardoso

    Veículo: Jornal Valor Economico edição 5/11/2010

    Fonte: Jornal Valor Economico - Edição 5 novembro 2010

    Título: Morangos Mofados
    Autor: Caio Fernandes de Abreu
    Editora: Agir
    Preço:
    Data de cadastro: 06/11/2010
    Previsão de compra: 30/06/2013
    Data de compra:
    Observações:
    Data: 26/09/2011
    Título: LIVRO A COMPRAR - MORANGOS MOFADOS - CAIO FERNANDO
    Fonte:
    Texto:
    TRANSCRIÇÃO ANTIGA BIBLIOMAFRATECA EM 26/9/2011

    06/11/2010 MORANGOS MOFADOS CAIO FERNANDO DE ABREU AGIR

    Ponto e Vírgula: Contos intimistas e densos trazem convites irrecusáveis à busca de significados e interpretações em situações complexas. Só não é ambígua a melancolia que responde à violência e à repressão.
    Erotismo em Caio Fernando Abreu
    Por Eliana Cardoso | De São Paulo
    05/11/10

    Depois que passei a escrever neste espaço, amigos e leitores começaram a me sugerir livros de montão. À medida que a pilha em cima da mesa cresce, tento impor ordem ao caos. Ponho alguns de lado, quando páginas lidas ao acaso não me entusiasmam. Coloco os mais gordos embaixo e os mais magros em cima. Leio e-mails, atendo o telefone e peso as recomendações. Não preciso contá-las para afirmar que o eterno campeão do "você-tem-de-ler-e-comentar" é Caio Fernando Abreu. Assim, mergulho na leitura de "Morangos Mofados".

    O livro se divide em três partes. A primeira, "O mofo", se abre com "Diálogo", uma conversa entre A e B, em que perguntas insinuam um compromisso que tanto pode ser ideológico quanto afetivo. Há insegurança nas perguntas, desejo de ver-se como igual e medo. O dito e o não-dito que marcam esse diálogo, também marcam os contos seguintes. Personagens anônimos exibem solidão, dor e embriaguez, em cenas melancólicas, entrecortadas por melodias populares, escuridão, vodca, desencontros, drogas, vômito e cigarros com gosto de derrota.

    Documento de uma época e de um tipo de comportamento, "O mofo" é a viagem do desbunde da década de 1970. Para Heloísa Buarque de Hollanda, "não há dúvida de que Caio fala da crise da contracultura como projeto existencial e político". Em "Os Sobreviventes" - que inova na forma de exposição do diálogo e transgride a lei da organização linear das falas - a descrição da chamada geração perdida fica clara: "(...) ai que gracinha nossos livrinhos de Marx, depois Marcuse, depois Reich, depois Castañeda, depois Laing embaixo do braço, aqueles sonhos colonizados nas cabecinhas idiotas, bolsas na Sorbonne, chás com Simone e Jean-Paul nos 50, em Paris; 60 em Londres ouvindo here comes the sun, little darling; 70 em Nova York dançando disco-music no Studio 54; 80, a gente aqui, mastigando essa coisa porca sem conseguir engolir nem cuspir fora nem esquecer esse gosto azedo na boca". A melancolia dos nove contos de "O mofo" me deprime.

    Os oito contos seguintes, que formam "Os Morangos", abrem uma fresta de esperança. A paz parece, enfim, ao alcance da mão. Dois textos (mais tarde transportados para a tela de cinema) me emocionam ainda mais do que os outros: "Sargento Garcia", que recebeu o Prêmio Status de Literatura 1980, e "Aqueles dois".

    "Sargento Garcia" começa num quartel, onde jovens entre 17 e 18 anos preparam-se para ingressar nas forças armadas. O olhar de Hermes, o jovem narrador, expõe corpos masculinos e jovens, seus rostos, peitos e pernas. Nesse espaço, o sargento Garcia é poder: o homem forte que exibe sua autoridade. Hermes é o jovem inseguro, todo delicadeza e respeito dentro de sua pele macia. O jogo é de sedução:

    - Eu chamei Hermes. Quem é esse lorpa?

    - Sou eu.

    - Sou eu, meu sargento. Repita.

    [...]

    - Ficou surdo, idiota?

    - Não.

    - Não, seu sargento.

    - Meu sargento.

    - "Meu sargento".

    E um pouco mais tarde:

    - Estuda?

    - Sim, meu sargento.

    - O quê?

    - Pré-vestibular, meu sargento.

    - E vai fazer o quê? Engenharia? Direito, Medicina?

    - Não, meu sargento.

    - Odontologia? Agronomia? Veterinária?

    - Filosofia, meu sargento

    [...]

    - Pois, seu filósofo, o senhor está dispensado de servir à pátria. Pode se vestir.

    O jovem Hermes se veste e pega seu caminho. Fora dos limites e dos muros do quartel, sargento Garcia o aborda, oferecendo-lhe uma carona. O jovem entra. O jogo prossegue.

    - Escuta, tu não tá a fim de dar uma chegada comigo num lugar aí?

    - Que lugar? Temi que a voz desafinasse. Mas saiu firme [...]

    Aranha lenta, a mão subiu mais, deslizou pela parte interna da coxa. Hermes e o sargento seguem para a casa de Isadora, uma travesti, que aluga quartos. Dali para a frente, a vida de Hermes seria diferente: "Queria dançar sobre os canteiros, cheio de uma alegria tão maldita que os passantes jamais compreenderiam. [...] Meu caminho, pensei confuso, meu caminho, não cabe nos trilhos de um bonde".

    Nesse ponto, cativada pela escrita de Caio Fernando Abreu, faço um parêntese para me referir à crônica "As quatro irmãs", publicada na revista "Sui Generis" em março de 1996, e reproduzida em "Caio 3D: O Essencial da Década de 1990" (Agir, 2006). Ali, o autor diz que os homossexuais masculinos de qualquer idade ou nação dividem-se em quatro grupos. Jacira é a pintosa, que todo mundo sabe que é homossexual e acha ótimo ser: usa roupas chamativas e fala alto, pois seu objetivo na vida é aparecer. Oscar Wilde era Jacira.

    Telma, ao contrário de Jacira, é infelicíssima. Depois do terceiro ou quarto uísque transforma-se em homo e, embriagada, ataca. No dia seguinte não se lembra de nada. Rimbaud parece ter começado como Jacira, mas acabou se transformando em Telma.

    Menos trágica e mais complexa, Irma foge de definições e pode não saber que é. Pode, também, morrer sem provar "os prazeres do amor que não ousa dizer seu nome". Verlaine começou como Irma e depois ajacirou.

    A quarta irmã é Irene, que, embora tão assumida quanto Jacira, não dá pinta. Tranquila, não exibe nem constrange. Platão foi Irene, sugere Caio. Penso que Thomas Mann também, embora seu Von Aschenbach comece como Irma e acabe como Telma.

    Voltando aos "Morangos", Raul e Saul de "Aqueles dois" também começam como Irmas. Mas, no penúltimo parágrafo, apanham o mesmo táxi. Acredito que para embarcar na viagem ao encontro da realidade discreta das Irenes.

    Quem conta a história de Raul e Saul - colegas de trabalho que se tornam amigos - é um narrador na terceira pessoa, que usa tom insinuante e ambíguo e deixa dúvidas no ar, criando suspense e sutilezas sobre a relação. Quando o leitor espera uma definição da situação daqueles dois, o narrador muda de assunto e introduz novas informações sobre cada um deles. Mas aos poucos vai relatando como cresce a amizade entre Raul e Saul. Eles passam a se ver nos fins de semana ou ficam desolados quando um deles falta ao trabalho. O jogo de insinuações envolve filmes e música. Em seguida, o narrador insere o olhar dos outros. Os colegas de trabalho refletem a postura moralizante e autoritária da sociedade.

    Finalmente, Raul e Saul são demitidos, acusados de "relação anormal". "Mas quando saíram pela porta daquele prédio grande e antigo, parecido com uma clínica psiquiátrica ou uma penitenciária, [...] estavam ainda mais altos e mais altivos." Ao mesmo tempo, seus juízes se tornavam vítimas de sua prisão. "Pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia a gema de um enorme ovo frito no azul do céu, ninguém conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali tinham a nítida impressão de que seriam infelizes para sempre. E foram."

    "Morangos mofados", o único conto da terceira parte, fecha o livro. O personagem, um publicitário, ex-hippie, cisma que tem câncer na alma ou uma lesão no cérebro provocada por excesso de drogas em velhos carnavais. O sintoma é um gosto persistente de morangos mofados na boca. No fim, ele doma a situação e se recusa a morrer ou enlouquecer. É "um fim lindo, positivo, alegre", diz o autor em carta ao amigo e jornalista José Márcio Penido.

    Os contos desse livro são intimistas e densos. O autor fala da solidão, do isolamento, da angústia do excluído, da descrença na sociedade, da marginalidade sexual, mas também de pequenas alegrias e da possibilidade de escolher a vida. A linguagem é lírica. As vozes que se sobrepõem abandonam os princípios da narrativa tradicional. A estratégia do autor é mobilizar o leitor para que ele busque significados e interpretações. A narração ambígua dá realce à complexidade das situações. A melancolia aparece em resposta à violência e à repressão. Como me disseram os amigos, tem de ler.

    Eliana Cardoso, economista, escreve semanalmente neste espaço.

     

Marcio Mafra
17/07/2013 às 00:00
Brasília - DF

Sabe aquele livro que você sempre pensou em ler, mas nunca acontece? Assim foi Morangos Mofados do Caio Fernando de Abreu. Desde 2009 que o livro estava em minha lista. Só vim a comprá-lo em maio de 2013 numa passada pela Livraria Cultura


 

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