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Solidão Continental

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Solidão Continental

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Autor: João Gilberto Noll

Editora: Record

Assunto: LGBT

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 125

Ano de edição: 2012

Peso: 185 g

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Mediano
Marcio Mafra
19/03/2013 às 22:58
Brasília - DF
Solidão Continental é uma viagem. Viagem no sentido lisérgico da palavra. Um gaúcho, professor de português, mal resolvido profissionalmente, sem nome, identidade nem passaporte sai de Chicago e vai em direção ao Sul do Brasil. O leitor não consegue atinar o que o personagem busca ou deseja. Nem por onde os personagens transitam. Lá pelas tantas o professor se faz acompanhar de Frederico, por quem era apaixonado. Mas Frederico aparece nu, ferido e desfalecido na margem de um rio, quando o professor o recolhe, coloca-o sobre o ombro e o carrega através do México, e de outros lugares não especificados. Doideira pura. Eles continuam vagando feito loucos desvairados, que vão dar num corredor de Hospital, o Pronto Socorro Municipal, localizado nas proximidades da Avenida Oswaldo Aranha, de Porto Alegre. É uma via crucis sem finalidade, nem destino. Muita angustia, incompletudes, maluquices e curtições.João Gilberto Noll faz seus livros com a sexualidade à flor da pele, descreve os gestos, falas e atitudes dos seus personagens com objetivo interesse carnal,homo ou hetero sexual. Leitura complexa, as vezes difícil. Problemática. Não linear.

Marcio Mafra
19/03/2013 às 00:00
Brasília - DF

O personagem principal de Solidão Continental, gaucho, professor de português, quando jovem amou Bill e agora, na meia idade,  se apaixona por outro garoto, de nome Frederico.  A história  acontece durante uma viagem  que começa em Chicago, EUA e – sem nenhum motivo nem direção aparente - termina no Pronto Socorro Municipal, perto da Avenida Oswaldo Aranha, na cidade de Porto Alegre. A viagem mencionada não é aquela que todos praticam: embarque num meio de transporte, portanto malas e objetos para, decorrido algum tempo, desembarcar no lugar de destino. Não.  O autor vai narrando a história, como se tivesse esfregado LSD nos olhos, porque além das cenas de homossexualidade explicita, faz uma grande confusão  – verdadeira viagem – mental e geográfica, que mais parece ao leitor estar lendo um texto do colombiano Gabriel Garcia Marquez. Realismo fantástico é por onde transitam autor, personagens, lugares, paisagens, sonhos e angústias.

Marcio Mafra
19/03/2013 às 00:00
Brasília - DF

Frederico correu para a margem e fui atrás sem saber  o que eu poderia fazer fora de segui-lo com aquela ânsia cega de ultrapassar minha solidão. Ele vestia-se. Comecei a fazer a mesma operação, até que peguei minha camisa e verifiquei aflito o quanto estava duramente ensanguentada do corte na minha cabeça. Corri para a água e entrei a esfregá-Ia com denodo. Havia uma pequena rocha a meu lado e eu me pus a bater a roupa nela, como eu tinha visto em um filme de Alberto Cavalcanti, lavadeiras batendo a roupa na pedra, elas cantavam enquanto batiam a roupa na pedra para tirar à força a sujeira, e eu não me fiz de rogado e dei para cantar uma canção antiga cantada por minha mãe, uma que falava das labaredas dos girassóis seguindo o movimento do astro em pleno meio-dia, horário que talvez fizesse ali, não sei, sei que tinha no meu corpo a mistura da água do rio com novas gotas de suor. Enquanto torcia a camisa percebia que as manchas de sangue iam saindo... Eu lavava bem a minha roupa e isso me encheu de alegria. Frederico parecia entender o motivo da minha alegria E sorriu com o semblante de uma estátua - sorria para o além ou para dentro, sei lá, sem fitar os meus olhos tão sedentos do que haveria por trás do seu sorriso ...
De repente ele se pôs a correr por sobre a areia grossa e, claro eu fui por sua trilha, procurando pisar justamente nos rastros dele, e aquilo fazia parte do meu novo alento, pois me voltar para o pronto-socorro municipal de Porto Alegre e ter Frederico na condição de enfermeiro ou o que quer fosse naquele uniforme branco que ele agora atirava pela areia (já ia só de sunga) - entre correr atrás dele por essa paragem que nem o nome eu sabia, entre estar a correr aqui ou permanecer lá no hospital deitado na maca sem saber exatamente do meu estado, apenas consciente de que para sair dali precisaria extrair da minha memória relutante o meu endereço completo e outros dados fúteis da minha identidade, entre isso lá e aquilo ali, era aqui que a minha força retornava e me transfigurava num homem melhor, mesmo que não soubesse até quando as coisas assim poderiam durar ...
Súbito o garoto parou. Olhou para trás, não como se quisesse se certificar se eu realmente o seguia. Olhou com o jeito de vislumbrar algo além, que por alguma razão tívesse ficado na origem de sua corrida desabalada pela margem do rio. Esticou o pescoço, mas pareceu não ter encontra do o motivo de sua inquietação.
Cheguei a me perguntar se não haveria de fato uma terceira pessoa que eu, vivendo a alegria difusa por estar com Frederico naquela situação que não a do meu triste estado no hospital, sim ... , cheguei a me perguntar se não haveria uma terceira pessoa que eu nem conseguira notar.
Eu vivia entre fantasmas, pensei, e dessas companhias etéreas eu não queria me apartar. Os seres físicos não me ofereciam nada mais convincente do que essas presenças esquivas ao meu toque, geralmente caladas ... De uma delas me vi perto dia desses, até devo tê-Ia sujado com meus ansiosos fluidos ...
Fosse como fosse minha vaca-fria, voltar para o hospital é que não daria pé, não tanto por qualquer desconforto físico que lá de novo voltasse a sentir, mas porque retornando à minha situação de paciente, mesmo que me restabelecesse integralmente logo, eu deveria na sequência reingressar no meu cotidiano solitário, de um dia após o outro, dando aulas de português para estrangeiros, retornando pra casa à noite, sonhando com besteiras no meu
baixo sono, para logo reingressar na minha insônia até a manhã se implantar.
Onde mais estar que não ali à beira do rio, aguardando que o garoto se decidisse a dar alguma indicação para o rumo da minha companhia? Quanto mais a minha condição acendia em mim alguma humilhação, mais me agarrava àquele cenário como o único possível para prosseguir.
O que era uma pequena humilhação diante do fato de eu responder, mesmo que provisoriamente, às minhas demandas por outro corpo igual ao meu? Pouco importava se eu não o tocasse, pois eu estava seguro de que ele tinha um cheiro, e esse cheiro vinha na brisa: já se confundia com as águas e com a areia ardendo nas solas dos passos.
Vinham vindo uns cachorros para junto de Frederico.
Latiam, colocavam suas patas nos seus joelhos, em aparente júbilo. Rodeado de cães ele enfim me olhou com convicção, dizendo parecia cheguei a meu destino, isso aqui é meu. Seria mesmo, ou ele tinha tão somente uns cachorros, uns vira-latas nesse canto perdido de um lugar de que eu ainda nem sabia o nome?
Até que Frederico fez sinal para que eu me achegasse mais.
Havia algum tempo que eu não ouvia a voz de Frederico. Estava com saudades de escutar o seu timbre abaritonado materializando um italiano veloz ou uns esparsos esboços de português. Mas- não foi ainda dessa vez que emitiu algum fonema.
Ele se pôs a caminhar e entrou por uma senda na mata.
Eu atrás, em meio a alguns cachorros retardatários. Mosquitos me picavam, estapeava meus braços. Os cães latiam com tamanha insistência que pensei em escapar dali. Mas adivinhava que não seria ninguém sem a companhia de Frederico. Se me achava fora do hospital de pronto-socorro e com boa saúde, pensei, era devido ao garoto, e isso não sabia explicar.
De repente ele abraçou-se a um tronco e começou a subir pela árvore, até dar lá no topo e pegar uma caixa grande que o esperava amarrada ao tronco. Pegou-a e desceu com uma prática espantosa, feito nativo da mata, algo assim como um secreto homem das selvas. Os cães latiam em polvorosa em volta da árvore.
Abriu a caixa e entrou por um canil onde vários cachorros o aguardavam vociferando em torno do volume. Os outros entraram no canil afoitos, babavam. Frederico começou a tirar da caixa postas de carne atirando-as para os bichos. Em meio à comilança um cachorro não se levantava e nem comia. Aliás, uma cachorra que simplesmente paria. Ela tinha vários filhotes em volta, sem conseguirem caminhar - olhos cerrados, envoltos na meleca das entranhas.
Vi que o garoto se aproximou do animal ao perceber que um dos filhotes apresentava dificuldades de sair da mãe. O rapaz ajoelhou-se e se pôs a servir de parteiro gadanhando nas viscosidades do nascituro. Às vezes puxava-o mesmo, pois suas patas traseiras se mostravam entaladas no orifício esgarçado do animal.
Até que num puxão mais violento o cãozinho conseguiu se desvencilhar de dentro da mãe. O bichinho caiu de lado na terra, exangue, não respirava. Frederico deu um murro no peito do filhote. Sua respiração voltou. O animalzinho, porém, não tentou se levantar. Frederico pegou-o e o sacudiu, gesto a exigir que o filhote voltasse com urgência à vida. O garoto pegou o bicho pelas pernas traseiras e ficou como pensando o que fazer com aquele pequeno corpo prostrado.
Escutei o motor de um caminhão passando pelas redondezas. Suspirei aliviado, deveria estar perto de uma estrada. Embora quisesse permanecer com o garoto, alguma coisa nele começava a me provocar um incômodo, talvez o seu poder sobre a vida e a morte que estava me expondo ali, com seu ar superior, de quem sabia no fundo que eu era dependente de seus passos, com os quais ele me conduziria eu não sabia ainda para onde, se para o inferno ou para um aconchego para o qual eu desconfiava já não ter mais credenciais.
Em volta os cães rosnavam em ameaças mútuas pelo que restava da carne. Frederico saía do canil. Eu iria atrás disfarçadamente, na maior discrição. Ele rodou várias vezes a corrente em torno das barras do portão. E agora?, me perguntei. Até onde iria a minha submissão àquele
périplo? Ele fez o gesto de indicar a continuação da trilha que daria sei lá em que lugar. Eu só sabia isso: eu queria retardar o meu retorno ao hospital de pronto-socorro.
Seguia-o em meio a um mato agora mais cerrado, e a minha força vinha de pisar meticulosamente no ponto exato de seus rastros, para que, ao me agarrar a suas pegadas, ele me transfundisse um pouco de sua juventude, eu era aquele homem gozando do contato de seus passos - e quando chegasse aonde tivesse de ser eu estaria pronto para o melhor, embora eu já não visse mais suas marcas no solo, pois pisávamos numa pocilga dentro de um galpão sombrio, rodeados de porcos com o ruído grosso da boca e com seus narizes medonhos chafurdando na sua própria merda.
Quando vi tinha perdido Frederico de vista e o ambiente me atordoava e eu não tinha mais nada a fazer salvo correr e levar tombos vários no chiqueiro sem fim e me enlamear e me levantar correndo mais e mais até voltar a pisar na luz sobre uma relva onde pavões passeavam devagar.
O garoto acenou para um cara que dirigia um jipe e vinha em zigue-zague, pois os pavões não se dignavam a sair do caminho para que o jipe passasse em linha reta. Eles se faziam de surdos, majestosos. O veículo não parou; o motorista apenas soltou umas duas, três palavras para o garoto. Frederico parecia não ter dado atenção ao homem e continuou sua marcha em direção a uma imponente, mas gasta, casa de madeira com avarandado, ao fundo do cenário.


  • Orgasmo Permanente

    Autor: Bernardo Scartezini

    Veículo: Pensar. Correio Braziliense, pagina 3, Sabado 16 de fevereiro de 2013

    Fonte: Jornal Correio Braziliense

    O Orgasmo Permanente.
    Pensar. Correio Braziliense, pagina 3, Sabado 16 de fevereiro de 2013
    »BERNARDO SCARTEZINI
    ESPECIAL PARA O CORREIO

    Solidão continental não poderia ser um livro de nenhum outro autor brasileiro, a não ser de João Gilberto Noll.  Estamos aqui diante de escritor à vontade em um universo que construiu lentamente, livro a livro, ao longo das três últimas décadas.


    Noll conseguiu aquilo que todos os escritores perseguem e apenas uns poucos realizam: criou um estilo próprio, inimitável, imediatamente reconhecível.

    Solidão continental, no entanto, traz um paradoxo. Pois é tão parecido com o Noll que o leitor já conhece e admira, tão parecido, que isso - miseravelmente - pode se tomar um problema.

    Pode soar como repetição. Pode soar como esgotamento. Daí algumas resenhas atravessadas que o romance recebeu desde seu lançamento pela editora Record no fim de 2012.

    Seria Solidão continental uma depuração do estilo de seu autor? Ou seria somente um trabalho menor - e menos representativo - diante do que já foi feito antes?

    A resposta, em boa parte, passa pela cumplicidade que o livro consegue ou não despertar em seu leitor, e passa necessariamente pelas expectatívas desse leitor.

    - Estaremos aqui na companhia de um personagem anônimo, um sujeito de passado obscuro e futuro incerto.

    -Um homem entrado na meia idade, que vagará sem rumo pelas páginas 'deste breve romance. A narração em primeira pessoa é um recurso para imprimir de vertiginosa subjetividade à saga entortada que parte de um quarto de hotel de Chicago.

    Foi lá que nosso narrador viu escapar o homem que amava. Ou que hoje julga ter amado naquela época.

    Vinte anos depois, ele está disposto a reencontrar a pessoa amada, como que por mágica, e reaver o sentimento perdido. Para isso, ele tenta refazer  seus passos, aluga novamente o mesmo quarto de hotel.

    A história se repetirá como delírio. Nosso herói mergulha no vaso sanitário, como aquele personagem de Trainspotting (abraço pro Irvine Welsh), e entramos nas tubulações de sua cachola.

    E dali, numa sucessão de encontros sexuais frustrados, numa sucessão de coitos interrompidos, amanhecemos nus em uma Porto Alegre que parece não existir em lugar algum para além das memórias do viajante. Nus entre pessoas que parecem não existir em lugar algum para além destas linhas.

    "Eu vivia entre fantasmas, pensei, e dessas companhias etéreas eu não queria me apartar. Os seres físicos não me ofereciam nada mais convincente do que aquelas presenças esquivas ao meu toque, geralmente caladas ... "

    Verbal e sexual

    Solidão continental é entretecido numa sucessão de delírios, em constante "troca de geografias", para tomarmos emprestado um termo adotado por seu verborrágico narrador.

    Um narrador que, por vezes, soa como se estivesse à beira da afasia, como se precisasse escrever escrever escrever, atordoantemente, antes que as palavras passem a lhe faltar. A crença

    derradeira de João Gilberto Noll mais uma vez, parece na linguagem. Seus personagens podem ser misóginos, edipianamente castrados, ser rematados solitários sem esperança, mas

    ainda lhes restam a voz.

    A linguagem, portanto, seria o instrumento para reestabelecer o estado de cousas que se perdeu. O instrumento do impossível. Talvez por isso o fim deste Solidão Continental soe como um novo começo, um reinício, emprestando ao romance uma sensação de continuidade - mas não de apaziguamento - nem nunca de serenidade.

    A linguagem e o sexo. Este Solidão continental seria a tentativa de João Gilberto Noll devolver seu personagem ao mundo dos vivos por meio do arrebatamento verbal e sexual.

    E esse é apenas um dos muitos pontos de contato do livro com as obras anteriores de Noll ... A busca do orgasmo permanente - e a frustração inevitável que ela traz. A busca da comunicação completa, a busca da conciliação máxima entre as palavras e os sentimentos - e a outra frustração inevitável que aqui virá.

    Mais uma vez, um personagem de Noll se encontra à deriva em um mundo que não mais reconhece. A lista de semelhanças e afinidades é numerosa, talvez inesgotável.

    Como em Harmada (1993), temos também a oposição simbólica e dilacerante entre a cidade e a natureza. Temos a água como um rito de purificação, como um segundo batismo.

    Temos ainda um hospital público como um purgatório para o corpo e para a alma.

    Como em A fúria do corpo (1981), Noll desenha um homoerotismo quase narcisista, fazendo do corpo do outro um espelho de si próprio. E daí, como acontecia em Lorde (2004), esse jogo de duplos resvala no fantástico.

    A rigor, o único problema de Solidão Continental é ter vindo depois de todos esses livros, que marcaram não apenas a carreira de João Gilberto Noll,  mas também a literatura brasileira contemporânea. O gaúcho Noll, aos 66 anos de idade, é afinal um dos mais celebrados autores do país. Foi vencedor do Jabuti em cinco ocasiões.

    O barato de Solidão Continental, por outro lado, é marcar uma espécie de retorno de Noll à forma original, um retorno às suas antigas obsessões, após uma série de livros infanto-juvenis lançados nos últimos anos:

    O Nervo da Noite (2009), Sou eu! (também 2009) e Anjos das Ondas (2010).

    O retomo de Noll a uma plena literatura, a esta literatura para adultos, foi um dos fatos mais marcantes da última temporada editorial. E pode anunciar um recomeço em sua carreira. Como este livro não chega propriamente a terminar, parece justo encarar a obra de João Gilberto Noll como uma vertigem ainda longe de se esgotar. Ainda estamos longe do chão.

    Trecho:

    Entre mim e aquele cenário da Osvaldo Aranha havia como uma mucosa transparente doendo se eu tocasse. Não era possível vislumbrar aquele cenário com isenção. Uma menininha filha de mendigos acampados ali embaixo me olhou com uma expressão indefinida, eu parecia lhe causar uma estranha atração. A garotinha usava batom, uma saia comprida de mulher adulta nos ombros, qual um manto fazendo uma cauda, e um sutiã sobre um enorme bustiê rasgado. Recuei. Fechei a janela para evitar o ruído exacerbado do trânsito. Tão logo fechei a janela ouvi uma cantoria só de vozes femininas. Atrás de mim, na sala outrora vazia, tinha uma maca rodeada de velho tas. Elas cantavam certamente um hino religioso, ainda pude ouvir submergindo em uma instância que não estava nem em Porto Alegre nem em parte alguma. Eu via que poderia ser novamente alçado do porto a que havia. poucos segundos tinha retomado para me encantar com aquele canto vagaroso de vozes femininas. Ouvia um hino religioso que dizia serem elas fiéis ao mistério, pois que eram filhas de um enigma. Espiei entre os corpos das mulheres, aproximei-me do centro do ajuntamento e enxerguei aquela que na maca certamente agonizava e senti que aquela reunião final não comportava a minha presença masculina e me retirei sem mágoa, prometendo a mim mesmo que dali em diante seria fiel apenas ao destino de Predenco, que não o abandonaria jamais. Tivesse ele naquele instante já morrido ou se em pouco tempo ele saísse daquele hospital, ressurrecto, seria esse homem que entraria em minha vida mesmo que como um placebo para dirimir o meu isolamento.

    Se ele por acaso não recuperasse os movimentos ou a consciência, eu lhe daria banhos matutinos, pegaria uma esponja e a passaria sobre sua nudez. E esse ato seria o meu sexo diário.

    E melhor, assim eu estaria retomando à meninice, eu voltaria a brincar.

    Afinal, em casa novamente ... "
     

Marcio Mafra
19/03/2013 às 00:00
Brasília - DF

No inicio de fevereiro de 2013, Folha de São Paulo, Valor Econômico, O Globo e Correio Braziliense traziam reportagens e comentários sobre  Solidão Continental de João Gilberto Noll. Trata-se de um autor que já tem três livros na Livronautas. Inclusive scaneei a mídia do Correio Braziliense. Comprei logo para não perder coisa tão recomendada.O exemplar, comprado em sebo, tem muitos trechos sublinhados pelo seu primeiro comprador. Não consegui atinar nenhum motivo dos trechos sublinhados pelo primeiro comprador.


 

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