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Barba Ensopada de Sangue

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Barba Ensopada de Sangue

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Autor: Daniel Galera

Editora: Companhia das Letras

Assunto: Romance

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 423

Ano de edição: 2012

Peso: 520 g

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Excelente
Marcio Mafra
14/01/2013 às 23:16
Brasília - DF
Daniel Galera, autor do excelente “Mãos de Cavalo” aparece agora no final de 2012 com o espetacular “Barba Ensopada de Sangue”. Galera conta a história do neto de Gaudério, um gaúcho tosco, metido a valente, namorador incorrigível, rude, cantador de festa, que morreu afogado na praia de Garopaba, pertinho de Floripa. Mas sua morte nunca foi bem explicada. Daniel Galera constrói com muita graça, propriedade e notável talento o personagem principal como um excelente professor de educação física, apaixonado por natação. Ele morava em Porto Alegre e "se deu mal" no casamento. Sua mulher Viviane o abandona para viver com Dante, que era irmão do professor. Nessa mesma ocasião, o pai do nadador se suicida. O Professor então vai buscar tranqüilidade e solidão para digerir isso tudo e se muda para Garopaba, onde se desenrola o resto do romance. Claro que ele passa a conviver com outros personagens como Dália, a periguete loura, Bonomo, um tipo "maluco beleza". Convive também com Beta, uma cachorra aleijada que ele herdou do pai, sem contar com os seus novos alunos na academia de Garopaba onde passa a dar aulas. Sua história segue divertida, gostosa, as vezes dura e incompreendida, mas com um final surpreendente. Belo livro. Excelente leitura.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história de Gaudério, um velho gaúcho, metido a valente, namorador incorrigível, rude, cantador de festa, que morreu afogado na praia de Garopaba, pertinho de Floripa.  Gaudério tinha um neto, professor de educação física, apaixonado por natação que se muda de Porto Alegre para a mesma Garopaba, em busca de paz, tranqüilidade e solidão para compreender o recente suicídio de seu pai, que lhe deixou de herança, além de uns caraminguás, uma cachorra que atendia pelo nome de Beta. Ele aproveita sua estada em Garopaba para tentar descobrir qual mistério cercava a morte do avô Gaudério, que nunca fora bem explicada.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Ela não telefona. A semana vai ficando para trás e ele se tortu­ra por não ter pedido o número dela também. Ao mesmo tempo não consegue se forçar a ir de novo à agência para importuná-Ia e no par de vezes que acaba passando em frente ao escritório envidraçado se limita a cumprimentá-Ia do outro lado da vidra­ça. Ela devolve os acenos mas não o chama. Ele dá atenção ex­traordinária ao celular nesses dias, o mantém sempre carregado e à mão, com créditos de sobra, e confere a tela sem parar em busca de mensagens e chamadas não atendidas que quase ine­xistem há meses e que não vinha fazendo questão nenhuma de receber. Ele quer que ela ligue, que o chame para entrar. Acredita que se tomar outra iniciativa vai botar tudo a perder.

Vê casais agasalhados na beira da praia tomando chimarrão e lendo revis­tas nas manhãs de sol e se imagina fazendo o mesmo ao lado dela. Imagina que dormem juntos na sua cama embalados pela percussão sem fim das ondas, amolecidos pelo calor combinado de seus corpos. Fantasia que estão vivendo juntos e tiveram um filho e quanto mais debocha de si mesmo e tenta sufocar essas ideias mais sua mente as elabora e maior é o contraste entre as fantasias e as manhãs em que acorda sozinho com o mesmo dia pela frente e com a rotina que normalmente aprecia assombrada minuto a minuto por uma sensação de impotência.

Ele se sente doente. a sexta-feira pela manhã tem a ideia boba de comprar um presente para ela e à tarde a ideia boba já se transformou numa obsessão incontornável e no fim do dia ele pedala procu­rando as poucas lojas de roupas e presentes que funcionam no meio do inverno sem conseguir pensar em nada que pudesse agradá-Ia.

Lembra da livraria. A vendedora sugere um punhado de best-sellers e há uma prateleira só com obras de psicologia mas ele acaba não comprando nada porque seria fácil demais errar com um livro, não sabe escolher, e além disso os livros afir­mam ou denunciam demais e ela não é uma mulher que deve ler qualquer coisa. Faz uma última tentativa na loja de decora­ção balinesa na entrada da cidade. Há enfeites de cozinha e pe­quenos objetos decorativos que se podem pagar. A moça que o atende garante que tudo vem direto de artesãos da ilha de Bali.

Encontra uma colcha de cama deslumbrante com intrincados padrões verdes e dourados que não custa muito e de repente se dá conta do que está fazendo ali e vai embora. Em casa ele con­fere a escala da academia e descobre que este sábado é dele.

Vai dormir cedo e no dia seguinte está na piscina às oito da manhã mas nenhum aluno aparece até o encerramento do expediente à uma da tarde. A temperatura está abaixo de dez graus e ameaça chover. Em vez de almoçar ele bota os tênis, o calção e a jaqueta que ganhou de seus alunos e vai correndo pela praia até o Siriú com a intenção de pensar em Jasmim até esquecê-Ia, acelerar o motor até fundir, transpirar a vontade que não passa de vê-Ia.

Demora mais de uma hora para começar a cansar. Chega um momento em que fica em paz. Não falha. Uma única trovoada sem relâmpago rebenta em algum lugar mas não chove.

Domingo de manhã faz sol de novo e ele põe Beta à prova no primeiro passeio longe de casa após o acidente. Carrega a cachorra até o início da praia e a acompanha devagarinho. Ela
manca de um jeito esquisito, a pata dianteira fraturada está rígi­da e o desempenho das traseiras continua um pouco atrofiado mas ela anda mais rápido que o esperado e não dá sinais de querer desistir. Pelo contrário, vai ganhando confiança.

De tempos em tempos ela se aproxima do mar e em mais de uma ocasião ele precisa resgatá-Ia para que não seja derrubada por uma onda que alcança a praia com mais ímpeto. Ele custa a acreditar, mas a cachorra está pegando gosto pela água. Caminha com ela até o início do calçadão, senta na escada que desce até a areia e passa a mão em sua cabeça pensando em deixá-Ia descansar um pou­co, mas a cachorra sai no seu trote travado em direção ao mar.

Ele levanta e a alcança quando já está enfiando o focinho nas on­das. Ficou maluca, danada? Pega Beta no colo, volta para a areia, se despe até ficar só com a cueca boxer preta, amontoa as roupas em cima de um pequeno cômoro e entra no mar carregando a cadela debaixo do braço. As ondas aqui são mais fortes que no canto da praia mas ela parece não se importar. O mar está tão gelado que a sensação não é nem de água fria mas sim de calor abrasivo, como se o limite do frio não pudesse ser distinguido do limite do calor. Segura a cadela o tempo todo pela barriga com as duas mãos assegurando sua flutuação mas deixando que ela agite as patas e seja encoberta de leve pelas ondas. Betinha, tu é muito doida, ele diz batendo os dentes. Quer virar baleia agora? Quer ser campeã mundial de nado cachorrinho? Ela espirra e nada, espirra e nada. Quando seus membros começam a doer e formigar ele tira a cachorra da água e a seca com a camiseta, depois veste o restante das roupas no corpo molhado e toma o caminho de casa.

Está duro de frio. Um pouco antes de passar pelos dois barcos de pesca que estão estacionados sobre madeiras na praia ele escuta a voz de Jasmim chamando o seu nome. Está
sentada sozinha tomando chimarrão num dos bancos da calçada com a silhueta estufada por um casaco azul-marinho de náilon acolchoado e um cachecol de lã enrolado no pescoço.

Caminha até ela.

Tinha uns caras parados aqui olhando pro mar e comen­tando que um doido tava tomando banho de cueca com um cachorro. Parei pra olhar e pensei, Hum, acho que conheço essa

pessoa.

Era eu.

Tu não sente frio?

Tô quase morrendo de frio. Mas esse solzinho ajuda na hora de sair.

Sorte tua que não tá ventando.

Não teve passeio hoje?

Não, não fechou o grupo. Aí o Frota que é o dono da agên­cia ficou ali e eu adiantei minha ida à igreja e agora vim tomar um chimas aqui antes de voltar pra casa.

Tu vai na igreja?

Vou nos domingos. Tenho ido na capelinha da praça ali. É um amor, tu já entrou?

Nunca.

Tu não tem religião?

Não. Tu tem?

Ah, eu acredito em Deus. Só isso. Fui criada assim. Igreja aos domingos desde criança. Me faz bem rezar. O gesto de ir lá e rezar. Eu sei que é irracional e tal. Queria parar mas não consigo.

Em algum momento eu quis acreditar e não consegui.

Não importa. Deus não tá preocupado com isso, não. Mas ele não deve gostar de quem brinca com a vida assim. Tu tá azul.

Pessoas azuis tendem a acordar no hospital com hipotermia. É melhor tu ir logo pra casa.

Acho que eu prefiro ficar aqui mais um pouco.

Ela o encara fixamente e apesar dos esforços ele acaba des­viando o olhar.

Então toma um chimarrão aí pra te esquentar.

Ela pressiona o botão da garrafa térmica e o esguicho de água fumegante preenche a cavidade entre a cuia e a erva-mate com um ruído espumoso. Beta estava entregue ao próprio juízo longe dali mas agora volta em direção ao dono com seu passo aleijado.

Jasmim lhe entrega a cuia e observa o animal intrigada.

Como se chama o teu cachorro?

Beta. É fêmea.

Que problema ela tem?

Ela foi atropelada. A veterinária queria sacrificar mas eu não deixei e no fim das contas ela se recuperou. Tem que fazer fisio­terapia pra ver se ela volta a andar direitinho mas eu tive a ideia
de colocar ela na água pra se exercitar. Tinha um cara que vinha exercitar o pitbull dele quase toda noite ali na frente do meu apartamento. O bicho ficava horas buscando uma garrafinha no
mar. Fiquei pensando naquilo. Eu sei um pouco sobre hidrote­rapia pós-cirúrgica. É eficaz pra lesões de coluna e o uso veteri­nário não deve ser muito diferente. Aí tive essa ideia. Acho que
foi um pouco de intuição também. E ela foi reagindo. Quando saiu da internação nem abanava o rabo. Não só tá melhorando como tá pegando gosto pela água. Viu ela ali? Tá pegando a ma­nha de furar onda.

Ele sorve o chimarrão quente e seu corpo relaxa um pouco.

Tu entra com ela na água todo dia?

Todo dia.

Ela fica olhando para a cachorra e não diz mais nada até ele terminar o chimarrão e devolver a cuia.

Preciso ir agora. Tá muito frio. Olha só, eu  - Eu te ligo semana que vem pra gente fazer alguma coisa.

Fiquei esperando que tu ligasse. Não tenho como anotar o teu agora mas se tu me der um toque­

Eu te ligo.

Eu gostaria muito. Bom domingo pra ti.

Pra ti também. Te esquenta.


  • O Amigo da Solidão

    Autor: Por Adriana Abujamra

    Veículo: Jornal Valor Economico, Caderno Eu & Fim de Semana

    Fonte: Jornal Valor Economico, Caderno Eu & Fim de Semana, edição 11/11/2016

    O amigo da solidão Por Adriana Abujamra Em 2004, o escritor Daniel Galera participou pela primeira vez da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), como integrante de uma mesa dedicada a novos autores. Caçula do festival, com 24 anos à época, tinha dois livros publicados por uma editora independente criada por ele e dois amigos gaúchos. O selo, cujo objetivo maior era viabilizar a produção do trio, não rendia lucro, e os sócios festejavam toda vez que conseguiam cobrir os custos. Galera circulava pelas ruas de pedras de Paraty com uma mochila pesada nas costas, vendendo seus livros para quem cruzasse seu caminho. Numa dessas andanças, topou com o editor Luiz Schwarcz, que voltava de uma corrida matinal. Suado e ainda um pouco ofegante do exercício, chamouo pelo nome: "Opa! Galera?". "Sim, sou eu", respondeu o escritor, sem demonstrar surpresa, como se fosse trivial cruzar com o dono da Companhia das Letras e ser por ele reconhecido. "Um funcionário meu comentou que seus livros são bons. Não consegui ler ainda, mas fiquei interessado." O escritor sacou da mochila um exemplar de "Até o Dia em que o Cão Morreu" (2003), seu primeiro romance, e entregou ao editor. Uma semana depois, Schwarcz ligou dizendo que estava interessado em incluir Galera no catálogo da editora e iniciar parceria com uma obra inédita. O escritor trabalhava em um novo romance e mandou os quatro primeiros capítulos que já estavam prontos. Três dias depois, Schwarcz voltou a procurálo para selar o negócio. Ofereceu um adiantamento e pediu uma estimativa de quanto tempo levaria para concluir a história. Fezse silêncio do outro lado da linha. "Cara, e agora?", pensava Galera. "Tem contrato, adiantamento, prazo. Bá! Em quanto tempo eu acabo? Se eu sugerir muito, ele vai achar que sou relaxado." Saiu do impasse assegurando, no chute, que em seis meses entregaria o romance. Schwarcz, mais realista e experiente, ofereceu um tempo bem mais largo. Galera deixou os videogames de lado o que para ele é um suplício e entregou "Mãos de Cavalo", lançado em 2006, exatamente na data combinada. "Nunca estourei um prazo na vida. Sou o louquinho do prazo." Ao meiodia em ponto, Daniel Galera chega ao restaurante Jesuíno Brilhante, pequeno restaurante em Pinheiros, em São Paulo, para este "À Mesa com o Valor". O nome é inspirado em um bandoleiro do sertão do Rio Grande do Norte, de onde vieram também o proprietário, as receitas e a trilha musical da casa. Chapéus de cangaceiro enfeitam as paredes. Com cabelo castanho curto e sobrancelhas grossas, Galera veste tênis, calça social e blazer sobre uma camisa rosa clara. Uma cicatriz próxima ao lábio superior é uma lembrança de um tombo de bicicleta na infância. Na adolescência, aprendeu a tocar violão e tentou compor canções, "fracassando miseravelmente". Deixou a pretensão de lado, mas mantém as unhas da mão direita compridas, para dedilhar uns acordes de vez em quando. O porte atlético é mantido pela natação. De Daniel Galera e o cineasta Beto Brant em 2007, em festa de lançamento do filme ‘Cão Sem Dono’, baseado em livro do escritor, no Espaço Cabaret, em São Paulo natureza introspectiva, nunca se deu bem em jogos coletivos. "Todos os esportes coletivos que arrisquei fazer resultaram em vergonha e arrependimento." É no fundo silencioso da água, na solidão das braçadas repetitivas, que ele atinge um "estado meditativo" e encontra soluções para suas histórias. "No meu vestiário ideal, haveria sempre um computador." Em 2007, ano seguinte à estreia de Galera na Companhia das Letras, o escritor desbravava outro território. Chegava às telas de cinema a adaptação do livro que o autor deu a Schwarcz naquele encontro inicial em Paraty. "Cão Sem Dono", com direção de Beto Brant e Renato Ciasca e com os atores Júlio Andrade e Tainá Müller, teve resenhas elogiosas e ganhou prêmios em festivais, como o de melhor filme segundo a crítica no Cine PE de 2007. O escritor foi se tornando, assim, uma das principais figuras da nova literatura brasileira. Atualmente com 37 anos, Daniel Galera foi apontado em 2012 como um dos melhores jovens escritores brasileiros pela cultuada revista literária britânica "Granta", ao lado de nomes como Michel Laub, João Paulo Cuenca e Tatiana Salem Levy, colunista do Valor. No mesmo ano, Galera publicou "Barba Ensopada de Sangue" (Companhia das Letras), que ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura, o terceiro lugar no Prêmio Jabuti e foi vendido para 12 países os direitos para uma adaptação cinematográfica foram adquiridos pela produtora RT Features. O jornal "New York Times" publicou resenha elogiosa do livro seu primeiro romance vertido para o inglês , citando Galera como "escritor talentoso" de um "romance sedutor", com uma "força de tração das marés" e "excelente conclusão". O escritor, que fazia traduções, passou a viver apenas de literatura. "MeiaNoite e Vinte" é o título de seu quinto romance, que chegou às livrarias neste ano. Três amigos que haviam trabalhado juntos em um projeto literário reencontramse 20 anos depois, quando o quarto integrante do grupo, o escritor Andrei, é morto na rua por um ladrão. Há um clima de desilusão, de catástrofe iminente, acentuado por uma onda de calor e uma greve de ônibus que paralisa a cidade. A trama é narrada por três vozes: a bióloga Aurora, o jornalista Emiliano e o publicitário Antero. "Foi meu livro mais difícil", afirma. Para Galera é custoso interagir com muita gente e, pior ainda, ser o foco das atenções. Noite de autógrafo, então, é um tormento. Nervoso, esquece o nome das pessoas e é incapaz de entabular conversa. "É um negócio muito eufórico pra mim, acaba com minha energia. Preciso de um tempo maior para me recuperar." Por isso, aboliu a clássica noite de autógrafo no lançamento de seu novo livro. Vai fazer eventos menores e participar da Feira do Livro de Porto Alegre, que começa hoje. "Querem uma entrada?", pergunta o dono do restaurante, o jornalista potiguar Rodrigo Levino. "Tu tem aquele bolinho de arroz vermelho?", pergunta o escritor, amigo de longa data do dono do restaurante. Galera é padrinho do filho de Levino e foi cobaia para as receitas que hoje estrelam o cardápio da casa. Daniel Galera é filho de gaúchos que sempre leram bastante. Por acaso, ele nasceu em São Paulo, onde seu pai trabalhou com informática. Passou a maior parte da vida em Porto Alegre; aos nove anos, Galera começou a imaginar histórias, como se passasse um filme em sua cabeça. Algumas dessas cenas foram parar no romance "Mãos de Cavalo" que se tornou o filme "Prova de Coragem" (2016), com direção de Roberto Gervitz e Mariana Ximenes no elenco. Até hoje, uma das peculiaridades de seu processo de criação é elaborar o texto em detalhes na imaginação e só depois digitálo. Antes de ser escritor, Galera tentou se expressar via desenho, pintura e música. "Não ficava satisfeito, continuava sem conseguir dizer o que eu queria", diz. Quis ser artista gráfico, estudou publicidade e trabalhou como diagramador. Cursou a conceituada oficina literária de Luiz Antonio de Assis Brasil, romancista e professor de literatura. Nos anos 90, uniuse a colegas da faculdade para criar o fanzine digital Cardoso Online, onde publicou contos. Foi com alguns deles que criou a editora independente Livros do Mal; nela, estreou com a reunião de contos "Dentes Guardados" (2001). Galera na Flip de 2013 Galera lembra com nostalgia dos primórdios da internet. Sua turma logo descobriu, com furor, como compartilhar textos e fotos via rede. "Era uma fase de experimentações, tinha mais personalidade. A internet hoje tem mais ferramentas, mas é mais pobre, perdeu o componente de expressão pessoal para além das fórmulas dadas." Ele usa Twitter e Tumblr com parcimônia e encerrou sua conta no Facebook. "Excesso de comunicação para uma pessoa como eu é difícil de lidar." O escritor anda com vontade de fazer experimentos na rede, como escrever um livro usando diferentes suportes e liberar pequenos trechos da história durante o processo. "Tenho vontade de ficar um ou dois anos em hiato, colocando essas ideias em prática. Talvez um site, um conto de ficção científica ou de terror. Estou sossegadamente aguardando novas ideias." Chegam os pratos: língua com quiabo, acompanhado de feijão de corda e macaxeira para Galera e a fotógrafa Ana Paula Paiva, e o carrochefe da casa, carne de sol, para Clara Dias, assessora de imprensa da Companhia das Letras, e a repórter. "Ele é que faz a carne", diz Galera, apresentando João Batista Rodrigues, pai do dono do restaurante, que veio do Rio Grande do Norte para ajudar o filho. O fanzine digital Orangotango, que aparece em seu novo romance, foi criado a partir de sua experiência com o Cardoso Online. "Mas o que tento é investigar como os valores e as expectativas gestados naquela época evoluíram até hoje, tendo minha experiência própria como ponto de partida. Nenhum dos personagens do livro é baseado completamente em uma pessoa real", diz. É comum as pessoas imaginarem como teriam sido suas vidas caso tivessem feito escolhas diferentes. É o famoso "e se". É justamente da vida que poderia ter sido e não foi que nascem os protagonistas de suas histórias. "Quase todos eles podem ser entendidos assim. São versões de mim mesmo com uma diferença importante: eles tomaram rumos e fizeram escolhas que não fiz." A bióloga Aurora foi a primeira personagem a se delinear em "MeiaNoite e Vinte". Galera sempre se interessou por biologia, lê sobre o tema e costuma imaginar como teria sido sua vida caso tivesse enveredado por aí. O autor compartilha as mesmas questões da personagem: ansiedade com as mudanças climáticas, a superpopulação, o esgotamento do solo e os rumos da ciência. A personagem resvala para um niilismo, duvidando da eficácia da ciência como forma de melhorar o futuro. "Às vezes eu detecto em mim essa tendência niilista, mas me seguro. Vou até aí, a Aurora não, ela continua. É nesse ponto que começa a ser interessante para mim mesmo o que escrevo. Aí é que entra o legal da ficção", diz, mais interessado no assunto do que na comida. Assim como Emiliano, o jornalista gay do livro, Galera já escreveu para jornais e revistas. "Ele é uma versão possível de mim, mesmo na questão sexual. Fico pensando, se eu fosse ter essa tendência, como seria?" O expansivo publicitário Antero, diz, é o único personagem que não é uma versão. Bemsucedido financeiramente e enquadrado nas regras do mercado, o personagem solapa sua veia contestatória da mocidade. Antero acabou como pararaios das críticas de Galera à publicidade, que remontam à época da universidade. Por isso, foi difícil desenvolver empatia por esse personagem, ingrediente vital ao ofício, diz. "É preciso ousadia e imaginação para criar detalhes da história, colocarse no lugar do outro, seja mulher, homossexual ou alguém de classe econômica diferente", diz. "Como escritor, adentro nesse exercício de empatia, mas sabendo que tem um limite, sem a arrogância de achar que estou ocupando o lugar do outro de fato. É mais uma postura que uma técnica." Personagem não ganha vida própria. "É uma construção que habita minha mente. Nunca entendi quem diz que o personagem dá ordens para o autor." Galera trata com ironia essa questão em seu romance "Cordilheira" (2008). Anita, a protagonista, uma jovem e promissora escritora, resolve passar um tempo em Buenos Aires. Engata namoro com um portenho que faz parte de uma comunidade de escritores fanáticos, que não diferenciam realidade de ficção e se comportam da mesma maneira que seus personagens. "Cordilheira" foi o primeiro título da coleção Amores Expressos, em que autores brasileiros escrevem histórias de amor ambientadas em diversas cidades do mundo. O destino estipulado pelos organizadores foi Buenos Aires. Mas a experiência não foi prazerosa. "Talvez a culpa nem seja da cidade, mas do meu estado de espírito. Foi um período ruim da minha vida, estavam rolando problemas pessoais." Já a temporada de um ano em Garopaba, Santa Catarina, cenário de "Barba Ensopada de Sangue", foi diferente. Galera acalentava há anos o sonho de passar um período sabático em uma cidade onde não conhecesse ninguém, que tivesse custo de vida baixo e onde pudesse nadar. Sem filhos, mulher ou emprego fixo, era o momento ideal. Vendeu pertences e, ao chegar, encontrou a cidade litorânea, fora de temporada, vazia e muito gelada. A proprietária do apartamento que ele alugou alertou: "Vem muita gente pra cá que nem tu. Mas chega o frio e eles deprimem. Um ou outro até se mata, sabia?". O prognóstico, no entanto, não se concretizou. "Foi um período muito rico. O livro sequer teria sido cogitado não fosse o tempo que passei por lá." Com problema neurológico raro, o protagonista de "Barba Ensopada" não memoriza rostos, inclusive o próprio. Após o suicídio do pai, ele sai de Porto Alegre em busca de pistas do avô, que desapareceu no balneário catarinense. Para a temporada na praia, onde espera também esquecer a namorada que o trocou pelo irmão, se muda com videogame, fotos e a cadela que herdou do pai. Com o romance já concluído, Galera ganhou do pai um cão da mesma raça que aparece no livro. O animal ganhou o nome de uma fruta típica do Sul, butiá, e vive com o escritor. Os cães aparecem em seus romances, mas agora que tem um cão, o animal não meteu o focinho. "É que Butiá não gosta de exposição. Achei melhor preserválo e não o coloquei em 'MeiaNoite e Vinte'." "Deus do céu!", diz, quando chegam os doces: cocada, caju ameixa, caju passa e burra um pão de melado de cana com cravo, gengibre e canela, embebido em café com nata fresca. Galera mora há três anos com Taís Cardoso, pesquisadora no Instituto de Artes da UFRGS. O casal vive em um apartamento de dois quartos no bairro de Santana, em Porto Alegre. A primeira atividade do dia do escritor é levar o cão para passear. Depois, senta para escrever. O texto costuma sair de primeira, "mais ou menos pronto", já que desenha a história com antecedência antes de digitála. Trabalha até o meiodia ou 1h da tarde, no máximo. À tarde lê, vai à academia e cuida dos afazeres domésticos faz supermercado, prepara a comida. Nos fins de semana sucumbe com gosto aos videogames. O vício não foi abolido, apenas está sob controle. Foise a época em que, jogando madrugada adentro, nada era capaz de arrancálo do jogo. Certa vez, depois de algumas horas, Galera fez uma pausa para pegar um refrigerante na cozinha e topou com a modelo Fernanda Lima. Cumprimentou a conterrânea, que era amiga de sua então namorada, "para praticar o chamado convívio social", mas em segundos deixou a beldade plantada e voltou correndo para o videogame. "'Beyond Good and Evil' não podia esperar

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

No mês de dezembro 2012, Barba Ensopada de Sangue constava como “mais vendidos” na lista da Veja, Folha de São Paulo, Valor Econômico e O Globo, por isso o comprei.

Terminei a leitura durante minhas pequenas férias nas praias de Salvador, no inicio de janeiro de 2013 e o considerei mais um dos meus livros preferidos.


 

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