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A Queda - Memórias de Um Pai

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A Queda - Memórias de Um Pai

Livro Ruim - 1 opinião

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Autor: Diogo Mainard

Editora: Record

Assunto: Memórias

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 150

Ano de edição: 2012

Peso: 220 g

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Ruim
Marcio Mafra
06/09/2012 às 21:07
Brasília - DF


O tema e o conteúdo de  "A Queda" é claro que emociona a qualquer leitor. Então a leitura deste livro é emocionante? Nem tanto. A leitura é chata. Chata porque arrogante, assim como arrogantes são artigos escritos por Diogo Mainardi e publicados semana após semana na revista Veja. Mas há que se dizer que o livro é bem escrito e bem arquitetado, embora lembre aquela antiga forma de "meu querido diário". Mais chato de tudo é que nos 424 capítulos do livro o autor busca demonstrar um certo "verniz cultural" tanto sobre a arte da pintura, como da arquitetura. Falso como nota de tres reais. Falso porque o autor comete erros históricos.  Inegável que Mainard sabe escrever bem, como soi acontecer com todos os bons jornalistas. Mas seu estilo deixa muito a desejar. Além de arrogante, tem aparência de texto mal humorado onde aflora a antipatia do autor, o que se alinha bem com a sua intolerância e arrogância. Mesmo em se tratanto da narrativa da vida de seu filho Tito. Todo pai e toda mãe de um filho com dificuldades, ou deficiências físicas ou mentais, se apaixona pelo filho e demonstra um amor grande e indelével por ele. Isso qualquer leitor, qualquer não leitor vê, ouve e sabe de cor e salteado. Há casos de livros que narram coisas semelhantes, como O Filho Eterno de Cristovão Tezza, onde sobressai o talento do escritor. O livro "A Queda" de Diogo Mainard é ruim, também, porque jornalista é jornalista e escritor é escritor. Como no refrão do funk, de 2007:  "Ado, ado, cada um no seu quadrado".  Livro ruim, sem dó nem piedade.



 



Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Memórias do parto e os primeiros anos da vida de Tito, filho do autor, que ao nascer sofreu paralisia cerebral, por barbeiragem da Dottoressa F., no Hospital de Veneza, na Itália, em setembro do ano 2.000

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Francesca Martinez, em um depoimento ao Daily Telegraph, declarou que "o grande segredo da invalidez é que todos aqueles que convivem com ela sabem que uma pessoa inválida é apenas uma pessoa que amam".
Em meu primeiro depoimento sobre Tito, esse era o único "grande segredo" que eu tinha a revelar.
Espantosamente, a paralisia cerebral de Tito, para mim e para Anna, em momento algum representara um motivo de dor. Espantosamente, a paralisia cerebral de Tito, para mim e para Anna, em momento algum representara um peso.
Em meados de 2001, levamos Tito a um neurologista em Nova York.
Em Nova York, tornei-me o primeiro meio de transporte de Tito.
Ele apontava o dedo para a esquerda, eu ia para a esquerda. Ele apontava o dedo para a direita, eu ia para a direita. Ele apontava o dedo para a avó, eu o entregava à avó.
Assim como Josef Mengele, Tito escolhia meu destino encaminhando-me para um lado ou para o outro.
O neurologista de Nova York foi muito animador.
Depois de realizar alguns exames, ele prognosticou que, dali a dois anos, Tito falaria normalmente. Ele prognosticou também que, dali a quatro anos, Tito caminharia autonomamente.
Ambos os prognósticos estavam errados.
Tito nunca falou normalmente. Ele nunca caminhou autonomamente.
Cristy Brown tinha uma paralisia cerebral.
Em seus primeiros meses de vida, seus pais o levaram a diversos neurologistas em Dublin.
Todos prognosticaram que Christy Brown permaneceria para sempre em um estado de "torpor", porque ele era um "idiota", um "imbecil", um "caso desesperado" e um "caso perdido".
Em “Meu pé esquerdo”, sua autobiografia, Christy Brown narrou como foi capaz de superar os piores prognósticos a seu respeito, encontrando um meio para datilografar e pintar com os dedos do pé.
Assim como os pais de Christy Brown, Anna e eu aprendemos a ignorar todos os prognósticos abestalhados dos médicos, para o bem ou para o mal. Assim como os pais de Christy Brown, Anna e eu aprendemos a comemorar cada passo adiante de Tito, por mais cambaleante que fosse.
A partir de um determinado momento, aprendemos a comemorar até mesmo seus tombos. Nos primeiros anos, Tito sempre se arrebentava ao cair. Com o tempo, ele foi desenvolvendo novas técnicas para amortecer as quedas.
A banda irlandesa The Pogues gravou uma música sobre Christy Brown.
Nos primeiros acordes, a guitarra elétrica é acompanhada pelo som de uma máquina de escrever, que faz tap-tap-tap:
Christy Brown
a clown around town
Now he's a man of renown
from Dingle to Down

I type with me toes
Suck stout through me nose
And where it's gonna end
God only knows
Down all the days
The tap-tap-tapping
Of the typewriter pays
Agora Tito está em seu quarto. Eu estou na biblioteca.
Ele faz tap-tap-tap no teclado de seu computador. Eu respondo fazendo tap-tap-tap no teclado de meu computador.
Envio-lhe um PDF com a imagem de Christy Brown. Em seguida, explico-lhe pelo VoIP que Christy Brown tinha uma paralisia cerebral muito mais debilitante do que a sua, e que mesmo assim foi capaz de se transformar em um importante escritor.
Envio-lhe também um arquivo com a música de The Pogues e traduzo sua letra, que conta como Christy Brown, o bobo da aldeia, conseguiu tornar-se um escritor respeitado de norte a sul, datilografando - tap-tap-tapping- com os dedos do pé.
Tito perde rapidamente o interesse por mim e desliga o VoIP.
Christy Brown tinha a necessidade de superar a paralisia cerebral. Tito está perfeitamente feliz do jeito que é. Ele dispensa os bons exemplos.
Christy Brown pegou um giz com os dedos do pé esquerdo e desenhou a letra A. Ele tinha cinco anos de idade. Seus pais perceberam que havia, dentro de seu "corpo paralisado, uma mente normal", e passaram a estimulá-lo falando com ele o tempo todo.
O neurologista de Nova York recomendou que empregássemos o mesmo método que os pais de Christy Brown haviam empregado, porque as habilidades intelectuais de Tito eram o maior recurso de que ele poderia dispor.
Daquele dia em diante, Anna e eu passamos a atazanar Tito com palavras e mais palavras. Quando ele enjoa, desliga o VoIP.
Christy Brown morreu aos quarenta e nove anos, ao engasgar com uma costeleta de porco.
Retomando a Tommaso Rangone: costeleta de porco foi o alimento mais danoso à saúde de Christy Brown.
Apesar de errar todos os seus prognósticos - assim como o "abestalhado" Tommaso Rangone errou com Júlio III -, o neurologista de Nova York transformou completamente nossas vidas.
Além de recomendar que estimulássemos Tito o tempo inteiro, ele recomendou também que, durante o inverno veneziano, viajássemos para um lugar quente.
Um menino com paralisia cerebral, segundo ele, tinha de permanecer sempre solto, desimpedido, despido. Um menino com paralisia cerebral, segundo ele, tinha de poder manipular a areia, a terra, a água.
Cito-me:
Cada um tem seu talento. O meu é ir embora do Brasil. Ninguém sabe ir embora do Brasil melhor do que eu. Se ir embora do Brasil fosse pintura, eu seria Rembrandt. Se ir embora do Brasil fosse literatura, eu seria Shakespeare. De uma hora para a outra, posso largar tudo e partir. De maneira calma e ordenada. Minha turma é a dos retirantes. Daqueles que matam cadelas a pauladas. Tenho mais de trinta anos de prática acumulada. Fui embora do Brasil em um monte de oportunidades, por longos períodos. E sempre me dei bem. Porque eu sei exatamente o que esperar dos outros lugares. Quem vai embora pensando em encontrar lá fora algo melhor do que o Brasil só se estrepa. Eu nunca cometi esse erro. Fui embora do Brasil com o único propósito de ficar longe do Brasil.
Quando o neurologista de Nova York recomendou que evitássemos permanecer em Veneza durante os meses de inverno, pensei imediatamente em comprar passagens aéreas para o Rio de Janeiro.
Por mais que eu repudiasse o Brasil, e eu repudiava o Brasil, jamais neguei que fosse um lugar quente.
No Natal de 2001, desembarcamos no Rio de Janeiro.
Estava quente.
O plano era permanecer dois meses. Acabamos permanecendo nove anos.
Agora revejo os retratos daquele tempo.
Tito está solto. Tito está desimpedido. Tito está despido. Tito está manipulando a areia. Tito está manipulando a terra. Tito está manipulando a água.
No Rio de Janeiro, encontramos tudo o que foi recomendado pelo neurologista de Nova York.
 


  • O livro de Mainard

    Autor: Mario Sabino

    Veículo: Revista Veja

    Fonte: Revista Veja

    VEJA desta semana ( 4 de setembro 2012) destaca a publicação de Mainardi, uma comovente narrativa sobre seu filho que nasceu com paralisia cerebral e uma portentosa representação intelectual das emoções

    Mario Sabino

      TITO, DIOGO, NICO E CAMPO SANTI GIOVANNI E PAOLO, DE CANALETTO - O ex-colunista de VEJA escreveu uma obra em que a grande arte emoldura a sua história individual (Ruyn Teixeira / Divulgação)

    Um dos desenhos mais célebres do mundo faz parte do acervo da Accademia de Veneza. Trata-se do Homem Vitruviano, de Leonardo da Vinci, em que a única figura humana é retratada em duas posições, como se houvesse fotogramas sobrepostos -- dentro de um círculo (com os braços esticados na altura da cabeça e as pernas afastadas) e dentro de um quadrado (com os braços abertos na altura dos ombros e as pernas juntas), círculo e quadrado porque tidos como as formas geométricas perfeitas. O “Homem Vitruviano” parece fazer um polichinelo, aquele exercício físico banido da ginástica escolar depois de arrebentar os joelhos das gerações com mais de 40 anos. Da Vinci concebeu o desenho em torno de 1490, a partir das considerações do arquiteto romano Vitrúvio. Um milênio e meio antes, em seu tratado De Architectura, Vitrúvio estabelecera quais seriam as proporções exatas do corpo humano, por meio de uma série de correspondências matemáticas entre as suas diversas partes. O desenho de Da Vinci é acompanhado, na parte superior e inferior, de explicações sobre tais correspondências, a demonstrar com mais ênfase a intenção do artista de apresentar o modelo de harmonia que deveria servir de base a pintores, escultores e arquitetos. O Homem Vitruviano é raramente exposto. A última vez foi em 2009. Já sua antítese está em exposição permanente pelas vias e pontes de Veneza: Tito Mainardi, hoje com quase 12 anos, primogênito de Diogo Mainardi. Portador de paralisia cerebral, é como uma espécie de “Menino Antivitruviano” que ele protagoniza A Queda  - As Memórias de um Pai em 424 Passos (Record; 152 páginas; 29,90 reais), de autoria do ex-colunista de VEJA. O livro, que chega às livrarias com uma tiragem inicial de 20.000 exemplares, é comovente pelo tema, extraordinário na forma e esplêndido como reflexão sobre a arrogância humana.

    Tito é personagem conhecido dos leitores que acompanhavam semanalmente a coluna de Diogo, a mais lida da revista de 1999 a 2010, quando o escritor e jornalista resolveu encerrar espontaneamente a sua colaboração. Ele começou a pensar em escrever o livro sobre a paralisia cerebral de seu primogênito em 2008, ainda no Rio de Janeiro, para onde se mudara quatro anos antes, a conselho de médicos americanos. O veneziano Tito deveria viver num ambiente quente, onde pudesse exercitar mais as pernas. As areias de Ipanema foram seu primeiro -- e ideal para quedas -- campo de provas, complementadas pelas garagens térreas dos prédios da orla, nas quais o menino se esbaldava com seu andador, observado do carrinho por Nico, seu irmão carioca, hoje com 7 anos. Depois que Tito, em férias na cidade natal, alcançou 359 passos sozinho, Diogo decidiu concretizar seu projeto. Diz ele: “Só consegui, contudo, dedicar-me seriamente ao livro a partir de setembro de 2010, na volta definitiva a Veneza. Tive de renunciar à coluna em VEJA, por causa da minha cabeça limitada: sou incapaz de pensar num José Dirceu e, ao mesmo tempo, num Tintoretto. O José Dirceu emporcalha o Tintoretto”. Uma das glórias de Veneza, o pintor é um dos artistas abordados por Diogo em A Queda.

    A paralisia cerebral de Tito foi causada por uma obstetra que apressou o parto de maneira desastrada. O dia em que ele veio à luz -- 30 de setembro de 2000 -- caiu num sábado, e a médica encarregada do procedimento queria terminar seu turno de trabalho mais rápido. Para tanto, decidiu estourar a bolsa com líquido amniótico que protege o bebê. Só que, ao fazê-lo contrariando todos os manuais de obstetrícia, Tito teve o cordão umbilical esmagado e ficou sem oxigênio. A saída, nesse caso, era realizar uma cesárea de urgência. A obstetra outra vez errou ao demorar demais para abrir o ventre de Anna, mulher de Diogo, e Tito permaneceu asfixiado por 45 minutos. O resultado foi uma lesão no cérebro que o impede de falar, andar e pegar objetos com as mãos como se faz normalmente. A lesão é tão pequena que é invisível aos exames de imagem mais modernos. Assim, não comprometeu a capacidade intelectual de Tito, um menino vivaz, bem-humorado e, agora, um pré-adolescente típico -- com disposição infinita para irritar os pais e uma precoce admiração por mulheres altas e esguias.

    Outros autores já trataram das deficiências de seus filhos, em livros corajosos como requer a honesta literatura do tipo confessional. Mas Diogo o faz sem resvalar na autocomplacência e também evita circunvoluções biográficas que se afastam longamente do tema central. A Queda é também original na forma. Apresenta o exato número de capítulos de seu subtítulo: 424. Todos eles curtíssimos, alguns com menos de quatro linhas. O número de capítulos espelha o máximo de passos que Tito conseguiu dar sem cair, e sem andador, no momento em que Diogo finalmente deixou de contá-los -- façanha realizada no dia em que o menino foi visitar pela primeira vez o hospital de Veneza onde nascera, instalado no palácio bizantino-renascentista da Scuola Grande di San Marco. Outro aspecto inédito: muitos dos capítulos são entremeados com ilustrações de pinturas venezianas, imagens de família, cenas de filmes e até a de um videogame. Elas remetem ao relato imediatamente anterior e ajudam a montar o quebra-cabeça construído por Diogo para dar um sentido a tudo o que ocorreu após o nascimento de Tito. Em algumas pinturas, ele próprio assume o papel de personagem, assim como o faz com relação a Anna e Tito, por meio de setas que apontam detalhes que os retratariam.

    Em torno da paralisia cerebral de seu filho, orbitam duas narrativas que se imbricam uma na outra: a do drama familiar e a da história das ideias e de seu corolário, a arte que se quer expressão da Verdade -- com “v” maiúsculo --, seja filosófica, religiosa ou ideológica. Está-se falando da arte de Bizâncio, do Renascimento e do Barroco, de que Veneza é uma das joias mais ofuscantes, por obra de mestres da arquitetura, da pintura e da escultura que a moldaram alinhados com sua geografia peculiar. No século XVIII, escreveu o comediógrafo Carlo Goldoni, um dos venezianos mais ilustres: “Veneza é uma cidade tão extraordinária que não é possível ter dela uma ideia exata sem a ver; os mapas, as plantas, as maquetes, as descrições não bastam; é preciso vê-la. Todas as cidades do mundo mais ou menos se assemelham; essa não tem semelhança com nenhuma. Toda vez que eu a revi depois de longas ausências, surgiu em mim um novo espanto. À medida que eu crescia, que aumentavam meus conhecimentos, e tinha comparações a fazer, descobria nela novas singularidades, novas belezas”.

    Diogo só poderia escrever esse livro em Veneza, ainda que José Dirceu não emporcalhasse Tintoretto. Foi nessa cidade sem paralelo, que coroa a vaidade do pensamento e da arte, que Diogo se refugiou para escrever seus quatro romances. Foi nessa cidade diferente de todas as outras que ele conheceu a sua queda particular -- e, nela, reconheceu as nossas aspirações evanescentes que insistem em sobreviver em quaisquer latitudes. No livro, Veneza continua a ser extraordinária, como na época de Goldoni, mas não como um tributo ao engenho humano, e sim à sua prepotência, da qual Diogo se despiu existencialmente. Diz ele a VEJA: “O nascimento de Tito me fez deixar os romances de lado, porque mudou o narrador. Em meus romances, eu era o narrador onisciente, que comandava o destino de um bando de personagens idiotas. Depois de Tito, eu me tornei o personagem idiota, e meu destino passou a ser narrado por um menininho de pernas tortas que nem sabia falar. Morreu a minha soberba autoral e, sem ela, era impensável continuar a escrever romances. Dito de outra maneira: eu sempre imaginei que saberia manter um razoável controle sobre os fatos de minha vida. Tito me mostrou, porém, que eu nunca controlei porcaria nenhuma, e que a única possibilidade de livre-arbítrio ao meu alcance estava na leitura dos fatos, e não nos fatos em si”.

    Nesse exercício de livre-arbítrio, Diogo inicia o livro estabelecendo uma conexão entre a paralisia cerebral de seu primogênito e o que chama de “estetismo abestalhado”. Mesmerizado pela fachada magnífica do hospital de Veneza, arquitetada por Pietro Lombardo em 1489 para a então Scuola Grande di San Marco, ele deixou de lado os desastres médicos que fizeram a fama daquela instituição e disse a Anna, receosa do parto, diante do hospital: “Com esta fachada, aceito até um filho deforme”. A frase não deve ser interpretada literalmente, mas como achincalhe intelectual, de acordo com Diogo. O arquiteto Pietro Lombardo, louvado pelos seus pares e pelos maiores críticos de arte, encarna de tal forma o ideal de beleza artística que o poeta Ezra Pound o colocou em sua obra magna, Os Cantos, como tradução do Bem em contraposição ao Mal, simbolizado pela usura. “Pietro Lombardo não se fez com a usura”, escreveu Pound. Dessa forma, escreve Diogo, “eu só conseguia associar a arte perfeita de Pietro Lombardo a um parto igualmente perfeito. Porque o Bem, representado pela arquitetura de Pietro Lombardo, jamais poderia gerar o Mal, representado por um erro de parto”.

    Mais adiante, Diogo conta que nasceu em 22 de setembro de 1962, data em que o arquiteto modernista franco-suíço Le Corbusier foi convidado a projetar uma nova sede para o hospital de Veneza. Teria sido erguido um prédio medonho, com blocos de cimento armado, não houvesse Le Corbusier morrido seis meses depois de apresentar o projeto, afogado no Mediterrâneo. Ou seja, o Mal, personificado pela arquitetura do franco-suíço, teria gerado o Bem, visto que Diogo não escolheria o novo hospital de Veneza para ter seu filho e, certamente, Tito nasceria em perfeitas condições na vizinha Pádua, dotada de um dos melhores hospitais da Europa. O Mal do qual nasce o Bem é o exato oposto do que proclamam Ezra Pound e todos os teóricos, filósofos e artistas que construíram Veneza, o Orgulho da Ciência, o Orgulho do Estado, o Orgulho do Sistema. Enfim, o Orgulho da Razão.

    Divulgação

    O MAL E O BEM - Le Corbusier (à esq., em frente à Scuola Grande di San Marco) e Ezra Pound, na Fondamenta delle Zattere: personagens da operação literária de Mainardi   
    Por meio desse tipo de operação literária, em que coincidências pessoais e históricas se encaixam umas nas outras de maneira tão admirável quanto arbitrária, por sempre se tratar de uma interpretação dos fatos, lembre-se, Diogo monta seu quebra-cabeça cujas peças unem a Veneza de Pietro Lombardo à de Canaletto, os filmes de Abbott e Costello aos programas de extermínio de Hitler, a Divina Comédia, de Dante Alighieri, a Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust. Completado o quebra-cabeça, ele nos mostra a figura de um círculo que abriga não um ser humano de proporções perfeitas, mas o pequeno Tito, o inverso do Homem Vitruviano. Com sua paralisia cerebral que o obriga a pensar em cada gesto a ser feito, a antecipar cada palavra que consegue pronunciar, ele, sim, é o orgulho da razão. Mas da razão possível dentro de uma realidade cósmica que simplesmente nos ignora. Da nossa razão imperfeita que não raro tem diante de si um menino verde. Dê-se a palavra a Diogo:

    “Tito nasceu verde.
    “Vi-o pela primeira vez em um dos claustros do hospital de Veneza. Eu acabara de conversar com o pediatra que acompanhara seu nascimento. Ele dissera que Tito permanecera sem ar por tempo demais. Ele dissera também que Tito morreria.
    “Voltando à maternidade, depois de conversar com o pediatra, cruzei com um menino recém-nascido em uma incubadora. O menino recém-nascido na incubadora estava no corredor de um claustro, estacionado em um canto. Ninguém o atendia. Onde está o médico? Onde está o enfermeiro? Onde está o pai?
    “Olhei-o de relance. Olhei-o novamente. Ele estava imóvel, com o corpo mole e um tubo no nariz. Seu rosto era verde. Li seu nome escrito em um esparadrapo colado na tampa da incubadora: ‘Mingardi’.
    “Mingardi era igual a mim. Eu era igual a Mingardi. O menino recém-nascido na incubadora era meu filho. Mingardi era Mainardi. Até nisso o hospital de Veneza errou: em seu nome.
    “Olhei Tito pela última vez. Seu rosto era igual ao meu -- só que o dele era verde.”

    No dia 30 de setembro de 2000, Diogo Mainardi caiu com Tito. E começou a aprender que saber cair tem muito mais valor do que saber caminhar, como ele próprio diz a certa altura.

    A Queda é um livro magnífico em sua humanidade.

  • A "queda" de Mainard

    Autor: Nahima Maciel

    Veículo: Jornal Correio Braziliense

    Fonte: Correio Braziliense, domingo, 2 de setembro de 2012

    A "queda" de Mainardi

    Escritor conta o drama vivido depois que o filho Tito nasceu com paralizia cerebral em Veneza.

    Nahima Maciel

    Correio Braziliense, domingo, 2 de setembro 2012

    A soberba autoral de Diogo Mainardi morreu quando Tito nasceu. Foi em 2000, no hospital veneziano instalado no prédio da Scuola Grande di San Marco, um marco da arquitetura renascentista. Anna, a mulher de Mainardi, estava com medo do parto. Afinal, a instituição era reputada pelos erros médicos. Sem poder imaginar o que lhe reservavam as horas a seguir, Mainardi brincou e disse à esposa que, com uma arquitetura daquelas, aceitava até um filho deformado. O parto de Anna foi um desastre: a obstetra de plantão queria encerrar o turno e apressou o nascimento da maneira mais estapafúrdia possível. Estourou a bolsa, demorou para fazer a cesárea e deixou o bebê sem ar durante 45 minutos. Resultado: Tito ganhou uma paralisia cerebral que não tinha até as mãos da dotoressa F pousarem sobre seu destino. Mas não é com complacência que Mainardi trata do fato em A queda.
    Recém-publicado, o livro é uma celebração das coisas que Tito ensinou ao pai. Entre elas, a constatação da impossibilidade de escrever romances daqui pra frente. Mainardi pensava ser o grande árbitro de sua própria vida, pensava controlar tudo até começar a ser controlado por um garotinho incapaz de andar ou falar. A ideia do livro germinou em 2008, mas apenas em 2010 o escritor conseguiu vislumbrar o primeiro broto. Na época, havia encerrado a coluna na qual atazanava a vida de Lula e do PT em uma revista e decidira pelo retorno definitivo à Veneza natal de Tito, abandonada nove anos antes a conselho de médicos norte americanos. Tito viveria melhor em um lugar quente, no qual pudesse se movimentar com liberdade, usar as pernas e explorar o mundo ao seu redor. E foi viver nas areias das praias do Rio de Janeiro. A queda é o jeito de Mainardi explorarTito.
    Dividido em mini capítulos curtíssimos  alguns com apenas duas linhas -, o relato tem o ritmo cortado e interrompido da vida do autor após a chegada de Tito. Pontuado por fotografias de família, reproduções de obras de arte e imagens de filmes, A queda ensina que vale mais aprender a cair do que a andar. Quatrocentos e vinte e quatro é o número de capítulos do livro e também a quantidade de passos dados por Tito sem cair quando Mainardi decidiu parar de contá-los.
    Ferino, ele premia o leitor com sentenças eventualmente mórbidas. "Assim como Joseph Mengele, Tito escolhia meu destino encaminhando-me para um lado ou para outro", escreve. Também pode ser muito amoroso. "Eu nunca cultuei Deus. Eu nunca cultuei o homem. Passei a cultuar rito. Passei a cultuar a vida doméstica. Meu evangelho é uma conta de luz. Meu templo é uma quitanda", avisa. E mesmo nos momentos mais dramáticos, Maiinardi não poupa metáforas bizarras. Ao constatar, na UTI que o filho estava vivo, ele escreve:
    "Tito ressuscitou como o monstro de Frankenstein."
    Em entrevista à Veja, Mainardi contou que não poderia escrever um romance antes de publicar A queda por um motivo bastante simples: o fato ser ele o narrador onisciente no
    comando dos personagens lhe pareceu uma situação bastante idiotizada depois de conhecer Tito. Como não pôde controlar a própria vida real, fez dela o seu personagem.
    Na reconstrução da vida de pai e filho entram muitas citações, referências do bem e do mal presentes na trajetória da dupla. O pintor veneziano Tintoretto e o arquiteto Pietro Lombardo, autor da fachada do hospital que fez Mainardi ditar o futuro, são inevitáveis em A queda. Mas há também Neil Young, pai de dois filhos com paralisia cerebral, Le Corbusier, que morreu antes de projetar o novo hospital de Veneza, e Adolf Hitler, cujo programa de exterminação de deficientes mentais é constantemente citado. Rembrandt van Rijn é uma das últimas citações.
    O pintor holandês perdeu três bebês antes de conseguir fazer vingar a vida do quarto. Se chamava Tito. Serviu de modelo para inúmeros quadros. Rembrandt, como Mainardi, cultuava Tito.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Revista Veja, Correio Braziliense e diversos outros jornais falaram e falaram no final de agosto e inicio de setembro de 2012 sobre o novo e comovente livro de Mainard, por isso comprei: A Queda.


 

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