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Ulisses (exemplar completo com todas as 957 páginas)

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Ulisses  (exemplar completo com todas as 957 páginas)

Livro Mediano - 1 opinião

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Autor: James Joyce

Editora: Civilização Brasileira

Assunto: Romance

Traduzido por: Antônio Houaiss

Páginas: 957

Ano de edição: 1998

Peso: 1.255 g

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Mediano
Marcio Mafra
17/02/2013 às 20:00
Brasília - DF
(Em homenagem ao esforço do leitor Rafael Mafra, transcrevo integralmente o seu comentário)

A DECISÃO

Ler Ulisses é algo diferente pois envolve a decisão de lê-lo. Você não passa na estante, lê a sinopse e acha que pode ser legal. Já há um grande histórico de pessoas que comentam como é difícil e extenso. Então você precisa decidir ler Ulisses. Eu decidi.

A primeira experiência que eu tive com Ulisses foi a de vê-lo ano após ano na estante do meu pai, a origem de todo acervo do Livronautas. É uma edição de 1968, muito detonada e com as letras na lombada bem apagadas. Não sabia nada a respeito até meu pai dizer que não havia terminado de ler o livro. Isso não me chocou, nem motivou. O Roberto Krohn não pensava assim e se sentiu desafiado a ler, em uma época em que pegava muitos livros emprestados lá em casa. Logo desistiu. Seu vaticínio: "O cara comia rim frito, Rafael. Ele saiu para comprar rim e gostava do cheiro do xixi. Muito louco, cara. Muito louco. Não aguentei ler"

Mesmo diante dessa nova provocação levei muitos anos para empreender a tarefa.
Resolvi começar a ler como qualquer outro livro, sem ler a respeito dele para não estragar a surpresa. Eu só sabia duas coisas: que ele era verborrágico e que algum cara gostava de rim frito. Sabia também que o livro narrava um dia na vida de um cara. Até que era promissor.


A LEITURA

A estratégia para ler e não desistir foi traçada. Eu leria no metrô: 30 minutos na ida, 30 na volta. Uma hora por dia. Comecei o livro bem disposto. Logo de saída, tentei decorar o nome dos personagens, mas eram muitos e não se repetiam muitas vezes. Desisti. O primeiro capítulo é longo e dá pra perder o fio da meada logo de cara, pelo menos eu perdi.

Logo percebi que saber os personagens ou tentar entender o que se passava era um luxo e eu não podia arcar com ele. No começo, eu lia apenas dez páginas por dia: seis na ida, quatro na volta (sim, eu estava contando. Algum problema?) Nesse ritmo, estimei que levaria uns seis meses para ler. Passei diversas páginas lendo a esmo, sem saber exatamente quais eram os personagens ou o que eles estavam fazendo. O autor não se esforça nem um pouco em marcar os personagens e só depois de muitas páginas é que você sabe sobre quem é o livro ou sobre quem deveria ser.

Curiosamente, há um ritmo para ler que se adquire ao longo do tempo. Após pegar o ritmo e ultrapassar (o que eu achava ser) a metade do livro, é possível curtir um pouco mais a obra. Quando peguei o ritmo, já conseguia ler dez páginas na ida e dez na volta, quando lia na volta. Voltando à questão do ritmo, como eu disse, é possível ler mais rapidamente dependendo do estilo que o autor usa. o estilo de narrativa varia muito ao longo do livro e uns são mais fáceis de ler que outros. O meu favorito é o estilo em forma de perguntas, já mais para o final da obra.

Com o tempo, também fui perdendo o medo de ler coisas sobre o Ulisses e acabar com a surpresa. Primeiro, li a mensagem eletrônica que meu pai mandou e que continha diversos comentários (Que estão na aba "saiu na mídia). Esses comentários, por vezes, esclareceram ou confirmaram cenas que eu já lera. Foi útil.


A POLÊMICA

Também durante a minha leitura, o livro, numa coincidência incrível e feliz, foi objeto de uma nova polêmica. Isso porque o autor mundialmente famoso Paulo Coelho declarou que o livro, tirando o estilo, não dava um "tuíte", isto é, poderia ser descrito em 160 caracteres, contando os espaços.

Um bom resumo foi a reportagem da Folha de S. Paulo a respeito, no dia 17 de agosto de 2012, que também está na abinha "Saiu na mídia" deste livro no LIvronautas.



AS PALAVRAS

A verborragia é outro aspecto muito comentado. Eu li a tradução de Houaiss, que é a primeira tradução para o português, e de fato há muitos vocábulos desconhecidos.

Às vezes, são expressões que não conheço, talvez elas já sejam velhas: " - Minha mulher também - disse êle - Vai cantar numa função de classe na sala Ulster" (Pag. 84). Sério, o que é função de classe?

Outras vezes, havia frases em que eu conhecia ou deduzia o significado de cada palavra. Mas a junção de todas elas numa mesma frase: "O Senhor Bloom volveu os olhos pestanudos com amizade não sôfrega" (pag. 84) Sério, como é uma amizade não sôfrega?

Como eu não costumo ter dificuldades com vocabulários, tive vontade de comparar com trechos em inglês. Será que no original havia tantos vocábulos diferentes.

Descobri que muito gente se debruçou sobre o assunto e foi além comparando as diferentes traduções, como se pode ver no link abaixo http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/2012/06/12/os-ulisses-de-joyce-traducao-e-reacao/

Creio a polêmica sobre as diferentes traduções se dá porque a tradução da prosa dá muita margem a interpretações e quanto mais se sabe sobre um assunto, mais sólida será sua posição. Os tradutores do Ulisses pro português manjavam muito de tradução e mandaram ver.


O FALSO FINAL

Todo este movimento em torno do livro me deixou mais motivado. Muitas vezes, eu continua sem entender tchongas, mas apreciava mais a leitura.

Cheguei ao final do volume de Ulisses. Precisamente na página 750 com o seguinte final "Sozinho, que sentiu Bloom? O frio do espaço interestelar, milhares de graus abaixo do de fusão ou do zero absoluto de Fahrenheit, centígrados ou Réaumur: as admonições incipientes da aurora próxima."

Pra mim fazia todo sentido terminar assim (mas, sério, o que são admonições incipientes? E que medida é Réaumur?), sem um final clássico.

Mas duas coisas me inquietaram: a ausência da parte narrada pela mulher de Bloom, constante do tuíte do Paulo Coelho sobre o livro, e o fato de não ter uma página a mais contendo a gramatura do papel do livro.

O fato de ser uma edição de 1968 (44 anos na data de hoje) me levou a crer que algumas páginas poderiam ter sumido. Então resolvi checar e, sim, faltavam páginas.

Então, não, eu não terminara o livro. Achei que aquele dia, 4 de setembro, seria o dia histórico em que eu terminaria de ler Ulisses e não foi. Pelas minhas contas faltavam quase 10% das páginas. O dia na vida de Leopold Bloom em 1904 ainda ia durar mais um pouco.

O VERDADEIRO FINAL

Márcio Mafra comprou um novo volume para o Livronautas. Ele preferiria manter-se na mesma edição, mas errou o ano e comprou uma de 1996. Bem diferente.

Mas serviu. Retomei o livro e conclui a leitura.

O final do livro tem os maiores parágrafos do livro e talvez da história da literatura. Cada um tem dez, doze páginas, sem ponto final. É uma das boas partes do livro.

Terminei mesmo em outubro, completando seis meses de leitura quase diária.


O JULGAMENTO (OU CONCEITO )

Eu diria que o livro é mediano. A história não é envolvente, os personagens não são cativantes (a mulher do Bloom é um pouco) e, bem, não dá pra entender bem o que está escrito.

Um dos objetivos dos próprio Joyce era ter centenas, talvez milhares de referências implícitas na obra, a maioria delas referindo-se à Odisseia de Homero.

Mas mesmo essas referências não são claras. Como eu não entendi as referências, também não posso elevar o valor da obra por isso.

Entre as coisas boas, que motivam o conceito mediano estão o vocabulário, a mudança de estilos e o talento para levar quase mil páginas para descrever um mísero dia na vida de um puto de um indivíduo.

Coisas que não posso julgar são as referências, como já disse, e as inovações, porque não conheço o período anterior ao livro na literatura europeia.

Pra quem lê muito, continuo considerando obrigatório ler, para poder criticar de fato o que gostou ou não.

Para quem lê pouco, não vale a pena.

Com o tempo e a dedicação necessárias, pode-se ler muitos outros livros melhores e mais importantes. Mas como concluo este comentário a três dias do fim do ano de 2012, posso asseverar que ter lido Ulisses é um ponto positivo na minha avaliação do ano que passou.

Marcio Mafra
17/02/2013 às 00:00
Brasília - DF

A história de um dia na vida de Leopold Blun. Narrativa complicada (ou difícil) de entender, narrada em 957 páginas por um dos maiores escritores da língua inglesa, com tradução de Antônio Houaiss.

Marcio Mafra
17/02/2013 às 00:00
Brasília - DF

Burke me contou que tinha lá uma velhota com um gira de um desatarraxado de um sobrinho e Bloom tratando de amolecer o lado fraco dela o dengoso jogando besigue para arranjar um pedaço do bôlo no testamento dela e sem comer carnes na sexta feira porque a velhota estava sempre batendo no peito e levando o palerma pra passeios.

E uma vez êle levou êle em redor de Dublin e, pelo bom pastor, êle não pôde tomar tento até que o outro trouxe êle bêbado como um peru e êle a explicar que fêz a coisa para ensinar a êle as desvantagens do álcool e, cos diabos, se as três mulheres não cozinharam êle é uma gozada de estória, a velhota, a mulher do Bloom e a senhora O'Dowd que dirigia o hotel.

Jesus, não pude deixar de rir com o Pisser Burke macaqueando elas e Bloom com os seus mas não compreendem ?

E mas de outro lado.

E no duro, me afiançam, o palerma me contaram que ia depois ao Power, o misturador de vinhos, ali na rua Cope voltando na água de sege pra casa cinco vêz.es na semana depois de ter bebido sua carraspana de todos os tipos de bebida do demo do boteco.

Fenômeno! - À memória dos mortos - fala o cidadão levantando o copo e olhando feroz para Bloom.

- À, à - fala Joe.

- Vocês não captaram meu ponto-de-vista - fala Bloom. - O que eu queria dizer. . .

- Sinn Fein! - fala o cidadão.

- Sinn fein amhain! Os amigos que amamos estão do nosso lado e os adversários que odiamos em nossa frente.

O adeus supremo foi extremamente comovente.

Dos campanários próximos e longínquos o dobre fúnebre plangia incessante enquanto a tôda volta do lutuoso recinto rufava o ominoso reboar de cem peças de salva.

Os ensurdecedores ribombos de trovões e as fulgurantes chispas de relâmpagos que iluminavam o cenário fantasmal testemunhavam que a artilharia dos céus emprestava sua pompa sobrenatural ao já de si horripilante espetáculo.

Uma chuva torrencial desbategava-se das comportas dos céus iracundos sôbre as cabeças nuas da multidão congregada que montava segundo os mais baixos cômputos a quinhentas mil pessoas.

Uma formação da polícia metropolitana de Dublin superintendida pelo Alto Comissário em pessoa mantinha a ordem da vasta massa que a banda de metais e sôpro da rua York entretinha no tempo intermediante com interpretar admiràvelmente nos seus instrumentos enfaixados de luto a melodia incomparável da plangente musa de Speranza tão cara a nós desde o berço.

Velozes trens especiais de excursão e charabãs estofados haviam sido providenciados para o confôrto de nossos primos dos campos de que havia grandes contingentes.

Distração considerável foi causada pelos cantores-de-rua de Dublin favoritos L-n-h-n- e M-ll-g-n que cantaram "A noite antes de Larry espichar" na sua habitual maneira hilariante.

Dois de nossos fantasistas inimitáveis fizeram um bom negócio com suas fôlhas-volantes entre os amantes do elemento cômico e ninguém que tem um poucochinho de coração apegado ao real picaresco irlandês sem vulgaridade os censurará pelos vinténs tão suados que ganharam.

As crianças do Hospital dos Expostos Varões e Femininos que atopetavam as janelas que olhavam para a cena estavam encantadas com essa inesperada adição aos seus entretenimentos diários e uma palavra de louvor é devida às Irmãzinhas dos Pobres pela excelente idéia que tiveram de propiciar às crianças órfãs de pai e de mãe êsse regalo genuinamente instrutivo.

Os convidados vice-reais que compreendiam muitas senhoras assaz conhecidas foram conduzidos por Suas Excelências aos lugares mais privilegiados do palanque de honra enquanto a pitoresca delegação estrangeira conhecida como Amigos da Ilha da Esmeralda era acomodada numa tribuna diretamente oposta.

A delegação, presente em pleno, consistia do Commendatore Bacibaci Beninobenone (o semiparalítico doyen do grupo que tinha de ser assistido em seu assento com a ajuda de uma poderosa grua a vapor), Monsieur Pierrepaul Petitépatant, o Grandjoker Vladinmire Pokethankertscheff, o Archjoker Loopold Rudolph von Schwanzenbad-Hodenthaler, a Condêssa Marha Virága Kisászony Putrápesthi, Hiram Y. Bomboost, o Conde Athanatos Karamelopoulos, Ali Baba Backsheesh Rahat Lokum Effendi, o Sefior Hidalgo CabaIlero Don Pecadillo y Palabras y Paternoster de Ia Malora de Ia Malaria, Hokopoko Harakiri, Hi Hung Chang, Olaf Kobberkeddelsen, Mynheer Trik van Trumps, Pan Poleaxe Paddyrisky, Goosepond Prhklstr Kratchinabritchisitch, Herr Hurhausdirektorprasident Hans Chuechli-Steuerli, Nationalgymnasiummuseumsanatoriumandsuspensodumsordinaryprivatdocentgeneralhistoryspecialprofessordoctor Kriegfried Ueberallegemein.

Todos os delegados sem exceção expressaram-se nos mais fortes têrmos possíveis heterogêneos com respeito à barbaridade inominável que êles haviam sido chamados a testemunhar.

Uma animada altercação (na qual todos tomaram parte) seguiu-se entre os ªD.I.D.E. quanto a se oito ou nove de março era a data correta do nascimento do santo padra~iro da Irlanda.

No curso dos argumentos balas de canhão, cimitarras, guarda-chuvas, catapultas, soqueiras, sacos de areia, lingotes de ferro-gusa foram de recurso e golpes foram livremente trocados.

O policia-mirim, Agente Mac-Fadden, convocado por correio especial de Booterstown, restabeleceu ràpidamente a ordem e com presteza relampejante propôs o dezessete do mês como solução igualmente favorável para ambas as partes contendoras.

A sugestão do vivesperto novípede agradou de chôfre a todos e foi unânimemente aceita.

O Agente MacFadden foi cordialmente congratulado por todos os ªD.I.D.E., vários dos quais sangravam profusamente.

Ao Commandatore Beninobenone tendo sido extricado de debaixo da curul presidencial foi explicado por seu consultor jurídico Avvocato Pagamimi que os vários artigos segredados nos seus trinta-e-dois bolsos tinham sido abstraídos por êle durante a refrega dos bolsos dos seus colegas menores na esperança de devolvê-los à lucidez.

Os objetos (que incluíam várias centenas de relógios de ouro e de prata de damas e de cavalheiros) foram prontamente reintegrados nos seus legítimos proprietários e uma harmonia geral reinou suprema.

 


  • Ulisses de James Joyce

    Autor: Paul Gray

    Veículo: www.biblioteca.folha.com.br em 4 de junho de 1998

    Fonte: Internet

    James Joyce certa vez confessou a um amigo: "Quando jovem, uma das coisas com as quais não conseguia me acostumar era a distância entre a vida real e a literatura". Qualquer leitor que sabe apreciar boa leitura percebe a diferença. Joyce passou toda a sua carreira tentando aproximar essas realidades e, sem perceber, acabou revolucionando a ficção do século 20. Joyce trouxe sua própria vida para a literatura. Nascido nos arredores de Dublin, em 1882, James Augustine Aloysius era o mais velho dos dez filhos do casal John e Mary Jane Joyce. O pai, beberrão espirituoso e irascível, era um provedor negligente. A mãe, católica devota, impotente diante das adversidades da vida, assistia de camarote à ruína da família, esperando ter um lugar assegurado no céu. Em 1902, ao terminar seus estudos na Trinity College, em Dublin, Joyce achava que já sabia o bastante para dispensar a religião, a família, a terra natal e a coroa britânica. A literatura seria sua vocação e sua passagem para a imortalidade. No final de 1904, Joyce deixou a Irlanda em direção ao continente, levando na cabeça todas as histórias que um dia iria escrever. Ao lado de Nora Barnacle, jovem camareira da região de Galway, que ele conheceu num hotel de Dublin, o escritor andou por cidades como Pola, Trieste, Zurique, Roma e Paris. Para sustentar o casal e seus dois filhos, Joyce trabalhava como professor ou escriturário. Seu primeiro livro de ficção, "Os Dublinenses" (1914), contém 15 contos, pobres de enredo mas ricos em linguagem e força evocativa. "Retrato do Artista Quando Jovem", escrito dois anos mais tarde, traz um relato lingüisticamente complexo, mas, ao mesmo tempo, bastante objetivo sobre a vida de Stephen Dedalus --o próprio escritor-- desde seu nascimento até a partida de Dublin. O livro teve pouca saída, mas seu trabalho já havia atraído a atenção de vários artistas de vanguarda, incluindo o poeta americano Ezra Pound, que acreditava na necessidade de uma renovação completa na arte, na poesia e na música. Os aliados de Joyce uniram forças para promover sua literatura experimental. O escritor irlandês, é claro, não os decepcionou. "Ulisses" começou a ser escrito em 1914. Alguns trechos da obra apareceram em publicações como "Egoist", na Inglaterra, e "Little Review", nos Estados Unidos, até que o serviço dos Correios, alegando obscenidade, resolveu confiscar três números da revista, contendo fragmentos escritos por Joyce. Seus editores tiveram de pagar uma multa de US$ 100. A ameaça de censura apenas serviu para aumentar a curiosidade sobre o novo livro. Antes mesmo de "Ulisses" ser publicado, em 1922, os críticos já comparavam as inovações literárias de Joyce ao impacto causado pelos trabalhos de Einstein e Freud. Toda essa comoção tinha um motivo claro. Em primeiro lugar, Joyce dispensou a maior parte das técnicas de narração empregadas na ficção do século 19. O livro não tem uma trama distinta --uma sucessão de obstáculos que o herói deve enfrentar na busca de um final feliz. Não existe um narrador onisciente, pronto para guiar o leitor, descrevendo os personagens e seu ambiente, fornecendo detalhes, resumindo os acontecimentos e explicando, aqui e ali, o significado moral da história. Talvez a descrição mais clara e concisa da técnica usada pelo escritor seja a do crítico Edmund Wilson: "Em "Ulisses", Joyce usou as palavras de maneira exaustiva, precisa e direta para retratar a nossa participação na vida --ou melhor, como ela se apresenta a nós, em cada momento vivido". Depois de "Ulisses", a literatura do século 20 passou a dispor de um ponto de referência. Com múltiplas vozes narrativas e um jogo de palavras extravagante, o livro é um verdadeiro dicionário de estilo para os escritores que tentam descrever a contemporaneidade da vida. Existe um pouco de "Ulisses" nas obras de escritores como William Faulkner, Albert Camus, Samuel Beckett, Saul Bellow, Gabriel García Márquez e Toni Morrison. Todos, com exceção de Joyce, receberam o Prêmio Nobel de Literatura. Mas o único autor que ousou superar o alcance enciclopédico de "Ulisses" foi o próprio Joyce. Dezessete anos de trabalho foram dedicados a "Finnegans Wake", escrito com o objetivo de retratar a vida adormecida de Dublin com a mesma minúcia com que o escritor tinha explorado, em "Ulisses", o lado desperto da cidade. Joyce resolveu então inventar uma linguagem que imitasse a experiência dos sonhos. Hoje em dia, apenas os joyceanos mais dedicados se dispõem a enfrentar o obscuro "Finnegans Wake". Quem sabe, daqui a um século, seus leitores conseguirão alcançá-lo.

  • Impressões de leitura

    Autor: Lielson Zeni

    Veículo: Site

    Fonte: www.bonde.com.br

    Mais cultuado do que lido, o livro-chave do autor irlandês continua sendo uma das mais instigantes obras da literatura universal, mesmo após mais de 80 anos de sua publicação. Eu não sei se gosto de James Joyce*. Não sei se algum leitor ou estudioso de suas obras, sobretudo "Ulysses" e "Finnegans Wake", gosta. Porque Joyce me incomoda. Joyce me instiga. E me provoca. Como não se sentir incomodado? Em pleno século XXI, mais de 80 anos depois do lançamento de Ulisses ainda não existe livro que o rivalizasse em questões de inovações formais. As técnicas criadas/aprimoradas por Joyce são ainda o que temos de mais "avançado" em literatura. Ninguém foi além de Joyce até agora. Ulisses parece ser o fim do caminho. O livro chega mesmo a dispensar o narrador nos seus dois últimos capítulos. Receita para ler o Ulisses: Leitura Essencial O Retrato do Artista Quando Jovem (J.Joyce) A Odisséia (Homero) Leitura Recomendada Dublinenses (J.Joyce) A Divina Comédia (Dante Aligheri) Hamlet (Shakespeare) todo o resto da obra de Shakespeare a literatura inglesa escrita até Joyce Some à leitura essencial uma dose de não imediatismo e grande interesse por questões de qualidade literária. Besunte a literatura recomendada com a busca por referências em doses constantes até aturar. Deixe descansar (você) e comece de novo. Por que tamanha dificuldade de leitura? A obra é inovadora, porém ruim, já que não se consegue ler? Se só alguns conseguem ler, é óbvio que ela é elitista e o problema está com eles (leitores), a minoria. Será? Estamos sempre envoltos em cultura de massa, de assimilação rápida e fácil, de estrutura repetitiva. Então nos deparamos com um texto carregado de referências, inovador a cada capítulo, que não lhe permite a criação de uma base estável de compreensão. Com um problema extra em português: a tradução pernóstica de Houaiss. Se a obra já é complicada por sua própria conta, o tradutor dá uma eruditada no texto todo, inclusive em trechos mais simples. Leia a primeira linha da tradução do Houaiss. Coragem irmão... Resumão do Ulisses: Leopold Bloom sai de casa para um enterro e irá percorrer Dublin durante um dia inteiro, visitando biblioteca, jornal, bordel e bares. No final ocorre o encontro com Stephen Dedalus, um jovem intelectual de Dublin. O livro "Retrato do Artista Quando Jovem", é o retrato de Stephen (Joyce?). O Sr. Bloom é o equivalente ao Ulisses (ou Odisseu), herói da "Odisséia" e Stephen, a Telêmaco, seu filho. Assim como na obra de Homero, o herói faz um grande caminho e retorna pra casa, reencontrando o filho, representado por Stephen. Joyce incomoda por pedir uma atenção não convencional, por exigir uma sensibilidade de leitor que vai muito além do trivial. Incomoda a ponto de você entender quase nada. Quase. Você fica com o sentimento de que tem algo ali que você quase entendeu. Que há muita coisa ali pra revirar. E quando dá por si, não é mais uma questão de gostar ou não. É uma questão pra responder. Resposta cada vez mais completa a cada leitura, com uma pergunta cada vez mais díficil. (*) Essa idéia eu empresto de Jacques Derrida em seu ensaio "Duas Palavras", sobre "Finnegans Wake".

  • Resumo sobre o romance Ulisses de James Joyce

    Autor: Elson Teixeira Cardoso

    Veículo: BLOG - publicado no dia 24/6/2007

    Fonte: http://elsonteixeiracardoso.blogspot.com/2007/06/u

    O enredo intrincado e poético, espécie de "reinvenção" do personagem mítico de "A Ilíada" e "A Odisséia", do poeta cego Homero, possui inúmeros personagens e cabe no cotidiano de um dia: 16 de junho de 1904, precisamente em dezoito horas. Tudo gira em torno de Stephen Dedalus (Telêmaco) e o casal Leopold Bloom (Ulisses) e Molly (Penélope). (No poema grego, Ulisses, casado com Penélope, deixa-a e o filho, Telêmaco, lançando-se numa jornada durante dezoito anos. Somente ao retornar é que Penélope deixará de fiar, desfiar e refiar, bordar, desbordar e rebordar sua teia, sem ceder aos apelos dos inúmeros pretendentes à sua mão, depois derrotados por Ulisses e seu filho.) Leopold Bloom é judeu e trabalha como agenciador de anúncios para jornal, é livre pensador de cultura mediana, mas de infinita admiração pelo que supõe ser cultura, é infeliz no casamento e tem uma filha, Milly (já desperta ao sexo). É discriminado por sua delicadeza e urbanidade de trato, por sua ascendência — ora é irlandês, ora judeu, ora estrangeiro, ora cidadão do mundo, suspeito e segregado. A tristeza recorrente em sua vida, e na da esposa, é o filho varão natimorto, personagem que como rima reaparece na mente de ambos, ausência presente que impediu a felicidade do casal. Molly é aquela que podia ou teria querido casar melhor, é a que amou o esposo e não sabe se deixou de amá-lo, é a que o trai imaginariamente, é a que, no devaneio, recapitula amores, recapitulados também pelo esposo. A contagem do casal não coincide: ela não conta os quase-casos, ele os conta em parte, mas omite, ao que parece, alguns reais casos. Molly é humaníssima — Gea Tellus, a Terra Fecunda, a Terra-Mãe —, fora educada para ser dona-de-casa, mas falha nas tarefas. No decorrer do dia, Stephen Dedalus e dois colegas, albergados nas ruínas de uma torre à beira-mar, debatem temas essencialmente teológicos e teleológicos. Depois, Stephen dá uma aula de história a garotos e recebe um salário. Caminha por uma praia, ruminando os pensamentos e ''lendo'' a marca de cifras, símbolos e signos nas coisas e seres. Entra em cena Bloom, matinal, ''conversando'' com a gata, preparando o desjejum da esposa, antegostando o seu. Sai e perambula por Dublin, a cidade personagem. Chega à casa de um amigo morto, cujo enterro acompanhará. Na redação do jornal, assiste a parte de um diálogo brandido por uns intelectuais presentes, Stephen, inclusive, mas não se conheciam. Vai, a seguir, almoçar, e peregrina em busca de local adequado. Depois, ruma para uma consulta à biblioteca central, e continua suas andanças pelas ruas, temeroso de voltar cedo para casa. Detém-se num bar e ouve músicas e árias que o inebriam. Passa por uma taverna, visita um hospital, participa de uma comemoração improvisada entre médicos, estudantes e visitantes, inclusive, Stephen, impressionando-se pelo verbo deste, vendo-o endinheirado e quase bêbado, o que o preocupa. Iniciam um relacionamento interafetivo, em que todas as falhas de cada um, se juntam no convívio de algumas horas do dia, até que o novo amigo chega a dividir o leito interconjugal do casal. Ao final, Molly, antes de redormir, recapitula o dia e parte de sua vida, num fluxo psíquico, entre lúcida e ilúcida, num derramamento monologal que constitui o clímax do romance.

  • Ulisses Manda Recado

    Autor: Conceição Freitas

    Veículo: Jornal Correio Braziliense, publicado na coluna dia 7 de maio de 2008.

    Fonte:

    Nunca li Ulisses, o de Joyce. Nem estava nos meus planos, a essa altura, enfrentar a peleja. Não tenho veleidades beletristas, não quero ler tudo nem todos nem os melhores. Não tenho tempo para tanto. A vida bruta corre ao largo e exige, cada vez mais, mais. Mas num desses acasos carregados de mistério, como de resto são os acasos; um exemplar de edição recente do Ulisses aboletou-se na minha mesa. E como ele não é um exemplar que passe despercebido, nas suas 850 páginas, folheei o bicho. Não estava interessada, admitd, nas sabedorias do Joyce. Queria mesmo era sentir o cheiro de livro novo - que, como o cheiro de boneca nova e de carro novo, são os mais reconfortantes cheiros que a era industrial já foi capaz de produzir. E já que estava com o livrão ali me olhando com seus olhos de "eu sou sabichão e você é uma burralda e preguiçosa que não tem coragem de conferir se dá conta ou não de me enfrentar, decidi comer o bicho pelas bordas. Descobri que Uisses conta um día na vida da humanidade, o que, de cara, é de uma pretensão sem tamanho."Se fosse possível laçar o tempo ou capturar o infinito, poderíamos dizer que James Joyce o conseguiu em seu livro", puxa-me a orelha mestre Antônio Houaiss, tradutor de Ulisses. Ao contar um dia na vida de um ser humano, Jóyce mostrou que não importa se você se chama Ulisses ou Maria dos Anzóis Pereira. Ou que se chame Pedro de Alcântara (e mais 14 sobrenomes) e tenha sido imperador do Brasil ou Pedro e Só e seja um pobre trabalhador braçal,pouco importa. Todos nós carregamos na nossa história uma tragédia trivial. Portanto, diz Houaiss, "qualquer supervalorização de mim mesmo, em face dos meus semelhantes, é um exagero, é um egocentrismo, é um egoísmo: somos todos, de Ulisses a João da Silva, feitos da mesma argamassa de fragilidades, puerilidades, ordinariedades e - se quiser - grandezas e heroísmos de que são feitos quaisquer Joões da Silva ou Ulíssesses." Comido o mingau pela borda, fui atrás de um exemplar do Ulisses. Esgotado. Recorri a uma rede virtual de sebos, que sempre me salva. Achei dezenas. Escolhi o mais barato, mas o livreiro avisava que era um livro velho, sujo, cheio de anotações. Ok. E já fiquei imaginando que anotações viriam, que eu iria ler um livro já lido por um desconhecido e iria então ler dois livros, o meu e o do desconhecido. O livro chegou ontem, edição de 1967, bem mais acabadinho do que eu imaginava. Sujão mesmo e com um cheiro de mofo. Até aí, nenhum grande problema que me impedisse a leitura. I O problema veio quando abri a primeira página. Logo na folha ,de rosto, li a seguinte dedicatória: "Leia sossegada. Quando você acabar, Jeanete e eu enterraremos você com muitas margaridas, tá? Abraços nossos." Rasguei a folha de rosto em pedacinhos. Sobrou o Ulisses - inteiro.

  • Aos 90, "Ulysses" Ganha Terceira Tradução no País

    Autor: Fabio Victor

    Veículo: Jornal Folha de São Paulo

    Fonte: Ilustrada/Livros - Folha de S.Paulo 12/5/2012 pag E6

    Aos 90, "Ulysses" ganha terceira tradução no país.


    Obra de Joyce entra em domínio público com nova versão de clássico.

    Trabalho de Caetano Galindo revigora mística do romance, tido como o maior do século 20, mas considerado "dificil".

    Fábio Victor -

    Há clássicos literários reverenciados, outros populares. E há os que, embora muito reverenciados, são muito pouco lidos. Este parece ser o caso de "Ulysses".
    Apontado em diversas enquetes com críticos como o principal romance do século 20, o livro maior do irlandês James Joyce (1882-1941) é uma provocação ao leitor. É enorme (mais de 800 páginas), experimental e vertiginoso.
    Surge agora mais uma chance para os brasileiros de enfrentá-lo; a nova tradução ao português de Caetano W. Galindo, com coordenação de Paulo Henriques Britto e edição de André Conti, para o selo Penguin-Companhia, a terceira disponível no país, que acaba de chegar às livrarias.
    As diferenças para os trabalhos de Antônio Houaiss, de 1966, e de Bernardina da Silveira Pinheiro, de 2005, começam no título. Galindo é o primeiro a adotar a grafia original em latim, "Ulysses", com "y" no lugar do "i" aportuguesado de Houaiss e Bernardina.
    O volume traz uma nota do tradutor, na qual ele promete para breve um guia de leitura do romance, e uma introdução do professor irlandês Declan Kiberd.
    Kiberd relembra como Virginia Woolf - que nasceu e morreu nos mesmos anos de Joyce e cuja obra, como a dele, entra agora em domínio público- rejeitou "Ulysses" à época do lançamento, o definindo como a obra "de um estudante nauseado espremendo suas espinhas".
    Kiberd também refaz a trajetória tortuosa do romance, censurado e processado por obscenidade e publicado em Paris, em 1922 (completa 90 anos e seu criador, 130). 
    A obra de Joyce narra um dia na vida de Leopold Bloom de - um agente publicitário dublinense, anti-herói baseado no Ulisses da "Odisseia" de Homero, casado com Molly Bloom, sua Penélope infiel -, e de seu amigo Stephen Dedalus, correspondente de Telêmaco e alterego de Joyce.
    O ano é 1904, o dia é 16 de junho, o mesmo em que hoje ocorre o Bloomsday, celebração anual do clássico.
    Seria prosaico assim, se ao mesmo tempo "Ulysses" não tivesse revolucionado a forma tradicional do romance, criando novas ortografia e sintaxe e imprimindo à narrativa um fluxo verbal alucinado, que leva ao limite o chamado monólogo interior.
    Convulsionou a literatura a ponto de virar anedota, como relata o escritor Daniel Galera ao lembrar que sua história com o livro começou aos 12 anos, quando o pai dele "apontou para aquele tijolo no alto da estante e disse":
    "Tá vendo aquele livro?
    Tem uma frase de 50 páginas que fica contando o pensamento de uma pessoa". Referia-se ao monólogo de Molly Bloom, o trecho final de "Ulysses" .
    Segundo Galera, aquilo instalou nele "um fascínio imediato pelo volume", que só viria a ler quando adulto.
    Outra vítima da mística de "Ulysses" foi o escritor Joca Terron, que paquerou por anos uma edição do livro na estante do pai, sem coragem para encará-Ia. Quando o fez, leu só um terço, até que o pai tomou de volta o exemplar.
    A jornalista e colunista da Folha Barbara Gancia diz ter lido "Ulysses" "na marra", porque fazia parte do seu currículo escolar.
    "Ou melhor, não li. Ninguém 'lê' 'Ulysses', estuda-se o livro parágrafo por parágrafo. E tão complicado e cheio de referências que talvez seja uma boa ideia usá-lo como aposto na leitura de 'Retrato do Artista Quando Jovem', a obra que o precede e é um pouco mais amigável."
    Discorda dela o professor e crítico Alcir Pécora, para quem "em termos de prosa inglesa, apenas [Laurence] e [Joseph] Conrad planam nas mesmas alturas" que o Joyce de "Ulysses".
    O escritor e tradutor Daniel Pellizzari, que como Pécora leu e adorou, considera que, mesmo sendo "importantíssimo na história da literatura", "Ulysses" não é um livro essencial, "do tipo que se diria que 'todos precisam ler"'.
    Para quem quer enfrentar, o escritor Nelson de Oliveira sugere: "Esqueça as notas de rodapé [eliminadas na nova tradução] e os mapas de leitura. Entre desarmado no labirinto". Fã do livro, o artista plástico Nuno Ramos aconselha que "quando ficar chato, pule - quem sabe para voltar depois. Vale a pena".

  • O Tamanho de Ulisses

    Autor: Paulo Coelho

    Veículo:

    Fonte: Internet

    "O tamanho de Ulysses

    A convite da Folha, sete autores reduzem "Ulysses" a um tuíte, como sugeriu Paulo Coelho

    DE SÃO PAULO

    Deu no "New York Times". E no "Guardian", na "Economist", no italiano "Corriere Della Sera", no francês "Libération" e, na última quarta, até no "Dalmacia News", diário de maior circulação dos Bálcãs: Paulo Coelho vilipendiou "Ulysses".

    A boutade do controverso autor brasileiro, o mais celebrado no exterior (140 milhões de livros em 160 países), alegando em entrevista à Folha no último dia 4, que o clássico de James Joyce é "só estilo" e que, se dissecado, "dá um tuíte", comoveu leitores ao redor do mundo.

    "É o maior insulto já sofrido por Joyce", sentenciou Jennifer Schuessler, jornalista do "New York Times", que admitiu nunca ter lido Coelho ("Assim ela me põe em pé de igualdade com o autor. Tomo como elogio", diz o brasileiro).

    Ao contrário de Jennifer, Stuart Kelly, crítico de literatura do "Guardian", leu quatro livros do mago e mantém a réplica de pé: "Coelho tem direito à opinião dele e eu tenho à minha, de que a dele é tacanha, fácil e baseada em evidências questionáveis".

    Para Kelly, no "processo de 'emburrecimento' do mundo atualmente, vozes precisam se levantar em favor do oblíquo, do experimental e do complexo", como é o catatau irlandês de mais de mil páginas que narra um dia na vida de Leopold Bloom.

    A crítica a "Ulysses", partindo de um autor de longo alcance, seria um desserviço à literatura, segundo ele.

    Nas redes sociais, em que Paulo Coelho tem cerca de 15 milhões de seguidores, a questão tomou ares de disputa renhida.

    De um lado, súbitos leitores de "Ulysses". De outro, partidários de Coelho, segundo ele, "ofendidos nos últimos 25 anos por serem meus leitores". De todos os cantos, insultos voando à toda.

    Mas, se há algo a que "Ulysses" está habituado é a ataques. Isso ocorre desde o início de sua publicação em capítulos, a partir de 1918, na revista americana "The Little Review". Ao falar de masturbação, Joyce foi acusado de obscenidade. O livro foi banido dos EUA e da Inglaterra.

    Naquele país, só voltou a ser publicado em 1934, sob protestos de puristas. É de se perguntar: 90 anos depois, ainda é preciso quem o defenda? Para Stuart Kelly, sim.

    "Livros como esse ajudam a compreender questões mais profundas da nossa existência, ao invés de oferecer paliativos e falsas soluções."

    E, afinal, "Ulysses" pode ser resumido em um tuíte? Na opinião de Idelber Avelar, professor de literatura da Universidade de Tulane (EUA), sim. "'Hamlet' e 'Guerra e Paz' também", disse ele, provocando os joyceanos contra o autor de "O Alquimista".

    Para efeito de tira-teima, a Folha convidou sete autores -inclusive Coelho- para fazerem o que, há quem diga, é quase um crime: reduzir mais de mil páginas de narrativa "avant-garde" em, no máximo, 140 caracteres.

     

    JAMES JOYCE NO TWITTER

    Um dia na vida de Leopold Bloom em até 140 caracteres

    Dois bebuns tocam o puteiro 24h em Dublin. Então sobra pra Molly, a safada, viajar na maionese até o fim

    @xicosa

    Cansado da patroa que #falamuito, um professor junta uma patota alucinante e apronta a maior confusão. Hoje. Ulysses. Depois do Fantástico.

    @rbressane

    O inferno dura um dia. Um dia que se repete. O mesmo dia errado. O paraíso dura um dia também. O mesmo dia certo. Ulisses é um dia indeciso

    @carpinejar

    marido perambula pela cidade, esposa fala sozinha

    @felipevalerio

    Judeu caminha por Dublin e tenta se lembrar se puxou a descarga. Come fígado. Observa mulheres. Masturba-se. Sua esposa pensa na vida. Sim.

    @xerxenesky

    Aviso aos leitores de Paulo Coelho: não é a biografia de Ulysses Guimarães

    @MarcelinoFreire

    16/06: dia interminável, com as conversas de sempre. E de noite - #WTF! - tenho que escutar minha adúltera mulher falando sozinha.

    @paulocoelho

     

Marcio Mafra
17/02/2013 às 00:00
Brasília - DF

Comprei o primeiro Ulisses no final dos anos 60. Provavelmente em 1968. Nos anos seguintes fiz verdadeiras investidas para a sua leitura. Nunca consegui. Perdi a conta de quantas foram as tentativas de fazê-lo. Sempre que me perguntavam sobre "aquele" livro de capa azul, letras dourado, muito grosso, que se destacava na estante, respondia que não sabia nada sobre ele, pois foram negativas todas as minhas tentativas de leitura. Até hoje, ainda se encontra na estante, como um verdadeiro emblema: o livro que não consegui ler.

Para meu espanto, em 12 de junho de 2012, aproximadamente aos 44 anos “de existência na prateleira” Rafael tomou o Ulisses emprestado, para leitura - que disse - faria exclusivamente no trajeto diário do Metrô.  Cresceu meu espanto e aumentou minha admiração por Rafael, pelo enfrentamento do desafio.

Por volta do setembro Rafael chegou ao final do livro, quando verificou que o velho Ulisses de 748 páginas estava incompleto. Faltavam-lhe páginas. A história não finalizava. Seria a misteriosa maldição?


Maldição à parte, nada muito espantoso para um livro que há mais de 40 anos “rola” em minha prateleira.

Aquele livro não poderia ter passado incólume pela infância de meus quatro filhos e sete netos. Sem considerar, também, as diversas mudanças de endereços que minha família experimentou nesses 44 anos, tendo residido em seis ou sete endereços diferentes na cidade de Brasília.

Restava – somente – a alternativa de encontrar nos sebos virtuais, uma edição do ano 1966 e comprar novo Ulisses, para que Rafael completasse sua leitura.

Coisa feita logo em seguida, no mes de outubro.

Em poucos dias a encomenda foi entregue em meu endereço e Rafael pode, então, concluir a maldita e longa leitura.


 

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